¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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Sexta-feira, Julho 31, 2009
 
FOLHA CONTINUA
DANDO ESPAÇO A
IMORTAL IMORAL



Sexta-feira é o dia em que a Folha de São Paulo dá espaço a três cronistas canalhas: um senador corrupto, um deputado corrupto e um jornalista contemplado com a bolsa-ditadura. Espanta constatar como a Folha envelheceu tão rapidamente. De jornal jovem e corajoso, que denunciou e ainda denuncia os desmandos da ditadura e a corrupção do Congresso, transformou-se em casa que dá abrigo ao que de pior existe no país.

Não há dia em que não se descubra uma maracutaia de José Sarney e sua família. Os setores de artes dos jornais têm de atualizar a cada semana os infográficos dos Sarney com os tentáculos que controlam roubos, evasões fiscais, nepotismo, tráfico de influência e crimes outros. O empresário Fernando Sarney já foi indiciado por formação de quadrilha, gestão de instituição financeira irregular, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica – diz a própria Folha de São Paulo. Pela investigação, o órgão mais beneficiado pelos crimes foi o Ministério de Minas e Energia – controlado politicamente por seu pai.

A folha corrida do filho do presidente do Senado é tamanha que já fez esquecer a folha corrida de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho mais velho do homônimo. Suas negociatas com a Telemar, maior operadora de telefones do país, lhe renderam apenas R$ 5 milhões, concedidos no amor a uma produtora de programas de TV sobre games da qual Lulinha é um dos sócios, a Gamecorp. Qual a diferença entre as corrupções do filho de Sarney e as do filho de Lula? Uma só: um é filho do presidente do Senado e o outro é filho do presidente da República.

O Estadão de ontem revelava o acúmulo de salários com aposentadoria do qual se beneficia José Sarney, superando o limite constitucional de R$ 24,5 mil. E superando muito além do imaginável. Segundo o jornal, o senador imortal – e bota imortal nisso! – tem aposentadoria como ex-presidente da República, como ex-governador do Maranhão e ainda uma aposentadoria do Tribunal de Justiça do Maranhão, que poderiam somar algo em torno de R$ 45.000, além de receber mensalmente seu salário como senador, de R$ 16.512. O que dá um simpático salariozinho de 61.512 reais. Por mês. Não é de espantar que o senador sequer tenha notado os 3.800 reais que o Senado lhe pagava a título de auxílio-moradia, apesar de Sarney ter residência em Brasília.

Sessenta mil reais só de salários. Aqui não está computado o que o ilustre acadêmico recebe por fora, em decorrência de suas roubalheiras. Interrogado sobre porque político tão corrupto continua assinando coluna na Folha, o secretário de Redação sempre responde cinicamente que o jornal abriga toda gama de opiniões e que Sarney ainda não foi condenado em juízo por crime algum. Precisa?

Em poucas décadas de existência, a Folha adquiriu uma craca que a desmoraliza perante seus leitores. Hoje, olimpicamente, o imoral imortal disserta sobre Aristóteles e a arte da política. Escreve que a ojeriza à política é coisa de tiranos. “Hitler tinha horror à política. Na tentativa de evitar a Guerra Mundial, um seu general disse que era chegada a hora da política e ele respondeu: "abomino a política". O ser autoritário é sempre amargurado com a política: o move a força como solução e, para alcançá-la, veste-se do ressentimento, da inveja, do puritanismo, como uma máscara para esconder a hipocrisia”.

Está passando um recado a seus eventuais leitores. Este asco que hoje todo cidadão honesto nutre pelos políticos seria comportamento de ditadores amargurados com a política e movidos pelo ressentimento, pela inveja, pelo puritanismo, como uma máscara para esconder a própria hipocrisia.

Queixa-se da imprensa, abstratamente, mas jamais da Folha que publica seus tijolos: “Hoje, com a sociedade de comunicação, os princípios da guerra aplicados à política são mais devastadores do que a guilhotina da praça da Concorde. O adversário deve ser morto pela tortura moral disseminada numa máquina de repetição e propagação, qualquer que seja o método do vale-tudo, desde o insulto, a calúnia, até a invenção falsificada de provas”.

Coitadinho do senador, morto pela tortura moral, pelo insulto, pela calúnia, até mesmo pela invenção falsificada de provas! Sarney mente descaradamente para justificar seus desmandos e ainda ousa alegar invenção falsificada de provas. “Como julgar uma democracia em que não se tem lei de responsabilidade da mídia nem direito de resposta, diante desse tsunami avassalador da internet e enquanto a Justiça anda a passos de cágado? Como ficam os direitos individuais, a proteção à privacidade, o respeito pela pessoa humana?”

Como se na legislação brasileira não houvesse lei que responsabilizasse a mídia nem direito de resposta. Curiosamente, nestes dias, o tiranete Hugo Chávez, através de um mandalete, apresentou à Assembléia Nacional da Venezuela um projeto de lei que prevê a prisão de jornalistas e outros profissionais da imprensa que cometam o que chamou de "crimes midiáticos", que poderão ser punidos com até quatro anos de prisão. O projeto prevê que a pessoa que divulgar informação considerada "falsa", "manipulada", que cause "prejuízo aos interesses do Estado" ou atente contra a "moral pública" ou a "saúde mental" estará incorrendo em "crime midiático".

O que o imortal imoral está pedindo é censura à imprensa que denuncia seus crimes e que contesta o que ele chama de direitos individuais, proteção à privacidade e respeito pela pessoa humana. Isto é, o direito de roubar, para si e para os seus, o direito de não responder por tais crimes e o respeito à sagrada instituição da corrupção familiar.

É espantoso ver um jornal que se considera honesto e combativo dando acolhida a tal pústula.

Quinta-feira, Julho 30, 2009
 
BR-319 E AMAZÔNIA


Caro Janer,

Finalmente algo para discordarmos. Porque, para mim, o asfaltamento da BR-319 não deve ser levado adiante. Concordo que alguma forma digna de se chegar a Manaus que não seja pela água nem pelo ar precisa ser criada. Não há a menor dúvida. Mas que seja então uma ferrovia, conforme sugerido por todos os estudos de impacto ambiental apresentados até agora.

Explico. Não é a falta de estrada que isola Manaus. O que isola Manaus é a sua localização. Porque, em primeiro lugar, uma rodovia não vai tornar os produtos mais baratos - veja que o caminho até Rio Branco é asfaltado e o tomate não é mais barato por lá do que em Manaus por isso.

Também não vai melhorar o transporte de passageiros. Em que lugar do mundo se anda milhares de quilômetros de carro (ou pior, em ônibus balançando para lá e para cá) e não, majoriamente, de trem? Mais do que isso, imagine o custo da manutenção de uma estrada em uma região que chove (e chove e chove e não para de chover) que nem a amazônia brasileira. Vai ser uma luta interminável para ela não ficar intransitável novamente.

E, por último, uma estrada nova, na amazônia, leva consigo um rastro de devastação florestal ao seu redor. Logo aparece o gado, logo aparece a soja. E vai embora a floresta, causando impactos climáticos no mundo inteiro, matando a fauna e a flora que um dia poderiam render descobertas científicas e dinheiro. Não é esse modelo de desenvolvimento, terceiro-mundista, de produção barata de produtos sem valor agragado, que desejo.

