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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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janercr@terra.com.br
Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 |
Sábado, Janeiro 31, 2009
ALVÍSSARAS! VEJA VIU A GUERRILHA Deve fazer já uns 15 – ou mais – anos, que defino o MST como guerrilha católico-maoísta. Suas táticas de invasão de terras são de guerrilha. Pretendem abertamente derrotar a “burguesia” - eta palavrinha obsoleta: cheira a século XIX! -, tomar o poder e impor uma ditadura socialista. Têm como ídolos Lênin, Mao, Castro e Che Guevara. Têm escolas onde transformam crianças em futuros guerrilheiros, cheios de ódio ao sistema capitalista... que os sustenta. Como é de conhecimento público, quem financia em boa parte a guerrilha católico-maoísta é o governo. Isto é, somos nós com os impostos que pagamos. A outra parte do financiamento provém de instituições e ONGs estrangeiras. Se, por um lado, isto é problema que só diz respeito aos contribuintes lá deles, por outro lado é escandalosa intervenção na política interna de um outro país. São guerrilheiros hábeis. Não andam pelos campos de metralhadoras ou fuzis em punho. Isto dá muito na vista e pode atrair a atenção do Exército. Ostentam facões, lanças, foices, pás, machados, porretes, enxadas e gadanhos, estes "legítimos" instrumentos de trabalho do trabalhador rural. (Como se hoje se fizesse agricultura com esses resquícios da Idade Média. Mas que servem não só para matar, mas principalmente para intimidar. Se um fazendeiro contrata seguranças para proteger seu pasto ou seu gado, os seguranças não são mais seguranças. São jagunços, pistoleiros. A imprensa toda engoliu a terminologia safada. Sem armas de guerra, a guerrilha católica-maoísta ganhou a guerra da mídia. Estamos em 2009. A Veja finalmente parece ter descoberto que o MST é, de fato, uma guerrilha. Em reportagem na edição desta semana, publica cadernos que são verdadeiros manuais de guerrilha, ao melhor estilo de Marighella. “A barbárie, embora não seja exatamente uma novidade na trajetória do MST, é um retrato muito atual do movimento, que festejou seu aniversário de 25 anos na semana passada. Suas ações recentes, repletas de explosão e fúria, já deixaram evidente que a organização não é mais o agrupamento romântico que invadia fazendas apenas para pressionar governos a repartir a terra. (...) Agora, documentos internos do MST, apreendidos por autoridades gaúchas nos últimos seis anos e obtidos por VEJA, afastam definitivamente a hipótese de a selvageria ser obra apenas daquele tipo de catarse que, às vezes, animaliza as turbas. O modo de agir do MST, muito parecido com o de grupos terroristas, é uma estratégia. A papelada – cadernos, agendas e textos esparsos que somam mais de 400 páginas – é uma mistura de diário e manual da guerrilha. Parece até uma versão rural, porém rudimentar, do texto O Manual do Guerrilheiro Urbano, escrito por Carlos Marighella e bússola para os grupos que combateram o regime militar (1964-1985). Os documentos explicam por que as ações criminosas do movimento seguem sempre um mesmo padrão”. Longo é o caminho da imprensa até o entendimento. Foi necessária a apreensão de documentos escritos para entender que o MST é uma guerrilha. Não bastaram os assassinatos cometidos pelo MST, os discursos belicosos de Stedile, a invasão e destruição de fazendas produtivas, a demolição de laboratórios de pesquisa, o culto ostensivo aos maiores assassinos do século passado, as escolas de formação de guerrilheiros, a organização cada vez maior, com representações inclusive no Exterior, não bastou esta estrutura toda, para que a imprensa visse o que estava vendo. Como faltava um atestado escrito de que o MST era guerrilha, nossos bravos jornalistas preferiram não arriscar tão grave acusação. Segundo Felinto Procópio dos Santos, um dos líderes do MST, mais conhecido como Mineirinho, “oitenta por cento dos nossos dirigentes antigos são ex-seminaristas, padres e o pessoal da Teologia da Libertação. A maioria veio da Igreja. Por isso, todos os nossos símbolos, mística, jeito de ser, de celebrar e de vida, é tudo religioso”. O que Veja parece não ter visto, é a origem católica desta guerrilha.
Sexta-feira, Janeiro 30, 2009
VAMOS DEIXAR DE HIPOCRISIA: ABORTO JÁ É LEGAL NO BRASIL Discutia, outro dia, com uma jovem leitora, a respeito do aborto. Ela era contra. Bom, eu também sou. Independentemente dos casos de estupro, de fetos malformados, há muitas moças no país usando o aborto como anticoncepcional. É preciso ser muito irresponsável para submeter-se a um procedimento traumático, tanto física como emocionalmente, só por não ter tomado uma pílula ou usado um preservativo. Neste sentido, sou contra o aborto. Mas sou a favor da descriminalização do aborto, e não é de hoje que afirmo isto. Da mesma forma, sou contra as drogas. Mas a favor da descriminalização das drogas. Se uma mulher se descuida, não vejo porque teria de destruir sua vida criando um filho que não quer e que, na maior parte das vezes, não tem condições de criar. Não participo dessa idéia da Igreja Católica – bastante recente do ponto de vista histórico – de que a tal de alma já está presente no embrião. Há precisamente um ano, eu comentava que dois campeões da Igreja, são Tomás e santo Agostinho, eram favoráveis ao aborto. Segundo o aquinata, só haveria aborto pecaminoso quando o feto tivesse alma humana o que só aconteceria depois de o feto ter uma forma humana reconhecível. Para o Doutor Angélico, como o chamam os católicos, a chegada da alma ao corpo só ocorre no 40º dia de gravidez. A posição de Aquino sobre o assunto foi aceita pela igreja no Concílio de Viena, em 1312. Nunca é demais lembrar que foi apenas em pleno século XIX, em 1869 mais precisamente, que o Papa Pio IX declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize. Se os católicos se pretendem contra o aborto, deveriam começar destituindo seus santos da condição de sapiência e santidade. Ou seja, faz apenas 140 anos que a Igreja decidiu que uma mulher não mais é dona de seu próprio corpo. Falava da jovem leitora. Ela dizia que, no Brasil, aborto é crime. Será? Veja, em sua última edição, lembra um dado que não é novo: os especialistas estimam que chegue a um milhão o número de abortos, hoje, no Brasil. O cenário teria sido bem pior na década de 80, quando os abortos clandestinos podem ter chegado a 4 milhões por ano. A redução desse número se deveria ao aperfeiçoamento dos métodos anticoncepcionais e à disseminação no país de políticas de planejamento familiar, logo estas duas medidas às quais à Igreja se opõe ferozmente. Aborto é crime? Ora, quando se cometem um milhão de crimes ao ano – ou quatro milhões – há muito o crime deixou de ser crime. Aborto entrou na categoria dos usos e costumes. Neste país onde 250 mil criminosos, já condenados, vivem livres como passarinho, porque não há mais vagas nas prisões, onde colocar um milhão – ou quatro milhões – de mulheres, mais os milhares de profissionais que as assistiram durante o aborto? Se aborto ainda é considerado crime pela legislação, é crime de condenação impossível. E sem sanção não há crime. Sempre foi possível neste país incrível, para quem tivesse algum dinheiro, encontrar médicos e clínicas confiáveis – ainda que clandestinas – para interromper a gravidez. O risco sempre foi quinhão dos pobres, que tinham de submeter-se a péssimas a açougueiros sem maiores habilitações. Ainda segundo a Veja, as complicações decorrentes de abortos mal feitos, sem condições de higiene ou segurança, constituíram, no ano passado, a quarta causa de morte materna, atingindo 200 mulheres. Há ONGs fornecendo seringas a drogados, em nome de uma política de minimização de danos. Por que não fornecer então aborto seguro para preservar vidas? Deixemos de hipocrisia. O aborto está há muito legalizado no país. Como a droga e o contrabando.
Quinta-feira, Janeiro 29, 2009
HOLOCAUSTO DE JUDEUS E HOLOCAUSTOS OUTROS Costumo afirmar que padre não briga com padre. Mas o Bento XVI andou usando de mão inábil. Revogou, no sábado passado, a excomunhão sob a qual estavam submetidos há mais de vinte anos os bispos da Fraternidade Sacerdotal San Pio X, ou bispos lefebvrianos. O documento ressalta que a remoção do caráter de excomungados é uma iniciativa de Bento XVI para "recompor a ruptura com a fraternidade", em direção a uma "completa reconciliação." Bento só não contava com a reação dos judeus. Ontem ainda, segundo o Jerusalem Post, o Rabinato de Israel cortou todos os seus laços com a Santa Sé de forma indefinida em protesto pela decisão do papa. Pois revogava a excomunhão de um bispo que nega o Holocausto. Em uma carta enviada à Santa Sé por seu diretor geral, Oded Weiner, o Rabinato comunica sua indignação pela reabilitação do bispo britânico Richard Williamson e suspende um encontro entre judeus e cristãos programado para o início de março. "Sem uma desculpa pública será difícil continuar com este diálogo", afirma Weiner. O encontro devia acontecer entre os dias 2 e 4 de março em Roma entre o Rabinato e a Comissão da Santa Sé para as Relações Religiosas com o Judaísmo, presidida pelo cardeal Walter Casper. O que o Rabinato não entendeu é que o bispo Williamson não foi excomungado por suas opiniões sobre o Holocausto. Coube a João Paulo II excluí-lo da comunhão dos fiéis, pelo fato de a Fraternidade Sacerdotal San Pio X, grupo fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, se opor ao reformismo das medidas aprovadas após o Concílio Vaticano II, como a autorização da celebração das missas em diferentes idiomas, e não só o latim. Sem ter mandato para tanto, Lefebvre ordenou quatro bispos, entre eles Richard Williamson, que foram formalmente submetidos à excomunhão latae setentiae pela Congregação para os Bispos, no dia 1° de julho de 1988. Ou seja, nada a ver com a negação do Holocausto. Negar o Holocausto já traz em si sua punição, é atestado de indigência mental. O que se pode discutir é o número de judeus mortos geralmente admitidos, seis milhões de cadáveres. Ora, ninguém consegue contar seis milhões de cadáveres, particularmente se foram incinerados. Pessoalmente, não tenho como dogma essa cifra. Em suma, Sua Santidade meteu-se em um imbróglio bem mais complicado com Israel que o provocado por Tarso Genro com a Itália. Negar o holocausto praticado pelos nazistas é insanidade. Neste sentido, os judeus são bem mais honestos. Jamais negaram os holocaustos que cometeram para a construção de Israel. Estão todos atestados na Bíblia e nenhum rabino os colocaria em dúvida.
Quarta-feira, Janeiro 28, 2009
LEITOR PROTESTA CONTRA MEUS MOMENTOS SUBLIMES DA BÍBLIA Ao contrário da Lia, que diz adorar ler os “momentos sublimes da Bíblia”, Há quem pareça não estar gostando muito. “Porque você não publica os ensinamentos de Cristo nos teus "momentos sublimes da Bíblia"? O sermão da montanha e as coisas que ele ensinou durante sua vida?” – pergunta Rodrigo. O que lembra minha falecida mãe, preocupada com a segurança da cria, naqueles idos de 64: “Por que não escreves sobre flores, meu filho? Há tantas no Brasil”. Ora, meu caro, o sermão da montanha é muito batido. Todo mundo o conhece e os padres seguidamente o repetem em suas homilias. Ao Novo Testamento, eu prefiro o Antigo. Ali se sente melhor Jeová e seu poder. Nele existem centenas de histórias do Povo Eleito, os poderes e os desmandos dos reis de então, o relato dos patriarcas, o erotismo da Sulamita e a sabedoria milenar do Kohelet. (Aliás, estes são os meus dois livros prediletos. Poemas transgressores, custo a entender como tenham sido incluídos no cânone bíblico. Canta Sulamita: O meu amado meteu a sua mão pela fresta da porta, e o meu coração estremeceu por amor dele. Eu me levantei para abrir ao meu amado; e as minhas mãos destilavam mirra, e os meus dedos gotejavam mirra sobre as aldravas da fechadura. Eu abri ao meu amado, mas ele já se tinha retirado e ido embora. A minha alma tinha desfalecido quando ele falara. Busquei-o, mas não o pude encontrar; chamei-o, porém ele não me respondeu. Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade; espancaram-me, feriram-me; tiraram-me o manto os guardas dos muros. Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amado, que lhe digais que estou enferma de amor. Enferma de amor! A expressão é soberba. E é bom lembrar que se a enferma Sulamita andava em busca de seu amado pelas ruas de Jerusalém, não era para casar, não! Ou a sabedoria do Kohelet: Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre. O sol nasce, e o sol se põe, e corre de volta ao seu lugar donde nasce. O vento vai para o sul, e faz o seu giro vai para o norte; volve-se e revolve-se na sua carreira, e retoma os seus circuitos. Todos os ribeiros vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios correm, para ali continuam a correr. Todas as coisas estão cheias de cansaço; ninguém o pode exprimir: os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir. O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há que seja novo debaixo do sol. Sabedoria sofrida de um rei-filósofo, que reinou sobre Israel. Por outro lado, para edificação dos crentes, prefiro aqueles trechos mais ignorados da Bíblia. Aqueles momentos em que o bom Jeová mata e manda matar, massacra e manda massacrar homens, velhos, mulheres e crianças. Ou será a Bíblia uma espécie de canal de televisão, onde o leitor se detém sobre o que faz bem à sua pobre alminha e zapeia rápido sobre o que não lhe apraz? Não é assim que vejo o Livro. Penso que deve ser lido e relido em sua totalidade. Em todo caso, para alegria do Rodrigo, qualquer hora comentarei as coisas que o Cristo ensinou durante sua vida. Talvez comente aquele trechinho em que ele chamou uma cananéia de cadela.
MENSAGEM DE LIA Éééé, Janer, não é fácil. Mexer com uma mentira tão bem bolada e repetida duante séculos causa polêmicas mesmo. Tem gente que acha que foi o marqueteiro do Hitler que sacou essa de repetir uma mentira até ela se tormar verdade. Tsktsk, ele só copiou o que os papas vem fazendo com bastante competência, diga-se. E não só os papas. Fiquei neles pra não viajar muito longe no tempo e na história. A doença já existia antes do cristianismo, com deuses ou Deus, singular ou plural, variações sobre o mesmo tema. Mas discutir sobre uma divindade abstrata, mera ficção, é bom exercício intelectual. Sempre se aproveita alguma coisa. Instiga a busca a saber mais. Agora, discutir sobre coisas bem concretas, como a opressão sobre as mulheres e as formas como foram e são realizadas é que dá medo. Quando leio os comentários no blog do Reinaldo Azevedo, sobre a questão do aborto, fico tentando imaginar que tipo de gente é aquela que tem a coragem de defender que não interessa se ela foi estuprada, ou se a gravidez vai levar à cova, não pode abortar e pronto. Isto vindo de mulheres e até ateus! Sinceramente não vejo diferença entre eles (maioria) e os que jogam ácido nas mulheres porque estão indo à escola. Mesmo o Reinaldo Azevedo, sendo um católico,tem o bom senso de admitir o aborto em casos de estupro e risco de morte para as mulheres. Não a torto e a direito. Mas tem comentaristas lá que, tenho pra mim, se não foram abusadores de alguma menina, até mesmo estupradores, devem ter fantasias a respeito e vontade de submeter mulheres. Só pode ser. Posições tão fundamentalistas sobre quem é dono do corpo da mulher - corroboradas por mulheres! - me dão a certeza de que a ginecofobia deles não tem limites nem de burcas. Parece um ódio profundo contra mulheres; pra eles deve ser um castigo que elas merecem, quem mandou nascer mulher(talvez quizessem dizer 'rachadas'). Aquela gente não foi nascida. Só pode. Como podem olhar pras mães, irmãs, filhas e mulheres e dizer que não se importam se elas morrerem de uma gravidez tubária ou engravidarem de um monstro? Que tipo de humanidade é aquela??? Nem precisa você pegar exemplos do Irã, do Afganistão...Tá muito mais perto, Janer, se bobear, moram em Higienópolis, hehe. Adoro ler os 'momentos sublimes da Bíblia'. Att. Lia
Terça-feira, Janeiro 27, 2009
EVO MORALES PARTE BOLÍVIA EM 37 PAÍSES Se há algo que não entendo em um país são diferentes justiças para diferentes grupos de cidadãos. No Brasil, temos a justiça que nos foi legada pelos legisladores da nação... e mais umas quatro ou cinco. Deputados e ministros têm foros privilegiados. Índios podem matar seus filhos, enterrá-los vivos, podem estuprar e espancar suas mulheres, podem interditar estradas, invadir prédios e fazer reféns. Negro, quando disputa uma vaga na universidade, tem mais direitos que um branco. Os sem-terra também podem interditar estradas, invadir prédios fazendas, fazer reféns e destruir laboratórios de pesquisa. Ou seja, o tecido jurídico do Brasil está completamente dilacerado. Pelo jeito, estamos fazendo escola. Na Europa, já se começa a falar em tribunais muçulmanos para julgar muçulmanos. Em junho do ano passado, um tribunal na cidade de Lille, no norte da França, anulou a união de dois muçulmanos, porque o marido disse que sua esposa não era a virgem que alegava ser. O caso chocou o país, fundamentalmente laico, onde não se admite que a religião interfira na vida pública. Ainda em 2008, Rowan Williams, arcebispo de Canterbury provocou alvoroço no Reino Unido ao sugerir que a adoção de elementos da lei Shariah islâmica no Reino Unido era “inevitável” para a promoção da coesão social. Os muçulmanos, disse o arcebispo, devem poder escolher que suas disputas matrimoniais ou financeiras sejam resolvidas em tribunais da Shariah, que lida com os assuntos da lei islâmica. Na Suécia, já existem tendências. Mais um pouco, e veremos mulheres infiéis ou meninas que tiveram relações antes do casamento sendo lapidadas em Piccadilly Circus ou no Kungsträdgården, em Estocolmo. E se um sueco ou britânico quiser matar a mulher e permanecer livre como um passarinho, bastará que se converta ao Islã Evo Morales, o presidente da Bolívia, talvez contaminado pelos usos e costumes do vizinho incrível, ousou voar mais alto. Domingo passado, os bolivianos aprovaram ontem uma nova Constituição, impulsionada por Morales. Segundo o disposto na nova Carta os 36 "povos originários" – leia-se populações indígenas - passam a dispor de uma quota obrigatória em todos os níveis de eleição, a ter propriedade exclusiva dos recursos florestais e direitos sobre a terra e os recursos hídricos. Até aí, vá lá. Se bem que resta no ar a pergunta sobre se os indígenas teriam quadros intelectualmente preparados em número suficiente para o preenchimento dessas cotas obrigatórias. Mas o insólito no novo documento é a instituição da equivalência entre a justiça tradicional indígena e a justiça ordinária do país, autorizando tribos a julgarem e punirem suspeitos de crimes segundo os seus costumes tradicionais, e não de acordo com os preceitos jurídicos herdados da colonização espanhola. Se ainda sei contar, teremos então 37 sistemas jurídicos diferentes. 36 das tribos bolivianas, mais um do “invasor” espanhol. Não sei se Evo se deu conta, mas, a meu ver, partiu a Bolívia em 37 pedaços. Poderá um país viver em harmonia com 37 justiças? É hora de relembrar o eterno Eça de Queirós que, em 1890, já escrevia: “Haverá talvez Chiles ricos e haverá certamente Nicaráguas grotescos. A América do Sul ficará toda coberta com os cacos dum grande Império!"
