¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, agosto 04, 2009
 
SENADOR CORRUPTO
JÁ É PLEONASMO



Vale a pena comparar as primeiras páginas de hoje dos dois principais jornais do país. O Estadão mancheteia:

GRUPO DE SARNEY AMEAÇA
ADVERSÁRIOS COM DOSSIÊS


A Folha de São Paulo se mostra mais comedida, senão cúmplice:

SARNEY AFIRMA QUE ESTÁ
“FIRMÍSSIMO” NO CARGO


O jornal dá a impressão de ser menino de recados do senador corrupto. Não por acaso, Fernando Sarney, conseguiu obter uma liminar de um desembargador amigo que proíbe o Estadão de divulgar fatos referentes à Operação Boi Barrica, da Polícia Federal e, principalmente, de publicar os grampos de telefonemas em que o filhinho do papai intermediava sinecuras para o namorado da neta do vovô. Para algo servem os desembargadores amigos. Que mais não seja, para impor censura à imprensa quando esta denuncia a corrupção dos bons companheiros.

Curiosamente, os Sarney não processaram a Folha. Que, por mais que pretenda poupar o senador corrupto, não pode deixar de noticiar seus feitos. É que o “coroné” tem coluna no jornal, onde exibe seus pretensos dotes literários. Nesta altura dos acontecimentos, não ser processado pelos Sarney constitui desonra para um jornal. O fato é que a Folha está perdendo leitores ao dar guarida a um canalha. Tenho recebido não poucas mensagens de leitores da Folha que consideram uma vergonha seu discreto apoio à múmia. Enquanto isso, cinicamente, Ricardo Melo, o secretário de Redação, continua repetindo o mantra:

A Folha considera importante manter a pluralidade de opiniões na sua equipe de colunistas. Ressalte-se que o colunista em questão, até o momento, não foi condenado em nenhuma das acusações de que é alvo.

Não foi condenado nem será condenado. Neste país, juiz algum condena os homens que detém o poder. Quanto a senadores, todos têm o rabo preso e se alguns mais ousados pedem sua renúncia, no fundo ninguém quer sua condenação. Em vez de pedirem cadeia ao velho corrupto, pedem apenas seu afastamento – apenas temporário – da presidência da Casa, nesta altura denominada Casa da Mãe Joana. Nem Fernandinho Beira-Mar, nem Juan Carlos Abadia, traficantes de alto bordo, conseguiram organizar quadrilha tão coesa como a que domina o Senado.

Para José Sarney, seu filho "tem sido vítima de cruel e violenta campanha infamante por parte de O Estado de S. Paulo". Ora, quem está denunciando o filho do pai não é o Estadão, mas o Ministério Público e a Polícia Federal. O Estadão apenas noticia as denúncias. E a Folha – apesar de sua conivência com os criminosos – também. Nem poderia ser diferente. Jornal algum – exceto os do Maranhão – pode deixar de publicar o óbvio, sob pena de desmoralizar-se completamente.

Segundo o filho do pai, a decisão judicial que censurou previamente o Estado "simplesmente exige o respeito a garantias constitucionais inerentes a todo cidadão - intimidade, privacidade, honra e imagem". Fernando disse ser "lamentável" que a decisão "esteja sendo apresentada como forma de censura à imprensa, que vem divulgando, ilicitamente, informações sob sigilo expressamente imposto pelo Judiciário". E, sem pudor algum, afirma sempre ter defendido “a liberdade de imprensa, a livre manifestação de opinião, e jamais promoveria ou apoiaria qualquer iniciativa que pudesse ser interpretada como censura".

O que Fernando Sarney quer dizer, em bom português, é que a decisão judicial lhe garante o direito de roubar, praticar tráfico de influência e desviar dinheiro público sem que os cidadãos disto tenham conhecimento. Intimidade, privacidade, honra e imagem, no vocabulário do filho do capo, se traduzem em uma palavra só: impunidade. Para os Sarney, o direito de roubar deveria estar incluído na Declaração dos Direitos do Homem.

Que acontecerá nos próximos dias? Não é de duvidar que o cachorro largue o osso do poder. Melhor perder os anéis que os dedos. Mas cairá atirando, sem dúvida alguma. Teremos muitos dias divertidos pela frente, neste país em que senador corrupto virou pleonasmo.