¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, agosto 10, 2009
 
VESTAL TURQUINHO SIMÃO
DESMORALIZA OS GAÚCHOS



Considero-me gaúcho. Ou talvez o que restou do gaúcho, espécime que já estava em processo de extinção nos dias de Martín Fierro. Ou seja, há século e meio. Considero-me gaúcho não por ter nascido no Rio Grande do Sul. Mas porque nasci em plena pampa, em meio a vacas e cavalos, na fronteira seca entre Brasil e Uruguai. Faço a distinção porque não posso considerar gaúcho uma pessoa que nasceu no asfalto, em meio a automóveis, e vacas e cavalos só conhecem da televisão. Como tampouco posso considerar gaúchos filhos de imigrantes italianos ou alemães, que nasceram na região da serra, comendo spaghetti e dançando tarantela ou falando alemão e comendo chucrutes.

Dito isto, há um momento em que me envergonho de ser gaúcho. É quando ouço falar no “senador gaúcho Pedro Simon”. Para a imprensa do centro do país – e mesmo para a imprensa de Porto Alegre – gaúcho é quem nasceu no Rio Grande do Sul. Mesmo assim, Pedro Simon, quando vivia no Sul, não era visto como gaúcho. Tanto que era conhecido, popularmente, como Turquinho Simão. Virou gaúcho depois que mudou-se para Brasília.

Que José Sarney era um vigarista de alto bordo, isto há muito era sabido. As falcatruas que agora vêm à tona se devem ao fato de presidir o Senado, posição que o expõe a raios e trovoadas. Mas o pior vigarista é a meu ver aquele que, sendo vigarista, posa de vestal. É o caso do Turquinho Simão. Flagrado como entusiasta participante da farra das passagens aéreas, ao levar sua mulher a Paris às custas do contribuinte, alega:

- Nesses 26 anos, fiz uma viagem à Europa, eu e a minha mulher. Uma viagem em 26 anos. Sem um extra, sem diária, sem coisa nenhuma. Usei as passagens que eu tinha. Se isso está errado, eu até reponho, mas nunca ninguém me disse isso.

Como se alguém precisasse dizer a um senador o que é lícito ou ilícito, ético ou não ético. Que tenha reposto, disto não temos notícia. Foi só uma vezinha. Então não tem importância. É como se alguém dissesse: sim, eu matei. Mas foi só unzinho. Como se nada tivesse acontecido, o turista acidental empunha o verbo no Senado como se homem probo fosse, pedindo a renúncia do comandante em chefe da quadrilha.

Em outra ocasião, apelou à sua idade provecta para justificar seu gesto corrupto. Que tem quase oitenta anos e que precisa viajar acompanhado de sua mulher. Nada contra. Boa viagem e felicidades ao casal! Mas porque nós, contribuintes, temos de pagar a passagem da moça?

Não é de hoje que denuncio a falta de caráter do Turquinho Simão. Em 06/06/78 – há 31anos, portanto – na Folha da Manhã, de Porto Alegre, publiquei crônica intitulada “Luta pelo osso”, a propósito de carta que recebi de um universitário. Reproduzo a parte que interessa:

Sou a favor da anistia. Mas antes de ser a favor da anistia, sou a favor da livre expressão, acho que ninguém deve ser expulso de seu país por pensar diferente dos donos do poder. Sou a favor das liberdades democráticas, se neste chavão estiver incluída a liberdade de quem pensa diferente de mim. Sou a favor do protesto contra situações injustas, não aceito a opressão, venha de esquerda ou de direita ou de direita. Tudo isso é muito lindo.

Pena que é campanha do MDB, partido mais ridículo que a própria Arena. Acho até mesmo que a Arena não deixa de ter certa dignidade, a dignidade do cachorro que arreganha os dentes para defender seu osso. O MDB, por sua vez, é cachorro vira-lata que luta pelo osso do Poder, osso em poder da Arena. Me entristece ver jovens gastando energias nessa luta medíocre. Partisse da universidade a luta pela anistia e liberdades democráticas, eu assinaria embaixo.

Parte do MDB. Daquele MDB que apresenta como candidato ao Senado Pedro Simon. O Pedro Simon que dizia, em entrevista ao Jornal do Brasil, há questão de um ano:

- O Partido possui grandes nomes para o Senado, e se aceitasse a indicação, me acusariam de ser um carreirista. Não posso aceitar por uma série de razões.

Série de razões, ou seja: o cachorro vira-lata confiava em abocanhar um osso estadual, o governo do Estado. Desrespeitadas as regras do jogo, Simon continua em campo. Perdeu o osso estadual, quer um osso federal. Simon protesta, da boca para fora, contra o desrespeito a certas regras. Mas continua em campo, o que importa é o osso.

E por estas e outras razões, não creio em estudantes. Fosse o universitário alguém a pensar com sua própria cabeça, por confusas que fossem suas lutas, eu seria solidário. Quando universitários endossam lutas de um partido que não é partido, mas saco de gatos paridos de 64, só posso deplorar a ingenuidade de marmanjos que já estão em idade de ter idéias próprias.


Fui profético. O MDB gestou o PMDB, esse saco de gatunos que aí está. Com o Turquinho sempre à frente. Sempre em bom convívio com essas flores que se chamam ACM, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Sarney. Sob a liderança deste paradigma de homem impoluto, Renan Calheiros. Turquinho Simão pede a renúncia de Sarney. Porque não renunciou depois de ter sido flagrado com a boca na botija?

A corrupção no Senado, pelo que se vê nos jornais, tem seu eixo nos Estados do Norte e Nordeste. Mas não poucos personagens envergonham o Rio Grande do Sul, desde o capitão-de-mato Tarso Genro à governadora Yeda Crusius. (Esta, pelo menos, é paulista). Turquinho Simão, a vestal, contribui com generosidade para a desmoralização da palavra gaúcho.