Segunda-feira, Janeiro 26, 2009
VALENTES TALEBAN DEFORMAM ROSTOS DE UNIVERSITÁRIAS Alguém ainda lembra da guerra do Afeganistão? Não falo da penúltima, aquela travada contra a Rússia, em 1979. Começou no mesmo ano em que o aiatolá Khomeiny entrava no Irã a ferro e fogo, com seus pasdarans metralhando bares e boates, estes antros ocidentalizados do Grande Satã. Uma conterrânea minha, de Santana do Livramento, estava lá nesse dia, fazendo dança de ventre. Não me perguntem porque uma santanense fazia dança de ventre em Teerã. Santanenses têm desses ímpetos. Bueno, teve de correr para a embaixada brasileira, de chador, fio dental e passaporte na mão. O conflito ocorreu entre tropas soviéticas, que apoiavam o governo marxista do Afeganistão e os muhajidin afegãos que, armados pelos Estados Unidos, tentavam derrubar o regime comunista no país. Dez anos depois, em 1989, os russos acharam melhor voltar para casa. Há historiadores que consideram terem sido os altos cultos econômicos e militares da guerra que contribuíram para o colapso da União Soviética, dois anos depois. Falo da última guerra no Afeganistão. Após a saída dos russos, criou-se um vácuo de poder, que foi assumido pelos taleban – talib, no singular – milícia sunita da etnia dos pashtuns, que instauraram uma república teocrática muçulmana, com tudo que isso significa em matéria de opressão para as mulheres. Aconteceu então o 11 de Setembro, cujo mentor, o saudita Bin Laden, teria suas bases de treinamento no Afeganistão. Antes mesmo da explosão das torres gêmeas, os EUA já pediam aos taleban a expatriação de Bin Laden, que, ironicamente era parceiro dos aliados afegãos dos americanos na luta contra os russos. Com o atentado ao World Trade Center, em outubro do mesmo anos, as tropas americanas invadem o Afeganistão e expulsam os taleban do poder. Apesar de a maioria dos terroristas do 11 de Setembro serem sauditas, liderados por um terrorista saudita, Bush aproveitou a azo e invadiu também o Iraque. É bem possível que este seu gesto tenha eleito Barack Obama. O grande cabo eleitoral de Obama, a meu ver, foi George Bush. McCain poderia ter as simpatias do eleitorado americano, mas não foi possível carregar Bush nas costas. Mas não era disto que pretendia falar. Queria, antes de entrar no assunto, relembrar alguns fatos que não permanecem muito tempo nesta nossa memória RAM dos dias que correm. Basta desligar a mente, e lá se foi a memória toda pro espaço. Mas o jornalista se previne passando alguns dados para o disco rígido. E o meu tem muito espaço. O que mais me marcou nesta segunda guerra do Afeganistão foi a burka, que muito jornalista até hoje confunde com o chador iraniano ou o hijab e o nikab árabes. São véus bem distintos. A burka surgiu nos jornais com a segunda guerra do Afeganistão. É uma espécie de gaiola que cobre todo o rosto, a mulher só conseguindo ver atrás de uma tela quadriculada. O rosto permanece completamente oculto. Chador é outra coisa. Para começar, é iraniano e não árabe. Cobre o corpo e os cabelos da mulher, mas não o rosto. O hijab árabe também não cobre o rosto. O nikab cobre o rosto e só deixa os olhos à mostra. Falava de meu disco rígido. Não sei se comporta dez megabytes de memória. Mas certas imagens dos jornais eu as mantenho nítidas. Numa página, os bravos soldados americanos, verdadeiros arsenais ambulantes. Na outra, mulheres, com dentaduras magníficas, sorrisos encantadores, rostos livres ao vento. A civilização ocidental vencia. As muçulmanas podiam agora exibir toda sua beleza. As reportagens se tornaram lugares-comuns atrozes: soldados cheios de armas, mulheres cheias de dentes. Leiamos então a Folha de São Paulo de hoje. Relata Dexter Filkins, do New York Times: PARA ESTUDAR, JOVENS AFEGÃS DESAFIAM ATAQUES DE ÁCIDO CANDAHAR, Afeganistão - Numa manhã recente, Shamsia Husseini e sua irmã caminhavam à escola local para meninas quando um homem de motocicleta parou ao lado delas e perguntou: "Vocês estão indo à escola?" Então ele arrancou a burca de Shamsia de sua cabeça e borrifou seu rosto com ácido. Hoje as pálpebras e o lado esquerdo do rosto de Shamsia são recobertos por cicatrizes irregulares e descoloridas. Sua vista freqüentemente se anuvia, causando dificuldade para ler. Tenho muitos outros desses casos em minha memória, particularmente no Egito, na Argélia e na Tunísia. Mas pelo o crime não era a freqüência à universidade, e sim o fato de andar seu véu. Os bravos machos muçulmanos, não suportando a visão de uma cabeça sem véus, jogavam ácido no rosto das hereges. No Afeganistão, o caso é mais grave. O crime é querer instruir-se, adquirir uma profissão. Educação é privilégio de quem tem colhões. Quem não os tiver, que permaneça em casa, inútil e analfabeta. Mas, ao que tudo indica, as afegãs não estão pensando render-se aos brutos. Continua Filkins: Se o ataque com ácido a Shamsia e 14 outras mulheres - alunas e professoras - visava apavorar as meninas e levá-las a permanecer em casa, parece ter fracassado em seus propósitos. Hoje quase todas as meninas feridas estão de volta à escola Mirwais para Meninas, incluindo Shamsia, cujo rosto ficou tão gravemente queimado que ela precisou ser enviada ao exterior para ser tratada. Algo que talvez seja ainda mais espantoso é que quase todas as outras alunas da comunidade, profundamente conservadora, também retornaram às aulas - cerca de 1.300 ao todo. "Meus pais me disseram para continuar vindo à escola, mesmo que me matem", disse Shamsia, 17. Como quase todas as mulheres adultas dessa área, sua mãe é analfabeta. "Quem me fez isto não quer que as mulheres tenham instrução. Quer que sejamos burras." O pior ataque às meninas foi em 12 de novembro passado, quando três duplas de homens em motocicletas começaram a circular em volta da escola. Eles atacaram 11 meninas e quatro professoras; seis foram hospitalizadas. O caso mais grave foi o de Shamsia. Valentes, estes senhores, os taleban. Os muçulmanos, costumo afirmar, padecem de ginecofobia. São muito machos para se explodirem em lugares públicos e matarem inocentes. Reagem como cachorro covarde, com o rabo entre as pernas, ao ver um rosto feminino nu ou uma mulher tentando educar-se e adquirir uma profissão.
Domingo, Janeiro 25, 2009
EL RATÓN, TOURO QUE PENSA, É UM PERIGO Tendo vivido na Espanha – e para lá volto quase todos os anos – nunca assisti a uma tourada. Para começar, por meu asco às multidões. Continuando, como em todos esses grandes espetáculos, o espectador está sempre longe do que está acontecendo. Só com binóculos para se ver o que de fato acontece. Mesmo assim, não consegui escapar de touradas. No verão espanhol, em qualquer bar que você esteja, a las cinco en punto de la tarde, alguma televisão estará transmitindo uma tourada. Assim sendo, acabei entendendo um pouco do assunto. Tourada é algo complexo, não compreensível a qualquer turista. Há pelo menos três personagens na lídia, o picador, o banderillero e o herói da festa, o toureiro. Mais outros dois, o cavalo do picador e o touro, é claro. O picador é quem dá início ao massacre. Está montado em um cavalo, blindado por cotas de malha, e com uma venda nos olhos. A venda é para não se assustar com a investida do touro. Ou seja, o cavalo anda às cegas. O picador tem uma lança – a pica – com a qual penetra na cerviz do animal. Uma vez picado, o touro não consegue mais erguer a cabeça. Feito isto, entram os banderilleros. São aqueles valentes que cravam quatro lancetas no lombo do animal já debilitado. Ficam balançando enquanto o touro corre e servem para irritá-lo. Quando ele está reduzido a um caco, entra o herói da festa, com seu “traje de luces”, todo bordado em ouro. Se você assistiu alguma tourada na televisão, deverá ter visto a nonchalance com que o toureiro dá as costas ao touro, e se afasta serenamente sem sequer olhar para trás. É truque. O touro, como todos os herbívoros, tem um olho para cada lado. À sua frente, há um ponto cego, onde ele não vê nada, e é este ponto cego que o herói aproveita para humilhar o touro. Mesmo assim, debilitado, o touro reage. Nesta última temporada em Madri, vi foto espantosa em um jornal. Um touro acertou, com precisão inesperada, o ânus de um banderillero. Levantou-o nas aspas e fez um rasgo de 18 centímetros. Não sei se o banderillero morreu, não acompanhei a notícia. Mas aquele foi certamente o dia do touro. Uma das coisas que me aprazem na vida é conversar com barbeiros. Bueno, certa vez, a las cinco en punto de la tarde, entrei em uma peluqueria, na calle Echegaray, centro de Madri. Na televisão, uma corrida. O touro começou estripando o cavalo do picador, apesar de sua cota de malha. Entraram os banderilleros, o touro enfiou as aspas na coxa de um deles e o jogou para o alto. Reuniu-se então a Presidência da tourada e decidiram devolvê-lo para o brete, por ser um touro manso. Chamaram quatro vacas que o conduziram de volta às coxias. - Como touro manso? – perguntei a meu Fígaro. - Bueno, no es que se pueda afagar como a un gato. Explicou-me melhor. Touro manso é aquele que está familiarizado com o ser humano. O toureiro gosta mesmo é do touro burro. É aquele que, quando sente a pica na cerviz, investe contra a pica e a crava mais fundo no próprio lombo. O touro manso é inteligente. Mal sente a pica, recua. O toureiro já se põe em alerta. Tourada é algo complexo, dizia. Há dicionários de tauromaquia e é preciso ser um pouco erudito para entender uma tourada. Um dos passes se chama veronica. O toureiro se ajoelha, de costas para o animal, balança a capa e deixa que a besta venha. Bom, pela televisão, assisti a um passe desses. Ocorreu que o herói, naturalmente preocupado com o que lhe vinha pelas costas, olhou para trás. Vaia total da platéia: Cagóóón! Tudo isto, para saudar El Ratón, a meu ver um touro manso. Leio no El País de hoje: Ratón, la res más cotizada de los encierros, agiganta su fama a golpe de cornadas y sangre "Lo feliz que me ha hecho este animal no lo cambio por nada. No tiene precio", afirma orgulloso su dueño El Ratón, um touro de oito anos, ganhou lenda de assassino nas corridas de rua em Valência. Já matou um e feriu mais de trinta com cornadas. Tornou-se o herói das festas, ao invés do toureiro. Está enchendo arenas e seus seguidores acodem a todos os vilarejos em que vai. Na Internet, são contadas suas façanhas, de forma por vez exageradas. El Ratón se tornou celebridade dos bous al carrer, que é como os catalães decidiram chamar as touradas. Tem muitos seguidores, mas também um grande número de detratores. Há quem louve sua valentia, sua bravura e inteligência. Outros o caluniam como covarde, touro que se aproveita de toureiros inexperientes e que os corneia à traição. Enfim, el Ratón não deixa a ninguém indiferente. Segundo Gregorio de Jesús, ex-matador que se dedicou à criação de gado, “es ágil, inteligente, rápido. Muy alegre. No es bruto, no es como los demás toros que actúan por instinto y chocan contra todo. Éste piensa, analiza y después ataca". Um touro que pensa é um perigo. Ao mesmo tempo, uma atração. Gregório cobra seis mil euros por cada apresentação de el Ratón, quando um touro de aluguel não custa mais que mil euros. El Ratón se limita a aparecer umas dez vezes por temporada, em Aragón, Valencia, Cataluña y Navarra, comunidades nas quais o regulamento não obriga a sacrificar as reses após serem toureadas. Cá entre nós, um dia bem que pode ser do touro.
Sábado, Janeiro 24, 2009
MENSAGEM DO VANDERLEI Meu caro, concordo integralmente com tua posição sobre Mariana. Eu não defenderia a liberação da eutanásia, pois vivemos num país incrível, como você diz, mas desejar que a pessoa sobreviva sem mãos e sem pernas, chega às raias do sadismo. Sou cego, e ao contrário do discurso conformista, que nos é empurrado a machado, não acho exatamente uma coisa boa não enxergar. Se tivesse meus movimentos paralisados, reivindicaria a pena de morte para mim com urgência, porque simplesmente viver não valeria a pena. Vanderlei Vazelesk.
RIP! O BOM DEUS LEVOU O RESTO Mariana Bridi morreu nesta madrugada. Os crentes que me desculpem, mas a notícia me conforta. Difícil conceber aquela menina linda sem pés nem mãos. Requiescat in pace, Mariana.
INFELIZ PAÍS ESTE NOSSO Cláudia Costin é moça que tem costas quentes. Sai governo, entra governo, ela sempre está ocupando alguma sinecura. Hoje, é secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro. Começa sua gestão oferecendo aos professores uma cesta básica de livros. A cada três meses, os 36 mil docentes da prefeitura receberão dois livros. Um título será indicado pela secretaria. O outro, escolhido pelos docentes em votação pela internet. Cláudia também quer fazer das escolas municipais pontos de acesso ao livro. Pouca vergonha! Professsores lendo dois livros a cada três meses. Dois livros é o que qualquer pessoa que queira entender o mundo deveria ler por semana. Os títulos oferecidos deverão sair dos lançamentos de ficção. Ensaios, ni pensar! Pode queimar as sinapses dos professorinhos. "Queremos que os professores leiam por prazer", diz Cláudia. Diretores foram convocados a criar clubes de leitura, onde docentes poderão trocar impressões. Ora, isso de querer que alguém leia por prazer não existe. Ou a pessoa tem prazer em ler, ou não tem. Clubes de leitura não levam ninguém a ler. Lê quem gosta de ler. Quem não gosta não lê. Conheci professores universitários que não tinham um único livro em suas casas. Conheço jornalistas que não têm biblioteca. Dois livros a cada três meses dá oito livros por ano. É mais ou menos o que leio por mês. Isso que estou longe do magistério. Professor que lê apenas oito livros por ano deveria buscar outra profissão. Taxista, quem sabe. E olhe lá! Um de meus taxistas prediletos é versado em Kant e Hegel. Mal entro no táxi, ele fica se coçando para começar um papo sobre filosofia. Se falo com ele sobre o imperativo categórico ou o espírito da história, ele me responde com competência. Não sei quantos professores universitários poderiam conversar comigo no mesmo nível. Tendo conhecido de perto estes senhores, os professores universitários, penso que dona Cláudia deveria pensar em uma proposta simplinha. Talvez começar com Paulo Coelho, Bruna Surfistinha, talvez Lya Luft, quem sabe José Sarney. Em meus dias de universidade, minhas aluninhas gostavam muito de Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Porque seus livros são fininhos. Livro grosso, não é qualquer aluno que gosta de ler. Pelo jeito, nem mesmo professor. Seguidamente vemos na imprensa projetos de incentivo à leitura. São projetos safados. Não pretendem incentivar a leitura. Mas levar, isto sim, os jovens à compra das nulidades literárias nacionais. Até entendo que se procure levar os jovens à leitura. Mas professores – logo estes senhores que têm obrigação de ler – me parece totalmente despropositado. Infeliz país, o que tem de induzir seus professores a ler.
Sexta-feira, Janeiro 23, 2009
TENDE PIEDADE, Ó SENHOR! APROVEITA E LEVA O RESTO Acabo de ler notícia sobre a modelo capixaba Mariana Bridi, 20 anos, que teve as mãos e os pés amputados por causa de uma infecção urinária, que evoluiu para infecção generalizada. Vejo a foto da moça, exuberante, plena de vida e beleza. Leio também que teve uma piora no estado de saúde. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, o quadro da jovem, que era considerado grave até ontem, passou a ser gravíssimo. Mariana foi submetida ainda a uma cirurgia para a retirada de parte do estômago. ![]() Sob a notícia, comentários de leitores: “Gente , ela não morreu !! Ainda há esperanças ! Não comentem nada como se ela já estivesse morrido ! pelo amor de Deus !” “Que Deus esteja com ela e seus familiares. Força e Fé a todos vocês”. “Estou fortemente chocada mas para Deus nada é impossível Deus vai te curar em nome de Jesus”. “Por mais que possa doer na família e nela mesmo, temos uma única certeza, nada acontece sem que Deus permita, o que quer que aconteça, Deus estará junto dela. Muita luz e amor pra Mariana e família”. “Olha lhe desejo toda sorte do Mundo, e q Deus abençoe você que vai dar tudo certo em nome do Senhor Jesus Cristo e muita paz e fé para toda sua família, fique com Deus”. Confesso que nunca li tanta cretinice. Que vai fazer essa moça, esse ser que só de olhar nos alegra a vida, sem pés nem mãos? De maravilha da natureza a um ser mutilado, do dia para a noite. E ainda há quem deposite esperanças no tal de deus que permitiu tal crime. Este senhor vai devolver-lhe pés e mãos? “Ainda há esperanças”, diz um panaca. Esperança de quê? De viver uma vida sem pés nem mãos? É preciso muito cinismo para invocar deus numa hora destas. Não acredito em deus, especialmente num deus que prega tais peças. Mas, se acreditasse, oraria: “Poupa a Mariana desse tormento. Já que levaste os pés e as mãos, Senhor, manifesta tua piedade e leva o resto”.
Quinta-feira, Janeiro 22, 2009
SATANÁS DERRUBA TETO DA RENASCER Cultivo certos prazeres perversos. Um deles é assistir, nas madrugadas, os cultos das igrejas ditas neopentecostais. Aqueles templos repletos de crentes, com capacidade para quatro ou cinco mil pessoas, sem uma única cadeira vazia, me fascinam. Gosto de ver closes dos rostos dos fiéis. Milhares de pessoas, compungidas até as lágrimas, ouvindo o palavrório vazio de um gigolô das angústias humanas. Como pode? Não terá aquela gente toda algo melhor a fazer de suas noites? Fico perplexo. Assistir aqueles cultos pela televisão é uma forma de conhecer o Brasil sem sair de meu sofá. Encontrei-me, outro dia, em um de meus restaurantes diletos, com um de meus bons interlocutores. Conversa vai, conversa vem, manifestei esta minha perplexidade. Coincidiu que ele administrava o aluguel de um imóvel da IURD – Igreja Universal do Reino de Deus – fundada em 1977 pelo infatigável pastor Edir Macedo, que antes deste ano da graça trabalhava como caixa de uma agência lotérica. Ele contou-me então o que eu não imaginava existir. O templo tem capacidade para 15 mil pessoas sentadas. E mais 35 mil em pé. Sob o altar, os santos pastores construíram um compartimento subterrâneo. A coleta dos dízimos cai diretamente do altar para os cofres desse compartimento. E de lá sai, sabe-se lá para onde, por um túnel. Tudo construído sem licença da prefeitura. Em 2005 o deputado João Batista (PFL de São Paulo), que respondia como presidente da igreja, e mais seis pessoas foram detidas pela Polícia Federal com dez milhões de reais em dinheiro transportado em sete malas. O deputado disse que "o dinheiro é resultado de doações dos fiéis" e a IURD manteve a posição de que o dinheiro é fruto de doações. Mais ainda. Contou-me meu interlocutor que ninguém assiste a um culto sem pagar nada. Se o crente foi lá apenas para orar ou ouvir o pastor, sem levar grana no bolso, seu nome é anotado como devedor. Sua dívida tem de ser paga no próximo culto. Ou você acha que a palavra de Deus é gratuita? Ocorrem-me estas lembranças em função do desabamento do teto do templo maior da igreja Renascer em Cristo, fundada por um casal de notórios vigaristas, hoje cumprindo prisão nos Estados Unidos por lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Quis o bom Deus que os pastores fundadores da igreja, os sedizentes apóstolo Estevão e a bispa Sonia, permanecessem em segurança, em prisão domiciliar, na Flórida. A igreja Renascer foi criada em um fundo de quintal em 1986. Hoje, tem mais de 1.200 templos espalhados pelo Brasil, Japão, Argentina e Uruguai. A fortuna amealhada pelo casal de apóstolos é avaliada, hoje, em 20 milhões de reais. Templo é dinheiro. Em meio a isso, prefeitura, órgãos de fiscalização e a própria igreja se acusam mutuamente pelo desastre. O Contru – órgão da Prefeitura de São Paulo responsável pela fiscalização da segurança dos imóveis da cidade – atestou, em julho de 2007, que o prédio onde funcionava a sede da Igreja Renascer em Cristo, no Cambuci, estava "em condições aceitáveis de segurança". No último domingo, o telhado do templo desabou matando nove pessoas e ferindo outras 124. O Contru informou, à época, que o templo estava irregular devido à falta de alvará, vencido em 2004. Após novas cobranças de documentos por parte do Contru, o pedido de renovação do alvará foi indeferido em outubro de 2007. Mesmo assim, nenhum órgão da prefeitura tomou providências para multar a igreja ou mesmo lacrar o prédio. Além do mais, a Renascer em Cristo contratou uma empresa sem registro no Crea (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura), a Etersul Coberturas, para executar a reforma no telhado de sua sede. Enfim, esta discussão burocrática é o que menos interessa. Os pastores fundadores, o apóstolo Estevão e a bispa Sonia, hoje presos na Florida, fizeram uma aparição virtual a cinco mil fiéis, em templo emprestado por outros irmãos de vigarice, a Assembléia de Deus. Disse o apóstolo Estevão Hernandes: "Nós vamos renascer das cinzas", disse ele, "Vamos esmagar com nossos pés sangrando a cabeça do gigante-satanás que fez aquele teto da Lins de Vasconcelos desabar", disse, referindo-se ao endereço do templo. Descobriu-se, finalmente, o responsável pelo desastre, o gigante-satanás. Segundo a Folha de São Paulo, Hernandes comparou-se ao personagem bíblico Jó, a quem Deus permitiu que Satanás infligisse todos os sofrimentos para testar sua fé. "Também a casa de Jó caiu com seus filhos dentro", disse o apóstolo em um tom choroso, ao lado da bispa Sônia, toda coberta de preto. "Mas o sofrimento e a dor me glorificam". Ou seja, o sofrimento e a dor dos crentes o glorificam, já que o apóstolo, protegido por uma confortável prisão nos Estados Unidos, não sofreu nada. Como de todo sofrimento sempre se pode tirar algum lucro, o bom pastor aproveitou o azo para acrescer alguma grana à seus vinte milhões de reais: "A imprensa que está aqui vai dizer que nós estamos pedindo uma doação especial. E estamos mesmo. Não é para mim, nem para a bispa, é para a glória de Deus. Venham aqui, à frente do altar, apresentar as suas doações. Porque a quem dá, Deus não permite que falte nada”. Independentemente da doação dos fiéis, me parece que a Renascer deveria entrar com processo contra o gigante-satanás, único responsável pela queda do teto, por danos, perdas, lesões corporais e assassinato. Tudo pela glória de Deus. Amém?
ONE DROP RULE VOLTA A VIGER O que mais espanta neste oba-oba-Obama é ler jornalistas que afirmam não mais existirem preconceitos raciais nos Estados Unidos, afinal um negro foi eleito. E aqui já começa o preconceito. Obama não é negro, é mulato. Excesso de zelo da imprensa nossa. No censo de 2.000, quase sete milhões de norte-americanos, pela primeira vez, foram autorizados a identificar-se como integrantes de mais de uma raça. As categorias inter-raciais mais comuns citadas foram branco e negro, branco e asiático, branco e indígena americano ou nativo do Alasca e branco e "alguma outra raça". Os Estados Unidos deixaram de lado a one drop rule, pela qual um cidadão é considerado negro mesmo que tenha uma única gota de sangue negro em sua ascendência, e descobriram o mestiço. Mas não a imprensa nacional. Para nossos jornalistas, deste país mestiço, Obama é negro. Não bastasse isto, Carlos Heitor Cony escreve hoje na Folha de São Paulo: “Tampouco espero maravilhas curativas da gestão de Barack Obama. O mais importante já foi feito – e com brilho histórico: enterrou formalmente o preconceito racista que ainda prevalecia em algumas camadas da sociedade. Neste particular, os Estados Unidos merecem nota dez”. Enterrou? Então sugiro ao imortal cronista viajar aos Estados Unidos e, ao preencher seu pedido de visto, definir-se como branco. Não vai dar. Segundo os critérios americanos, nem Cony, nem Fernando Henrique Cardoso, nem o tal de Lula da Silva, nem mesmo eu, somos brancos. Pertencemos à exótica raça dos hispânicos. Como se brasileiro fosse hispânico. O que não é de espantar para quem pensa que na América Latina se fala o latim, como já disse o Dan Quayle. A eleição de Obama, no fundo, significa a instauração definitiva do preconceito. Sendo mulato, é definido como negro. A one drop rule, que parecia ter sido sepultada há nove anos, voltou a viger. E com força.