A ferrovia, por não permitir que os infelizes desçam no meio do seu caminho e derrubem a floresta o quanto quiserem, diminui esse impactos. Mais do que isso: pela distância ser grande, no final os custos de frete e as passagens ficam bem menores do que se for feita uma ferrovia. Quando nossos avós eram piás já se sabia disso, sempre se soube.

A opção da ferrovia é uma realidade, já foi levantada várias vezes. Mas parece que pode acabar perdendo pro fator psicológico bobo de "precisamos de uma rodovia, todo mundo que se preze tem uma". Veremos.

Abraço,

Ricardo Mioto

 
BRASIL PERDE
O TREM DA
HISTÓRIA


De acordo, Ricardo!

Ocorre que o Brasil, desde Juscelino, fez uma opção pelo carro. Perdemos o trem da história, sem trocadilhos. A rodovia já está feita e me parece tarde para pensar em trilhos. Em meus dias de jovem, eu ia de trem de São Paulo a Dom Pedrito. Hoje não se vai nem ao Rio. Viajando pela Europa com minha filha, para minha surpresa, ouvi dela: "é a primeira vez que entro em um trem". Ela nascera em um mundo que renunciara ao conforto, praticidade e prazer de viajar de trem. Há horas afirmo que sempre importamos o pior do Primeiro Mundo. Pior ainda, abandonamos o melhor. Em todo caso, duvido que os ecochatos e ornitólogos aceitem a idéia de uma ferrovia. Eles são contra todo desenvolvimento.

Há alguns anos, vi uma reportagem no 60 Minutes sobre uma região da Índia que abrigava quarenta milhões de habitantes. O programa começava mostrando mulheres e crianças carregando em baldes, para próprio consumo, uma água preta e lamacenta. Outras juntavam esterco de vaca, usado como combustível. Havia um projeto de uma represa para abastecer de energia elétrica e água potável a região toda. Uma ONG vetou o projeto junto ao Banco Mundial, com a argumentação de que a represa ameaçava uma espécie qualquer de tigre. A represa gorou e quarenta milhões de pessoas continuaram a beber água podre e cozinhar com esterco de vaca.

A reportagem entrevistava em Nova York, em um elegante apartamento, a porta-voz da ONG que conseguiu sepultar a represa. Não sei se a moça percebeu a ironia, mas o repórter a filma enchendo um copo de límpida água de torneira. O repórter quer saber porque privar milhões de pessoas de água limpa. A moça dizia mais ou menos o seguinte (cito de memória): não queremos que aquelas populações adquiram os hábitos de consumo do Ocidente. É como se dissesse: esses hábitos do Ocidente são privilégios de ocidentais. Vocês aí, continuem catando esterco de vaca.

Mais de trezentos projetos de barragens já foram engavetados no mundo, especialmente na África, Ásia e América Latina, por obra de ONGs. Estas organizações estão cometendo crimes contra a humanidade, ao condenar milhões de pessoas a viver longe da água potável e energia elétrica. Seus militantes são sempre oriundos de países desenvolvidos, todos pontilhados de represas. Sua ação sempre incide sobre países do Terceiro Mundo, que precisam de energia para abandonar esta condição. É preciso olhar com cautela para os defensores aguerridos da fauna. Tigres ou passarinhos, bichinhos comoventes tipo o mico-leão-dourado, constituem uma ameaça ao desenvolvimento de países pobres quando manipulados por ongueiros.

 
AINDA SOBRE A
PERICULOSIDADE
DOS ORNITÓLOGOS



Caro Janer

Felizmente, para Curitiba, o macuquinho só serviu mesmo para atrasar um pouco as obras da Barragem do Iraí, que já a mesma está concluída e em operação. Mas que foi uma picaretagem das grossas, foi. Depois, descobriu-se que o tal passarinho, além de não sofrer qualquer ameaça, é também muito comum, pelo menos nos campos de Paraná e Mato Grosso do Sul. O resultado, além de render viagens aos EUA para os ornitólogos e elevá-los ao cargo de consultores (se bem me recordo, foram a Washington expor o caso ao banco financiador) só serviu mesmo para atrasar a obra e, acredito que isto deve tê-los deixado felizes, diminuir o lucro do malvado do empreiteiro que a executou. Lembro ainda mais dois casos.

1 - Os índios do Morro dos Cavalos, em Palhoça, Santa Catarina, que atrasaram a construção de um túnel nas obras de duplicação da BR-101, sob a alegação que tal obra iria prejudicar o seu comércio de artesanato.

2 - O papagaio-do-peito-roxo, que até hoje impede a completa duplicação do trecho paulista da Régis Bittencourt (Curitiba-São Paulo), lá pelos lados de Miracatu.

Saudações,

Ivo


Meu caro Ivo:

Em janeiro de 2007, dois simpáticos passarinhos ameaçados de extinção ilustraram uma reportagem na Folha de São Paulo, o papa-formigas-de-topete-branco e o rapazinho-carijó. Segundo estudo feito por cientistas brasileiros - e americanos, como não poderia deixar de ser - as unidades de conservação pequenas têm potencial limitado na conservação da biodiversidade na Amazônia quando se trata de espécies de pássaros. A conclusão é de um estudo de cientistas do Brasil e dos Estados Unidos, a partir de levantamentos feitos desde 1979 numa área desmatada perto de Manaus. Os cientistas tentam entender qual é fator mais crucial para a sobrevivência de espécies em um determinado fragmento de mata que tenha restado numa região desmatada. É mais importante que esse fragmento seja grande ou é mais importante que ele não esteja muito isolado de outros trechos de mata?

Seja qual for a conclusão, é óbvio que se opõe a qualquer iniciativa para desenvolver a região. "Fragmentos de cem hectares perdem a metade do número de espécies de ave em cerca de 15 anos", dizia o pesquisador, que alertava para um problema: "Para diminuir dez vezes a velocidade de perda, é preciso aumentar cem vezes a área". Ora, desde quando passarinho é prioritário ante um projeto de agricultura ou pecuária? Por outro lado, pássaros voam. Se um território tornou-se hostil, eles buscam outro. Pássaros migram. Não é preciso ser ornitólogo para saber disto. Quando migram, não migram a pé. Asas vão longe e a Amazônia é vasta.

 
CATADORES DE MACACOS
AMEAÇAM REFORMA DE
RODOVIA NA AMAZÔNIA



Há mais de três anos, comentei o perigo que os ornitólogos representavam para a economia de um país. A idéia que temos destes senhores é a de pacatos cidadãos que adoram observar essas maravilhas da natureza, os passarinhos. Até pode ser. Mas sempre é bom desconfiar quando ornitólogos apresentam um pássaro na televisão. Normalmente, há grossa sacanagem de ONGs e ambientalistas atrás disto. Até hoje estou recebendo bicadas de uma revoada de ornitólogos furiosos.

Nos dias em que vivi no Paraná, durante semanas foi vedete dos noticiários televisivos um pequeno pássaro, uma espécie de pardal, que estaria ameaçado de extinção. Chamava-se curiango-do-banhado e habitava nos arredores de Curitiba. Durante longos minutos, o bichinho era exibido em seus ângulos mais simpáticos, sempre com a mensagem: corre perigo de extinção. Ano seguinte, foi a vez de uma nova espécie de tapaculo, da família Rhinocryptidae, batizada com o nome popular de macuquinho-da-várzea. Também vivia nos arredores de Curitiba. Algumas semanas mais tarde se soube ao que vinham o curiango-do-banhado e o macuquinho-da-várzea. Para preservá-los, era preciso preservar seu habitat natural. E para preservar seu habitat natural, as tais de ONGs fizeram uma ferrenha campanha para impedir a construção de uma barragem que abasteceria a capital paranaense. Me consta que o projeto de barragem morreu na casca.

