¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, setembro 13, 2009
 
SOBRE ÓPERAS, VELHOS E GORDOS


Uma outra boa amiga, que me proporcionou belos dias em Estocolmo, me escreve:

Querido Cristaldo,

desejo que estejas bem. Eu estou bem tanto quanto possível estar bem em Belém. Fiquei surpresa com teu artigo sobre ópera onde falas de gordos e velhos cantando ópera. Sinceramente, fiquei até confusa.

Que valorizes e aprecies tanto a beleza física e a juventude, entendo, ainda que eu não dê nem um miserável pontinho a tais atributos. Mas desvalorizar, menosprezar e até não tolerar a encenação de uma pessoa porque ela não tem uma aparência magra, alta e jovem, ainda que tenha uma bela voz e cante ópera maravilhosamente, surpreendeu-me... Será que não convence ou não convence a ti porque acreditas que puta tem que ser jovem, bonita e sensual?

Não entendo nada de ópera, só vi em tv e filme, e o que me faz gostar ou não é que a voz, o canto, a encenação transmitam emoção, consigam envolver de tal forma profunda que eu me sinta vivendo o personagem, como em qualquer encenação, não apenas em ópera, gosto quando sinto vontade de viver o que estou vendo e ouvindo.

Bom, não te critico, não é isto, apenas me surpreendi porque pensava que vias a vida, o mundo, as pessoas muito além da matéria, parece-me que cometi um erro costumeiro de projetar nas pessoas como eu penso, sinto e percebo. Contigo, já que costumo concordar com quase tudo que escreves, na verdade, desde que encontrei teus artigos, passei a me sentir acompanhada nos meus pensamentos 'anormais' como tantos dizem e eu gosto pois os 'normais' costumam ser entediantes e até idiotizados que me cansam e irritam.



Min kära Verena,

ouvir é uma coisa. Ver é outra. O problema está no ver. Há uma grande diferença entre uma Netrebko ou uma Migenes e uma Montserrat Caballé interpretando a Carmen. Essas divas, afinal, ganham fortunas. Se trabalham também com o corpo, podiam ter certo pudor e mais cuidados com o corpo. Um Pavarotti com 175 quilos é um absurdo. Há tratamentos médicos para isso. Ele acabou perdendo 30, mas devido a um câncer. Eu, que não sou cantor nem ator, acho que começaria a esconder-me em casa se chegasse a 130.

Claro que, apenas ouvindo uma ópera, os quilos ou a idade não importam. O problema é assistir uma encenação. Nada tenho contra velhos ou gordos. Eu conheci e conheço pessoas obesas pelas quais tive e tenho muito apreço. O caso mais surpreendente ocorreu nas Canárias, não lembro agora se em Santa Cruz de Tenerife ou Las Palmas de Gran Canaria. O personagem estaria um pouco além dos 130 quilos. Sua barriga lembrava o Teide, o vulcão de Tenerife. Era um arabista de renome e sua pedra de toque era - pasma! - o Martín Fierro. Quando vi quatro jovens universitárias com as cabeças recostadas naquele Teide proeminente, percebi que o homem não é carne, mas espírito. Mas ele não se apresentava em cena como um Don Giovanni, é claro. Extrapolando um pouco: não se concebe um 007 velho e gordo. Certos papéis exigem um certo physique du rôle.

Outro gordo pelo qual nutro enorme admiração é Ernest Renan. Era mais um desses pesos-pesado. Percorreu em lombo de mula todas as trilhas pelas quais teria andado o Cristo, para escrever sua Vida de Cristo. Quem não deve ter gostado foi a mula. Mas vá lá. Se a função de um homem é pensar, mulas existem para carregar quem pensa, não importa quanto pese. Renan escreveu uma história do cristianismo em sete volumes e uma outra história do judaísmo em outros tantos, que me fazem inveja. Não tenho nada contra seus quilos.

Nos anos 70, conheci um escritor mineiro que me fascinou. Estaria nos seus 150 quilos, precisava de auxílio até para colocar as meias. Entrevistei-o em minha coluna. Ele me ditou um texto belíssimo, sem revisar nenhuma palavra ou vírgula. Lá pelas tantas, me perguntou: quantas linhas ainda tenho? Cinco, respondi. Ele fechou o texto com fecho de ouro. Há quem considere serem os gordos seres materialistas, mais preocupados com o comer e beber do que com o espírito. Pelo que vi em minha vida, há os que são pessoas extremamente espiritualizadas, tanto que nem se preocupam com o corpo.

Quanto aos velhos, mais que apreço, tenho respeito. Em meus 28 ou 29 anos, convivi com Mário Quintana, que já teria seus setenta. Na mesma época, tive o prazer de tomar vinho noites adentro com o Dyonélio Machado. Pas de vin sans biscuit, ele costumava dizer. Eu o conheci quando teria seus oitenta anos. Foi ele - ateu e comunista - quem me introduziu nos estudos mais aprofundados da Bíblia. Tinha sempre uma Bíblia aberta em um atril ao pé da biblioteca. Escolhia um capítulo, em geral do Novo Testamento e, coincidentemente com o Renan em punho, saímos a viajar pela Galiléia.

Es de la boca del viejo, de ande salen las verdades – dizia Hernández no Martín Fierro. Outra pessoa de idade por quem tive muito apreço foi Ernesto Sábato. Devo tê-lo conhecido quando estava em seus setenta. Foi pessoa com quem tive imenso prazer em conversar. Confraternizamos junto a um bom vinho em Santos Lugares, Buenos Aires, Paris e São Paulo e sempre o vi como um jovem.

Tomei um vinho em Paris com Milan Kundera, já entrado nos cinqüenta. No café em que bebíamos, várias meninas da universidade ao lado esperavam um olhar dele. Na época, estava em meus trinta. Quando tiver cinqüenta, pensei, quero ser como Kundera. Em Porto Alegre, conheci Camilo José Cela, já quase nos oitenta, que então convivia com a bela e jovem Marina Castaño. Quando tiver oitenta, pensei, quero ser como Cela.

Ainda há pouco, um leitor remeteu-me a um vídeo, com Chavela Vargas, em seus gloriosos noventa anos, cantando "Macorina". Soberba. Mas, como disse, uma coisa é cantar. Outra é representar.

Quer dizer, não precisas te preocupar com minha suposta falta de consideração por pessoas que não sejam lindas e esbeltas. Sempre prezei mais a inteligência e a cultura do que a forma física. Mas uma Carmen gorda ou velha ou feia não dá pé numa encenação de ópera. Numa récita, até que passa. Beijo.