¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, agosto 01, 2009
 
PASTORA DE IGREJA VIGARISTA
CRIA TEOLOGIA FUTEBOLÍSTICA



Voltaram hoje ao Brasil o apóstolo Estevam Hernandes e a bispa Sônia Hernandes, que cumpriam pena de dois anos e seis meses nos Estados Unidos por tentar entrar no país com US$ 56.467 escondidos em uma Bíblia, em CDs gospel e em duas bolsas, embora tivessem declarado à alfândega U$ 10 mil cada um. Leio no Estadão que os dois marqueteiros – que criaram uma Igreja de fundo de quintal e hoje estão milionários - foram recebidos no aeroporto de Cumbica com festa por um grupo de 40 bispos e fiéis da Renascer, que pulavam e gritavam "apóstolo, eu te amo" e "ôôô, Renascer até morrer". Fé é fogo. Sônia Hernandes, se o leitor não lembra, é aquela bispa tesudíssima que costumava afirmar: “Deus é uma coisa quentinha, gente!”

Comentei outro dia as declarações da mais nova pastora da Igreja Renascer, Caroline Celico, casada com o jogador Kaká, grande doador da igreja do apóstolo e da bispa vigaristas. Segundo a pastora Caroline, que vai instalar uma franquia da igreja em Madri, quem colocou dinheiro na mão do Real Madrid para contratar o Kaká só podia ser Deus. “Foi uma grande benção”. Seria de perguntar-se o que pensam os hinchas do Barça dos divinos investimentos do Senhor.

Caroline, não sei se ela sabe, está colocando um grave problema teológico. A pastorinha obviamente se refere a Jeová, o deus do Ocidente, cujo nome vem desaparecendo gradualmente nas traduções contemporâneas da Bíblia. Ora, em todo o Pentateuco, Jeová – ou Javé, como preferem outros – se pretende apenas o deus de uma tribo, a tribo de Israel. Moisés, o egípcio condutor dos hebreus pelo deserto rumo a Canaã, em momento algum o considera único.

Nem Jeová assim se considerava. Jeová acreditava na existência de outros deuses e contra eles lutava. Segundo a teóloga Karen Armstrong, originalmente Jeová fora membro da Assembléia Divina dos “santos”, que El, o poderoso deus de Canaã, havia presidido com sua consorte Aserá, e Jeová era o santo de Israel. “No século VIII, Jeová havia expulsado El da Assembléia Divina e reinava sobre uma multidão de “santos”, guerreiros do exército celeste. Nenhum dos outros deuses podia se igualar a Jeová na fidelidade a seu povo. Nisso ele não tinha pares, não tinha rivais. Mas a Bíblia mostra que até a destruição do templo por Nabucodonosor, em 586, os israelitas também adoraram grande número de outras divindades”.

É só em Isaías, mais precisamente no chamado II Isaías, que Jeová passa a se considerar único. “Sou Jeová, inigualável. Não há nenhum outro deus além de mim”. Se Jeová, em seus primeiros tempos, era o deus de uma tribo, pretendeu-se de repente o deus de todos os homens. Cristo gostou da idéia, o que causou estranheza no mundo romano. Para os romanos, o normal é que cada nação tivesse seus deuses. Havia os deuses gregos, romanos, egípcios, havia também o de Israel. Que deus era aquele que não pertencia a nenhuma nação e se dizia deus de todos os seres humanos?

Em sua ousadia teológica, a novel pastora da Renascer, faz o conceito de deus retornar, de certa forma, aos tempos do Pentateuco. Jeová não mais é o deus de todos os homens e nem mesmo de uma tribo. Mas de um time de futebol. Ocorre que os times de futebol são muitos, e mais ciumentos que o deus de Israel. A crer-se na pastora, se deus torce pelo Real Madrid, o Barça não tem mais chances de vitória na Espanha.

Quando Amaleque luta contra Israel em Refidim, Moisés sobe ao cume de um outeiro, tendo na mão a vara de Deus. Enquanto Josué pelejava contra Amaleque, Moisés levantava a mão e prevalecia Israel. Mas quando abaixava a mão, prevalecia Amaleque. Ora, isto de manter as mãos erguidas acaba cansando. Tomou-se então uma pedra, que foi posta debaixo de Moisés, e ele sentou-se nela. Arão e Hur sustentaram-lhe as mãos, um de um lado e o outro do outro. Assim ficaram as suas mãos firmes até o pôr do sol e Israel derrotou Amaleque. Em cada disputa do Real Madrid, com o Barça ou qualquer outro time, bem que podia a pastora manter-se de mãos erguidas. Caso cansasse, não faltariam hinchas para apoiar-lhe os braços e assegurar a vitória do time de Deus.

Mas resta uma pergunta. E se o Barça ganhar? Se o poderoso Jeová é o garante das vitórias do Real Madrid, é de supor-se que seja também responsável por suas derrotas. É o eterno problema do mal no mundo, que tanto preocupou pensadores, desde santo Agostinho a Albert Camus. Em seu ensaio, Entre Plotin et Saint Augustin, o escritor franco-argelino afirma que o grande erro do cristianismo teria sido seu ciúme em relação a outros deuses. Ao destruí-los, põe sobre os ombros de um só deus a responsabilidade de toda esta bagunça que grassa no universo. Se deus é responsável pelas vitórias, também o é pelas derrotas. Se é responsável pela vida e pela saúde, também o é pela morte e pelas pestes.

Os cristãos equacionaram o problema de forma singela. Retomaram um antigo personagem do Antigo Testamento, Satanás, que aliás foi parceiro de Jeová em muitas proezas. Originalmente ombudsman da humanidade, Satanás foi promovido a inimigo de todos os homens. Para os cristãos, as vitórias são de responsabilidade de deus. As derrotas, do demônio. Tudo o que de bom acontece no mundo é obra divina. Tudo o que de ruim acontece, é obra satânica. Se o seu filho morre de câncer ou em um acidente, Deus, o criador de todas as coisas, nada teve a ver com isto. A conta é debitada ao Tentador.

No dia em que o Barça ganhar, é porque o demônio ainda continua agindo no mundo. Imagino que à Catalunha não agradará esta idéia. Mas é o que decorre da nova teologia futebolística, criada pela pastora Caroline.

Quando o futebol era laico, um gol era obra do jogador, não de Jeová. E um frango era de responsabilidade exclusiva do goleiro, não do demônio. Os tempos mudam.