¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

quinta-feira, setembro 03, 2009
 
SUPREMO APEDEUTA
ABRAÇA VIGARISTAS



Se alguém um dia me vir numa mesa de bar, ou estarei sozinho lendo meus livros ou jornais, ou acompanhado de pessoas inteligentes e honestas. Se há algo que não admito é gente desonesta perto de mim. Medíocres, muito menos. Dessa gente, evito até apertar a mão. Certa vez, em Porto Alegre, um governador gaúcho estendeu-me a mão na saída de um cinema. Permaneci impassível, de braços cruzados. Não tinha respeito algum por ele, não via porque cumprimentá-lo. Muito sem graça, ele desviou o cumprimento e pôs a mão em meu ombro. Meu ombro também permaneceu impassível. Deve ter dormido mal aquela noite, o governador. Provavelmente, foi a primeira vez em sua trajetória que alguém lhe recusou um aperto de mão.

Certa vez, um bom amigo me confessou que se sentiria muito honrado em um dia apertar a mão de Fidel Castro. Para mim, que o estimava, ele caiu dezenas de pontos com aquela confidência. Não por acaso, cortou relações comigo mais tarde. “Numa época que não poupa nada nem ninguém, vou poupar pelo menos a mim mesmo”, dizia Beethoven. Não devo nada ao poder, não tenho razões para genuflectir-me. Tampouco tenho paciência para suportar chatos.

Por estas e outras razões, abomino políticos. Políticos não podem recusar a mão a canalha algum. Uma mão, um voto. Conforme a mão, milhões de votos. Político não pode ser seletivo em suas relações. Se pretender relacionar-se apenas com pessoas honestas, jamais será eleito. Todo político sabe disto. E Lula mais que todos.

Há dois anos, o incorruptível líder sindical andava abraçado com Edir Macedo, este santo homem que em apenas 30 anos de apostolado ergueu templos de sua igreja em 172 países, vendendo esperanças no Além e no Aquém para os pobres de espírito que nele acreditam e contribuem generosamente com dízimos. Na ocasião, Edir Macedo inaugurava o seu novo canal de TV, o Record News, protestando contra o que chamou de "monopólio da informação" no País.

Ao lado de Lula e de José Serra, Macedo iniciou seu discurso com um ataque velado à concorrente TV Globo - dizendo que sua empresa "por anos foi injustiçada por um grupo que tinha e mantém o monopólio da informação no Brasil". Ressaltando que o canal de notícias será gratuito - os da Rede Globo são exclusivos para assinantes da TV paga - Macedo disse então que o novo canal pretendia levar informação de qualidade aos brasileiros.

Edir Macedo é o sumo sacerdote da Igreja Universal do Reino de Deus, que recentemente impetrou mais de cem processos, em distintos pontos do país, contra a Folha de São Paulo e contra a repórter Elvira Lobato, que denunciava suas falcatruas. Os processos, todos contra a jornalista, visavam tornar impossível sua defesa, já que teria de deslocar-se a todas as cidades onde era processada, algumas no Amazonas e onde se pode chegar só de barco. Foi evidente litigância de má-fé, que não foi aceita por juiz algum. Assim procede o pastor que protestava, abraçado a Lula, contra o monopólio da informação.

Lula, cinicamente, disse na ocasião que "o maior desafio do jornalismo continua sendo a missão de informar com independência, imparcialidade e a livre atuação dos meios de comunicação". Disse ainda que toda vez que participa da inauguração de uma rádio, TV ou jornal, tem a vontade de dizer: "Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós". Junto de Edir Macedo, Lula acionou o botão que colocou oficialmente no ar a nova emissora de TV.

Edir Macedo e mais nove cúmplices são hoje réus em processo por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Dados do Coaf apontam que as transferências atípicas e os depósitos bancários em espécie da igreja somaram R$ 8 bilhões de 2001 a 2008. A denúncia, aceita pelo juiz Glaucio Roberto Brittes, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, resulta da mais ampla apuração sobre a movimentação financeira da igreja já feita em seus 32 anos de existência.

Não bastasse o presidente da República esfregar-se em um notório vigarista para garantir votos, esfregou-se também nestes personagens impolutos – José Sarney e Fernando Collor – para garantir apoio à sua candidata à sucessão. Não bastasse esfregar-se junto à escória da política nacional, hoje se esfrega em mais dois vigaristas, os bispos Estevam e Sonia Hernandes, da Igreja Renascer, que acabam de cumprir alguns meses de sol quadrado nos Estados Unidos, por entrarem no país com dólares não declarados escondidos numa Bíblia.

O público evangélico, segundo estimativas, representa 15% do eleitorado. Lula sancionou hoje projeto de lei que institui o Dia Nacional da Marcha para Jesus. Participaram da cerimônia, o presidente da Câmara, Michel Temer, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a delfina para 2010. De acordo com o texto sancionado por Lula, a Marcha para Jesus ocorrerá 60 dias após o domingo da Páscoa.

Mas que Jesus? O da Igreja Católica certamente não é. Os padres, bispos, arcebispos e cardeais católicos que ajudaram a criar o Supremo Apedeuta, hoje estariam se arrancando os cabelos, se carecas já não fossem. Os ditos neopentescostais, graças a suas promessas de riqueza aqui na terra mesmo, estão comendo pelas bordas a Igreja de Roma, que continua insistindo em sua opção pelos pobres.

Triste ver um presidente da República abraçado publicamente aos grandes vigaristas do país. Este é nosso carma. Enfim, ele precisa eleger-se e eleger os seus. Eu, que não sou candidato a coisa alguma, prefiro curtir meus poucos e bons. É hora de lembrar Guerra Junqueiro.