Tão ou mais perigosos que os ornitólogos são os ecólogos. Fabio Rohe, da Wildlife Conservation Society, de Nova York, especializou-se em catar macacos no Brasil para impedir o desenvolvimento do país. Em 2007, um grupo de cientistas liderados por este senhor, andou achando uma nova subespécie de macaco no Amazonas, batizado cientificamente como Saguinus fuscicollis mura. A descrição do animal foi publicada na revista científica International Journal of Primatology, em junho passado.

Segundo o Globo, o nome mura é uma homenagem aos índios muras, que viviam próximos ao lugar onde o macaco foi encontrado. A escolha, diz Rohe, serve para dar um alerta: “os mura foram muito prejudicados pelos brancos. De certa forma, eles representam a resistência da natureza ao mundo civilizado”.

Para onde aponta a nova descoberta? O mura foi encontrado entre os rios Madeira e Purus, justamente sob o traçado da rodovia BR-319, que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM). A rodovia, que hoje está abandonada e intransitável, tem a reforma prevista no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). A obra aguarda apenas a licença do Ibama para começar, e ambientalistas afirmam que a estrada poderá trazer uma devastação sem precedentes para a região. Não é evidentemente por acaso que o símio, descoberto em 2007, só agora foi registrado numa revista científica, exatamente quando se planeja a reforma da rodovia.

Mas nem só os ecólogos ameaçam a rodovia. Os ornitólogos também voltaram à carga. Uma nova gralha foi descoberta adivinhe o leitor onde? Entre os rios Madeira e Purus, justamente no traçado da BR-319. Segundo o ornitólogo Mário Cohn-Haft, a ave – que ainda nem foi batizada - coloca seu ninho sempre próximo à margem dos campos, em capões de mata. Somando toda a área que pode ser ocupada pela espécie, concluiu-se que esse espaço é tão pequeno que a ave já pode ser considerada vulnerável à extinção.

Com a ocupação da estrada, essa ameaça torna-se real. “Só se precisa permitir que gente chegue perto para destruir o ambiente dela. O ser humano parece não saber conviver com campos naturais sem queimá-los. Os campos próximos à cidade de Humaitá, por exemplo, não hospedam a gralha porque queimam todo ano”, disse Cohn-Haft à reportagem do Globo.

“Todos os exemplos que temos de asfaltamento de estradas na Amazônia levaram a muita degradação ambiental. Não temos porque acreditar que neste caso será diferente. Só que ao longo da BR-319 perderemos animais e plantas que não ocorrem em nenhum outro lugar do planeta”, alerta o ornitólogo de alta periculosidade.

Uma gralha e um macaco ameaçam o asfaltamento de estradas no Brasil, isto é, a comunicação entre cidades e Estados, precisamente nas regiões mais desprovidas de recursos do país. Ornitólogos e ecólogos unidos jamais serão vencidos. Enquanto isso, o governo brasileiro assiste passivamente, de braços cruzados, a intervenção de fundações estrangeiras em obras fundamentais para o desenvolvimento nacional.

Quarta-feira, Julho 29, 2009
 
JEAN ASSMANN: MONOTEÍSMO E VIOLÊNCIA


A violência é inerente às religiões monoteístas? Esta pergunta é equacionada pelo egiptólogo alemão Jean Assmann, autor de Violence et monothéisme, entrevistado pela revista francesa Le Point. Traduzo alguns excertos de suas declarações:

- Meus livros precedentes, e principalmente Moisés, o Egípcio, foram percebidos erradamente como um ataque contra o monoteísmo e o judaísmo, não tanto pelos judeus, mas principalmente pelos cristãos, e sobretudo pelos alemães, sempre sensíveis ao problema do anti-semitismo. Pensei então que seria importante aprofundar o problema da violência nas religiões oriundas do mundo bíblico. Esta violência, com efeito, é específica. Enquanto a violência ritual, por exemplo, que se exprime pelo sacrifício, permite ao homem entrar em comunicação com os deuses e operar uma reconciliação, a violência que se exprime na Bíblia, a partir do momento em que Moisés recebe as tábuas da lei, se faz em nome de Deus: após o episódio do bezerro de ouro, três mil hebreus são assassinados para saciar sua vingança.

- Durante muito tempo se considerou que a religião era o principal ponto de apoio a partir do qual um homem podia estabelecer uma comunicação com outro. Isto é verdadeiro para as religiões da antigüidade, que eram estruturadas de maneira completamente diferente do que hoje se entende por religião. As religiões egípcias, gregas ou mesopotâmicas repousavam sobre uma relação entre o homem e o mundo dos deuses, que era o cosmos. O homem se comunicava com as divindades graças aos cultos. Pouco importava então se o vizinho adorava Mitra ou Horus: desde que alguém cresse nos deuses, podia-se confiar nele. Este reconhecimento mútuo dos deuses do Outro permitia o estabelecimento de contratos internacionais, que tornavam possível a comunicação entre os povos.

- O monoteísmo rompeu esta comunicação mútua porque ter um deus único é considerar os adeptos de outras religiões como os inimigos de Deus. A religião torna-se então o mais importante gerador de oposições, entre judeus e gentios, cristãos e pagãos, muçulmanos e não crentes...

- O que se chamou de “revolução amarniana”, a partir do nome de Amarna, a capital que Akhenaton fez construir em pleno deserto, foi sem dúvida uma revolução monoteísta, todos os deuses foram proibidos e seus nomes apagados. Mas sua importância foi muito relativa, já que após a morte de Akhenaton os egípcios voltaram a seus deuses ancestrais.

- Além do mais, seu deus não era revelado nem transcendente e não tinha poder político. Só Faraó representava o Estado. Ora, progressivamente a religião dos hebreus vai evoluir de um deus exclusivo, que nega os outros deuses que lhe fazem concorrência, a um deus único, que é o Poder e a Justiça. É uma première na história da humanidade: não é mais o rei deificado que detém o poder, como no Egito ou na Mesopotâmia, mas uma divindade que enuncia a Lei e se arroga a violência inerente ao poder político.

- O direito e a justiça vão se impor face aos ritos sacrificiais. Mas como podem eles ter efeito? Graças à violência jurídica, indefectivelmente ligada ao conceito de lei. Aquele que exerce esta violência em nome de Deus faz prova de “zelo”, isto é, ele cumpre a lei. Mata-se em nome da vontade de Deus. Os fundamentalistas de hoje, sejam judeus, cristãos ou muçulmanos, não pensam de outra forma.

- Não é por acaso que o Deus da Bíblia faz uma aliança com seu povo, aliás excludente de toda outra associação e comunicação humana. Numerosos judeus foram deportados para a Babilônia e os redatores da Bíblia retomaram um esquema que eles conheciam, aquele do rei assírio fazendo aliança com seus súditos.

- A noção de união entre o poder e o povo, entre o céu e a terra, pode assim encontrar suas raízes no casamento secreto entre o rei assírio e a deusa Ishtar, ritual que lhe permitia afirmar seu poder. Na Bíblia, Deus é o Pai, mas também o rei e o esposo de Israel, o povo eleito, que é a virgem casada. O cristianismo, de sua parte, vai se inspirar mais no Egito, onde Amon, o deus-sol, tomba amoroso de uma rainha que ele fecunda e à qual ele dá o novo rei. Jesus será também o filho de Deus e oriundo de uma linhagem real, através de José, pai de Davi.