Quarta-feira, Janeiro 21, 2009
MUCHO ESTRUENDO Y POCAS NUECES Pelo que leio na imprensa, só faltaram os magos. Ah! E também a estrela que os guiou ao berço do menino. Já não consigo ler jornais nestes dias, só dá Obama. Mas que realizações tem em seu currículo este senhor, que a mídia toda apresenta como um Messias, detentor da medicina para todos os males, não só dos Estados Unidos como também do mundo? Confesso que, pelo que tenho lido, não vi nada de excepcional em sua biografia. A não ser que tem suas origens na África. Mas isto não quer dizer nada. A imprensa nacional tem dado até cadernos à eleição de Barack Obama. Redatores enchem lingüiça todos os dias, tornando monótona a leitura dos jornais. O novo ungido, em seu discurso de posse, evocou cristãos e muçulmanos, hinduístas e descrentes, citou o Iraque e o Afeganistão, mas não dirigiu uma palavrinha sequer ao quintal latino-americano. Por que então esse entusiasmo todo? Aliás, a eleição de Obama só servirá para incentivar o racismo negro no Brasil. Se o presidente americano, sendo mulato, é saudado por toda a imprensa como negro, isso significa que mulato é coisa que não existe. Os mulatos brasileiros, a partir de agora, podem-se considerar raça extinta. Seu discurso de posse foi redigido por um marqueteiro de 27 anos, Jon Favreau, extremamente talentoso em matéria de demagogia. É um repositório de bons propósitos. Daqueles dos quais o inferno está cheio. Discurso à parte, Obama promete fechar Guantánamo. Só tem um problema, a condição jurídica futura dos que lá estão presos. Então, fechar Guantánamo não será para já. Promete retirar as tropas americanas do Iraque. Mas se entrar numa guerra é fácil, retirar-se é que são elas. Que será então do Iraque, sem uma força estrangeira e coercitiva? Provavelmente se divida em três: um país xiita, outro sunita e mais um curdo. Todos em guerra entre si. Isso sem falar em Gaza. Conseguirá o Messias impedir o Hamas de lançar foguetes sobre Israel? Conseguirá impedir Israel de fazer tábula rasa de Gaza? Posse é sempre festa. Amanhã começa o pior, o governo. Os propósitos de Obama me lembram antiga piada. Um técnico britânico foi chamado ao Rio para resolver os problemas de trânsito. Estudou o tráfego durante várias semanas e chamou os jornalistas para uma conferência, onde pronunciaria seu veredicto. Do alto de um prédio carioca, olhou para a cidade e disse: “Deixem tudo como está. É o melhor que se pode fazer”. De qualquer forma, quando um senador de 47 anos confia seu discurso de posse a um menino de 27, o mínimo que se pode deduzir é que o novo deus pouco ou nada tem a dizer a seus fiéis. Much ado about nothing, como diria Shakespeare. Ou, como traduzem os espanhóis, mucho estruendo y pocas nueces.
Terça-feira, Janeiro 20, 2009
A LUCIDEZ DO COUTINHO JOÃO PEREIRA COUTINHO * John McCain, presidente ------------------------------------------------------------------------------- Mantenho a minha aposta no republicano porque as pesquisas não merecem confiança ------------------------------------------------------------------------------- ALGUNS COLUNISTAS não têm vergonha na cara. Felizmente, sou um deles. Em dezembro de 2007, quando o mundo apostava em eleições presidenciais americanas entre Rudy Giuliani (republicano) e Hillary Clinton (democrata), eu olhei para a minha bola de cristal e disse, com certeza cósmica: McCain vencerá. Lembram? Escrevi aqui e recebi assobios de volta. Muita água passou debaixo da ponte. McCain foi o candidato republicano. Mas as pesquisas atuais são esmagadoras para McCain. Sete pontos de desvantagem são sete pontos de desvantagem. E perder Estados-chave (como a Flórida ou a Virgínia) praticamente resolve a questão presidencial a favor de Barack Obama. E agora, Coutinho? Agora, volto a olhar para a minha bola de cristal, e McCain continua vencendo. Os leitores não acreditam no colunista? O colunista vai tentar convencer os leitores. Sim, qualquer jornal diz o óbvio: McCain falhou em dois momentos essenciais. Falhou na crise financeira e nos debates televisivos. Na crise, McCain falhou na forma inicial como lidou com ela: ao suspender a campanha eleitoral e ao ameaçar não comparecer ao primeiro debate, o comportamento de McCain não foi entendido como politicamente responsável, mas como oportunista e errático. McCain começou a sangrar nesse preciso momento, quando ainda liderava nas pesquisas. E os debates? Os debates não foram meigos para McCain. Substancialmente, McCain venceu os três: é o mais preparado em política externa e, economicamente falando, a América não se salva com mais Estado; salva-se com melhor Estado, ou seja, com uma administração que seja capaz de não interferir abusivamente no mercado em nome de uma agenda "social". Mas Obama venceu porque televisão é imagem, e imagem é poder. Ele é jovem, retoricamente hábil e um crítico de Bush; McCain é velho, fisicamente limitado e injustamente colado a Bush. Apesar de tudo, mantenho minha aposta em McCain. E mantenho minha aposta porque as pesquisas não merecem confiança. Os republicanos sempre se deram mal com elas. Em 1980, dez dias antes da eleição, Reagan (39%) perdia para Carter (47%). Dez dias depois, Reagan vencia Carter. Os analistas dizem que o caso só é explicável pela crise dos reféns americanos na embaixada de Teerã, que Carter não soube resolver. Verdade. Mas existe um padrão nas pesquisas dos últimos 30 anos, que sempre foram tradicionalmente benevolentes para com os democratas. Será preciso relembrar as pesquisas de 2000, quando Al Gore vencia Bush? Ou a vitória virtual de John Kerry sobre o mesmo Bush em 2004? Deu no que deu. A juntar a tudo isso, Obama é negro. Eu sei que não é politicamente correto relembrar o fato. Mas conto uma história para sossegar os ânimos: em 1982, Tom Bradley era candidato a governador da Califórnia. Bradley liderava nas pesquisas com margem confortável. Bradley era negro. No dia da votação, Bradley perdia para George Deukmejian, o candidato branco. Moral da história? Existe um racismo escondido que diz uma coisa para as pesquisas e outra para o boletim de voto. Os números atuais não refletem os cinco pontos (mínimo) que o "efeito Bradley" costuma roubar ao candidato negro. E se os especialistas afirmam, com infundada certeza, que a América está menos racista do que em 1982, é necessário recordar um pormenor básico: desde então não houve uma oportunidade séria para testar esse otimismo. Como disse recentemente Edward Luce, colunista do "Financial Times", os políticos negros que são eleitos nos EUA representam apenas eleitorados igualmente afro-americanos. Jogar em casa não vale. As pesquisas devem ser lidas com ceticismo. E se McCain, até dia 4/11, mostrar que é o líder mais preparado e experiente para levantar a economia americana sem um assalto abusivo ao bolso dos contribuintes; e se conseguir reconquistar o centro moderado sem alienar a falange direitista dos republicanos, o mundo inteiro que já elegeu Obama para a Casa Branca vai abrir a boca de espanto e horror. * Folha de São Paulo, 21 de outubro de 2008
DEUS, SE EXISTE, PUNE PANACAS Em uma de suas obras mais metafísicas, A Peste, Camus discute o problema do mal no mundo. A peste se abate sobre Oran, durante meses os esforços para combatê-la se revelam inúteis. Tarrou, um ativista que militou na Europa, mais os médicos Rieux e Castel, o jesuíta Paneloux e também Grand, o empregado da prefeitura, reúnem suas forças para conjurar o mal. Pouco a pouco, Castel consegue descobrir o soro que faz a peste recuar. Para o padre Paneloux, a bondade divina não pode ser posta em questão. Se os homens estão em desgraça, é porque a mereceram. Para salvar sua fé, Paneloux acusa os homens: "Este flagelo aparece pela primeira vez na história para golpear os inimigos de Deus. Faraó se opõe aos desejos eternos e a peste o faz cair de joelhos. Desde o começo de toda história, o flagelo de Deus derruba a seus pés os orgulhosos e os cegos. Meditem sobre isto e caiam de joelhos". Paneloux faz uma longa exposição sobre os flagelos que acometeram os homens por vontade divina. Como o Cristo, ele aceita passivamente o Mal, sem mesmo se interrogar sobre as eventuais motivações da divindade. Se o Cristo, em um momento de sua agonia, deixa escapar o "lamma sabachtani", Paneloux morrerá sem uma só palavra nos lábios. "Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam na peste um meio eficaz, de origem divina, de se obter a eternidade. Aqueles que não haviam sido atingidos se enrolavam nos lençóis dos pestíferos para terem a certeza da morte. Sem dúvida, este desejo furioso de saúde não é recomendável, pois denota uma deplorável precipitação, bem próxima do orgulho. Não se deve ser mais apressado do que Deus. Tudo o que pretende acelerar a ordem imutável, estabelecida de uma vez por todas, conduz à heresia. Mas este exemplo, pelo menos, traz sua lição. Para nossos espíritos mais clarividentes, faz luzir este brilho delicado de eternidade que jaz no fundo de todo sofrimento. Esta luz ilumina os caminhos crepusculares que conduzem à libertação. Ela manifesta a vontade divina que, sem falhar, transforma o mal em bem". Submissão total. Não existissem homens como Rieux que, frente à peste, julga ser necessário "fazer o que é necessário", talvez não restasse na mítica Oran de Camus sobrevivente algum para contar sua história. O autor, que vê na doutrina do Cristo o assentimento total, a não-resistência ao Mal, considerava A Peste como seu livro mais anticristão. Nem mesmo a agonia de uma criança abala a fé do padre: "– Eu compreendo, murmurou Paneloux, isto é revoltante porque ultrapassa nossas medidas. Mas talvez se deva amar o que não conseguimos entender". Estas reflexões me ocorrem a propósito do desabamento do templo da igreja Renascer, criada por dois vigaristas, a sedizente bispa Sônia Hernandes e o sedizente apóstolo Estevam Hernandes, hoje cumprindo cadeia nos Estados Unidos, por transportar dólares ilegalmente dentro de uma Bíblia. A bispa é autora de um achado teológico insólito: “Deus é uma coisa quentinha, gente!” O casal fundou a Igreja Apostólica Renascer em Cristo em 1986. A estréia da nutricionista e dona de butique casada com o ex-gerente de marketing da Xerox no mundo da religião foi modesta: eles montaram um grupo de oração dentro da própria casa. Com o crescimento do grupo, eles transferiram as orações para o piso superior de uma pizzaria. Pouco tempo depois, se mudaram para o prédio da avenida Lins de Vasconcelos, no Cambuci (São Paulo), sede internacional da Renascer. Acusados de cometer os crimes de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e estelionato, Sônia e Hernandes são donos de uma fortuna estimada hoje em R$ 20 milhões. Templo é dinheiro. A bispa Sônia, e seu marido, o apóstolo Estevam Hernandes, enviaram, dos Estados Unidos, onde estão em prisão domiciliar, uma nota de pesar pelo desabamento do teto da sede da igreja. "Foi uma grande fatalidade o que ocorreu. Não sabemos o motivo. Mas há de haver um propósito para tal sofrimento", afirma o casal. Como pode o bom Deus matar nove pessoas e ferir cerca de cem outras que se prestavam a adorá-Lo? “Talvez se deva amar o que não conseguimos entender”, diria Paneloux. Por outro lado, os nove mortos estarão hoje no seio da deidade. Autênticos eram os cristãos da Abissínia, que se enrolavam nos lençóis dos pestíferos para terem a certeza da morte. Felizes são os nove. Os cem feridos são um pobres diabos, que não mereceram encontrar-se com o Senhor. Certamente deve haver algum propósito para tal sofrimento. Se o tal de Deus existe, deve ser cioso de sua reputação. Vai ver que decidiu punir os panacas que acreditaram em dois vigaristas que pregavam em seu nome.
Segunda-feira, Janeiro 19, 2009
QUANDO JEITINHO VIRA INDÚSTRIA Quem tem 60 anos deverá lembrar desta história. Escrevo para minha geração, como relembrança, e para os mais jovens, que a desconhecem. Em 1961, Peter Kellemen, vigarista húngaro de alto bordo, escreveu um livrinho que definiu muito bem o Brasil e bem merecia uma reedição, Brasil para principiantes – venturas e desventuras de um brasileiro naturalizado. Foi publicado pela Civilização Brasileira, de Ênio Silveira. Como o livro há muito está esgotado – sem falar que foi proibido pelo regime militar - vou reproduzir boa parte do primeiro capítulo. UM “JEITO” + UM AGRÔNOMO = VISTO CONSULAR - Nome? - Paulo Kennedy. - Profissão? - Médico. - Idade? - 25 anos. - Recém-formado? - Sim. Há oito meses. - Pretende exercer a profissão no Brasil? - Não sei... talvez com o tempo... não conheço a língua. - Então, em lugar de médico, vamos colocar: agrônomo. Assim, posso fornecer o visto imediatamente. Sabe como são essas coisas, não? Quotas de profissões, instruções confidenciais do departamento de imigração, besteiras... sem importância. Em todo caso, assim ficará cem por cento dentro das normas legais. O cônsul brasileiro falava um inglês claro e compreensível e sorria para mim como se fora um ginasiano que, acumpliciado com um amigo, acabasse de enganar o professor. - Obrigado. Mas gostaria de evitar uma declaração falsa que futuramente viesse a incriminar-me. Não entendo nada de agronomia... posso me sair mal. Não saberei como explicar às autoridades... Para ser sincero, acho uma solução pouco recomendável. Enquanto eu falava, pela minha cabeça desfilavam tôdas as experiências anteriores com funcionários graduados de diversos países e de vários governos, inclusive os de minha própria pátria. “Pois sim... êste homem está me provocando. Quer me instigar a fazer uma declaração falsa... quem sabe para quê? Quer observar minha reação...” Redobrei meus esforços para enfrentar aquêle homem aparentemente tão sincero, mas, na realidade, um “agente provocador”. Porém êle não me deu muita importância. Veio para bem perto de mim. - Meu filho, êste negócio de agrônomo não vai ser problema. Assim que chegar, quando estiver no Brasil... Parou. Percebi que procurava a palavra adequada. Falava um inglês carregado, mas fluente. Ficou pensando e depois de alguns instantes virou-se para o auxiliar: - Castro! Como se diz em inglês “lá no Brasil você dá um jeito”? Castro aparentava ter uns 50 ou 55 anos. Gordo, usava óculos grossos e era totalmente calvo. Virou-se para mim: - Senhor Paulo, eu falo bem o inglês, mas prefiro o alemão. Posso mesmo considerar o alemão como a minha segunda língua materna, pois nasci no Sul do Brasil, onde predominou a colonização alemã. Meu pai era filho de alemães e freqüentei escolas onde parte dos exames era feita neste idioma. Mas “dar um jeito” não posso traduzir para o alemão... e tampouco para o inglês. Bateu no meu ombro, levou-me para um sofá e sentou-se a meu lado. - Escute com atenção. Vamos ver se consigo traduzir. Você é médico, não é? - Sou. - Vai declarar que é agrônomo? - Vou. - Acha que será uma declaração falsa ou, digamos, uma afirmação sem fundamento? - Mais ou menos. - Meu caro Paulo, não se trata disto, absolutamente. Apenas queremos dar um jeito para que você possa viajar sem mais delongas. Evitamos sòmente que perca seu tempo e possa embarcar logo. Seu visto ficará pronto à tarde. Percebi então que não se tratava de provocação, mas ainda não sabia que acabara de falar com dois representantes de um povo onde as leis são reinterpretadas, onde regulamentos e instruções centrais do Govêrno já são decretados com um cálculo prévio de percentagem em que serão cumpridas, onde o povo é o grande filtro das leis e os funcionários, pequenos ou poderosos, criam sua própria jurisprudência. Ainda que esta jurisprudência não coincida com as leis originais, conta com a aprovação geral, se é ditada pelo bom senso. Costumo citar Chesterton, quando se trata de conhecer um país: “Não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela. É preciso vê-la de fora”. Kellemen foi o primeiro autor a ensinar-me o que era o Brasil. Estrangeiro, tinha a necessária distância para fazer um bom juízo do país. Em 61, eu tinha 14 anos. Devo tê-lo lido um pouco mais adiante, aos 16 ou 17. Comecei então a entender os bois com que lavrava. O jeitinho, ao que tudo indica, de prática informal tornou-se instituição oficial. Leio na Folha de São Paulo de ontem, em reportagem de Vinícius Queiroz Galvão: ESTRANGEIROS FAZEM AULA DE "JEITINHO" PARA SE ADAPTAR AO PAÍS Treinamento ensina "expatriados" a lidar com a informalidade do brasileiro; pesquisa mostra que Brasil é o quarto pior país do mundo para adaptação O repórter começa falando da moscovita Marina Nasedkina, 32, que não imaginava que a maior dificuldade que encontraria no país seria os brasileiros. "Na minha terra temos um estilo muito direto. No Brasil as pessoas têm ouvido de cristal." Marina explica: "É falar a verdade na cara. Ofendi e magoei os brasileiros sem saber. As pessoas diziam que eu era mal-educada, tive de mudar". Para que outros estrangeiros entendam a malandragem e o "jeitinho brasileiro", uma consultora, formada e com mestrado em relações internacionais, dá aulas e treinamento para que esses "expatriados", como ela diz, aprendam a viver em São Paulo e consigam se adaptar ao Brasil e aos brasileiros. (...) "O primeiro problema é entendimento da informalidade. Isso é muito difícil para o estrangeiro entender", afirma Mariana Barros, 28. Com 600 "alunos" treinados nos últimos anos -cada um ao custo que varia de R$ 1.000 a R$ 10 mil-, a "professora" Mariana faz um intensivo de dois ou três dias de aulas de história, geografia e cultura brasileira.. Se Kellemen entendeu de cara o jeitinho, entendê-lo hoje virou comércio e custa caro. Exige professores com mestrado em relações internacionais. O que não deixa de ser uma sofisticada indústria do jeitinho.
COMUNISTAS DESCOBREM UM HABITAT ADEQUADO Do Paraná, Luís Bonow me encaminha uma notícia alvissareira, publicada nos estertores do ano passado: Comunismo no museu: VEREADORES APROVAM PROJETO (O Globo, 27/12/2008). O sonho do Partido Popular Socialista (PPS) de ter um espaço para contar a história da imprensa comunista no Brasil virou realidade. A Câmara dos Vereadores do Rio aprovou, semana passada, um projeto que cria o Museu da Imprensa Comunista. Ele será instalado num casarão da Gamboa comprado pelo Partido Comunista Brasileiro em 1950 e transformado em gráfica, onde eram impressos jornais, livros e outros materiais do movimento comunista. Para restaurá-lo, a Fundação Astrojildo Pereira, com apoio da Prefeitura, fará campanha nacional. O objetivo é angariar recursos e buscar parcerias para a elaboração do projeto e revitalização do local. Longa é a jornada de um imbecil até o entendimento. Vinte anos após a queda do Muro de Berlim, depois anos depois do desmoronamento da União Soviética, finalmente os comunossauros tupiniquins descobriram seu habitat adequado, o museu. Bem que ilustres senhores como Carlos Niemeyer, Ariano Suassuna, Chico Buarque, Luis Fernando Verissimo, Aloísio Nunes Ferreira, Tarso Genro, Zé Dirceu, José Genoíno, Dilma Roussef et caterva já podiam ir doando seus corpos para serem mumificados e assim enriquecer o acervo. Não gosto lá muito de museus, mas este eu visitaria com prazer.
Domingo, Janeiro 18, 2009
SOBRE FUTEBOL E ECONOMIA Quando compro um jornal, jogo fora imediatamente dois cadernos, o de esportes e o de economia. O primeiro, porque esportes se reduziu a futebol no Brasil e detesto futebol. Dentro de trinta minutos, estarei batendo ponto em um simpático botequinho, onde vou limpar a serpentina aos sábados e domingos, antes de dedicar-me à bona-xira. Invariavelmente, todo santo sábado e domingo, lá reúne-se uma mesa onde há um único assunto, futebol. Eles são incapazes de falar de viagens, cinema, amizade, mulheres. Só futebol. Sempre procuro manter uns bons dez metros de distância dos fanáticos, para não ouvir besteiras. Não que deteste o esporte em si, aliás o considero um esporte bonito e inteligente. O problema são as multidões e o fanatismo que gera. Jamais entrei em um estádio. Enfim, a bem da verdade, certa vez entrei em um, em construção, para fazer uma reportagem. Foi em janeiro de 1969, creio. Estava começando como repórter no Diário de Notícias, de Porto Alegre, e “seu” Olinto, o diretor de redação, me chamou: - Janer, vai até o Gigante da Beira-Rio ver o andamento das obras. Minha resposta quase custou-me o emprego: - Certo, “seu” Olinto! De que time é mesmo esse estádio? Perplexidade na redação. A sala era enorme, tínhamos de falar alto. Os redatores não acreditavam no que haviam ouvido. Do setor de esportes, voou pela redação uma pergunta indignada do editor: - Tu não sabes a que time pertence o maior estádio particular do mundo? Não sabia. Aliás, sabia até demais para minha erudição na área. Sabia pelo menos que o tal de Gigante tinha algo a ver com futebol. Essa foi a única vez que entrei em um estádio. Não por preconceito. Eu até que era bom no esporte, me lembro que certa vez fiz um gol. (Milagres acontecem! Meus colegas não conseguiam acreditar no que haviam visto). Ocorre que multidões me horrorizam, sejam quais forem. Se uma multidão vai para o sul, eu rumo ao norte. Pela mesma razão, jamais assisti a uma tourada. Os réveillons quase sempre me pegam nalguma capital européia. Em vez de comemorar na rua com a multidão, me refugio no quarto do hotel. Quanto ao caderno de economia, eu o jogo fora por duas razões. Primeiro, nada entendo de economia. Já entendi o mistério da Santíssima Trindade, mas até hoje não consigo entender a oscilação das bolsas. Por que razões, quando um banco quebra nos Estados Unidos, o índice Bovespa cai? Por que quando uma sumidade americana faz um discurso, a Bolsa sobe? Como é que se fecham grandes negócios com simples gestos de mão? Mistério profundo. Segundo, por mais que eu leia sobre economia, isso não vai afetar minha economia pessoal. Não sou grande investidor, não sou empresário, não sou administrador. Então, nada tenho a ver com tal caderno. Meu consolo foi o que ouvi certa vez de um amigo, redator de economia da Folha de São Paulo: - Nós redatores de economia, não entendemos nada de economia. Mas descobri outra coisa: os economistas também não entendem. O que é óbvio. Se entendessem, uma crise financeira jamais surpreenderia alguém. Assim sendo, é com satisfação que leio, no El País de hoje, esta declaração de Jean Daniel, diretor de redação do francês Nouvel Observateur: Hemos perdido los instrumentos de previsión; eso es lo más novedoso. No hay ciencia económica, no hay conocimiento analítico financiero: se han equivocado todos. Desde hace diez años se han equivocado todos. Hemos perdido los instrumentos de previsión y nos faltan paradigmas. Estoy rodeado de jóvenes economistas, muy seductores y muy simpáticos, pero si los reúno no saco nada en claro. Primero, porque no están de acuerdo entre ellos y cuando están de acuerdo no saben qué va a pasar. Levi-Strauss me lo ha dicho y lo he escrito: la ciencia es importante, todo el mundo se alegra de ello, pero nada es verdadero porque el mundo se ha vuelto imprevisible. Eso decía. Bom saber que não sou só eu que não entende de economia.
