¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, agosto 11, 2009
 
TEMPLO É DINHEIRO


O bispo Edir Macedo e mais nove cúmplices são réus em processo por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Dados do Coaf apontam que as transferências atípicas e os depósitos bancários em espécie da igreja somaram R$ 8 bilhões de 2001 a 2008. A denúncia, aceita pelo juiz Glaucio Roberto Brittes, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, resulta da mais ampla apuração sobre a movimentação financeira da igreja já feita em seus 32 anos de existência. É o que leio na Folha de São Paulo de hoje.

Segundo dados da Receita Federal, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) arrecada cerca de R$ 1,4 bilhão por ano em dízimos. As receitas da igreja superam as de companhias listadas em Bolsa - e que pagam impostos -, como a construtora MRV (R$ 1,1 bilhão), a Inepar (R$ 1,02 bilhão) e a Saraiva (R$ 1,09 bilhão). Ainda no mesmo jornal, leio que balanço divulgado ontem pelo Ministério da Justiça mostra que as reparações financeiras a perseguidos pela ditadura militar (1964-85) somam R$ 2,88 bilhões. Ou seja, a bolsa-ditadura já chega a quase um terço do montante amealhado pela IURD.

Com uma diferença: o bispo Macedo vem trabalhando duro há mais de trinta anos para acumular sua fortuna. Aos velhos comunas e compagnons de route – que investiram firme nas Bolsas de Moscou e Pequim nos anos 60 – basta esperarem sentados para pegar o seu.

Um amigo de boteco, cuja firma administra o aluguel do Templo Maior da IURD em São Paulo, localizado no bairro Santo Amaro, contou-me detalhes interessantes. Com sete mil metros quadrados de área construída, tem capacidade para abrigar quatro mil fiéis, sendo o maior templo religioso da cidade. Sob o altar – ou como quer que se chame aquele palco de onde os bispos peroram – foi construída uma sala subterrânea. O que inclusive gerou problemas com a Prefeitura. Mas afinal não há nada que não se resolva com uma boa conversa, regada com certos incentivos.

O dinheiro dos dízimos cai diretamente do palco para a sala subterrânea. Dali é levado por túneis para distintos pontos da cidade. A Folha conta o resto da trajetória: o dinheiro é transportado em jatinhos e depositado em contas definidas pelos bispos, principalmente no Banco do Brasil e no Banco Rural. Uma primeira pergunta se impõe: o Banco do Brasil não se pergunta pela origem destes recursos? Aparentemente não. Afinal, desde 2000 a IURD é um dos mais fiéis aliados de Lula e do PT.

Me disse mais meu amigo. Que ninguém entra no templo sem deixar algo. Se o crente foi apenas para orar ou para ouvir o bispo, e não dispõe no momento de dinheiro algum no bolso, seu nome é cuidadosamente anotado. Paga na próxima visita. Cá entre nós, temos de convir que Edir Macedo não obriga ninguém a freqüentar seus cultos. Vai quem quer. Já contei aos leitores que um de meus vícios é assistir nas madrugadas os programas televisivos dos ditos neopentecostais. Fico perplexo, vendo aqueles milhares de panacas siderados pelas bobagens proferidas pelos bispos. A câmera insiste em dar closes nos rostos mais compungidos, olhos à beira das lágrimas, gestos de adesão incondicional ao embuste. Mas a vida é isso mesmo. Sem panacas, não existiria igreja alguma.

Para os promotores, o problema não reside na quantia de dinheiro arrecadado, mas no destino e no uso que lhe foi dado pelos líderes da igreja no período investigado. Um grande volume de recursos teria saído do país por meio de empresas e contas de fachada, abertas por membros da igreja, e foi depois repatriado também por empresas de fachada, para contas de pessoas físicas ligadas à Universal. É o que nos relata Marcio Aith, da Folha.

Julguem o que quiserem os promotores. Mas o dinheiro arrecadado decorre das cobranças de dízimos. Só que aí o problema vai mexer com igrejas que se pretendem mais respeitáveis. Esta sagrada propina, é bom lembrar, já está no Levítico: Quanto a todo dízimo do gado e do rebanho, de tudo o que passar debaixo da vara, esse dízimo será santo ao Senhor.

Uma segunda pergunta se impõe: quem recolhe o dízimo? Os sacerdotes, é claro, que o Senhor não tempo nem mãos para tais mixarias seculares. A própria França, que investe contra a IURD, também investe firme no mercado sobrenatural. Lourdes rende anualmente milhões de francos à ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana) e uma substancial parte das divisas turísticas do país. Claro que jamais passaria pela cabeça dos franceses condenar como manipulação mental o rentável comércio místico de Lourdes. Como tampouco o da última virgem que ousou mostrar as caras neste final de século, a de Medgorje, na ex-Iugoslávia.

Nunca foi tão fácil criar uma religião. O cristianismo precisou de quatro séculos para impor-se a um continente. Em três décadas, o bispo Macedo já se espalhou por três. Começou sua cruzada em 1977, empunhando sua versão particular da Bíblia. Mal decorridos trinta anos, já tem milhões de fiéis no planetinha e templos de Paris a Nova York, da Rússia à África do Sul.

Tempo é dinheiro, diz-se nos Estados. No Brasil, templo é dinheiro.