- Em sua origem, o discurso crístico é não violento e separado do político. “Daí a César o que é de César”. Mas desde que o cristianismo tornou-se a religião de Estado do império romano, a política e a violência dele tomaram conta. Talvez porque, justamente, a intolerância está na raiz do princípio do deus único e revelado.

- As religiões monoteístas devem se desconectar do político. Uma religião que assume a violência resta ligada à política e falta à sua função no mundo: liberar os homens da onipotência do cosmos, do Estado, da sociedade e de todo sistema com pretensões totalitárias.

 
O CRESCIMENTO ABSURDO
DA ATIVIDADE DO ESTADO



Caro Janer,

Gostei muito dos seus artigos sobre o "sistema" de cotas e o sobre a Cracolândia. Num livro antigo, Os Dez Mandamentos, da Civilização Brasileira, o último mandamento (salvo traição da memória) era um conto do João Antônio, e na minha opinião seu melhor texto, sobre a fragmentação da zona em São Paulo. Nestes mesmos endereços onde você viu a degradação da cracolândia. Paulinho Perna Torta era o herói.

Este episódio da proibição ao fumar tabaco (não fumo e nunca fumei) mostra tantas coisas: o crescimento absurdo da atividade do Estado, o despropósito de quem não consegue coibir o uso de drogas proibidas e investe contra as legalizadas e, sobretudo, revela como o sistema repressivo é todo voltado contra uma parcela da população. Nem os muito ricos, nem os muito pobres, nem os muito minoritários (por mais maioria que sejam), só para a passiva clase média pagante de impostos.

Será que vão proibir fumar nos candomblés? Nas salas de umbanda? Fumar não é característica cultural de minoria alguma?

Não podem deixar de ser ridículos?

Feliciano Swerts C. Dias


Pelo que me consta, Feliciano, nos candomblés e umbandas o fumo continuará permitido. Mas essa lei ridícula do Serra tem tudo para não pegar. Sem falar que provavelmente será revogada em suprema instância. Legislação estadual não pode revogar legislação federal. Ou qualquer dia qualquer Estado libera a maconha, cocaína, heroína. Drogas que, de fato, estão liberadas. O que quer se proibir agora é a droga legal.

Terça-feira, Julho 28, 2009
 
QUANDO BAIXA
AUTO-ESTIMA É
ESTIMA DEMAIS



Leio nos jornais que a Ana Paula Meira, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), descobriu que estudantes cotistas, mesmo depois de passar em concorridos vestibulares, ainda se escondem por causa de baixa auto-estima e do racismo. "O racismo coloca as pessoas sempre à margem. Você duvida que possa estar fazendo o que é certo, que pode ser bonita e inteligente", afirma Ana Paula. "É dificílimo achar um cotista, as pessoas se escondem", descreve a mestranda em Política Pública e Gestão de Educação.

Racismo é existir o sistema de cotas. Racismo é achar que um negro vale mais que um branco só porque é negro. Racismo é excluir alunos pobres da universidade só porque têm a pele branca. Racismo é o que o sistema de cotas quer incentivar no país. Luta de classes morta, luta racial posta. Com o desmoronamento da União Soviética e do comunismo, o conflito de classes não pode mais ser empunhado como bandeira política. Era preciso encontrar um novo conflito. Existem pretos e brancos no mundo? Então vamos jogar os pretos contra os brancos, sempre em nome da liberdade e dos direitos humanos.

Segundo o que leio, Ana Paula Meira critica a iniciativa do partido Democratas que entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal contra o sistema de cotas. Ela classifica a iniciativa de "reacionária" e refuta o argumento de que o recorte pela renda tornaria a política afirmativa mais justa e eficaz. "A maioria dos negros é pobre, mas o que está em voga não é só o econômico. O que socialmente está torto é o racismo", defende.

De fato, minha cara doutoranda, o que socialmente está torto é o racismo. Está torto este racismo que privilegia alguém em função da cor, seja qual cor seja. Sou contra cotas seja para homens brancos, negros, azuis, verdes ou amarelos. Racismo é defender cotas.

Se cotista tem baixa auto-estima é porque tem auto-estima demais. Cotista não devia nutrir sequer um pingo de estima por si mesmo. Entrou na universidade pela porta dos fundos. Deveria sair pela mesma porta e não pela porta da frente. Pessoalmente, penso que devia constar de todos os diplomas, daqui pela frente, se o diplomado entrou pelo sistema de cotas ou se disputou lealmente sua vaga na universidade.

Afinal, se cotas é algo do qual nenhum beneficiado não deve envergonhar-se, por que não constar do diploma?

Segunda-feira, Julho 27, 2009
 
OS ZUMBIS DA GUAIANASES


Enquanto José Serra, candidato enrustido à Presidência da República, tenta lançar seu nome através de uma legislação antifumo demagógica e pior – inconstitucional -, a droga corre solta nas ruas de São Paulo. Há poucos minutos de táxi daqui de casa, na região da estação da Luz, há um vasto território onde o consumo de toda e qualquer droga é livre. Como a droga mais consumida é o crack, convencionou-se chamar aquele espaço de Cracolândia. Mas lá você encontra o que quiser, desde a canabis até a cocaína.

Não imagine o leitor que este comércio é operado na clandestinidade. Nada disso. Ocorre à luz do dia, em plena rua, na frente de viaturas de policiais. Não gosto muito da palavra dantesco, me parece um lugar comum, mas é a única que encontro para definir o local. Dante ilustrado por Doré. Certo dia, passei de táxi por uma extremidade da rua Guaianases, a que mais concentra drogados. Dantesco e assustador. Centenas de zumbis, crianças e adultos, homens e mulheres, enrolados em cobertores e capuzes, cachimbando crack, coalhavam a rua. Nenhum taxista ousa entrar no pedaço. Tudo isto no centro da mais imponente capital do continente.

A Prefeitura quer revitalizar a Cracolândia. Para isso, está tocando um projeto que chamou de Nova Luz. Uma vasta área está sendo desapropriada e será demolida para dar lugar a um centro administrativo. O que me parece uma ótica de cegos. Centros administrativos se tornam desertos depois das seis da tarde. Mesmo que os marginais sejam afastados durante o dia, todos voltarão à noite a seu habitat. Todas as semanas, os jornais nos trazem fotos de pobres coitados fumando crack. Alguns permanecem dias deitados, já nem conseguem parar em pé. Só a polícia, que tem um distrito policial justo na Cracolândia, parece não ver nada.

Ou melhor, vê. Só sendo cego e surdo para não ver. Vê mas não faz nada. Considera-se que o problema é social, não policial. Às vezes, para mostrar serviço, esvaziam as ruas do crack por algumas horas. Apenas por algumas horas. Ninguém é preso, nem usuários nem traficantes. Em pouco tempo, no mesmo dia, os zumbis estão de volta à Guaianases.

Em recente reportagem da Agência Brasil, o psicólogo Lucas Carvalho afirmava que a Cracolândia, em vez de sumir, “está se fragmentando em diversos pontos da cidade". Se você passar pelo centro da cidade, em torno à praça da República, verá farrapos humanos amontoados na rua, sempre em grupo e sempre enrolados em cobertores, puxando crack à luz do dia, com a tranqüilidade dos justos. A polícia nada faz, afinal o “problema é social”. A polícia será chamada, promete Serra, para retirar fumantes de restaurantes.