Sábado, Janeiro 17, 2009
Momentos sublimes da Bíblia: JEOVÁ MANDA MATAR 12 MIL HOMENS DE AI Josué, 8: 1 Então disse o Senhor a Josué: Não temas, e não te espantes; toma contigo toda a gente de guerra, levanta-te, e sobe a Ai. Olha que te entreguei na tua mão o rei de Ai, o seu povo, a sua cidade e a sua terra. 2 Farás pois a Ai e a seu rei, como fizeste a Jericó e a seu rei; salvo que para vós tomareis os seus despojos, e o seu gado. Põe emboscadas à cidade, por detrás dela. 3 Então Josué levantou-se, com toda a gente de guerra, para subir contra Ai; e escolheu Josué trinta mil homens valorosos, e enviou-os de noite. 4 E deu-lhes ordem, dizendo: Ponde-vos de emboscada contra a cidade, por detrás dela; não vos distancieis muito da cidade, mas estai todos vós apercebidos. 5 Mas eu e todo o povo que está comigo nos aproximaremos da cidade; e quando eles nos saírem ao encontro, como dantes, fugiremos diante deles. 6 E eles sairão atrás de nós, até que os tenhamos afastado da cidade, pois dirão: Fogem diante de nós como dantes. Assim fugiremos diante deles; 7 e vós saireis da emboscada, e tomareis a cidade, porque o Senhor vosso Deus vo-la entregará nas mãos. 8 Logo que tiverdes tomado a cidade, pôr-lhe-eis fogo, fazendo conforme a palavra do Senhor; olhai que vo-lo tenho mandado. 9 Assim Josué os enviou, e eles se foram à emboscada, colocando-se entre Betel e Ai, ao ocidente de Ai; porém Josué passou aquela noite no meio do povo. 10 Levantando-se Josué de madrugada, passou o povo em revista; então subiu, com os anciãos de Israel, adiante do povo contra Ai. 11 Todos os homens armados que estavam com ele subiram e, aproximando-se pela frente da cidade, acamparam-se ao norte de Ai, havendo um vale entre eles e Ai. 12 Tomou também cerca de cinco mil homens, e pô-los de emboscada entre Betel e Ai, ao ocidente da cidade. 13 Assim dispuseram o povo, todo o arraial ao norte da cidade, e a sua emboscada ao ocidente da cidade. Marchou Josué aquela noite até o meio do vale. 14 Quando o rei de Ai viu isto, ele e todo o seu povo se apressaram, levantando-se de madrugada, e os homens da cidade saíram ao encontro de Israel ao combate, ao lugar determinado, defronte da planície; mas ele não sabia que se achava uma emboscada contra ele atrás da cidade. 15 Josué, pois, e todo o Israel fingiram-se feridos diante deles, e fugiram pelo caminho do deserto: 16 Portanto, todo o povo que estava na cidade foi convocado para os perseguir; e seguindo eles após Josué, afastaram-se da cidade. 17 Nem um só homem ficou em Ai, nem em Betel, que não saísse após Israel; assim deixaram a cidade aberta, e seguiram a Israel: 18 Então o Senhor disse a Josué: Estende para Ai a lança que tens na mão; porque eu ta entregarei. E Josué estendeu para a cidade a lança que estava na sua mão. 19 E, tendo ele estendido a mão, os que estavam de emboscada se levantaram apressadamente do seu lugar e, correndo, entraram na cidade, e a tomaram; e, apressando-se, puseram fogo à cidade. 20 Nisso, olhando os homens de Ai para trás, viram a fumaça da cidade, que subia ao céu, e não puderam fugir nem para uma parte nem para outra, porque o povo que fugia para o deserto se tornou contra eles. 21 E vendo Josué e todo o Israel que a emboscada tomara a cidade, e que a fumaça da cidade subia, voltaram e feriram os homens de Ai. 22 Também aqueles que estavam na cidade lhes saíram ao encontro, e assim os de Ai ficaram no meio dos israelitas, estando estes de uma e de outra parte; e feriram-nos, de sorte que não deixaram ficar nem escapar nenhum deles. 23 Mas ao rei de Ai tomaram vivo, e o trouxeram a Josué. 24 Quando os israelitas acabaram de matar todos os moradores de Ai no campo, no deserto para onde os tinham seguido, e havendo todos caído ao fio da espada até serem consumidos, então todo o Israel voltou para Ai e a feriu a fio de espada. 25 Ora, todos os que caíram naquele dia, assim homens como mulheres, foram doze mil, isto é, todos os de Ai. 26 Pois Josué não retirou a mão, que estendera com a lança, até destruir totalmente a todos os moradores de Ai. 27 Tão-somente os israelitas tomaram para si o gado e os despojos da cidade, conforme a palavra que o Senhor ordenara a Josué: 28 Queimou pois Josué a Ai, e a tornou num perpétuo montão de ruínas, como o é até o dia de hoje. 29 Ao rei de Ai enforcou num madeiro, deixando-o ali até a tarde. Ao pôr do sol, por ordem de Josué, tiraram do madeiro o cadáver, lançaram-no à porta da cidade e levantaram sobre ele um grande montão de pedras, que permanece até o dia de hoje.
Sexta-feira, Janeiro 16, 2009
EU, PROFETA Em junho de 2004, em resposta a Luiz Mott, Secretário de Direitos Humanos do Grupo Gay da Bahia, Professor Titular de Antropologia, Universidade Federal da Bahia, eu escrevia, comentando o casamento entre homossexuais: Mais um pouco e estarão exigindo fidelidade do parceiro. Muito em breve, teremos tédio conjugal e divórcio, males que antes não afetavam os homos. Em vez de fugir ao modelo que está se revelando inadequado ao mundo contemporâneo, os gays nele buscam proteção. Como se núpcias de véu e grinalda os redimissem de um hipotético pecado original. O que um dia foi transgressão e libertação, está virando instituição. Homossexualismo está perdendo a graça. Mais um pouco, os homos - da mesma forma que os negros - estarão exigindo cotas na universidade. Parece que a idéia vingou. Um leitor me envia texto recente do Secretário de Direitos Humanos do Grupo Gay da Bahia: Políticas afirmativas e cotas de reparação para os homossexuais 1. A concessão de cotas como estratégia governamental de ação afirmativa em favor dos afro-descendentes (20%), das mulheres (20%) e deficientes físicos (5%) já é lei na contratação de novos funcionários nos Ministérios da Justiça e Reforma Agrária, e em proporções específicas na seleção de alunos para o Itamaraty, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, etc. Trata-se portanto de uma tendência que deve se ampliar para outros setores, estados e com certeza, incluir outros segmentos discriminados. (...) Claro que medidas estruturais de longo alcance são igualmente imprescindíveis, permitindo que negros, mulheres, homossexuais, deficientes físicos, índios e demais minorias sociais tenham igualdade de acesso a todos os benefícios que hoje são privilégio da elite comanda pelo homens-brancos. E que políticas públicas afirmativas e legislação específica sejam implementadas no sentido de erradicar e punir o racismo, homofobia, machismo e demais preconceitos que impedem o acesso igual de todos à cidadania plena. 2. Diz a Constituição Federal que todos são iguais perante a lei. Ora, se as cotas e demais ações afirmativas visam corrigir as discriminações históricas contra os grupos socialmente mais vulneráveis, todos os grupos sociais vítimas de discriminação e que têm sua cidadania limitada devido a tais peculiaridades, devem ter igualitariamente os mesmos direitos a se beneficiar das reparações legais. Portanto, já que os homossexuais de ambos sexos constituem comprovadamente o segmento social mais discriminado na sociedade brasileira posto que diferentemente das demais minorias, os gays, travestis, transexuais e lésbicas sofrem gravíssimas violações de seus direitos dentro de casa, praticados pela própria família, ultrapassando em mais de 95% os homossexuais que devido à opressão heterossexista não ousam assumir e afirmar sua identidade sexual e estilo de vida diferenciado; já que o critério diferencial da implementação de ações afirmativas é exatamente o maior grau de apartação social que pesa sobre diferentes grupos sociais, nada mais justo e certo que os mais discriminados sejam os mais beneficiados, cabendo portanto aos homossexuais tratamento diferenciado pois são comprovadamente os mais vitimizados em nosso país. Aliás, a própria Constituição Federal garante o princípio de isonomia: a igualdade de todos perante a lei. Se as cotas foram legalizadas para os discriminados, que todos, inclusive os GLT tenham acessos igual a tais direitos. Em suma, na hora do vestibular, se você quiser ganhar no tapetão, se não for negro basta dizer-se homossexual. Mesmo que não seja. O acesso à universidade sempre vale uma inocente mentirinha. Mas Mott já se previne contra fraudes: 3. A argumentação de que a implementação de cotas aos homossexuais abriria espaço para "falsos" homossexuais concorrerem a tais benefícios não é suficiente para descartar esta proposta afirmativa. Primeiramente, caberá aos verdadeiros gays, lésbicas e transgêneros se anteciparem na solicitação das cotas, o que redundará na maior visibilidade, reforço da auto-estima e afirmação de uma numerosa categoria social que faz da auto-negação, da clandestinidade, da mentira, seu estilo de vida. Do mesmo modo como deve funcionar com os afro-descendentes, o critério de seleção dos beneficiários das cotas deve ser a auto-identificação, e apenas em casos de dúvida, em comprovação documental no caso dos negros, a cor dos progenitores ou antepassados próximos, ou até mesmo, exame do dna nos casos mais polêmicos. No caso dos homoeróticos, a auto-identificacao como gay, lésbica ou transgênero deve ser suficiente para comprovar a orientação sexual. Porém, no caso de dúvida, provas documentais podem ser exigidas como já faz o INSS para comprovar que o/a homossexual vivia relação estável com alguém do mesmo sexo, recebendo o benefício correspondente. Não vamos deixar de pleitear direitos fundamentais sob o argumento menor que haverá fraudadores. Nestes casos, os grupos homossexuais organizados têm estrutura e criatividade para propor soluções afim de equacionar tais problemas. Neste sentido, o Conselho Nacional de Combate à Discriminação aprovou em sua primeira reunião, (18-12-2001), minha proposta de criação de um Conselho Nacional das Minorias Sexuais (nome e funções a serem discutidas), órgão que poderá, perfeitamente, estabelecer os critérios de comprovação da fidedignidade dos candidatos homossexuais e exclusão dos falsários. Como provará esse órgão - sem trocadilhos - a condição de homossexual do vestibulando? Se sexualidade é algo íntimo, de modo geral praticado entre quatro paredes, sem testemunhas, como comprovar homossexualidade ante uma comissão? A meu ver, só um método seria eficiente: baixar as calças e mandar ver. Quanto ao Conselho Nacional das Minorias Sexuais, a idéia também é minha. Em junho de 2004, comentando o financiamento estatal das paradas gays, eu propunha a criação da Homobrás: Não bastasse este obsceno saque, sacramentado por leis corporativistas, ocorreu em junho/2004, no centro de São Paulo o insólito em matéria de corrupção estatal. O centro da cidade foi tomado por uma parada gay, que vem se repetindo há sete anos. Que os gays façam paradas, até que se entende, embora particularmente me desagrade todo exibicionismo sexual nas ruas. O difícil de entender é que a promoção tenha sido beneficiada pela Lei do Mecenato do Ministério da Cultura, captando 503 mil reais, de pessoas físicas e jurídicas, a título de incentivos fiscais. Já no ano passado, a Associação do Orgulho Gay, entidade promotora do evento, havia tungado do contribuinte R$ 441 mil. O governo ainda repassou R$ 43 mi do Fundo Nacional de Cultura para a realização da versão baiana da Parada Gay, realizada em semanas anteriores em Salvador. "Não estamos repassando recursos para um movimento social, mas para um movimento cultural", justificou o ator e secretário de Identidade e Diversidade Cultural do ministério, Sérgio Mamberti. "O ministério trabalha com um conceito ampliado e moderno". "Neste país incrível, homossexualismo é cultura. Mais ainda: virou questão de Estado. Mais um pouco e teremos a Homobrás. O homossexualismo é nosso. Do universo entre as nações, resplandece a do Brasil. Criamos o gay estatal". Cala-te boca! Sem querer, virei profeta.
MINISTÉRIO DO PRAZER FORNECE DILDOS E GEL Que Oscar Niemeyer teça loas a Stalin, entende-se. Niemeyer sempre foi stalinista. Que Tarso Genro conceda asilo a um terrorista, ao arrepio do Itamaraty e do STF e mesmo de seu próprio ministério, também se entende. Tarso sempre foi comunista e está dando proteção aos companheiros de obscurantismo. Mais difíceis de se entender são as medidas do ministro José Gomes Temporão, da Saúde. Entre as metas do ministério da Saúde para este ano está a distribuição de 1,2 bilhão de preservativos para Estados e municípios. O valor representa quase o triplo do que foi repassado no ano passado, e que já havia batido o recorde, com 406 milhões de unidades. De acordo com o ministério esta será a maior compra de preservativos já realizada no mundo. A medida é discutível. Se preservativos são necessários para evitar doenças venéreas, gravidez e principalmente a AIDS, é de perguntar-se se cabe a um ministério fornecer à população medidas que deviam ser tomadas pelos interessados. Em um país em que o Estado não consegue garantir sequer a segurança de seus cidadãos, transferindo a cada um o ônus da própria proteção - grades, câmeras de vigilância e vigilantes – soa estranho ver um ministério se preocupando em garantir a todos sexo seguro. Constata-se mais preocupação com a sexualidade do cidadão do que com sua vida ou posses. A medida é discutível, dizia. Mas vá lá. Se previne gravidez e DSTs, não deixa de ter seu mérito. Já mais difícil de entender é a distribuição de pênis de borracha e cartilha para tornar mais prazeroso o sexo anal. Os pênis de borracha teriam finalidade didática, para ensinar como se coloca um preservativo. Como se fosse necessário levar um dildo a uma sala de aula para ensinar tal prática. Enfim, como o material não é descartável, sempre poderá servir para tornar mais alegre a sofrida vida das professoras. Mas, se o problema é de ordem didática, bem que se poderia contratar um casal de atores pornôs, ou mesmo prostitutas, para ensinar direitinho como exercitar a prática deste ato extremamente complexo. O que, além do mais, expandiria o mercado de trabalho dos profissionais do sexo, medida muito oportuna nestes dias de crise. Mas mais difícil de entender – senão impossível – é a compra de 15 milhões de sachês de gel lubrificante, geralmente empregados para a prática de sexo anal. Por um lado, se distribui camisinhas para evitar, entre outras doenças, a AIDS. Por outro, se estimula a prática que mais propicia a AIDS. O governo – isto é, o contribuinte, eu, você, nós todos – vai gastar 40 milhões de reais na brincadeira. Só para tornar mais confortável o sexo anal. Quem me acompanha, sabe que nada tenho contra o homossexualismo. Sou a favor de toda e qualquer prática sexual, desde que não implique constrangimento nem violência. Daí a contribuir para lubrificar pênis alheios, vai uma longa distância. Temos não propriamente um ministério da Saúde. Mas um ministério do Prazer. O que me parece luxo demais para um país com problemas tão graves como o nosso. Mais um pouco, e o ministro Temporão estará financiando o atendimento das profissionais a todos os sem-sexo do país. Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! não verás nenhum país como este!
Quinta-feira, Janeiro 15, 2009
MINISTRO DA SAÚDE QUER BRASIL MAIS LUBRIFICADO PREGÃO N.°142/2008 PROCESSO N° 25000.019579/2008-71 Tipo de Licitação: MENOR PREÇO Data: 22/12/2008 Horário: 10:00 horas Local: Esplanada dos Ministérios, Bloco “G”, Ed. Anexo, Ala “A”, Sala 423, Brasília/DF A União, por intermédio da Coordenação-Geral de Recursos Logísticos – CGRL da Subsecretaria de Assuntos Administrativos – SAA do Ministério da Saúde, mediante o Pregoeiro, designado pela Portaria nº 02, de 20 de maio de 2008, publicada no D.O.U do dia 21 de maio de 2008, torna público para conhecimento dos interessados que na data, horário e local acima indicados fará realizar licitação na modalidade de PREGÃO, do tipo menor preço, conforme descrito neste Edital e seus Anexos. 1. DO OBJETO 1.1. O presente Pregão tem por objeto a aquisição do produto abaixo, conforme Termo de Referência – Anexo I: ITEM PRODUTO QUANTIDADE 01 Gel Lubrificante 15.000.000 de sachês 1.2. Os interessados em participar desta Licitação poderão obter este Edital na Esplanada dos Ministérios, Bloco G, Ministério da Saúde, Anexo “A”, 4º andar, Hall, das 8h às 12h e das 14h às 18h, ou no site www.comprasnet.gov.br.
Quarta-feira, Janeiro 14, 2009
RESPOSTA AO FERNANDO Meu caro Fernando: Não tenho preconceitos. Preconceito não é falta de inteligência, como você o define. Preconceito é fazer juízos a respeito do que não se conhece. Eu não faço juízos a respeito do que não conheço. Só os faço sobre o que eu conheço. Não tenho preconceitos. Tenho pós-conceitos. É diferente. Preconceito, por exemplo, é chamar de abominável o Homem das Neves, que afinal de contas ninguém ainda viu de perto. Por que então abominável? Não interpreto a Bíblia. Nunca interpretei. Deixo isso para os teólogos. Eu a exponho como ela é. Muitas vezes, publico capítulos inteiros da Bíblia sem fazer um único comentário. Se isto choca, o que choca é o texto bíblico, não o cronista. Não tenho responsabilidade alguma nos massacres provocados por Jeová e muito menos nos massacres que Jeová autoriza ao Povo Eleito executar. "Você ofende o Deus que bem ou mal guia a vida de milhões". Eu não ofendo Deus nenhum. Para começar, Deus não existe. Impossível ofender o que não existe. Me reservo no entanto o direito de tecer comentários àquele deus proposto pela Bíblia. Eu o comento como personagem literário, assim como comentaria o Quixote ou Pantagruel. Por esse personagem, não tenho nenhum respeito. Se fosse respeitá-lo, teria também de respeitar tiranos como Lênin, Hitler, Stalin, Mao, Pol Pot ou Castro. Estes senhores mataram parte da humanidade. Jeová, no Gênesis, mata todos, menos Noé e sua família. E por que? Porque os filhos dos deuses acharam belas as filhas dos homens. Ora, isso é lá motivo para exterminar o gênero humano, mais os animais de cambulhada? É o ódio veterotestamentário à beleza. “Quem mata um é assassino, quem mata milhões é conquistador, quem mata todos é Deus”, já dizia Jean Rostand. Não existe 50% de chances de se estar certo ou errado sobre a existência de Deus. As chances são de 100%. Ou existe, ou não existe. Se existisse, em nada influiria em minha vida. Só o que faltava o criador de todas as coisas estar preocupado em gerir a vida de cada um dos bilhões de seres que habitam um planetinha de uma galaxiazinha perdida nos confins do universo conhecido. E se por acaso estivesse preocupado em gerir minha vida, eu o mandaria às favas. Respeito a fé das pessoas. Jamais diria a alguém para abandonar sua fé. Fé é coisa que faz falta a pobres de espírito e jamais me ocorreria chutar a muleta de um aleijado. Religiões e Deus não respeito. Você certamente nunca leu a Bíblia. Se a lesse com atenção, perderia todo respeito por aquele deus tribal, ciumento, autoritário e cruel, que as Escrituras mostram. Por favor, leia o Livro. Desconheço obra mais sanguinolenta e cheia de ódio. Mesmo o Cristo, que fala de amor, afirma com todas as letras: "Eu não vim trazer paz, mas espada". Isso sem falar na constante ameaça de inferno no Novo Testamento, uma das criações mais odiosas dos autores dos textos ditos sagrados. Não sei o que você entende por emergente. A palavra é bastante ambígua. Eu a entendo como a definição de alguém que saiu de uma classe social inferior, tornou-se rico e vive vida de rico. Emergente, para mim, é um eufemismo para novo rico. Sim, eu escapei de minha classe social. Era um camponês, vivia no campo, sem acesso algum aos bens culturais da cidade. No campo não há comunicações, trocas culturais. Se lá permanecesse, seria um zero à esquerda. Mas não sou rico - muito menos novo rico - nem levo vida de rico. Tenho o dinheiro suficiente para meu sustento e para minhas viagens, nada mais que isso. Não tenho carro. Aliás, nem sei dirigir. Não tenho sítio nem casa de praia, não uso roupas de grife, não freqüento colunas sociais nem restaurantes de luxo. O apartamento em que vivo é meu único imóvel. Viagens à parte, meu consumo consiste em comer e beber - e sem isto não se vive - e comprar algumas calças e camisas lá de vez em quando. Ah! Também compro livros e música. Se fosse rico, meu caro, esteja certo de que não estaria vivendo no Brasil. Me reservo o direito de criticar toda e qualquer religião. Se criticamos o Estado, se criticamos filosofias e comportamentos, se criticamos artes e literatura, por que estaríamos proibidos de criticar religiões? Estariam as religiões acima de qualquer crítica? Não estão. Se isto fere suas convicções, paciência. Qualquer jornal que você leia, em algum momento, inevitavelmente, vai ferir seu modo de ver o mundo. Democracia é assim mesmo. Idade Média é outro departamento. Ainda há pouco, um amigo me dizia: "se deixasses de criticar comunistas e católicos, decuplicarias teu público". O que me lembrou minha falecida mãe. Preocupada com o futuro da cria, já há uns bons quarenta anos, me recomendava: "Por que não escreves sobre flores, meu filho? Há tantas flores no Brasil". Ora, em primeiro lugar, nada entendo de floricultura. Em segundo, não tenho interesse algum em decuplicar meu público. Deixo isso para os Edires Macedos e Bentos da vida. No dia em que eu tiver cem mil leitores, me olharei no espelho e me perguntarei sobre o que ando escrevendo de errado. Escrevo para poucos e cultivo meus poucos. Você fala de uma "lei da justiça (por mais que você não a consiga compreender ou não concorde), e ela será aplicada a todos". Confesso nunca ter ouvido falar de uma lei da justiça. Ouvi falar de leis e de justiça, conceitos que nem sempre coincidem. As leis são tentativas de chegar-se à justiça. Sua afirmação soa como ameaça: "ou você acredita em deus ou assume as conseqüências de sua descrença". Não aceito ameaças. Quanto às conseqüências de meu modo de pensar, as assumo serenamente. Não sou proselitista, jamais pedi a alguém que me siga. Nem mesmo que me leia. Quanto a mulheres, eu as tenho porque gosto. Não vejo nada de errado em gostar de mulheres. Sempre me senti bem entre elas e sempre as cultivei com carinho. Junto com o vinho, as viagens e a música, são o melhor da vida. Quis o bom deus dos ateus que elas jamais me faltassem. Se você se decepcionou com minhas colunas, é simples. Não mais as leia. Evitará aborrecimentos.
