¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, agosto 03, 2009
 
MI HUÉSPED MILONGUERA


A milongueira – e sua irmã – foram as responsáveis por meu inútil curso de Direito. Eu havia feito dois vestibulares, de Filosofia em Porto Alegre e de Direito em Santa Maria. Achava que na Filosofia encontraria a tal de Verdade. Mas, como diziam os antigos, primum vivere, deinde philosophare. Primeiro viver, depois filosofar. Ocorreu que na Filosofia só encontrei palpites e no Direito parlapatagem. Além do mais, não conseguiria exercer uma profissão que me exigia terno e gravata. Tendo passado nos dois vestibulares, pensei em optar pela solene busca da Verdade.

Mas... elas viviam em Santa Maria. Fazer Direito era pretexto para visitá-las quatro vezes ao ano. Então, façamos Direito, pensei. Eram musicistas, uma tocava flauta doce e a outra celo. Numa época em que eu curtia Discépolo, Carlos Gardel e Miguel Aceves Mejía, elas cultuavam Brahms, Beethoven, Mozart, Scriabin. Foram minha introdução na música erudita. Nossas noites eram regadas a muito vinho e muita música, até às quatro ou cinco da matina. Era quando eu voltava para casa, inebriado ainda pelos leader de Beethoven, pela Quarta de Brahms e principalmente pelo Patético de Scriabin. Mergulhava então nos Clóvis Beviláquas e Washingtons de Barros Monteiros da vida. Às oito, prestava exames. A vida noturna era minha festa. A diurna, minha tortura. Pasmem, leitores: consegui me formar em Direito. Sem maiores entusiasmos. Quando fiz meu último exame, ao voltar para Porto Alegre, joguei solenemente no Guaíba meus tratados jurídicos.

A vida nos separou, mas sempre achamos um jeito de nos encontrar em várias partes do mundo. Desde Florianópolis e Porto Alegre, a Genebra, Estocolmo, Freiburg, Berlim e Paris. Com a milongueira, tive pelo menos três encontros memoráveis. Na Europa, o primeiro foi em Genebra. Telefonei da Alemanha para dizer quando chegava e ela respondeu: “Ok! Te espero às 12h53 no quiosque da Estação Central”. Latino, aquela precisão de brasileira que aderira à Weltanschaaung suíça me irritou. “E tu vai pra pqtp, vou chegar lá pela uma da tarde e estamos conversados”. Ocorreu o insólito. O trem chegava na gare às 12h51, e do cais até o quiosque eram dois minutos. Contra toda minha alma latina, encontrei-a às 12h53. Na Suíça, como os suíços. Não há como fugir a horários.

Nos encontramos mais tarde em Estocolmo, ela fora visitar-me com seu marido, pianista. Tentamos uma experiência ousada, degustar um surströmming, aquele arenque podre do Báltico que os suecos adoram. Compramos uma lata e nos aboletamos na cozinha, na expectativa de emoções fortes. Abri a latinha, ouvi um ruído de gases escapando, algo como um pffiii... e tivemos de fugir da cozinha. Só voltamos quando os gases haviam se volatilizado. Os peixinhos estavam azuis de tão podres. O pianista, num gesto de bravura, engoliu um. Eu, que não recuo diante de desafios, tentei o mesmo. Não deu. Tive de correr para vomitar no banheiro. Mas parece que meu enfoque foi errado. Contei minha aventura para uma namorada sueca. Ela corrigiu-me: “não é assim que se come surströmming. Tem de botar cebola”. Pode ser. A verdade é que até hoje não ousei voltar ao peixinho. Algum dia ainda tento de novo.

Tivemos muitos outros encontros, entre eles uma despedida na Hauptbanhof de Berlim, antes da queda do Muro. Ela e sua irmã defendiam o sistema da Alemanha Oriental. Eu, que voltava de Berlim Oriental, berrava indignado: “mas porque vocês não vão então morar lá?” Diferenças ideológicas à parte, sempre mantivemos um bom relacionamento. Mas o encontro mais insólito ocorreu em Florianópolis.

Eu começava a lecionar na UFSC. De início, sem residência na ilha, viajava até lá, dava minhas aulas e voltava a Porto Alegre. Certa noite, tendo saído às onze de Porto Alegre, devo ter chegado às cinco da matina em Floripa. Nessas viagens, para apagar, sempre tomo algum Dormonid. Acordei um pouco adormecido, desci do ônibus e não acreditei no que via. Em plena madrugada, ela estava ali, imóvel, sozinha na rodoviária, em meio a uma aura de névoa, me esperando. Fantasmagórica. É sonho, pensei. Ela vivia em Berlim, eu chegava a Florianópolis. Minha maleta caiu no chão. Aproximei-me, abracei-a. Era real. Nada da matéria inconsútil dos sonhos. Mas pura carne, osso e sorriso.

Acontecera que, após minha partida de Porto Alegre, ela telefonara à Baixinha. Que lhe comunicou minha viagem rumo à ilha. Ela decidiu então fazer-me uma surpresa. Sua casa, uma casa com as paredes externas de vidro, ficava no continente, junto ao mar. Ela contratou até mesmo duas gaivotas para pousarem em um rochedo enquanto tomávamos café naquele amanhecer silente. Não é todos os dias que um mortal recebe tal regalo.

Outro dia, uma recente amiga paulistana, me fez grave pergunta. Queria levar-me para museus, exposições, bailes, coisas assim. Coisas às quais nunca fui. “Mas qual é teu lazer em São Paulo?” – perguntou-me. Tive de refletir sobre o assunto. E concluí que meu lazer em São Paulo é – quase que exclusivamente – conviver com as pessoas das quais gosto, nos bares e restaurantes de São Paulo. Assim tenho vivido meus últimos vinte anos.

Nada melhor que uma amizade que atravessa as décadas. Tudo isto para dizer que acabo de receber a visita de minha amiga – berlinense honorária – que agora curte tangos. Aqueles tangos que eu curtia quando ela só admitia Beethoven, Brahms ou Scriabin. Só que eu sempre curti tango enquanto letra e música. Gosto da dança, mas não danço.

Tive então de cair no tango. Isto é, cair teoricamente. Assistimos uma milonga numa casa do Bixiga. É universo muito curioso. As mulheres, quando dançam, assumem uma expressão trágica, imagino a Maria Antonieta indo pra guilhotina. Imaginei que fosse lazer de gente de idade e saudosista. Nada disto. Há uma tribo jovem que curte tango. São Paulo tem muitas tribos.

Tango, a música, as letras, conheço bem. Mas nunca tinha estado numa casa de tangos para não-profissionais, gente que só vai dançar. É algo cheio de rituais. Começa pelos sapatos. As mulheres levam nas bolsas os sapatos para o tango e lá se trocam. Homens também usam sapatos especiais. E depois vêm as figuras: a sacada de mujer, o pernacho, a volcada, o gancho e sei lá mais o quê. É dança extremamente complexa e exige um longo aprendizado. Aquele ar trágico todo, estética à parte, me dá uma certa vontade de rir.

Para que o leitor tenha uma idéia de minha hóspede milongueira, la voilà dançando em Berlim: http://www.youtube.com/watch_popup?v=AzfNqxcmhr8