A fragmentação da Cracolândia, segundo Carvalho, está facilitando o acesso das crianças à droga. "O crack está chegando mais perto delas, antes precisava ir até a Cracolândia. Agora, a Cracolândia está por aí", afirmou. A única providência até agora tomada por ONGs que querem resolver o problema foi fornecer um cachimbo de madeira aos usuários de crack, com o objetivo de incentivar o não compartilhamento do instrumento. Isso porque os viciados constroem modelos artesanais de metal, que queimam a boca, causando feridas, e podem transmitir doenças quando compartilhado com outras pessoas.

Semana passada - leio nos jornais - vinte órgãos públicos e mais de 250 policiais não foram suficientes para acabar com a cena que se vê há 20 anos na Cracolândia. Seis horas após o início de nova operação destinada a revitalizar uma das áreas mais degradadas da capital, centenas de viciados voltaram às ruas, com cachimbos em mãos e cobertas nas costas, nos pontos tradicionais de consumo da droga.

Em vez de atacar o problema com o rigor devido, autoridades fornecem cachimbos aos pobres diabos para que se droguem sem maiores problemas. Enquanto isso, semana que vem, começam os Blitze contra os fumantes nos restaurantes.

Last but not least: ao lado da Cracolândia, está a Santa Ifigênia, vasto mercado de contrabando de eletrônicos e produtos piratas. A dez metros de um distrito policial, a muamba está exposta nas calçadas. Lá de vez em quando a Receita Federal dá uma batida, recolhe dez ou vinte caminhões de contrabando. A medida não faz nem mossa. Dia seguinte, as ruas estão reabastecidas de mercadorias, como se nada tivesse acontecido.

Ama com fé e orgulho, a terra em que nasceste. Criança! Não verás nenhum país como este.

Não verás mesmo.

 
AINDA A FARSA DO
INSTITUTO MILLENIUM



De Moisés Glasman recebo:

Prezado Janer:

Bem se diz mais rápido se pega um mentiroso que um coxo. Do e-mail a ti enviado: "Acompanhamos os seus artigos na web e temos ciência de que o senhor trata de assuntos muito caros para nós". Ora, vê-se logo que não te lêem mesmo.

Um abraço.


Pelo que soube, Moisés, eles querem se firmar como uma fonte de apoio ao DEM e ao PFL. Só o que faltava eu me envolver com essas histórias sórdidas de políticos vagabundos.

Domingo, Julho 26, 2009
 
MENSAGEM DO PITUCO


Prezado Janer, saudações!

É completamente compreensível que, se os católicos e membros de outras religiões menos fundamentalistas, tivessem pleno conhecimento da bíblia, suas crenças em um deus bondoso e misericordioso fossem por água abaixo. Isto é ponto pacífico. Ok.

O que me assusta, são seitas como a dos Testemunhas de Jeová, que conhecem muito mais o antigo testamento e aprovem, pasme, aprovem todas as barbaridades cometidas por Jeová, as matanças, enfim, tudo o que já sabemos.

Tive um colega de trabalho que era Testemunha de Jeová, e ele era sarcástico ao dizer que todos os "ímpios" - melhor seria dizer, os não-Testemunhas de Jeová - seriam destruídos; e parecia haver nele um sentimento de satisfação, de prazer, ânsio de que logo isso acontecesse, para que apenas ficasse no mundo o Povo Eleito, feliz por acreditar que um holocausto sem precedentes eliminasse do planeta 6 bilhões de pessoas.

Quando há ignorância dos textos bíblicos, até é justificável que pessoas de bem sejam manipuladas por uma ou outra religião. Mas tratando-se dos Testemunhas de Jeová é abominável.

Gostaria muito que o Sr. comentasse sobre isso.

Um abraço de seu mais assíduo leitor,

Jean Rodrigo Pituco.



Meu caro Pituco:

não se trata de ignorância dos textos bíblicos. Mas de conhecimento profundo. Os Testemunhas são coerentes com o Antigo Testamento. Jeová era, inicialmente, apenas o deus de Israel. Todas as demais tribos, cada uma com seu deus, eram tribos inimigas. Em todo o Pentateuco, não temos informação nenhuma de que Moisés acreditasse na existência de um só Deus.

A idéia de um deus único só vai surgir mais adiante, no dito Segundo Isaías. Reiteradas vezes escreve o profeta:

44:6 Assim diz o Senhor, Rei de Israel, seu Redentor, o Senhor dos exércitos: Eu sou o primeiro, e eu sou o último, e fora de mim não há Deus.

Num acesso de egocentrismo, Jeová se proclama o único:

7 Quem há como eu? Que o proclame e o exponha perante mim! Quem tem anunciado desde os tempos antigos as coisas vindouras? Que nos anuncie as que ainda hão de vir. 8 Não vos assombreis, nem temais; porventura não vo-lo declarei há muito tempo, e não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas testemunhas! Acaso há outro Deus além de mim?

Ou ainda:

45:5 Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cinjo, ainda que tu não me conheças. (...) 21 Porventura não sou eu, o Senhor? Pois não há outro Deus senão eu; Deus justo e Salvador não há além de mim.

Só aí, e tardiamente, surge na Bíblia a idéia de um só Deus. É um deus ciumento - ele próprio o declara e não aceita o culto a nenhum outro deus. Incoerentes são os cristãos que acham que Jeová é um deus cheio de amor.

Sábado, Julho 25, 2009
 
CANALHAS SE MERECEM


Que queixas tens contra o governo Lula? – me perguntava um amigo -. A atual economia te prejudica?

Bom, prejudicar não me prejudica, afinal estou fora do mercado de trabalho. Mas não me prejudicar não é critério para julgar bom um governo. Falta saber se prejudica os demais. Sem falar que não consigo engolir a idéia de ter como presidente um analfabeto, restam outras questões.

Por que o contribuinte tem de pagar bolsa-ditadura aos celerados que um dia quiseram reduzir o país a uma imensa Cuba? Por que tem quem trabalha honestamente sustentar quem não trabalha com a tal de bolsa-esmola? Por que meio Brasil que trabalha tem de pagar a outra metade que não trabalha? Por que tem o contribuinte, caloteado em seus precatórios, contribuir com a reconstrução da Faixa de Gaza? Por que temos, brasileiros, de suportar um presidente que apóia e absolve a corrupção generalizada de deputados e senadores e, pior ainda, os desmandos de um canalha como José Sarney?

Leio nos jornais que Lula da Silva disse que é preciso evitar o que chamou de "morte precoce" do presidente do Senado, José Sarney. Mesmo depois da revelação de conversas em que Sarney orienta o processo de contratação do namorado da neta, Lula minimizou o teor das denúncias, defendeu a permanência do presidente do Senado no cargo e censurou condenação precoce no país. "O que você não pode é vender tudo como se fosse um crime de pena de morte", afirmou.

Velha estratégia comunista. Sem ser comunista, o Supremo Apedeuta aprendeu bem a lição. Lança-se no ar uma tese que não foi defendida por ninguém e argumenta-se contra a tese fictícia. Ninguém está pedindo pena de morte para Sarney. Cadeia já nos satisfaria plenamente.

Ao falar das gravações, Lula disse que "é preciso saber o tamanho do crime. Ou seja, uma coisa é você matar, outra coisa é você roubar, outra coisa é você pedir um emprego, outra coisa é relação de influências, outra coisa é o lobby". Pode-se acreditar que o presidente da República, com todos os serviços de informação que tem sob seu mando, não saiba qual o tamanho do crime?