CARTA DO FERNANDO Um leitor me escreve: Janer, Acompanho o Baguete há dois anos, desde que mudei de SP para Porto Alegre e recentemente descobri sua interessante coluna. Acompanhei algumas e me pareciam bastante interessantes. Descobri então seu Blog e li vários textos, de várias datas diferentes. Permita-me expressar a você minha opinião, assim como você expressa a sua publicamente. Não quero discutir doutrinas, dogmas, fatos históricos, religiosos, sejam eles verdadeiros ou manipulados e inventados pelo homem, pois seu conhecimento que você tanto gosta de se orgulhar de ter adquirido parece ser amplo e obviamente maior que o meu. Mas penso meu caro, que você comete um grave erro nas suas colunas, que é o do preconceito. Para mim preconceito é falta de inteligência e não gera nada de valor. Vide Rio Grande do Sul, que é um estado formado por um povo cheio de preconceitos, logo, não sai do mesmo lugar há décadas... Seus comentários sobre religião são preconceituosos. São baseados em suas experiências negativas e sua interpretação da bíblia e de outros escritos. Você diz respeitar todas as "fés", mas seus textos são completamente desrespeitosos. Você ofende o Deus que bem ou mal guia a vida de milhões. Você se coloca em uma posição de superioridade por seus títulos seculares, suas viagens, as tantas mulheres que você diz terem passado por seu caminho, seu dinheiro. Você se orgulha de ser um emergente, ter saído de uma infância pobre e ter se tornado o que você se tornou e seu texto evoca prepotência. Você não respeita o que não lhe agrada. Você menospreza quem julga inferior a todo seu conhecimento e vida. Isso não condiz com toda a cultura que você tanto se gaba de ter adquirido. Eu respeito que pessoas não acreditem em Deus. Eu creio e tenho razões para isso. Você não crê e tem suas razões para isso. Mas você não respeita a religião e o Deus das pessoas. E neste ponto, me decepcionei com suas colunas. Se pensarmos friamente, você tem 50% de chance de estar certo, de Deus não existir, de tudo ser uma grande bobagem. Por outro lado, você tem 50% de chance de estar errado e você ter sido, com o perdão da palavra, um grande pateta toda a sua vida. Torça para estar certo, pois há uma lei em que os cristãos crêem que é a lei da justiça (por mais que você não a consiga compreender ou não concorde), e ela será aplicada a todos. Atenciosamente, Fernando
MINISTRO COMUNISTA QUE DEVOLVEU À DITADURA CUBANA DOIS DISSIDENTES CONCEDE ASILO A TERRORISTA ITALIANO Não bastasse Oscar Niemeyer tecer recentemente loas a um dos maiores assassinos do século passado, coube agora ao ministro da Justiça, Tarso Fernando Genro, conceder asilo político a um assassino menor, terrorista foragido da justiça italiana. Tarso, que devolveu à ditadura cubana dois esportistas que buscavam asilo político no Brasil e jamais haviam cometido crime algum em Cuba, acaba de conceder asilo político ao italiano Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos entre 1978 e 1979. Ex-militante comunista das Brigadas Vermelhas, ele foi preso no Rio em março de 2007 e pode ser solto hoje. Battisti viveu por mais de uma década na França, abrigado inicialmente pelo governo de François Mitterrand, sob a condição de ter renunciado à luta armada. Na Itália, foi condenado à prisão perpétua à revelia, a partir de provas fornecidas pelo depoimento de Pietro Mutti, fundador do Proletários Armados pelo Comunismo, do qual Battisti fez parte. "A sua potencial impossibilidade de ampla defesa face à radicalização da situação política na Itália, no mínimo, geram uma profunda dúvida sobre se o recorrente teve direito ao devido processo legal", diz o texto assinado por Tarso ao justificar a concessão do refúgio. Como se a Itália contemporânea fosse uma ditadura onde um réu não tem direito à defesa. Battisti foi condenado à revelia porque estava refugiado na França, sob as asas protetoras do colaborador nazista François Mitterrand. Em favor do terrorista italiano, manifestou-se também um outro terrorista brasileiro, Fernando Gabeira, seqüestrador do cônsul americano Charles Burke Elbrick e que hoje posa de vestal defensora do verde. Não por acaso, o Brasil é o país preferido por onze entre dez facínoras internacionais. O ministério italiano de Assuntos Estrangeiros pediu hoje mesmo que o presidente brasileiro reveja a decisão de Tarso Genro. Mas comunistas sempre protegem terroristas. Se Lula revisar a decisão de seu ministro de Justiça, está mais que na hora de mandá-lo passear.
Terça-feira, Janeiro 13, 2009
JUIZ MANTÉM O MUNDO LONGE DOS BRASILEIROS Tenho comentado, em crônicas passadas, o absurdo das tarifas aéreas internacionais praticadas no Brasil. Na Folha de São Paulo de hoje, leio sobre um levantamento feito pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), segundo o qual a compra de bilhetes para o exterior pode custar até 66% mais no Brasil do que se a passagem fosse comprada no exterior. O percurso São Paulo-Nova York-SP pela American Airlines custa US$ 972 no Brasil. Já o bilhete Nova York-SP-Nova York sai por US$ 584, de acordo com a coleta que inclui exemplos também de TAM, Air France e British Airways. Como já comentei na terça-feira passada, estava previsto para o dia 1º de janeiro o início de um processo de flexibilização de tarifas que resultaria na liberdade total de preços a partir de 2010. Segundo a Folha, o Snea (Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias) - leia-se TAM - questionou na Justiça o fato de a agência não ter realizado uma audiência pública, e o início das promoções foi suspenso. Três empresas aéreas já estavam com descontos prontos para serem aplicados no início deste ano, mas foram forçadas a engavetá-los. No fundo, o dedo da TAM. Na sentença que suspendeu o desconto, o desembargador Jirair Meguerian argumentou que a resolução da Anac gera “efeitos imediatos e catastróficos para as companhias aéreas brasileiras e para o mercado em geral, além de favorecer a prática do dumping pelas companhias internacionais, que valem-se de subsídios governamentais e poderão praticar tarifas muito inferiores àquelas praticadas pelas empresas nacionais”. Na época, a Anac, que propunha a liberação de tarifas, aventava redução de até 80% no prelo dos bilhetes (U$174 numa passagem de ida-e-volta para a Europa). A meu ver, isto é um tanto inviável. Mas quem deve decidir isto é o mercado e não um juiz. Só o que faltava, um juiz pretender revogar a lei da oferta e da procura. Isto existia nos países socialistas. Ora, o socialismo morreu há duas décadas – et pour cause! – e a TAM ainda não tomou conhecimento disto. Da falecida Varig, herdou a mania de oligopólio. Se antes o protecionismo da empresa aérea era garantido pelo DAC (Departamento de Aeronáutica Civil), hoje é assegurado pela justiça. Ora, lixem-se as empresas nacionais. Se não são competentes para enfrentar a livre concorrência, que vendam suas naves como sucata e entreguem seus slots a quem tiver competência. Enquanto no Ocidente todo se viaja barato, nós, brasileiros, temos de pagar as mais altas tarifas. Isso sem falar nas taxas de embarque, que também estão entre as mais altas do mundo. Comentei minha estratégia de fugir ao oligopólio nos dias de Varig. Viajava sempre pela LAP, PLUNA, Linhas Aéreas Argentinas. O problema é que tinha de sair do Brasil para pegar o avião. As empresas estrangeiras podem oferecer preços de sonho aos brasileiros. Mas de lá para cá. Daqui para lá, a guilda não permite. Você já pensou em viajar pagando zero, seja lá na moeda que for? Isso existe. Há uns quatro ou cinco anos, passando por Madri, convidei para visitar-me uma sobrinha que vivia em Londres. Ela voou pela Ryan Air, por... zero libra esterlina, mais as taxas de embarque. Pagou mais indo de metrô até o aeroporto do que voando de Londres a Madri. Certa vez, tive de fazer um vôo de Milão a Madri. A moça me perguntou se era ida-e-volta. Não, era só ida. Ok, disse a moça, então você compra ida-e-volta. Mas eu quero só ida, objetei. É que ida-e-volta é mais barato do que só ida. Há uns três anos, em Barcelona – quando ainda não existia o AVE Barcelona/Madri – eu tinha de chegar a Madri. Examinei os preços de trem. Custava algo em torno de 100 euros, para nove horas de viagem. Resolvi pesquisar em uma agência de turismo. De avião, pela Easy Jet, paguei 56 euros. Para uma viagem de uma hora. O que, no fundo, até me entristece. Pois gosto de viajar de trem. Mas na hora de comparar preços e tempo de viagem, impossível resistir ao avião. Proponho ao leitor alguns trajetos hipotéticos. Por exemplo, de Londres a Oslo, na Noruega. Ou de Londres a Perugia, na Itália. Ou de Liverpool a Paris. Ou de Liverpool a Estocolmo. Ou de Birmingham, na Inglaterra, a Barcelona. Ou de Bristol a Budapeste. Tem idéia o leitor de quanto pagará por tais trajetos? Claro que não tem. Então, informo: 1 £. Ou seja, uma libra esterlina. Ou seja, 3,39 reais, à cotação de hoje. Pela mesma Ryan Air, onde minha sobrinha pagou 0 £ - zero libra esterlina – para ir de Londres até Madri. Zero libra, é bom lembrar, é igual a zero real, seja qual for a cotação do dia. Por acaso a British Airways teme falir com a concorrência da Ryan Air? Bateu às portas da Justiça para evitar dumping? O Brasil, apesar das fanfarronices do Supremo Apedeuta, ainda não saiu daquela época em que, graças ao monopólio estatal da telefonia, se pagava 4.000 dólares por um telefone. O deplorável, em tudo isso, é que um juiz, de uma penada, afaste os brasileiros do Exterior. Se você tem alguma dúvida quanto às tarifas praticadas pela Ryan Air, confira: http://www.ryanair.com/site/EN. E depois repita comigo: MORTE À TAM!
Segunda-feira, Janeiro 12, 2009
POTOCAS DO ALÉM De um leitor, recebo: Eu quero saber como é que a gente vira ateu, porque um cara como eu que passou a vida toda atrás de religião e assim do nada não acreditar em mais nada, como pode ser isso, eu confesso que estou com inveja de você, Janer, ser ateu e não acreditar em mais nada, em deus, cristo, maria, santos, ou então em exus, guias do candomblé, forças da natureza como silfos, gnomos, salamandras, ondinas. Cara, eu cresci dentro dessas coisas, e confesso que não me trouxeram paz nem prosperidade financeira. O que faço? Será que você poderia me dar quem sabe um conselho? Caro, aprendi algo novo com sua mensagem. Essa das ondinas eu não conhecia. Já vi gente que assume a Guerra nas Estrelas como religião. Quanto a esses seres que vivem nos riachos, nas fontes, no orvalho das folhas sobre as águas e nos musgos, deles não tinha notícia. Me parece que pertencem mais à esfera do mito do que à da religião. Trocando os queijos de bolso, vamos ao cerne da questão. Não saberia dizer como as pessoas tornam-se atéias. O máximo que posso falar é de mim mesmo. Para começar, é preciso entender que todos nascemos ateus. Ninguém nasce crendo em deus ou deuses. O deus é introduzido no cérebro da criança através da família, da escola, da igreja e mesmo do Estado. Então, o problema começa mal formulado. Não é que alguém se torne ateu. Ele apenas volta à condição normal de ateu, na qual todos nascemos. Nasci num universo mais ou menos pagão onde, se havia uma vaga idéia de um deus que criara aquilo tudo, não havia culto algum a esse deus. Nasci no campo e nunca celebrei o Natal ou Páscoa em minha infância. Havia, isto sim, um culto ao fogo, as fogueiras juninas de São Pedro, São João e Santo Antonio. Suponho que os camponeses daqueles pagos não tinham muita idéia de quem eram estes senhores. Mas contemplar uma fogueira fazia bem à alma daquelas gentes. Fui seqüestrado para as hostes católicas lá pelos seis ou sete anos, por uma catequista, mulher de um fazendeiro do Uruguai, Doña Chichi. Ela percorria a Linha Divisória numa camionete com caçamba e ia arrebanhando a piazada dos dois lados da fronteira. Para nós, a suprema aventura não era ouvir o catecismo, mas “andar de auto”. Ao final das aulas, Doña Chichi nos induzia a rezar al Todo Poderoso, para que traiga lluvia a nuestras tierras, para que se possa escoar la safra de la lana. Eu, mais pelo prazer de andar de camionete do que por outra coisa, fazia coro às preces da catequista. Aos dez anos, conheci cidade. Fui para Dom Pedrito, onde fiz o ginásio, dirigido pelos Padres Oblatos, ordem oriunda da Alemanha. Foram excelentes mestres de línguas e matemática e souberam reunir uma boa equipe de professores laicos, para ensino de história, geografia, biologia. Aos Oblatos do Colégio Patrocínio, minha eterna gratidão pela educação que me propiciaram, educação que hoje não encontramos nem nas universidades. O problema era a religião. A disciplina era obrigatória e a doutrinação intensa. Fui introduzido em uma doutrina baseada no terror e na reverência a um deus mudo, com especial insistência aos sexto e nono mandamentos. Pecado, para os Oblatos, eram os pecados ditos da carne. Os demais eram irrelevantes. Para comungar, precisávamos estar em estado de graça. Isto é, absolvido de todos os pecados. As confissões eram em geral aos sábados, para que no domingo a pobre alminha estivesse limpa de toda mácula. Então vinha o interrogatório constrangedor: - Pecou contra a carne, filho? Quantas vezes? Como e onde? Hoje, não tenho dúvidas de que os padres se masturbavam, do outro lado da tela do confessionário, ouvindo aqueles relatos. Eles foram os precursores do sexo por telefone. Só que sem telefone. Ocorre que, entre a confissão de sábado e a comunhão de domingo, havia a longa noite de sábado. No domingo pela manhã, estávamos de novo impuros, cheios de culpa e apavorados com as chamas do inferno. Mas sempre havia um padre de plantão para absolver os reincidentes. O Patrocínio era exclusivamente masculino, quando comecei meus estudos. As aulas eram um festival desbragado de masturbação. Os padres não ignoravam aquilo, impossível não sentir o cheiro de esperma no ar. Eu, ainda impúbere, olhava para aquela azáfama toda, sem entender muito bem o que estava acontecendo. Tenho ainda viva na memória uma cena digna do Gênesis. Um de meus colegas, que por ironia se chamava Caim, se excedeu no bom folguedo e o padre Lourenço se sentiu obrigado a tomar uma atitude. - Caim, levante-se! Desajeitado, Caim se levantou, tentando fechar a braguilha. - Que foi, professor? Com um dedo acusador, suponho que aquele mesmo gesto com que o anjo do Senhor expulsou Adão e Eva do paraíso, mostrou a porta da sala: - Pegue seus livros e vá à casa. A orgia só terminou quando Leonel Brizola encampou o colégio. Que se tornou então misto. Com a presença feminina, terminou o festival. Nessa altura, eu já chegara à puberdade. Não conseguia entender aquelas proibições. Estava cercado de meninas e queria algo mais delas do que um simples beijo. E lá vinham os argumentos de pecado contra a castidade. Na classificação da Igreja Católica, o sexto mandamento. Peguei uma Bíblia e fui pesquisar o Êxodo, onde estão os mandamentos. Li o livro de ponta a ponta, não encontrei nem sombra da palavrinha castidade. De Bíblia em punho, chamei uma coleguinha de origem basca, a Irigaray, que eu paquerava, para lermos junto a palavra divina. Lemos tudo referente aos mandamentos. - Encontraste alguma menção à castidade? – perguntei. - Não. - Então, vamos lá? - Ai, que horror, Janer, pára com essas bobagens. Com o tempo, aprendi que não é com lógica que se leva uma mulher para a cama. Tentando uma primeira resposta ao leitor, eu diria que a primeira coisa a afastar-me do tal de Deus foi uma sexualidade imperiosa, exigente e implacável. A carne não era fraca, como diziam os padres. Era forte. Tão forte que não conseguíamos dominá-la. Se sexo era bom e não fazia mal a ninguém, por que privar-me de sexo? Meu ateísmo começou por aí. Obviamente, a negação de um deus não passa por uma questão de sexualidade exacerbada. Um pouco mais adiante, li a Bíblia de ponta a ponta. Aquele deus era inviável. Cruel, exterminador, genocida, Jeová estava mais para facínora do que para divindade. Além do mais, ia tomando diferentes formas, conforme a data dos livros. Só podia ser obra do intelecto humano, criação de sacerdotes sedentos de poder. Não há crença que sobreviva a uma leitura atenta da Bíblia. Não por acaso, houve época em que a Igreja proibiu sua leitura para menores de 30 anos. Não por acaso, mandou Fray Luís de Leon para as masmorras, por ter ousado traduzir alguns livros do Livro ao espanhol. Em suma, retornei a meu ateísmo primevo lendo a Bíblia. Não sei qual foi o caminho de outros ateus. Só posso dizer que passa pela leitura. Sem leitura – apesar do que pensa o Lula – não há salvação. Não acredito que religião traga paz. Aliás, o Cristo dizia: “não vim trazer paz, mas espada”. Quanto a prosperidade, só para os sacerdotes. Os sacerdotes conseguem fortunas com blá-blá-blá. O crente, só a consegue se trabalhar duro. Se depois a atribui a Deus, é um ingênuo sem cura. É como aqueles doentes graves, que se submetem à medicina de ponta e rezam ao mesmo tempo. Se são curados, atribuem a cura ao tal de deus. Posso não acreditar em “deus, cristo, maria, santos, ou então em exus, guias do candomblé, forças da natureza como silfos, gnomos, salamandras, ondinas”. Mas acredito em muitas outras coisas. Apesar dos pesares, acredito no ser humano. Para cada Hitler ou Stalin, sempre surge um Mozart ou Da Vinci. Para cada Paulo Coelho ou Bruna Surfistinha, sempre há um Swift ou Cervantes. Acredito na amizade, no trabalho, no engenho humano, na construção das sociedades. Acredito nas pessoas que me cercam e inclusive em mim mesmo. Acredito no bom vinho e no uísque, no camembert e no foie gras. Acredito que Paris e Madri, entre outras, existem. Acredito nos amigos e amigas que tive. Acredito que existes e acredito que, neste momento, estou conversando contigo. Estas são minhas crenças básicas. De mais não preciso. Quanto a conselhos, caro leitor, não os dou a ninguém. Suponho que a fé faça bem a pobres de espírito. Por que privá-los então de uma crença que lhes é benéfica? Ateísmo é para quem não tem medo da morte nem acredita em potocas do Além. Estes são raros.
Domingo, Janeiro 11, 2009
VERÃO FELIZ (Poema do filósofo, poeta e cientista Carlos Ducatti, precursor das pesquisas ufológicas do Serviço Nacional de Informações) Bem mais torto que a Terra, o planeta Silonado abrigava, em sua face, um povinho alaranjado. Trabalhando, se esforçando, vinte meses anuais, em cinco, sendo calor, o esforço era demais. Desse jeito, vão-não-vai, produzindo... como não? O serviço é necessário mas difícil, no verão. O problema do trabalho demandava solução. Procurando resolvê-lo, reuniu-se a Direção. Meio-meio, vão-não-vai, é um esquema complicado. Bem melhor é tudo-ou-nada para o povo alaranjado. Resolveu-se, desta forma, cinco meses, na região, congelar o povo inteiro no intervalo do verão. Construíram, para isto, milhares de hibernadores. Todo mundo, congelado, passa o tempo sem calores.
