¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, agosto 05, 2009
 
NÓS E AS LÍNGUAS


Nem tanto ao mar nem tanto à terra, Kenyo. Me parece um tanto difícil, para nós latinos, estudar línguas distantes sem um curso. E quanto mais distante a língua, mais importante a imersão no universo em que é falada. Aprendi sueco estudando em um curso em Estocolmo, cinco horas de aula por dia e mais a leitura de jornais com um dicionário em punho. Além do mais, tive a sorte de não falar inglês, os suecos eram obrigados a falar comigo na língua deles.

Cheguei a falar e escrever bem o idioma e inclusive traduzi três romances do sueco: Kalocaína, de Karin Boye, Hugo e Josefina, de Maria Gripe, e A Saga do Grande Computador, de Olof Johanesson. Hoje, distante da Suécia, estou perdendo progressivamente o domínio da língua. Estive lá ano passado. Conseguia falar e ler jornais. Mas tinha uma dificuldade brutal em entender quando me respondiam.

Com o italiano, tive experiência semelhante à tua. Jamais o estudei e consigo hoje ler com tranqüilidade, por exemplo, o Corriere della Sera, que não é exatamente um jornal popular. Li inclusive alguns ensaios da Oriana Fallaci sem maiores problemas. Quando chego em Roma, preciso de uns dois ou três dias para engrenar e isso me basta para encetar uma conversa com os italianos. Meus professores foram as óperas italianas... e viagens pelos navios da Línea C.

Por outro lado, quando conhecemos três ou quatro línguas da mesma família, em verdade conhecemos mais três ou quatro outras. Leio como se fosse português tanto o galego como o ladino. No que não há maiores méritos, qualquer lusófono consegue entender galego ou ladino. Consigo também ler um jornal em catalão. Mas confesso que não entendo nada quando eles falam. Através do sueco, consigo ler com relativo proveito tablóides dinamarqueses ou noruegueses. Quando em Portugal, abandono o brasileiro e me delicio falando português. Holandês, não consigo entender. Mas me conformo. Segundo reputados lingüistas, o holandês não é língua. É uma doença da garganta.

O turismo está criando uma nova língua, à qual seguido recorro, mesmo sem querer, o europanto. "Que would happen if, wenn Du open your computero, finde eine message in esta lingua? No est Englando, no est Germano, no est Espano, no est Franzo, no est keine known lingua aber Du understande! Wat happen zo! Habe your computero eine virus catched? Habe Du sudden BSE gedeveloped? No, Du esse lezendo la neue europese lingua: de Europanto! Europanto ist uno melangio van de meer importantes Europese linguas mit also eine poquito van andere europese linguas, sommige Latinus, sommige old grec".

O europanto surgiu como uma brincadeira, mas qualquer pessoa que tenha viajado um pouco o entende. É um recurso que nos brota espontaneamente quando viajamos por vários países. Já me surpreendi falando europanto sem sequer saber que a língua existia, ainda que como piada. É muito mais fácil que o esperanto.

Concluindo, para quem quiser optar pelo autodidatismo em matéria de línguas, recomendo um livro que constitui uma fascinante aventura intelectual: O Homem e as Línguas – Guia para o Estudioso de Idiomas, de Frederick Bodmer. Excelente! Foi editado pela Globo, em 1960, e hoje só é encontrável em sebos. Foi publicado em várias línguas. Compensa buscá-lo.