Sarney usou o Senado como se fosse seu feudo, personalíssimo e intocável. Usou e abusou do dinheiro do contribuinte para remunerar seus familiares e apaniguados. Já não se fala mais em formação de quadrilha, mas em formação de família. Se este crime ainda não consta do Código Penal, está na hora de tipificá-lo.

A imprensa tem denunciado os crimes de traficantes como Fernandinho Beira-Mar e Juan Carlos Ramirez Abadia. São criminosos óbvios, disto ninguém discorda. Mas pertencem ao universo da iniciativa privada. Jamais enfiaram a mão no bolso do contribuinte. Sarney enfiou, e enfiou fundo. Lula o apóia.

Canalhas se merecem.

 
INSTITUTO MILLENIUM,
O MAIS NOVO BASTIÃO
DO OBSCURANTISMO



Há alguns anos, já nem lembro quando, fui convidado a escrever em um jornal eletrônico, o Mídia Sem Máscara, que pretendia denunciar as mentiras da grande imprensa. É comigo mesmo, pensei, afinal isso eu vinha fazendo há muito tempo, vide meu ensaio Como Ler Jornais. Colaborei com entusiasmo no novo site e disto não me arrependo. Com o decorrer do tempo, descobri que fora convidado por minha posição radicalmente anticomunista.

Ocorre que não me manifesto apenas contra a opressão comunista. Sou contra todas as opressões. E se o comunismo teve existência relativamente curta – a rigor, apenas sete décadas – há uma outra opressão milenar, que até hoje ainda vige e tem prestígio, a opressão da Igreja Católica. Milenar é modo de dizer, em verdade tem dois milênios. Bastaram algum artigos denunciando a ditadura vaticana e comecei a provocar mal-estar no Mídia Sem Máscara. Certo dia, escrevi um artigo mostrando por A + B que Cristo havia nascido não em Belém, mas em Nazaré. Artigo inocente, afinal o local de nascimento do judeu não constitui dogma para os católicos. Meu artigo foi censurado. Mandei um recado ao editor: não admito censura. Ou meu artigo é publicado, ou não colaboro mais com o jornal.

Não foi publicado, deixei de colaborar. Soube mais tarde que a razão da censura não fora precisamente aquele artigo, mas um outro anterior, em que eu discutia o transcendental problema teológico dos destinos do prepúcio do Salvador. Judeu sendo, havia sido circuncidado. Se subiu aos céus em sua integridade, persistia uma pergunta: e seu prepúcio? Teria ficado na Terra? O enigma preocupou teólogos durante séculos na Idade Média, que acabaram concluindo não ser anátema afirmar que o prepúcio não teria subido aos céus, tanto que várias igrejas na Itália pretendem tê-lo em seus relicários. Cá entre nós, é pouco prepúcio para tantos templos.

Em suma: ao que tudo indica, foi esta discussão que gerou minha censura no jornal do astrólogo-editor. Junto comigo, abandonaram o barco outros colaboradores de talento, e o Mídia Sem Máscara se revelou um porta-voz ridículo de papistas fanáticos, muitas vezes mais papistas que o papa. Hoje, investe contra dois fantasmas, o Foro de São Paulo - uma espécie de Woodstock das esquerdas que já morreu à míngua após a derrocada da União Soviética – e a ameaça de uma ditadura gay universal. É o que eu chamaria de a Quinta Internacional, la Internacional del Culo. Só que não existe. O que existe são pessoas reivindicando usufruir dos prazeres que bem entendem, afinal ninguém tem nada a ver com a sexualidade de outrem. A Inquisição terminou há bons séculos. Exceto para os Aiatolavos de Carvalho e Júlios Severos da vida. A militância anti-homossexual de ambos é tal, que imagino que um bafinho na nuca lhes seria salutar.

Com a ausência de redatores independentes, o Mídia Sem Máscara tornou-se, infelizmente, um jornal monocórdio, tipo aqueles jornais de esquerda dos anos 70. Neles não havia novidade alguma, constituíam sempre um sambinha de uma nota só. O leitor não tinha surpresa alguma, sabia antecipadamente o que iria ler. Mas não é disto que quero falar. Recebi há pouco esta gentil missiva:

Prezado Sr. Janer,

sou coordenadora de redes do Instituto Millenium de Pesquisa , que talvez o senhor já conheça, e gostaria de lhe convidar a fazer parte da rede de especialistas que compõem o nosso quadro e colaboram conosco na missão de promover a Democracia, a Economia de Mercado, o Estado de Direito e a Liberdade, porque acreditamos que estes valores podem gerar mais prosperidade e desenvolvimento humano para o Brasil.

Para divulgar estes valores, temos uma presença constante na mídia e no debate público. Por esta razão, é tão importante que tenhamos uma ampla rede de especialistas, atuando em variadas áreas, que escrevem artigos, dão entrevistas, participam de eventos e dos diversos programas realizados pelos veículos de comunicação. Acompanhamos os seus artigos na web e temos ciência de que o senhor trata de assuntos muito caros para nós. Seria uma honra tê-lo em nosso quadro.

O que o senhor acha?

Atenciosamente,

Anita Lucchesi
Coordenadora de Redes
Instituto Millenium


O que eu achava? Achei a idéia interessante. Gosto de tribunas. Mas fiquei com um pé atrás. Quando me falam em “promover a Democracia, a Economia de Mercado, o Estado de Direito e a Liberdade, porque acreditamos que estes valores podem gerar mais prosperidade e desenvolvimento humano para o Brasil”, fico desconfiado. Estou cansado de bons propósitos. Consultei um amigo que tinha conhecimento do Instituto. Me informou ser o Millenium mantido pelo Armínio Fraga e pelo Gustavo Franco. “A idéia seria formar o que se chama de um think tank de pensamento liberal, anti-esquerdista ou anti-socialista, estas coisas. São mais liberais e (bem) menos conservadores que o MSM”.

Bom, vá lá. Enviei meus dados e curriculum ao Millenium. Com uma ressalva: não aceito censura a nenhum artigo que pretender publicar no site Millenium. Se houver hipótese de censura, considere-me excluído do Instituto. Resposta de Anita Lucchesi, minha interlocutora:

Caro Sr. Janer,

consultei a nossa editora, Cristina Camargo, para que pudesse lhe informar sobre nossa linha editorial, com mais certeza, pois é ela que cuida da publicação dos artigos.

Envio-lhe, portanto, a linha editorial do Millenium:
Não publicamos artigos que contenham defesa ou condenação dos seguintes assuntos:

- Aborto
- Pena de morte
- Células-tronco embrionárias
- Eutanásia
- Suicídio
- Legalização das drogas
- Homossexualismo
- Adoção de crianças por casais homossexuais


Minha resposta a Anita Lucchesi:

Desolé, Anita!

O Millenium não me serve. Não entendo como uma instituição que pretende promover a Democracia, a Economia de Mercado, o Estado de Direito e a Liberdade, não aceite discutir assuntos como aborto, pena de morte, células-tronco embrionárias, eutanásia, suicídio, legalização das drogas, homossexualismo, adoção de crianças por casais homossexuais.

Os propósitos desta instituição são uma farsa. Considere-me excluído dessa arapuca. Suponho que sirva para promover nomes que permanecem ocultos, tipo Armínio Fraga e Gustavo Franco. Não conte comigo para isso.

Obrigado pelo convite.