O SNI, ÓVNIS E O HOMEM DE ORION Porto-alegrenses de minha idade certamente lembrarão de Carlos Ducatti, o cientista, filósofo e poeta orionino. Ou orionano, não lembro agora. Ele não era terráqueo. Viera da nebulosa de Orion e tinha uma missão na Terra. Seguidamente eu o encontrava no Chalé da Praça XV e certa vez tivemos uma longa discussão sobre o que era ser orionino ou orianano. Não lembro agora como ele se definia. Mas havia uma substancial diferença entre um e outro conceito. Ora, vivíamos em uma cultura na qual milhões de pessoas acreditam na existência de uma mãe virgem. Por que eu não aceitaria então que ele viera de Orion? Nunca pus em dúvida suas origens e, a cada vez que o encontrava, perguntava como estava a temperatura em Orion. Ducatti fundou o Clube dos Sábios, que congregava sete pessoas, sendo uma delas sua mãe. Considerava que a mulher é prejudicial ao gênio. Só não seria prejudicial em uma circunstância: durante a relação, o homem deveria liberar um só espermatozóide. Interrogado por uma jornalista como isto seria possível, respondeu com um piscar de olhos: - Questão de prática. Pasmem! Foi de Ducatti que ouvi falar pela primeira vez a teoria dos buracos negros. Ele os conhecia muito antes de Stephen Hawking. Andava em busca de Galactus, ser galático que odiava a vida e se alimentava de planetas. Galactus fora, inicialmente, uma ilação teórica. Com o correr do tempo, sua existência passou a ser um imperativo de ordem conceitual, única explicação plausível para o desaparecimento de civilizações cósmicas multimilenares. Até hoje, guardo em meus arquivos os panfletos nos quais Ducatti explicava seus projetos. Um deles era o esquema de uma complexa máquina matapardais. O Homem de Orion julgava que os ditos predadores tinham qualquer ligação com os poderes do mal, sem falar que não lhes suportava o chilreado. E os bichinhos eram legião em torno ao Chalé, particularmente na primavera. A máquina consistia basicamente em uma metralhadora giratória acoplada a quatro canhões sonoros e a um computador com gravação dos sons de pardais em sua memória. Ao ouvi-los, os canhões direcionais apontavam a arma para a fonte de emissão de ruídos e a metralhadora era acionada automaticamente. Havia pensado em uma arma à base de raios laser, mas sua filosofia ecológica não permitia sacrificar árvores. Um outro projeto era uma proposição para viver com menos de um salário mínimo, com 33 itens, entre os quais se destacavam: não ter carro, televisão, aspirador, batedeira, etc., coisas perfeitamente dispensáveis; ser autodidata, evitar pagar cursos; acostumar o estômago a exigir pouco alimento; botar pouco açúcar no chá; fritar ovos com água; não seguir a moda, coisa irracional que nos impele a fazer compras; não fazer seguros, confiar no cósmico e na fraternidade; ir de preferência a espetáculos grátis; em caso de esgotamento nervoso, ir ao campo (as clínicas são caríssimas); não fumar; não comprar boné contra o sol: andar pela sombra ou proteger-se com um jornal; não estragar os tênis ou sapatos jogando futebol; não comprar quadros, pintá-los; ter letra pequena, afim de economizar papel. Etc. Em um outro prospecto, fazia uma crítica ao filme Guerra nas Estrelas, a partir de suas experiências astrais. Vinte seriam as falhas do filme, entre elas o fato de todas as estrelas aparecerem iguais, desprezando-se as diferenças de tamanho, distância e cor; mesmo em satélites, a gravitação é igual à da Terra; entre os extra-terrestres há muitos tipos monstruosos, cerca de oitenta por cento, quando o normal seria quinze; a invisibilidade de naves e pessoas, recurso muito usado por seres evoluídos, jamais ocorre; pessoas supostamente evoluídas alimentando-se com pratos e talheres, quando seres adiantados ingerem só líquidos ou prana. Alimentava o projeto UNAT - União das Nações da Terra - com sede em Brasília, para substituir a ineficiente ONU. Seu principal objetivo, a busca inteligente e objetiva das soluções para os problemas humanos, sendo uma das primeiras tarefas resolver a questão palestino-israelita. E planejava a construção de um espaçoporto em Porto Alegre, para receber os óvnis de galáxias distantes. Egresso do curso de Física da UFRGS, era tido como um louco manso. Creio que só eu acreditava piamente em suas viagens astrais. Certo dia, quase tive uma eclampsia. Eu voltava das Ilhas Canárias. Na Gran Canária, estive no povoado de Arucas. Percorrendo sua geografia, encontrei uma espécie de oásis, algo como um mar sereno de areia em meio a montanhas pontiagudas. Lembrei do Homem de Orion e disse à minha Baixinha: “se os extras chegam à Terra, só pode ser aqui que eles aterrissam. Preciso comunicar ao Ducatti.” Encontrei-o no Chalé, como sempre. - Ducatti, estive em Arucas, na Gran Canária. Acho que é lá que os extras aportam. - Sei disso – respondeu o Homem de Orion -. Já escrevi ao prefeito de Arucas. E puxou do bolso uma carta, a resposta do prefeito de Arucas. É nestes momentos em que minha descrença vacila. Profundo mistério! Dito isto, leio hoje na Folha de São Paulo que o extinto SNI (Serviço Nacional de Informações) durante muito tempo pôs seus agentes à espreita dos óvnis, segundo documento de 86 páginas, obtido pelo jornal e classificado como confidencial. Um objeto luminoso, que fazia evoluções em alta velocidade sobre a parte frontal da cidade de Colares [no Pará]" foi visto pelo menos duas vezes, há pouco mais de 30 anos, nos dias 16 e 22 de outubro de 1977. "A forma do objeto era cilíndrica, quase cônica", diz um relato pormenorizado. Um desenho rudimentar dessa suposta espaçonave interestelar completa a descrição do episódio. (...) Em meados de 1977, os jornais do Pará e do Maranhão traziam insistentes relatos sobre "luzes misteriosas, causadoras de mortes e alucinações". Pessoas em contato com o fenômeno apresentavam sintomas de "paresia [paralisia incompleta] generalizada, hipetermia, cefaleia, queimaduras superficiais, calor intenso, náuseas, tremores do corpo, tontura, astenia [fraqueza] e minúsculos orifícios na pele". A Aeronáutica não titubeou. Mobilizou homens e recursos para uma missão. Num ato de humor involuntário, batizou a empreitada para buscar discos voadores com o nome autoexplicativo de Operação Prato, segundo relato do SNI. (...) Os agentes se dividiam em turnos. Faziam vigílias noturnas até o dia amanhecer em lugarejos pouco povoados. O documento do SNI é apenas um extrato do que está na Aeronáutica e permanece em segredo. O esforço dos "observadores" militares às vezes resultava em nada. Por exemplo, no dia 27 de outubro de 1977: "1h15 - Observadores instalados no alto da caixa d'água"; "4h05 - Populares observam o deslocamento de uma intensa "luz" ao nível das árvores (Roberto), informam aos observadores postados na caixa d'água (30 a 40 m de altura) ao nível do topo das árvores, nada observado. Restante do período, nada a relatar". Quando raiava o dia, descanso. Sucessivos relatos dos militares da Operação Prato começam assim: "6h30 - descanso até as 14h". Eles dormiam de dia e trabalhavam à noite. Algumas vezes, a intensa atividade celeste no turno da noite levava o descanso a se estender até as 15h. E por aí vai. Segundo a Folha, o documento do SNI sobre a missão da Aeronáutica interessada nas coisas do espaço sideral só se tornou público graças a um pedido da CBU (Comissão Brasileira de Ufólogos). Com base em direito garantido pela Constituição do Brasil, os ufólogos pediram acesso a documentos sobre óvnis guardados pelas Forças Armadas e outros órgãos oficiais do governo federal. O requerimento foi protocolado na Casa Civil da Presidência em 26 de dezembro de 2007. Em 31 de outubro passado, dez meses depois, chegaram as primeiras 213 páginas de papéis antigos e confidenciais da Aeronáutica. São datados de 1952 a 1969. Na última quinzena do mês passado apareceu o relatório de 86 páginas do SNI, relativo à Operação Prato, de 1977 e 1978. Ora, o SNI perdeu tempo e dinheiro em suas pesquisas. Tivesse consultado o Homem de Orion, teria informações detalhadas sobre a atividade dos extras. Eu, por exemplo, graças a minha convivência com Ducatti, estava muito melhor informado que o SNI.
Sábado, Janeiro 10, 2009
ARQUITETO CADUCO LOUVA ASSASSINO De vários leitores, recebi o artigo de Oscar Niemeyer publicado ontem na Folha de São Paulo, onde o arquiteto responsável pela criação de uma das mais horrendas cidades do mundo manifesta sua admiração por Stalin. Escreve o celerado: Estou no Rio, em meu apartamento em Ipanema, alheio à agitação que hoje, 31 de dezembro, afeta toda a cidade. Recebo, pelo telefone, o abraço de fim de ano de meu amigo Renato Guimarães, lembrando-me, com entusiasmo, do livro sobre Stálin que, meses atrás, lhe emprestei. Uma obra fantástica do historiador inglês Simon Sebag Montefiore, sobre a juventude de Stalin, que tem alcançado enorme sucesso na Europa, reabilitando a figura do grande líder soviético, tão deturpada e injustamente combatida pelo mundo capitalista. Cá entre nós, confesso que tenho mais apreço por homens como Oscar Niemeyer ou Ariano Suassuna, que têm a coragem de assumir o stalinismo, do que por stalinistas em pele de cordeiros petistas, como Tarso Genro, José Genoíno ou Roberto Freire, do PPS. Pois exige-se muita coragem intelectual hoje – ou falta de pudor histórico, como quisermos – para defender um assassino como Josiph Vissarionovitch Djugatchivili, responsável pela morte de vinte milhões de pessoas. Ocorre que Niemeyer, além de estar caduco, ouviu apenas metade da missa. Pelo jeito, desconhece obra anterior de Montefiore, Stálin - a corte do czar vermelho, 860 pgs, Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares. Editada originalmente em 2003, esta biografia é trabalho invejável do jovem pesquisador (o autor nasceu em 1965), que narra o dia-a-dia, cada frase, cada gesto de Stalin. Montefiore parece ser um observador onisciente e onipresente. O livro é lido com o sabor de um romance. Com um detalhe: os horrores nele narrados - com fria objetividade - nada têm de fictícios. É leitura que recomendo vivamente, particularmente aos jovens, em especial àqueles que nunca ouviram falar de Stalin. Sem Stalin não se entende o século passado. Tivesse Niemeyer lido este livro, certamente não estaria falando na “obra fantástica do historiador inglês Simon Sebag Montefiore”. Ainda não li o estudo sobre a juventude do grande facínora. Mas é possível que o jovem Stalin seja visto sob uma luz favorável. Os jovens nunca têm chance de começar a vida cometendo massacres. Para cometer massacres é preciso estar no poder, e ao poder só se chega na adultez. Josiph Vissarionovitch Djugatchivili só mostra as garras após a morte de Lênin, em 1924, quando assume as rédeas do Estado soviético. Para matar em massa, é preciso ter em mãos instrumentos de matar em massa. E disto o jovem Stalin não dispunha. Observação: o tradutor deste livro de Montefiore, ao referir-se aos cortesãos, seguidamente recorre à expressão cu-de-pedra, que não consigo encontrar em nenhum dicionário brasileiro ou português. Encontrei-a em espanhol, culo de piedra, onde quer dizer nádegas duras. Ao que tudo indica, o tradutor traduziu a partir do espanhol e deixou-se enganar pelo som das palavras. Talvez quisesse dizer - suponho - cu-de-ferro.
Sexta-feira, Janeiro 09, 2009
SOBRE MINHA REPULSA AO HOMEM QUE NÃO LÊ Espero que o leitor não se espante: tenho grande respeito por pessoas que não lêem. É que nasci entre elas. No campo, não chegavam – e creio que ainda não chegam – jornais nem livros. O primeiro meio de comunicação a chegar lá foi o rádio. Praticamente todo meu clã não lia, por uma simples razão: a leitura não chegava lá. Mas eles sabiam ler, fato que até me espanta. Minha mãe, professora primária rural, quando ia a Dom Pedrito voltava com a mala cheia de histórias em quadrinhos, seleções do Readers Digest e revistas de detetives, que era o encontrável na cidade. Eu tinha um tio em Livramento que me enviou quase toda a coleção Terra-mar-e-mar, onde li desde Tarzan a histórias de capa e espada. Mas era uma exceção. De certa forma, naqueles pagos, eu era o único a ter uma biblioteca incipiente. Meus parentes viviam para o trabalho, fazendo uma agricultura da mão para a boca. Eram pessoas de profundo senso ético. Claro que as leis lá da Linha Divisória não eram as mesmas do “povoado” e crimes aconteciam, muitas vezes por uma palavra errada dita em hora errada. Mas sempre respeitei aquela gente e até hoje nutro por eles grande carinho. Já as novas gerações, estas se educaram, foram para o “povoado”. E tiveram acesso à leitura. Até aí, todo meu respeito ao homem que não lê. Mas se você é presidente da República e afirma que não lê jornais porque sente azia, o não-ler toma proporções mais graves. Se não lê jornais é claro que muito menos lê livros. Por isso, citei mais abaixo a história de Chance Gardiner, o personagem de Kosinski, que sem saber ler chega a ser cotado para presidente da República. Sua reputação toda decorre da repetição de lugares-comuns ouvidos na televisão. O que era ficção em Kosinski, tornou-se realidade ao sul dos trópicos. Os brasileiros elegeram - e reelegeram – um analfabeto para presidir o país. Quando digo que Lula é um analfabeto, não estou dizendo que o bruto não saiba ler. Isso ele sabe. Ocorre que ele é o pior dos analfabetos, no dizer de Mário Quintana, aquele que sabe ler e não lê. Pior ainda, demonstra orgulho em não ler. Desconheço instrumento mais eficaz de aquisição de cultura do que o livro. Meus pagos à parte, não tenho maior respeito pelo homem que não lê. Sem falar que ler é prazer requintado. Em um pequeno objeto, o livro, tenho em minhas mãos todo o pensamento humano. Nunca me queixei do preço de um livro. Houve época em que, para comprar-se um pergaminho, era preciso vender um rebanho. Depois de Gutenberg – e principalmente Aldus Manutius – mudou o trote da mula. A leitura, para desagrado da Igreja, ficou ao alcance de todos. Hoje, por poucos vinténs, tenho acesso ao pensamento de Platão ou Nietzsche, posso ler tanto a Bíblia como Proust, Renan ou Toynbee, Pessoa ou Mário Quintana. Ou, se quiser, Paulo Coelho ou Bruna Surfistinha. Hoje, não lê quem não quer. Por isto nominei Lula como o Supremo Apedeuta. Todos os demais apedeutas do Brasil estão abaixo do Supremo. Me sinto no deserto quando chego em uma casa e não vejo uma biblioteca. Felizmente, há muito não visito tais casas. Em meus dias de universidade, encontrei uma professora de literatura portuguesa que não tinha um único livro em sua casa. Sei disso porque pensei em alugar o apartamento dela e o revirei peça a peça. Ela era um protolula. E lecionava numa universidade. Coisas nossas. Homem que não lê é um buraco... cheio de nada. Nada conhece da aventura humana, não tem noção alguma de história, desconhece o que seja o mundo. Verdade que a televisão, hoje, oferece muita informação de valia. Mas a informação televisiva nunca será suficiente. Televisão pode mostrar fatos, mas não elucida conceitos. Sem falar que não se pode sublinhar reportagem de televisão, muito menos fazer anotações à margem. Tenho aprendido muitas coisas com certas produções televisivas. Mas elas não suprem a falta de leitura. Leitura, para mim, é vício. Não consigo andar sem leitura em punho. Esteja onde esteja, levo leitura. E pelo jeito, isso não é de hoje. Há alguns anos, revisitando Dom Pedrito, encontrei pessoa que me conhecera em minha adolescência. “Sim, lembro de ti, sempre andavas com um livro ou jornal debaixo do braço”. Eu já nem lembrava disso. Foi bom relembrar. Que um homem do campo não leia, entendo. Que um homem da cidade não leia, já tenho dificuldade em entender. Que um presidente da República não leia e disto se orgulhe, bom... a este homem, minha mais profunda repulsa. Extensiva a todos que o elegeram e reelegeram.
AINDA O CANADÁ De Edmonton, Canadá, recebo mail de um bom amigo, Daniel Garros: Oi, Janer Foi salutar ler a crônica do meu "co-cidadão" canadense. Concordo com as observaçóes dele sobre o país. O respeito à VIDA HUMANA é outra coisa que chama muito a atenção aqui. No Brasil, morrem dezenas diariamente por coisas perfeitamente preveníveis e nada se fala ou faz sobre isso. Crianças até! Discordo apenas da questão do dinheiro. Acho que não conheço nenhum brasileiro aqui que ganha menos que ganhava no Brasil. Isso sem falar no fato de que, com menos dinheiro, proporcionalmente, os bens de consumo são mais acessíveis. E as leis de mercado funcionam, i.e., gasolina cai de preço quando o preço do óleo cai, o juro dos bancos cai e eles repassam pro cliente, etc.. etc... Não foi fácil para nós deixar a família, os costumes e a vida alegre do Brasil. Mas a familia a gente refaz com os nossos proprios filhos, e quando a saudade é demais, a gente pega o avião e vai passar uns dias no país do Lula! DANIEL
Quinta-feira, Janeiro 08, 2009
O VIDIOTA DO PLANALTO (Lula declarou que não lê revistas nem jornais porque isto lhe provoca azia. Esta crônica, eu a publiquei em março de 2003. Voltarei ao assunto). Nosso vidiota é muito real e já tomou posse em Brasília, e na falta de um laivo sequer de cultura ou lógica, analisa o momento político com metáforas rasas. E você, Mr. Gardiner, o que pensa do mau clima na Bolsa? - pergunta o presidente dos Estados Unidos a Chance. Chance Gardiner, da vida só conhece o jardim onde se criou. Como se sente obrigado a uma resposta, fala da única coisa que conhece: “Em um jardim, há uma estação para o crescimento das plantas. Há a primavera e o verão, mas também o outono e o inverno. E depois, a primavera e o verão voltam. Enquanto as raízes não forem cortadas, tudo está bem, e tudo continuará bem”. O presidente se mostra satisfeito: “Mr. Gardiner, devo confessar que o que você acaba de dizer é uma das declarações mais reconfortantes e otimistas que me foi dado ouvir, desde há muito tempo.” Este diálogo – que não só poderia ocorrer nos dias que passam, como de fato ocorrem – pertence ao universo da ficção. O escritor polonês Jerzy Kosinski, ao chegar aos Estados Unidos, criou em Being There um dos personagens mais perturbadores de nossa época, Chance Gardiner. Quem não leu o livro, pode ainda pegar o filme, que passou no Brasil com o título de Muito além do Jardim e tem uma interpretação magnífica de Peter Sellers. O tradutor brasileiro do livro teve um momento de iluminação ao traduzir o título americano por O Vidiota, isto é, o idiota do vídeo. Gardiner é um empregado doméstico de um misterioso senhor, identificado na obra como "o Velho". Chance vive recluso no jardim da mansão e só teve contato, em toda sua vida, com duas pessoas, o Velho e a criada do Velho. Chama-se Chance porque nasceu por acaso. Não sabe ler nem escrever. Seu único contato com o mundo exterior é através da televisão. Quando o que vê não lhe agrada, é simples: desliga o aparelho ou muda de canal com o controle remoto. Morre o Velho e Chance é largado no mundo pelos criados. Sem lenço nem documento, literalmente. Quando a esposa de um senador o atropela na rua e lhe pergunta quem é, diz: I’m the gardener. E passa a ser conhecido como Chance Gardiner. Como não portava nem dinheiro nem documentos, a mulher do senador considera que deve ser alguém muito importante e o recolhe à sua casa. Chance, sem jamais ter pensado no assunto, passa a fazer parte do círculo do poder. Quem leu o livro ou viu o filme conhece o fim da história: a força de repetir chavões que ouviu na televisão, Chance faz uma brilhante carreira na mídia e começa a ser cogitado para presidente dos Estados Unidos. E quem não leu Kosinski, deve lê-lo imediatamente: é uma das mais profundas parábolas da literatura contemporânea. Estamos vivendo em plena época Gardiner, de ascensão do analfabeto. Com a televisão, qualquer iletrado pode ter uma idéia mais ou menos geral do que ocorre em torno a si e no mundo. A rigor, ninguém precisa mais ler para entender – ou supor que entende – o mundo. Se o jardineiro de Kosinski pertence ao universo da ficção, nosso vidiota é muito real e já tomou posse em Brasília. Em falta de um laivo sequer de cultura ou lógica, analisa o momento político com metáforas rasas. Referindo-se ao processo gradual de mudanças que espera promover na economia, disse, no melhor estilo Gardiner: "É como colher uma fruta. Não adianta colher verde". Kosinski não ousaria tanto. Mas não parou aí a retórica hortifrutigranjeira. Em solene discurso para os membros do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, baixou de novo o espírito de Chance. Lembrou que há quinze anos comprou um pé de jabuticaba e plantou-o em seu sítio, mas que ele nunca deu frutos. Um belo dia sua mulher, a primeira-companheira Marisa Letícia, chegou com uma muda igual, em um vaso. Lula achou que era impossível dar jabuticaba em apartamento, dentro de um vaso. Mas Marisa Letícia acreditou na planta e cuidou dela, regando-a com freqüência. Conclusão de nosso Chance: "o pezinho de jabuticaba dá quatro ou cinco vezes por ano, coisa em que este conselho pode se transformar, se quiser." Encantado com o próprio verbo, foi adiante e concluiu que o pé de jabuticaba do sítio não deu frutos porque ele não sabia cuidar, ou porque a terra tinha algum problema. "Ela acreditou mais do que eu. Se transformarmos as oportunidades que temos em coisas menores, certamente o Conselho poderá representar o pé de jabuticaba do meu sítio. Mas, se nós pensarmos grande e cuidarmos com carinho dos milhões de brasileiros e brasileiras de quem, há muitos e muitos anos, ninguém cuida, certamente este Conselho poderá representar o pé de jabuticaba que Marisa plantou no apartamento." Mais recentemente, o aprendiz de jardineiro do Planalto atacou de pescador. Comentando a estrutura jurídica do país, prolatou sentença: “Na verdade, quem é pescador aqui sabe que um peixe grande demora mais para se pegar na vara. Se o Maluf é pescador, ele sabe que pegar um lambarizinho é mais fácil do que pegar um pintado, pegar um jaú". Tratasse o nosso Gardiner de apenas cultivar seu jardim, poderia até mesmo passar por sábio. Mas o homem é fascinado pelo verbo, e não vacila nem mesmo ante a História. Por ocasião da inauguração da nova fábrica da Polibrasil, deitou erudição: "Quando Napoleão Bonaparte visitou a China pela primeira vez, ele disse que a China é um gigante e, no dia em que acordar, o mundo vai tremer". A frase, de fato, é do corso. Pena que ele nunca foi à China. Para quem já afirmou que na Bíblia não existe fome, esta visita à China é café pequeno. Mas o governo não basta para o nosso Gardiner. Já teve seu nome aventado não só para a Academia Brasileira de Letras como também para o Nobel da Paz. O governo recém começou. Anos divertidos nos esperam pela frente. “Ama, com fé e orgulho a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este”. Não verás mesmo.
CINEMA BRASILEIRO FAZ ESCOLA NOS EUA O último filme nacional que vi foi lá por 78 ou 79. Eu fazia a cobertura do Festival de Cartago, em Túnis, na Tunísia. Quando procurava o Palais des Festivals, observei que um casal loiro seguia atrás de mim. Me pareceram suecos. Que fazem suecos em Túnis? – me perguntei. Vendo que estava em rumo errado, dei meia volta. O casal abordou-me. Ele me perguntou: - Monsieur, savez-vous où est le Palais des Festivals? - Mais non, justement je le cherche. Notei um acento familiar na fala de meu interlocutor. - Vous n’êtes pas brésilien? - Oui, j’en suis! - Então vai pra pqtp e falemos brasileiro. És de onde? - De Curitiba. - Então só podes ser o Sílvio Back. Era. Durante duas boas semanas confraternizamos nos restaurantes de Túnis. Que não são de deixar-se de lado. Back me convidou para ver seu filme, Aleluia, Gretchen, que concorria no festival. Fui. Foi o último filme brasileiro que vi em minha vida. Não gosto do cinema nacional, suas propostas não me agradam, sua estética não me satisfaz. Antes que alguém diga que tenho preconceitos com a cinematografia nacional, já vou avisando que também não suporto o cinema francês. (Abro uma exceção, Claude Lelouch. Que, não por acaso, é detestado pela crítica francesa). Não que os filmes sejam mal feitos. É o jeito de filmar. Filme francês, de modo geral, é teatro filmado. E se há arte que não suporto, é teatro. Quem definiu isto muito bem foi o cômico francês Louis de Funés. Estabelecendo a diferença entre o cinema americano e o francês, disse: - No cinema americano, quando o personagem está diante de uma porta, ele a abre e entra. Já o cinema francês é literário. O personagem tem de falar. Antes de entrar, ele tem de dizer: voilà, la porte. Não por acaso, tanto o cinema francês como o brasileiro vivem de subsídios estatais. No Brasil, é um escândalo que clama aos céus castigo. Cineastas medíocres financiam seus filmes via a tal de renúncia fiscal, que no final da cadeia sobra para o contribuinte. Fazem filmes idiotas, em geral de cunho marxista, que não conseguem atrair público algum. Pouco importa, os diretores já embolsaram o seu. Para vender seus peixes podres, exigem cotas obrigatórias de exibição nas salas nacionais. E depois se queixam de que os brasileiros preferem filmes americanos. De minha parte, até admito a hipótese de algum dia voltar a ver um filme nacional. Mas não aceito pagar. Como contribuinte, já paguei. Mais ainda: só vou se a produção vier me buscar em casa. De limusine. Pois o Brasil parece estar fazendo escola. Leio no El País que o cinema pornográfico americano, inspirado pelas ajudas públicas a setores como o bancário, imobiliário e automobilístico, está querendo também levar o seu. Larry Flint, o editor de Hustler, e Joe Francis, responsável por Girls Gone Wild, pediram ao Congresso americano nada menos que 5 bilhões de dólares, para safar sua indústria da crise pela qual atravessa. “O pornô foi afetado pela recessão como todo mundo”, declararam Flynt e Francis. Para estes senhores, “o governo deveria apoiar ativamente a sobrevivência da indústria pornografia e seu crescimento, da mesma forma que sente a necessidade de apoiar qualquer outra indústria apreciada pelas pessoas”. Ora, daí a subsidiar a prostituição vai só um passo. A prostituição é indústria também apreciada por muitas pessoas. “Está na hora de o Congresso rejuvenescer o apetite sexual da América”, afirmam, pois “em meio desta miséria econômica e com as pessoas perdendo todo esse dinheiro, o sexo é a última coisa na qual se pensa, o que é muito pouco saudável”. Na verdade, alguma razão não deixam de ter, afinal os Estados Unidos estão fornecendo Viagra aos chefetes tribais do Afeganistão, para conseguir sua colaboração. Se contribuem para as alegrias sexuais de uma nação hostil, por que não contribuir para a lascívia ianque? O que Flynt e Francis parecem não entender é que a pornografia via Internet está matando o cinema pornográfico. Mas suspeito que andaram se informando como se faz cinema no Brasil. Aleluia, irmãos! Estamos fazendo escola.
