¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, outubro 13, 2009
 
GIOVANNI PAPINI E O
NOVO ANEL DE SATURNO



Leio nos jornais que cientistas da Nasa descobriram um anel gigante em torno de Saturno, em cujo diâmetro caberiam alinhados um bilhão de planetas do tamanho da Terra. Sua parte mais densa fica a cerca de seis milhões de quilômetros do planeta e se estende por outros doze milhões de quilômetros, o que o torna o maior anel de Saturno. A altura do halo é vinte vezes maior que o diâmetro do planeta. São dimensões de enlouquecer.

"Trata-se de um anel superdimensionado", definiu a astrônoma Anne Verbiscer, da Universidade da Virgínia em Charlottesville e uma das autoras de um artigo sobre a descoberta publicado na revista científica Nature. "Se ele fosse visível a partir da Terra, veríamos o anel com a largura de duas luas cheias, com Saturno no meio. As partículas estão tão distantes umas das outras que mesmo se você ficasse em pé em cima do anel, não o veria", disse Verbiscer.

Astronomia é uma de minhas paixões não consumadas. Meu fascínio deve ter começado com um antigo livro de Isaac Asimov, O Universo. Se a distância de ano-luz já é difícil de conceber, imagine-se bilhões de anos-luz. É delirante. Isso que o livro de Asimov é anterior ao Huble, que hoje nos trouxe dimensões inimaginadas do universo.

Apesar de apaixonado pela disciplina, nunca avancei muito na área. Jamais tive telescópio. Mas, certa vez, em Porto Alegre, passei uma noite no observatório da UFRGS observando os corpos celestes. O telescópio tem um movimento que acompanha a rotação da terra, para não desviar-se do ponto observado. Estávamos examinando a Lua. Foi quando alguém teve a idéia de desconectar o telescópio da rotação terrestre. Foi algo de arrepiar. Senti a Terra girando, na velocidade em que a Terra gira.

Mas nem só os astros são fascinantes. Assestamos o telescópio para a boa e velha Terra. Mais precisamente, para Ipanema. Chegamos a uma sala de jantar, onde uma mulher belíssima conversava. Passamos uma boa meia hora observando o rosto, os lábios, os olhos, daquela mulher linda. Se os corpos celestes nos fascinam, os corpos terrestres não deixam por menos.

Giovanni Papini é um escritor italiano, nascido em Florença, em 1881, e morto na mesma cidade, em 1956. É um desses escritores que merecem ser lidos e relidos. Foi no entanto afogado pela indústria do bestseller. O livro que mais o projetou terá sido Gog, onde narra as aventuras de um certo Mr. Goggius, milionário americano que um dia decide conhecer o mundo. O autor o conheceu em um manicômio particular. “Nascera em uma das ilhas Havaí, de uma mulher indígena e de pai desconhecido, mas de raça branca, seguramente. Aos dezesseis anos, embarcado como boy de cozinha em um vapor americano, chegara a San Francisco e viveu ao léu em vários pontos da Califórnia. Não se sabe como, depois de alguns anos conseguiu reunir milhares de dólares e se tranportou para Chicago. (...) Em 1920 retirou-se, sem grandes prejuízos, de todas suas empresas, e depositou seus milhões, uns aqui, outros ali, em todos os bancos do mundo”.

- Até agora – dizia – tenho sido um galé do dinheiro; mas de hoje em diante ele deve ser meu servidor. Não quero, como os meus semelhantes, ficar murcho para descobrir os meios de gozar.

Milionário e ao mesmo tempo livre das seqüelas da fortuna, Gog põe-se a viajar e entrevista personalidade da política, da ciência, da literatura e da arte. Munido de um pensamento primitivo e pragmático, observa com sarcasmo todos os inventos e excentricidades modernas. A ironia de Papini não poupa nem Cervantes nem Nietzsche, nem Ford nem Freud, nem Edison nem Einstein, nem Lênine nem Gandhi. Se alguém anda em crise de leitura, voilà um bom livro para ser lido e relido.

Mas Gog tem suíte. É O Livro Negro – novo diário de Gog. Dele consta este conto perturbador, “O Astrônomo Desiludido”, que mostra a perplexidade de Alf Wilkowitz, o astrônomo que quase enlouquece ao ter uma idéia das dimensões do universo. Me ocorre publicá-lo a propósito da descoberta do novo e incomensurável anel de Saturno.