Surge mais um embuste no jornalismo eletrônico. Pelo jeito é o MSM do B. Se o MSM pelo menos discute tais questões, o tal de Instituto Millenium as veta de cara. São mais papistas ainda que os papistas do MSM. O MSM conseguiu enganar por algum tempo. O Millenium não engana desde já. É mais um reduto de carolas, que acham que ser contra as esquerdas é suficiente sinônimo de honestidade.

Não é. A Santa Inquisição era mais liberal. Embora mandasse homossexuais para a fogueira, pelo menos aceitava discutir a questão. O Instituto Millenium é o mais novo bastião do obscurantismo que tenta fazer carreira no jornalismo eletrônico. Não irá longe. Está desmascarado desde o berço. Começa desmoralizado.

R.I.P.

Sexta-feira, Julho 24, 2009
 
PROSTITUTAS DA LITERATURA
TERÃO TRADUÇÕES SUBSIDIADAS
NO EXTERIOR PARA AFAGO
DE SEUS HUMILDES EGOS



Li há pouco, na Veja on line, reportagem sobre o escritor Pedro Bandeira, de 67 anos, considerado o "Paulo Coelho dos livros infanto-juvenis". Já chegou a vender 100.000 livros em um único ano e, em toda a carreira, vendeu 21 milhões de exemplares. Confesso que nunca ouvi falar deste senhor. Não costumo ler autores que vendem milhões de exemplares, assim da noite para o dia. Mas sempre vemos seus nomes, seja nas livrarias, bancas de jornais ou nas listas dos mais vendidos veiculadas pela imprensa. Não leio bestsellers, mas sempre tropeço, ainda que à revelia, com o nome dos autores. Do Bandeira, não tenho idéia de quem seja. Mistério profundo.

Mas o mistério logo se elucida, quando o repórter pergunta:

- Em um país com tantos analfabetos, o senhor chegou a vender 21 milhões de exemplares. Como explicar?

- Não é bem assim. Na realidade, existem dois mercados: o mercado das escolas e o mercado do governo. O governo compra muitos livros para repassar às instituições públicas. Dos 21 milhões que vendi, cerca de 10 milhões foram graças a essas compras. Então, o que conta para mim são os outros 11 milhões, efetivamente escolhidos, seja pelos leitores, seja pelos professores.

Ah, bom! Agora entendi. O insigne beletrista tem como comprador preferencial o governo. Governo é leitor dos bons. Quando compra, compra dez milhões de exemplares. Já os outros 11 milhões, segundo o Bandeira, constitui o mercado das escolas. O mercado das escolas também é ótimo leitor. Quando compra, compra 11 milhões de exemplares. E empurra, goela abaixo para os estudantes, um autor que ninguém conhece. O Brasil é pródigo nestas mercancias. A imprensa, sempre tão preocupada com a corrupção de senadores e deputados, deixa passar batido esta corrupção do mundo editorial, que está longe de ser miúda.

Pedro Bandeira descobriu a fórmula mágica, como ganhar milhões em direitos autorais sem que leitor algum – fora de seu público cativo – tenha conhecimento de sua obra. Mas as corrupções do universo literário não terminam aqui.

Leio no Estadão que a Fundação Biblioteca Nacional divulgou na segunda-feira a lista das bolsas de literatura de 2009, abrangendo pesquisa literária, conclusão de obras, co-edições e traduções. A seleção deste ano, na área de tradução, vai dar bolsas de US$ 3 mil (R$ 6 mil) para a tradução de obras de autores brasileiros no Exterior. A maior parte dos autores são vivos. O premiado livro O Filho Eterno, do autor curitibano Cristóvão Tezza, será publicado na Austrália pela Scribe Publications. O Anjo do Adeus, de Ignácio de Loyola Brandão, sairá nos Estados Unidos pela Dalkey Archive Press. Escrita em contra-ponto: Ensaios Literários, de João Almino, sairá na Argentina pela Leviatan.

Mais ainda: o ensaísta e atual curador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), José Roberto Teixeira Coelho, terá sua obra Dicionário crítico de política publicada na Espanha pela editora Gedisa. Será publicada na Croácia a obra Laços de Família, de Clarice Lispector, e na Itália sairá Para viver com poesia, de Mário Quintana. Outros contemplados são O Enigma de Qaf, de Alberto Mussa, que será publicado na França; uma coletânea de textos de Sérgio Sant’Anna, que sairá na República Checa; e a obra Sem Dizer Adeus, de Heloneida Studart, que será publicada em Israel.

Quer dizer: quando o normal no mercado livreiro é a editora do país estrangeiro pagar o tradutor, este magnífico país nosso se antecipa: nós pagamos a tradução. Mais ainda: nós escolhemos os escritores a serem traduzidos. Isso de oferta e procura é lei obsoleta do antigo capitalismo, que precisa ser revogada. Se nós já empurramos goela abaixo nossos campeões a nossos jovens, não nos custa internacionalizar este goela abaixo. O contribuinte brasileiro é dócil, não vai chiar se tiver de subsidiar a tradução de nossos escritores comportadinhos – aqueles que não criticam o PT nem o governo – em países ricos como os vossos. Recebam, senhores do Primeiro Mundo, esta modesta cortesia do Terceiro.

Deixemos de lado desta lista infame Mário Quintana, Heloneida Studart e Clarice Lispector, que já morreram. A infâmia é legado dos herdeiros.

Se a maracutaia terminasse aqui, não seria cousa de espantar. Mas vai mais longe. Ainda segundo o Estadão, oito autores com obras em fase de conclusão foram selecionados: Afonso Cláudio Machado do Carmo, Alexandre Jorge Marinho Ribeiro, Beatriz Antunes Onofre, Jorge Alan Pinheiro Guimarães, Manoel José de Miranda Neto, Priscila Costa Lopes, Rafael Mófreita Saldanha e Ronaldo Eduardo Ferrito Mendes.

Ou seja, os insígnes beletristas sequer concluíram suas obras e já têm subsídios para serem traduzidos no exterior. O escritor ainda nem existe, mas já tem tradução garantida. O contribuinte brasileiro, que já paga turismo em Paris para senadores, putas em Miami para deputados, silicone para travestis, é chamado agora a pagar traduções de prostitutas literárias, que não se pejam em escorchar quem paga honestamente seus impostos, desde que seus egos sejam afagados no Exterior.

A bola da vez é a corrupção no Congresso. Quando a imprensa decidirá que a universidade e a literatura nacionais se beneficiam de corrupção semelhante, senão mais vasta?

Quinta-feira, Julho 23, 2009
 
RESPOSTA AO FELIPE


Bom, Felipe,

pra começar, devo dizer que não vejo a matemática como ciência. E sim como sistema axiomático. Por outro lado, grandes matemáticos, pelo que sei, nunca fizeram doutorado. De Pitágoras, Tales, Euclides e Aristóteles a Gassendi, Gauss, Euler, Fermat, Pascal ou Descartes, não vejo doutorado algum. Doutorado é vício da universidade contemporânea.