Quarta-feira, Janeiro 07, 2009
DO CANADÁ No Ano Novo, saudei os leitores que encontrei em vários rincões do mundo, mais esparramados que filhotes de perdiz. De um deles, que vive no Canadá e prefere permanecer anônimo, recebi: Olá, Janer. Obrigado pela referência na postagem de 1º de janeiro. Feliz ano novo para você também. Como você intuiu, sou brasileiro, como deve realmente ser a maior parte de seus leitores ultramarinos. Claro que não sei exatamente quantos de nós somos do Bananão, mas acho que sua crônica - uma parte significativa dela, ao menos - desperta particular interesse em nós compatriotas por dizer muito sobre a estupidez brasileira (provavelmente desconhecida por pessoas que não viveram algum dia no país). Aliás, você é meu cronista predileto, e o tenho acompanhado há uns anos, desde o tempo do MSM. Embora não me identifique totalmente com suas crenças (ou com a falta delas), não conheço um observador mais lúcido atualmente; o João Pereira Coutinho, que escreve na Folha de S.Paulo, também me agrada muito, contudo. Claro que há alguns outros que escrevem bem, mas sempre tenho que ler com cautela, "filtrando" determinadas ideologias ou agendas que eles empurram em suas colunas (um é filocomunista, outro é tucanófilo, outro é adepto de teorias conspiratórias etc). Voltando a nós, seus leitores no estrangeiro, acredito que muitos saímos "fugidos" do país. Discordo da sua opinião segundo a qual é possível viver aí, em determinadas "ilhas" de locais e relacionamentos. Tentei aceitar essa idéia por vários anos, insulando-me em minha família, amigos e trabalhos, mas vi que é inviável: o transtorno que é viver no Brasil (com sua burocracia imbecil, com a decadência de sua cultura sobretudo com a primitividade de seu povo) alcança o cidadão em seu mais íntimo refúgio, e a melhor saída é realmente o aeroporto. É evidente que viver longe das pessoas que mais queremos bem é algo inominavelmente doloroso; fazer essa ruptura me foi muito, muito difícil. Mas quando a minha esposa engravidou, tive que tomar essa decisão, pois não queria criar um filho para vê-lo crescer entre selvagens (de raça ou de espírito). Resolver dar esse passo foi um pouco facilitado pelo fato de o país estar sofrendo um claro processo de bolchevização há pelo menos 20 anos; quando ele chegar às últimas conseqüências - quando ele se "venezuelizar" de vez -, ficarei feliz em ver que fiz a coisa certa ao sair da terra natal. A propósito, em minha cidade aí no Brasil havia (ainda há, na realidade) um grupo de pessoas que se encontrava bimestralmente para discutir sobre o processo de imigração pelo qual passávamos todos, em diferentes estágios. Trocávamos experiências sobre os meandros jurídicos e sobre os aspectos práticos dessa mudança (que é, como você sabe, complicadíssima, se se está disposto a fazer a coisa regularmente, dentro da lei). O grupo era composto por advogados, engenheiros, médicos, jornalistas, administradores e psicólogos, dentre outros profissionais liberais e servidores públicos com nível superior. Não havia entre nós aventureiros, gente deslumbrada com o exterior; nenhum de nós tinha a ilusão de que a vida no primeiro mundo seria fácil ou replena de dólares (muitos, como eu próprio, tinham ciência de que iriam ter menos, não mais dinheiro). Ao ir à minha primeira reunião, e ver o perfil dos participantes, refleti sobre que tipo de país é esse, que inspira tanto desprezo em seus próprios cidadãos, e praticamente os expulsa para terras menos hostis. Vou falar: embora hoje eu não tenha um quinto do dinheiro que tinha aí, não me arrependo, e faria tudo de novo mil vezes. Aqui as pessoas (das mais simples às mais abastadas) são gentis e educadas; o governo não é inimigo do cidadão (outro dia desses fui surpreendido por um cheque que chegou para mim pelo correio; era o Estado, sem eu ter solicitado, me devolvendo dinheiro, que eu lhe teria pago a mais, quando da satisfação de um tributo - fosse no Brasil, eu teria que vencer até o STF uma longa batalha judicial, e ainda entraria na odiosa fila dos precatórios); a sociedade, enfim, tem um sentimento de coesão que eu não encontrei em parte alguma do Brasil - e eu estive em várias -, exceto talvez em algumas pequenas comunidades rurais no extremo Sul. É isso, tenho que ir. Só escrevi mesmo para agradecer-lhe a gentil lembrança no réveillon, e terminei - como sempre! - divagando. Grato, caro! Quanto a mim, por circunstâncias alheias à minha vontade - traduza-se grana - preferi viver aqui. Acho que o Brasil é um país onde se pode viver. Os governantes e políticos são repulsivos, de modo geral, as leis em boa parte são erradas e só induzem ao crime e a impunidade impera. É triste ver um país sendo despedaçado e entregue aos sem-terra, aos bugres e aos tais de quilombolas. Mas há ilhas onde se pode viver. Eu vivo numa delas. Vivo em bairro tranqüilo, em cidade onde tenho alcance a praticamente tudo que o Primeiro Mundo oferece. Uma ou duas vezes por ano, faço minha maletinha, intimo uma amiga e partimos para nos refestelar na Europa. Feliz de quem mora em um país onde, por iniciativa própria, o fisco devolve tributos pagos a mais, sem que a devolução seja solicitada. Isso é o que me fascina nesses países, o respeito pelo cidadão. Aqui, não existe respeito algum. A União tem uma dívida comigo de mais de um milhão de reais. São precatórios já julgados em última instância e em fase de execução. Mas a União não paga e estamos conversados. Foram herdados de minha mulher, que morreu sem ver a cor do que lhe era devido. Não é um caso único. Já morreram mais de 70 mil credores, sem receber aquilo a que tinham direito líquido e certo. E morrerão milhares mais, sem terem seus direitos ressarcidos. O governo é caloteiro e exige honestidade do contribuinte. Para viver aqui, é preciso anestesiar-se contra o Brasil. Creio ter conseguido isto. Há pessoas preocupadas com um terceiro mandato do presidente analfabeto. No que a mim diz respeito, já nem ligo. Pode até mesmo ter um quarto ou quinto mandato. Não me preocupo mais com os absurdos do país. Como Candide, trato de cuidar do meu jardim. De modo geral, participo de tuas opiniões. Exceto no que diz respeito ao João Pereira Coutinho. Não consigo gostar de suas crônicas. Sem falar que, na edição de hoje da Folha, ele escreveu um artigo abominável, de um primarismo atroz, sobre a questão israelo-palestina, que chega a depor contra o jornal. Já estive em tua nova pátria e fiquei fascinado com sua organização social, suas cidades, seus cidadãos. Adorei particularmente o Quebec. Uma bíblica piadinha para terminar. Os judeus se enganaram indo para Canaã. Consta que Moisés era fanho. O que ele queria dizer era: vamos para o Canadá. Dito isto, sucesso em tua opção, felicidades e um grande abraço.
JORNAL FRANCÊS ACHA BODE EXPIATÓRIO PARA A INTIFADA NA FRANÇA Um amigo me envia uma curiosa hipótese do jornal parisiense Le Figaro. Vou citá-la em francês por razões que o leitor entenderá mais adiante. Des automobilistes profiteraient-ils des vagues de violence de la nuit du réveillon pour incendier eux-mêmes leur véhicule et toucher ainsi jusqu'à 4 000 euros d'indemnisation? Les cas de fraude à l'assurance ont toujours existé, mais ils pourraient, cette année, s'être multipliés. Traduzindo: Aproveitar-se-iam os automobilistas das ondas de violência da noite do réveillon para incendiarem eles mesmos seus carros e receber assim até quatro mil francos de indenização? Os casos de fraude ao seguro sempre existiram, mas eles poderiam, este ano, ter-se multiplicado. Pus o texto em francês para analisar dois verbos: profiteraient-ils e ils pourraient. Ambos estão no condicional. Se aproveitariam e poderiam. Ou seja, estamos no campo da especulação. Jornalistas não devem usar o condicional, pelo menos quando se referem a fatos. É péssimo jornalismo. Isto me lembra caso ocorrido em Porto Alegre, nos anos 60. Um repórter gaúcho foi entrevistar o comandante da 3ª Região Militar e recebeu uma curta e grossa lição de jornalismo. - General, o que o senhor diria... Não conseguiu concluir a pergunta. O general o atalhou: - Eu não diria. Eu digo. Le Figaro especula a partir de estatísticas. Continua o jornal: As estatísticas são com efeito perturbadoras. Enquanto o número de carros incendiados na diminuiu 15% nos primeiros onze meses do ano, a noite do réveillon uma fogueira de incêndios: 1147 carros foram carbonizados em algumas horas. O que representa um salto de 30,64 % em relação ao 31 de dezembro de 2007, quando os policiais e gendarmes haviam contabilizado 878 destroços queimados. Enfim, não seria de espantar que alguns vivaldinos se aproveitem da baderna para receber algo por uma velha bagnole, como se diz por lá. Mas a grande massa de vândalos é constituída por árabes e africanos. Todo francês sabe disso. Só os jornais é que não sabem. Isto é, fingem não saber. Os coitadinhos dos imigrantes e filhos de imigrantes não podem ser acusados de nada. Mesmo se presos em flagrante. Mesmo quando julgados e condenados em última instância. É o politicamente correto – esta vertente stalinista da linguagem – dominando a imprensa francesa. E não só francesa como de toda a Europa. Nos últimos anos, uma onda de estupro tem assolado a Suécia. Os estupradores são árabes. Todo sueco sabe disto. Menos os jornais suecos. O jornal apresenta mais uma hipótese: Outro item que espanta: longe de não dizer respeito apenas aos quarteirões urbanos tidos como difíceis, os incêndios se propagam sobre todo o território, até mesmo às regiões mais pacifícas. Casos isolados foram registrados no Calvados, na Charente ou Loir-et-Cher. A hipótese que o ressentimento árabe esteja se expandindo rumo a regiões mais ricas sequer passa pela cabeça do articulista. As companhias de seguro não especulam tão longe e não comentam as estatísticas liberadas por diferentes observatórios. Por cada carro queimado, prevêem uma indenização que pode ir até 3.948 euros, para os proprietários sem seguro para viaturas incendiadas, ganhando menos de 2.000 euros por mês. Atenção: a indenização "pode ir até 3.948 euros". Não quer dizer que vá. Ora, é muito pouco por um carro decente. Resumo da ópera: os jornais franceses que jamais nominaram os vândalos, encontraram agora um bode expiatório para carregar as culpas pelo vandalismo: os automobilistas franceses. A hipótese vem conjugada no condicional. Fatos não são apresentados. Os principais prejudicados, as empresas de seguro, não ousam assumir a denúncia. A Eurábia avança. Tá tudo dominado.
Terça-feira, Janeiro 06, 2009
A MEDICINA SALVA E DEUS RECEBE TODAS AS HONRAS É admirável a disposição com que o vice-presidente José Alencar, hoje com 77 anos, vem lutando há mais de década contra um câncer de abdômen. O homem entra e sai de cirurgias e parece estar sempre bem. Pessoa profundamente religiosa, é bastante possível que esta tranqüilidade toda se deva à sua fé. Neste sentido, confesso minha admiração pelo eterno bom humor do vice. Respeito todas as fés, o que não me impede de criticá-las. Tanto filosofias como religiões são passíveis de críticas, ou então não teríamos saído das trevas da Idade Média. Mas se admiro a coragem com que um crente enfrenta a adversidade, há algo que considero abominável, essa mania de atribuir a Deus as curas que a medicina realiza. Em entrevista publicada hoje no Estadão, ao ser interrogado sobre qual a receita para vencer, diz José de Alencar: - Tenho muita fé em Deus. Tem uma verdadeira corrente no Brasil inteiro, que tem me ajudado muito. As pessoas me mandam cartas, novenas, remédios, orientações, orações. Eu não tenho medo da morte. Que não tenha medo da morte, entende-se. Mas toda a vez que o mal o acomete, o vice-presidente procura medicina de ponta. Interna-se no hospital Sírio-Libanês, um dos mais qualificados de São Paulo e, conseqüentemente, do país. Já fui hóspede do Sírio-Libanês e tiro meu hipotético chapéu à competência de seus profissionais e serviços. José de Alencar está tendo, sem dúvida alguma, um dos melhores atendimentos médicos do continente. Se é homem que deposita profunda fé em Deus, por que então procurar medicina de ponta? O auxílio divino não seria mais que suficiente? Ah! Eu conheço esta raça. São salvos pela medicina e creditam a cura à divindade. Quando minha mulher estava doente, aliás da mesma peste que Alencar, formaram-se correntes de oração no país todo. Tanto eu como ela – ambos ateus -, não tínhamos nada contra, afinal rezar por alguém é sempre um gesto de afeto. Obviamente, não confiávamos nas tais correntes. Ela também foi tratada com a melhor medicina. Mas a doença acabou vencendo. Os crentes todos acreditavam que suas orações a curariam. “Vamos empenhar todos nossos créditos junto ao Poderoso”, disse-me um colega dela. Pelo jeito eram créditos tão podres como os títulos da dívida pública, pois o Poderoso não os aceitou. Quando ela morreu, mudou a filosofia dos crentes. “Que bom para ela, agora ela está feliz junto a Deus!” Resta a pergunta: se morrer é chegar à felicidade, por que então não rezavam para que chegasse logo à felicidade? Decididamente, não consigo entender a raça.
MORTE À TAM! Toda vez que viajo, procuro evitar as empresas aéreas nacionais. Uma empresa que sempre abominei, foi a Varig. Tendo o monopólio das rotas internacionais no Brasil, sempre impedia qualquer redução de tarifas. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) da época era o DAC, Departamento de Aeronáutica Civil. Como a Varig oferecia mordomias a políticos e funcionários do governo, toda vez que se falava em redução de tarifas, a empresa ia queixar-se ao DAC. E o DAC, como pai generoso, as proibia. Durante muito tempo, viajei pela LAP, Líneas Aereas Paraguayas. O vôo partia de São Paulo e custava menos da metade da tarifa praticada pela Varig. Só havia um problema: a LAP não podia pegar passageiros no Brasil e levá-los diretamente à Europa. Precisava ir até Assunção e de lá voltar para a Europa. Ora, os vôos saíam lotados de São Paulo, não havia passageiros a embarcar no Paraguai. Como aterrissar e decolar são operações que custam caro, o avião então sobrevoava Assunção e, uma vez cumprida a estúpida burocracia, embicava rumo à Europa. Nunca estive no Paraguai, mas já vi muita vezes Assunção do alto. Em 2000, minha Baixinha queria voar rumo a geleiras e fjordes. Pensamos na Terra do Fogo, Punta Arenas, Ushuaia. A Varig cobrava algo em torno de 1500 dólares. Pensei com meus botões: ao norte também há geleiras e fjordes. Pesquisei passagens para a Escandinávia. A Swiss Air me oferecia uma passagem São Paulo/Oslo/Estocolmo/São Paulo por... 669 dólares. Com um dia em Zurich. Para mais que o dobro de distância, menos da metade do preço da Varig. Sempre detestei a Varig. Outra hipótese, era viajar pela Pluna uruguaia ou pelas Aerolíneas Argentinas. Um pouco antes do afundamento da empresa, escrevi uma crônica intitulada “Morte à Varig”. Um ano depois, meus votos se realizaram. Orre, bem feito! Dia 24 de dezembro passado, a Anac acenou com um presente de Natal divino para quem gosta de viajar. Eis a notícia, publicada na Folha de São Paulo: Vôos internacionais podem ficar 20% mais baratos em janeiro A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) liberou descontos em até 20% em passagens de vôos internacionais a partir de janeiro de 2009. A resolução publicada nesta segunda-feira no Diário Oficial da União prevê o aumento gradual dos descontos até a liberação total em 2010. De acordo com a instituição, que pretende estimular a competição, os descontos não são obrigatórios, mas permitem abatimentos sobre os valores mínimos cobrados atualmente. Cada empresa aérea decidirá pelo desconto, ou não, conforme suas estratégias comerciais. Por exemplo, um vôo do Brasil para o Reino Unido, Itália ou França custa no mínimo US$ 869 (ida e volta). Com a resolução, as companhias poderão baixar essa tarifa para US$ 695,20 em janeiro. Em abril a Anac deve liberar a redução para 50% (US$ 434,50) e em julho para 80% (US$ 173,80). Enviei a notícia em email para uma amiga. Não acredito, dizia. Voar para a Europa por 174 dólares? Assim sendo, vou todos os meses. Isso é coisa de país capitalista. E o Brasil, até hoje, não se libertou de seu ranço socialista. Toda iniciativa de baixa de preços em tarifas aéreas, no Brasil, sempre é barrada pelas autoridades. Dito e feito. No penúltimo dia do ano, leio na mesma Folha noticia que arrasava com meu sonho de Natal: A Justiça Federal suspendeu o desconto máximo de 20% nas passagens aéreas internacionais. Resolução da Anac autorizava redução nas tarifas de vôos do Brasil para qualquer país, exceto os da América do Sul (região em que já há liberação de tarifas), a partir de 1º de janeiro de 2009. O presidente do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1º Região), desembargador Jirair Meguerian, acatou as alegações apresentadas pelo Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias, que questionava a forma como a resolução foi aprovada no final de novembro. Segundo o sindicato, a Anac fez apenas uma consulta na internet e não fez audiência pública para autorizar descontos máximos que começariam em 20% em janeiro e chegariam a 80% em julho de 2009. Mas pesou também o impacto financeiro da resolução, que prejudicaria a TAM, única empresa nacional dona de rotas internacionais com destinos diferentes da América do Sul. Na sentença que suspendeu o desconto, o desembargador argumentou que a resolução da Anac gera “efeitos imediatos e catastróficos para as companhias aéreas brasileiras e para o mercado em geral, além de favorecer a prática do dumping pelas companhias internacionais, que valem-se de subsídios governamentais e poderão praticar tarifas muito inferiores àquelas praticadas pelas empresas nacionais”. Ou seja, para preservar os dinossauros tupiniquins, um juiz priva toda uma população toda das baixas tarifas praticadas usualmente no Ocidente. Agindo com a mesma safadeza da hoje moribunda Varig, a TAM decreta a morte das leis de oferta e procura no país e reinstaura o socialismo, que vinha sendo ameaçado por iniciativas inteligentes. E ainda há quem ache que o Brasil um dia sairá do barro. A TAM, hoje dona do mercado, assumiu o oligopólio da falecida. Morte à TAM!
Segunda-feira, Janeiro 05, 2009
INFELIZMENTE, CREIO QUE ME ENGANEI Leitor me envia uma suíte da Associated Press sobre o desaparecimento da Jennifer Feitz. As buscas teriam sido interrompidas no 29 de dezembro e nenhum corpo foi achado. Uma câmera de vigilância do navio teria filmado uma mulher caindo ao mar, na noite do 26. Mas a Associated Press não nos mostra o filme. Minha busca na Internet deu em nada porque o nome da moça fora grafado errado nas primeiras notícias. Em verdade, seria Seitz, e não Feitz. É uma mulher linda e cheia de vida, em cujo rosto não se vê indício algum de que pretendesse tentar suicídio. O mistério, no entanto, persiste. Pode alguém cair de um navio? Isso não existe. Seria preciso escalar uma alta amurada. Ou seja, fazer um esforço para morrer, e este não parece ser o caso. Os navios das marinhas americana e mexicana teriam feito uma exaustiva busca numa área de 4.200 milhas quadradas em torno a Cancun e nada encontraram. E se uma câmera filmou alguém caindo ao mar, para que serve essa câmera se não lhe serviu de socorro? Infelizmente, creio que minha hipótese estava errada. Melhor não estivesse. http://www.huffingtonpost.com/2008/12/29/jennifer-seitz-cruise-pas_n_154007.htmlhttp://www.bittenandbound.com/2008/12/30/jennifer-seitz-exclusive-what-happened-the-night-she-disappeared
POR ONDE ANDARÁ JENNIFER FEITZ? Um dos piores vícios do jornalismo contemporâneo é a falta de suíte às notícias. As agências ou jornais noticiam um fato, que começou a acontecer ou está acontecendo, e depois nada mais ficamos sabendo da coisa. Aconteceu no dia seguinte ao Natal passado, e eu o comentei nesta bitácora. Jennifer Feitz, de 36 anos, desapareceu de um cruzeiro nas proximidades de Cancún (México), noticiou a Associated Press. A suspeita é que ela tenha caído na água. Segundo a agência, tanto a Guarda Costeira mexicana quanto a americana faziam buscas pela mulher. O aviso de que Feitz havia desaparecido partira de seu marido, três horas após ter notado sua falta. Os dois estavam a bordo do navio Norwegian Pearl, que saiu no domingo de Miami, nos Estados Unidos, para passar sete dias no Caribe. Bom, estamos a 05 de janeiro, já há onze dias depois do desaparecimento da moça. Não há mais notícia alguma sobre Jennifer Feitz. Busco o noticiário on line... e nada! As últimas referências datam do dia 27 de dezembro. Depois, silêncio total. Não sabemos se seu corpo foi achado, nem se as Guardas Costeiras americana e mexicana já interromperam as buscas. Nem do angustiado marido temos mais notícias. Jennifer Feitz desapareceu do noticiário tão misteriosamente como surgira. Aventei, na ocasião, melhor desfecho para a affaire. Quem sabe a Feitz, em vez de cair no mar, caíra nos braços de algum oficial de bordo. Maridos são muito apressados. Três horas é muito pouco para uma boa folgança. Comentei também ter testemunhado caso semelhante, em uma travessia no Eugenio C. Um marido, desesperado com o sumiço de sua mulher, estava certo de que ela caíra do navio e intimou o comandante a fazer meia-volta para procurá-la em pleno Atlântico. O comandante, marujo de muitas viagens, tomou melhor providência. Chamou toda a tripulação para uma reunião e a mulher, milagrosamente, ressurgiu das águas. Aconteceu comigo também, em outra travessia no mesmo Eugenio C. Aliás, na primeira de minhas travessias, em 1971. Encontrei-a num dos mais suntuosos salões do navio, o salone Opala. Durante as tardes, o salão ficava vazio e eu ia para lá com meus livros. Eu a bombordo, ela a estibordo. Com a oscilação do navio, ora ela estava uns dez metros acima de mim, ora dez metros abaixo. Só uma reta nos mantinha unidos, nosso olhar. Maktub! Homem algum foge a seu destino. Estava escrito nos astros. Aconteceu o que devia acontecer. Enquanto seu marido jogava xadrez, ela jogava outros jogos em meu camarote. Como uma disputa aguerrida de enxadristas normalmente dura mais que três horas, inquietação alguma percorreu o espírito do despreocupado marido. Estabeleceu-se entre nós uma terna amizade, nos correspondemos durante anos, cheguei a perdê-la de vista. Graças aos bons ofícios da Internet, reencontrei-a há uns dois ou três anos e ela veio visitar-me em São Paulo. Fernando Pessoa costumava dizer – repetindo refrão de antigos marujos – que navegar é preciso, viver não é preciso. O leitor menos atento julga que o poeta falava na necessidade de viajar e na desnecessidade de viver. Nada disso. Com isto, os antigos nautas se referiam à precisão da navegação: um barco parte de um determinado porto e chega, com precisão, ao porto de destino. O mesmo não acontece na vida. Pode-se chegar lá. Ou não. Tudo pode acontecer. Há uma diferença fundamental entre uma travessia de avião e outra de navio. No avião, confinados no curto espaço que nos abriga o corpo, imobilizados por um cinto e sem ter muito como mexer-se, temos pressa em chegar. A viagem transforma-se em uma espécie de tortura. No mar, tudo muda de figura. O navio é uma pequena cidade, com dois ou três mil habitantes. No período de uma travessia, em geral dez dias, forma-se uma sociedade transitória, que será desfeita ao final da viagem. Confraternizamos com desconhecidos, estabelecemos relações, de amizade ou mais do que isto. O clima destes cruzeiros é bastante erotizado. Os tripulantes são jovens e garbosos, o barco tem centenas de camarotes, se você abre uma porta e entra em outra tudo pode acontecer. A marujada sabe disso e não dá folga às navegantes. Uma das coisas boas dessas travessias é que não há jornais nem qualquer outra forma de comunicação a bordo. Há um serviço de imprensa que publica um jornalzinho diário, de duas ou quatro pequenas páginas. Só com notícias boas. O mundo pode estar ardendo em chamas. Mas você só vai saber quando descer do barco. Ocorre então um fenômeno curioso. Não há vontade alguma de chegar. No navio, tudo é paradisíaco. Você levanta para tomar café, do café vai para alguma das piscinas, da piscina volta para o almoço, do almoço ruma à siesta ou sai a paquerar pelos decks, depois vem o árduo compromisso da janta e depois da janta há uma intensa vida noturna, na qual você pode optar por bailes, cassinos, teatros ou simplesmente a contemplação do mar noturno. Ou o bom folguedo. Sem falar que o vinho já está incluído no preço da passagem. Algumas empresas, hoje, incluem toda e qualquer bebida. A perspectiva de chegar nos horroriza. Em terra, nos esperam os problemas. Cientes disto, os japoneses andaram elaborando um projeto, uma espécie de cidade marítima, com capacidade para 40 mil habitantes, que nela residiriam. Esta cidade, em permanente navegação, não se destinaria a porto algum. Não ouvi falar mais do projeto. Mas gostei da idéia. Fico imaginando uma espécie de reunião de condomínio para tomar decisões cruciais: e agora, para que mar vamos? Chegar é preciso, basta decidir. O mesmo não ocorre com o viver. Já contei, mas conto de novo. Em uma dessas travessias, quando pretendia descer em Barcelona, antes de Lisboa o comandante do Eugenio Costa comunicou que o barco desviaria até Southampton, na Inglaterra, para apanhar quatrocentos membros do clube Saga, que fariam uma volta ao mundo de três meses. Para quem estivesse com pressa, a empresa pagaria um vôo até Barcelona ou qualquer outro porto de destino. Quem não tivesse pressa, ficava mais dois dias a bordo, sem pagar um vintém a mais. Ora, quem navega não quer chegar. Claro que fiquei a bordo. Detalhe importante: nessas travessias, os passageiros têm lugares fixos nas mesas dos restaurantes, para facilitar a logística da cozinha. Tínhamos seis horas em Southampton e desembarquei para dar uma olhadela na cidade. Ao voltar a bordo, fui até a ponte mais alta, para olhar o que acontecia no porto. Até aí, nada demais. Acontece que o tal de clube Saga só aceitava sócios com mais 65 anos. Como eu estava na ponte superior, tive o privilégio de ver as quatrocentas velhinhas – mulheres são sempre mais longevas -, entrando pela proa ao som de uma banda, ao mesmo tempo que dezenas de esquifes eram embarcados pela popa. Chamei um oficial de bordo. Que significa isto? “Bene – me respondeu – essas senhoras já têm idade provecta, a viagem será longa, as emoções de bordo são intensas. Calculamos que vinte por cento delas não voltam. Então, estamos embarcando oitenta caixões”. Ocorreu-me então a atroz imagem de um café da manhã no decorrer do cruzeiro, os comensais olhando em torno e contando as baixas, tentando descobrir quem ou quantos haviam morrido na noite, reformulando mesas e fazendo novas amizades, mas... enfim, por que não confraternizar no naufrágio? E onde ficam os cadáveres? – insisti. “Ah, na despensa, que é refrigerada, junto com os gêneros alimentícios. Para não apodrecerem”. Melhor não perguntasse. Almoço e janta assumiram, para mim, um outro sabor. É uma maneira inteligente de partir, a meu ver. Em vez de ficar morrendo em casa diante de uma televisão, ou mesmo num hospital, morre-se no mar, comendo e bebendo bem, conhecendo gentes de outros povos e outras línguas, enfim, morre-se vivendo. Quando sentir que meus dias se aproximam, vou pensar carinhosamente nesta hipótese. Enfim, algo me divertiu ante aquela tétrica perspectiva. Os tripulantes, sempre prontos a passar a mão no traseiro das mais lindas passageiras, pelos próximos três meses só teriam pelanca ao alcance de seus desejos. Mas falava da Jennifer, da qual não temos mais notícias. Por onde andará Jennifer Feitz? Terá sido engolida pelas águas mornas do Caribe? Terá soçobrado nos braços de algum marujo? Continuarão as marinhas americana e mexicana empenhadas na busca inútil de uma mulher que, ao invés de jogar-se às águas, talvez tenha preferido embarcar numa aventura? Esta, a Associated Press fica nos devendo. Pelo que conheço da vida a bordo, não vai nos pagar. Jennifer certamente está vivinha da silva, dando explicações ao zeloso marido.
Domingo, Janeiro 04, 2009
ESTADÃO SOFISMA Somente hoje, quatro dias após as depredações provocadas pelos bougnoules durante o réveillon na França, o Estadão comenta rapidamente o assunto. Uma reportagem sobre o conflito na Faixa de Gaza é ilustrada com uma foto de um - um só - carro destruído em Paris. Ora, foram 1147 carros demolidos na França toda. A safadeza da notícia está no texto-legenda: FÚRIA - Manifestantes atacam automóveis durante protesto em Paris contra ação militar israelense em Gaza; polícia reprimiu depredadores Pelo jeito, o redator quer fazer crer que o vandalismo que há mais de década assola Paris nos réveillons são protestos contra ações militares de Israel. Mesmo admitindo que, no caso particular da foto, fosse protesto contra o ataque israelita: que tem a ver um francês com isto? Por que depredar o carro de um parisiense que nada tem a ver com os bombardeios em Gaza? E que, talvez, até mesmo fosse contra esses bombardeios. Este sofisma do redator do Estadão, além de revelar total falta de ética jornalística, subestima a inteligência dos leitores do jornal.
MINISTRO DEVE EXPLICAÇÕES SOBRE O MARXISMO INVULGAR O ministro da Justiça, Tarso Fernando Herz Genro, escreve hoje na Folha de São Paulo: A queda do Muro de Berlim implodiu a arquitetura do marxismo vulgar, que afinal era apenas um "derivativo" de uma sociologia positivista-naturalista. A "crise do subprime" - por outro lado - constrangeu os oráculos neoliberais que juravam desprezo pelas funções públicas do Estado. O marxismo vulgar foi responsável por uma simplificação impotente das relações entre capitalismo e democracia. O neoliberalismo, porém, identificava no próprio mercado a essência da democracia. Tornado um livro sagrado dos rebeldes da direita intelectual, o neoliberalismo acolheu no seu leito bem-remunerado tanto os profetas das agências de risco como muitos sociólogos pós-modernos missionários da antiesquerda. O marxismo vulgar professou o "caminho único" da ditadura burocrática como uma espécie de etapa necessária para a superação do capitalismo. O neoliberalismo bastou-se a si mesmo. Quer dizer então que havia um marxismo vulgar e o teórico marxista Tarso Fernando Herz Genro não havia nos informado disso? Só o aventa em 2009, exatamente vinte anos após a queda do Muro de Berlim. Terá o insigne ministro tido finalmente notícias de que o Muro caiu em 1989? E que só caiu não pelo anseio de liberdade dos Estados que viviam sob o tacão soviético, mas porque o marxismo de então era vulgar, “apenas um "derivativo" de uma sociologia positivista-naturalista”? Mas qual marxismo não é vulgar? Existirá algum marxismo invulgar? Seria talvez o de Mao, quem sabe o de Pol Pot? Ou talvez o de Castro? O inverossímil ministro fica nos devendo maiores esclarecimentos sobre esse outro marxismo, o invulgar.
Sábado, Janeiro 03, 2009
ISRAEL AINDA RESISTE Um leitor me pergunta se não vou comentar os problemas crônicos de Israel e da Faixa de Gaza. Ora, não há muito o que comentar. Um grupo terrorista provocou Israel com seus toscos foguetes e agora está recebendo o troco. Reação desproporcional de Israel? Bom, se um grupo de terroristas insiste em jogar foguetes em minha casa, meu primeiro ímpeto será exterminar esse grupo, até o último terrorista. Danos colaterais sempre haverá, particularmente quando os covardes usam a população civil como escudo. Não há muito mais a dizer além disto. Sem falar que a imprensa toda comenta o conflito todos os dias, em suas primeiras páginas. Quanto a mim, prefiro falar do que a imprensa não fala. Estou perplexo, por exemplo, quanto aos acontecimentos do réveillon na França. Mais de mil carros foram queimados no país todo e nossos grandes jornais não disseram água sobre o assunto. Estamos já há três dias dos fatos e o silêncio é total, tanto no Estadão, como na Folha de São Paulo e na Veja. No que depender destes jornais, não aconteceu nada de grave na França no réveillon passado. Clóvis Rossi, o correspondente internacional da Folha, está em Paris. Dedicou sua coluna de hoje a um tema de transcendental importância, as filas na loja da Louis Vuitton, na Champs-Elysées. Nenhuma palavrinha sobre a intifada que vandaliza as cidades francesas. Recordar é viver. Em 1998 – há dez anos, portanto – eu escrevia: Mas nem tudo foi charme e beleza neste outono na sedizente Cidade Luz. Paris está hoje cercada por um cinturão de ressentimento, alimentado por imigrantes e filhos de imigrantes, que aproveitaram a última tentativa de um revival de 68 para invadir a Paris intra muros e saquear, depredar e incendiar lojas e carros. O que pretendia ser uma reivindicação de universitários saudosos da “revolução” de Maio, logo transformou-se em caos sem palavra de ordem alguma. O vandalismo imperou também em Marseille, foco de intensa imigração árabe, onde hoje existem bairros em que nem a polícia ousa entrar sem reforços. Se os antigos imigrantes chegavam na Europa preocupados com emprego e com os deveres ante a nova sociedade, o imigrante atual chega exigindo direitos, logo em um Estado em que a previdência social já não dá segurança nem mesmo aos nacionais. Os integrantes das chamadas segunda e terceira geração de imigrantes, detentores de cidadania francesa mas discriminados e desempregados, encontram no quebra-quebra sua forma de expressão. Como boa parte deste contingente é composta de árabes, em sua maioria argelinos, o adormecido ódio ao colonizador põe mais lenha na fogueira. Isso sem falar na ameaça constante de bombas. As grandes lojas e centrais de metrô são locais de sonho para um fanático com projetos de produzir uma carnificina das boas. Um pacote ou mala esquecida em uma estação de metrô talvez não diga nada para um turista desinformado. Para o parisiense pode ser prenúncio de cadáveres e corpos dilacerados. Os cestos de lixo, por razões de segurança, foram lacrados e constituem um lembrete silencioso de que Paris não é mais aquela. Militares em uniforme de campanha e equipados com fuzis-metralhadoras dão um toque sinistro aos grands magasins e subterrâneos da cidade. A intifada transportou-se do Oriente Médio para o centro da Europa e veio para ficar. Franceses e árabes estão irremediavelmente entrelaçados por um passado comum e continuarão a olhar-se diariamente, olhos nos olhos, pelo futuro fora. Se um dia os fundamentalistas argelinos transferirem seus carros-bomba e degolas para as margens do Sena — o que não seria de espantar, pois boa parte da Argélia vive lá —, adeus Paris que tanto amamos. Ela continua linda, é claro. Nem de longe lembra esta São Paulo, com sua arquitetura horrenda e uma média constante de meia centena de cadáveres a cada fim-de-semana. Mas a comparação não procede. São Paulo, antes de ser urbe, é metástase que não pára de expandir-se. E Paris sempre foi a cidade buscada por todo homem culto em busca do que de mais requintado o Ocidente oferece. Ou era. Pelo jeito, a intifada já faz parte dos usos e costumes parisienses. A tal ponto que já nem merece manchetes na imprensa brasileira. Os jornais franceses, é claro, a noticiaram, e não poderia ser diferente. Mas nenhum deles nomeou os responsáveis pelas depredações. Pelo contrário, deram voz a políticos de oposição que consideram um atentado aos direitos humanos a ameaça de Sarkozy de retirar a permissão de dirigir dos baderneiros até as vítimas serem ressarcidas de seus prejuízos. A Europa está se rendendo aceleradamente aos bougnoules. Israel ainda resiste.
Sexta-feira, Janeiro 02, 2009
BOUGNOULES DEPREDAM PARIS Bougnoule é um pesado insulto na França, dirigido aos árabes de modo geral e particularmente aos magrebinos. Derivaria de ñuul, que significa negro, em wolof, no Senegal. A palavra data de fins do século XIX. Curiosamente, foi utilizada pelos alemães para designar os franceses durante a Segunda Guerra. Há quem avente que, em alemão, a palavra designe um inseto vil e incomodativo, e seria desta forma que os alemães chamavam os franceses. Hoje, nestes dias politicamente corretos, francês algum ousaria pronunciar a palavra em público, sob pena de ser acusado de racismo. Como não sou francês nem politicamente correto, eu a pronuncio. Os bougnoules, neste último réveillon, queimaram mais de mil carros na França, particularmente em Paris e Strasbourg. Mas também em Charente, no Ain, em Calvados, Loir-et-Cher, Deux-Sèvres e em Haute-Savoie. Mais precisamente, foram 1.147 carros, 30 por cento a mais que no ano passado. Queimar carros no réveillon está se tornando o esporte predileto dos bougnoules. É óbvio que nenhum francês de cepa celebraria o Ano Novo queimando o carro de seus compatriotas. O vandalismo é obra de negros africanos e árabes, alguns recém-chegados ao país, outros de segunda, terceira e quarta gerações. As cidades francesas, especialmente Paris, estão cercadas de cinturões de ódio e ressentimento. São bougnoules que abandonaram seus países miseráveis em busca do bem-estar que a França lhes oferece, mas não conseguem integrar-se, por razões religiosas e culturais, à nova sociedade em que habitam. Em um país onde a monogamia é lei, querem manter quatro mulheres, às custas da assistência social do país, é claro. Em um país onde cortar clitóris e infibular vaginas é crime, insistem em mutilar suas filhas. Em um país onde as mulheres são livres para escolher seus parceiros, vendem as filhas, ainda inúbeis, a tios, primos e sobrinhos. No réveillon, como protesto a proibição de suas práticas bárbaras, saem a queimar carros dos cidadãos do país que os acolhe e sustenta. Até aí, tudo se entende. Ressentimento não é sentimento nobre, mas é muito inteligível. O que não se entende é o silêncio abissal da imprensa francesa em torno à identidade dos responsáveis pelo vandalismo. Não consegui ler jornal algum que atribuísse aos árabes e negros a autoria das depredações. Nem mesmo o espanhol El País, ousa dizer a origem dos vândalos. Em 2005, Nicolas Sarkozy, o presidente francês, ousou pronunciar racaille, isto é, o lixo da sociedade. Mas não ousou dizer de onde vêm. O que me lembra o Uruguai dos anos 70. Como os militares haviam proibido os jornais de grafar a palavra tupamaros, os jornalistas usavam outro expediente: falavam em “inombrables”. Os inomináveis. Há dois dias, os inomináveis depredaram Paris. Mas a imprensa francesa nem mesmo ousa chamá-los de inomináveis. Seria muito ofensivo aos coitadinhos dos árabes e negros que depredam uma das cidades mais lindas do mundo. Para esta gente que, em sociedade decente, deveria estar atrás das grades, Sarkozy acena com uma penalidade amigável. Perderiam o direito de conduzir, pelo tempo em que a vítima dos fatos ou os fundos de garantia não a tenham indenizada na totalidade dos prejuízos. As oposições francesas reagiram com sagrado horror à tímida proposição de Sarkozy. Algo como se o presidente da França estivesse condenando os baderneiros aos gulags. Mais ainda. O porta-voz do Partido Socialista, Benoit Hamon, considera que o aumento do incêndio de carros na noite do Ano Novo reflete “uma sociedade violenta, que deve muito à responsabilidade da política de Nicolas Sarkozy”. Ora, como se tal vandalismo não tivesse virado tradição em Paris e demais cidades francesas, muito antes de Sarkozy ter sido eleito. Queimar mais de mil carros em Paris me parece ser fato que deve ser noticiado ao mundo todo. Lê, então, leitor, a imprensa nossa. Estamos a dois de janeiro. Os dois grandes jornais do país, a Folha de São Paulo e o Estadão, ambos com correspondentes em Paris, não deram um pio sobre o assunto. A Veja, muito menos. Seu correspondente se contenta em desejar, telegraficamente, “uma excelente passagem para 2009”. Essa gente é paga para quê? Para tomar champanhe enquanto a cidade arde em chamas? É possível que amanhã, três dias depois dos fatos, o jornalismo nacional tome vergonha e noticie o vandalismo dos bougnoules na França. Mas é claro que jamais falarão de bougnoules. Muito menos de negros ou árabes.
Quinta-feira, Janeiro 01, 2009
AOS QUE ESTÃO LONGE Quando escrevia em papel, na Folha da Manhã, meu público se resumia a Porto Alegre e mais algumas cidades gaúchas. Em Dom Pedrito – meus pais já eram mortos - onde me criei, nem meu clã sabia que eu era jornalista. É por estas e por outras que adoro estes dias de Internet. Tenho reencontrado pessoas que não via há trinta, quarenta e mesmo cinqüenta anos. Sem falar nestes desconhecidos íntimos, os leitores distantes. Bisbilhotando no sitemeter deste blog, descobri que além dos leitores cá do Brasil, tenho outros em insuspeitos lugares do mundo. Alguns serão leitores ocasionais, que chegam à minha bitácora por alguma pesquisa aleatória. Mas há os fiéis. Em Pequim, Tongji e Wenzhow, na China. Em Osaka, Toyokawa, Bagoya, Fujisawa, Hikone e Yokohama, no Japão. Em Jawa Barat, na Indonésia. Em Dallas, Chicago, Creswell, El Paso, Troy, New Jersey, Mountain View, Southfield, Raritan, Princenton, Naples, Creswell e Ohio, nos Estados Unidos. Em Nordrhein, Leipzig, Bonn e Erfurt, na Alemanha. Em Zurich e Basel, na Suíça, em Milão, na Itália. Mais outros em Paris, Ussel, Angers, Villeurbanne e Lyon, na França. Há um em Madri, um em San Sebastián, outro em Barcelona e mais um Oviedo, na Espanha. Um outro em Buenos Aires. Na Inglaterra, tenho um leitor em Londres, outro em Oxfordshire e mais um em Crawley. No Canadá, tenho cinco fiéis. Em Montreal, Beaconsfield, Edmonton, Mississauga e North Vancouver. Para minha surpresa, descobri que tenho um leitor em Maputo, Moçambique. Outro em Laie, no Hawai. E outro em Yaound, no Cameroon. Um outro em Queensland, Austrália. Mais um em Cagliari, na Sardenha. Em Portugal, tenho dois, um em Lisboa e outro em Braga. Na Finlândia, tenho um em Taivalmaa, outro em Kurikka, outro em Ruovesi e uma leitora – a quem conheço e quero bem - em Vaasa. E na Bélgica, um dos meus fiéis vive em Bruxelas. São brasileiros e portugueses, suponho, talvez mais alguns espanhóis, americanos e franceses, com domínio do português. A estes amigos íntimos, tanto os do Brasil como os que vagam pelo planetinha – desconhecidos na maioria, conhecidos alguns – deixo meus votos de um bom 2009. À guisa de lembrança, segue um trechinho da ópera que mais adoro, na interpretação que mais me fascina, a de Julia Migenes: http://www.youtube.com/watch?v=EYfU4QPwz-4&feature=related
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