Por outro lado ainda, não vou dizer que os pensadores que você cita sejam medíocres só porque acreditam em Deus. Aquino, por exemplo, era um intelecto poderoso. Mas leia a Suma. Quanta bobagem! Quanto esforço intelectual despendido rumo ao nada. Quando não ao ridículo. A que distância um anjo deve estar do outro para que quando um fale o outro ouça? Acho que o intento do Aquinata, de sistematizar o saber teológico de sua época, mostrou a atroz fragilidade conceitual do cristianismo. A meu ver, o Boi Mudo fez gol contra. Prefiro a literatura confessional do Agostinho, mas nem por isso endosso suas crenças. Para o bispo de Hipona, sentir atração física pelo cônjuge é algo equivalente ao adultério. Lá está, em De Nuptiis et Concupiscencia:

Se os dois cônjuges a isso se entregam (ao prazer na união sexual), não merecem o nome de esposos; e se, desde o início, assim se buscaram, não é para casamento que se uniram, mas para entregarem-se à fornicação. Ouso dizer: ou aquela que assim procede é, de uma certa maneira, a prostituta de seu marido, ou este é o adúltero de sua mulher.

Pergunta que se impõe: para que serve tanta sabedoria?

Borges via a teologia como a primeira manifestação da literatura fantástica. É uma brilhante percepção. De minha parte, eu a vejo como algo semelhante à geometria. Não por acaso, Euler e Pascal foram também teólogos. O triângulo é um ente de razão, é algo que de fato não existe. Mas se você me dá a medida dos catetos, eu lhe devolvo a hipotenusa. Parte-se do princípio de que existe um ser eterno, todo-poderoso, onisciente, onipresente. Daí a construir uma teologia é um passo. Teologias são castelos na areia. Têm como alicerce o nada e erguem construções intelectuais fabulosas, desde a escolástica católica ao judaísmo rabínico. Devo confessar que a arquitetura desses castelos me fascina, como me fascinam tanto a Notre Dame como a catedral de Toledo ou Sevilha. Mas isto não implica aceitar a fé dos homens que as erigiram.

A pergunta que você me faz sobre Agostinho, Mestre Eckhart, Chesterton, Leibniz, Kierkegaard, Jaspers, Pascal, René Girard, é a mesma que me fez um sacerdote lá pelos meus quinze anos, em Dom Pedrito. Eu tinha sérias dúvidas a respeito da existência de Deus e dos textos bíblicos. Como eu exercia certa liderança entre meus colegas de ginásio, o padre veio voando de Bagé para tentar recuperar o herege. Discutimos um dia todo. "Quem é você para discordar do que homens muito mais sábios já decidiram? O que o autoriza a pensar diferente?" O Torquemada gaúcho brandia o argumento da autoridade, um dos mais pérfidos instrumentos da Inquisição.

- O que me autoriza, padre - respondi - é a razão. O pensamento lógico. Lógica é lógica, não admite autoridade. Eu discordo desse pensamento anterior baseado exclusivamente em meu intelecto. E não fosse assim a humanidade não avançaria.

35 anos me parece ser ainda idade útil para enfrentar uma banca de doutorado. Ainda sobra tempo para exercer o magistério. O que me parece uma perversão da universidade brasileira são esses mestrados a partir dos 40, doutorados a partir dos 50, quando o professor já está chegando à idade de aposentar-se. Só servem para aumentar salário ou para pavonear-se com o título pendurado na parede. Ora, isso nada tem a ver com desejo de conhecimento. Quem quer conhecimento, estuda. Não precisa postular títulos. Para estudar, idade não tem limite.

“Sempre gostei de considerar minha posição, num laivo de orgulho, como uma reminiscência cultural dos tempos onde eram concedidos privilégios a quem via na busca pelo conhecimento verdadeiro o destino da sua existência”. Mes compliments, Felipe. Também penso assim. Não tenho respeito algum por homens que apenas detêm poder ou fortuna. Mas todo meu respeito ao homem que detém cultura.

Grande abraço!

 
AINDA OS DOUTORADOS


Prezado Janer,

Se alguém indagasse qual seria o primeiro atributo responsável pelas minhas constantes visitas ao seu eclético diário eletrônico, eu responderia: o notório capricho literário. Estimo intensamente esse cuidado. (Apesar de não conseguir ser nem tão ateu nem entender que o velho Olavão, como certo leitor afirmou, encarne o modelo perfeito da figura vulgar. Sejamos honestos, ele passa longe disso. Não permitamos nossa descrença imputar talento intelectual exclusivamente aos descrentes; tomemos um pouco de ar, façamos um esforço e, por favor, lembremos de Aquino, Agostinho, Mestre Eckhart, Chesterton, Leibniz, Kierkegaard, Jaspers, Pascal, René Girard e etc.

Pergunto-me o seguinte: todos esses jovens que vêem na incredulidade um triunfo arrasador imaginam, sem trair seus instintos, ter superado intelectualmente e espi ritualmente aqueles mestres? Pensam? Conseguem mesmo encarar esses e outros colossos da raça humana com seus focinhos orgulhosamente elevados, como quem dissesse "são pobres ultrapassados"? Será? Acho melhor não especular sobre uma resposta positiva a essa questão. Pois se assim for então é porque a barbárie, ao que tudo indica, vive em estado latente tanto em homens e mulheres privados de qualquer senso educacional autêntico quanto naqueles intumescidos pela "educação". Igualmente discordaremos quanto à relevância de Edmund Husserl. Enfim...). Voltemos. Sem ignorar sua oportuna ressalva - "refiro-me às ciências humanas" - parece-me conveniente fazer uma diversa. Antes dela, gostaria de associar-me a tua voz quando se mostra contrária a realização de pós-graduações por indivíduos já próximos de idade provecta. Não entrarei em detalhes, mas admito casos realmente patéticos.

Defendi tese aos 35 anos (esse semestre), e, sinceramente, acho que já conclui na idade limite. Aos 29, época da minha decisão, somente iniciei após bem assimilar os vários conselhos de amigos e constatar que, afinal, aos 35 ainda não seria tão tarde assim. Encontrei valioso estímulo psicológico no manifesto fato de ótimos matemáticos nacionais — aqui revela-se meu campo de estudos acadêmicos - terem defendido suas dissertações com a mesma idade ou até mais velhos. No meu caso, após anos de uma juventude completamente entregue ao absurdo (o que não deixou de constituir um acréscimo à resolução de estudar), praticamente um conto de Kafka, resolvi iniciar meu doutorado. Por quê?

Primeiro, por aceitar com relativa tranqüilidade as argumentações algébrico-geométricas, e segundo porque, no meu entender, e aí talvez esteja uma das raízes da minha biografia fantástica, o único ouro que justifica a busca sempre foi o tempo disponível; não, evidentemente, no cretino sentido adquirido em frases como "tempo é dinheiro", mas no de que nele, sim, está a vida. Por este motivo, e apenas por ele, resolvi aventurar-me nessa empreitada. Não queria chegar aos 45 como mero batedor de carimbos, ou fiscal da receita, oficial de justiça, ou de precisar me submeter aos dísticos humilhantes da empresa privada desses nossos dias - "vista a camisa", "atualize-se regularmente", "dê o sangue pelo grupo".

Como professor universitário, especificamente incluído no deserto inabitado e antipatizado do Cálculo, tenho a liberdade de não ser burocrata (um dos poucos empregos públicos nos quais isso é possível), de não ter qualquer "chefe" nem de muito menos ser um deles. Além disso, posso ler o que me interessa, sem precisar especializar-me em "crítica desconstrucionista", ou ter de defender a glória humanística erigida por Fulano. Tenho, portanto, tempo para Geometria de Riemman, mas também para Swedenborg ou André Gide. (Há outro detalhe conveniente: em proveito dos seus pesquisadores, a matemática tem sua estética própria e jamais prescindirá dela. O espírito da "teoria literária" não encontra abrigo na ciência de Gauss e Euler).

Chesterton estava correto ao notar que "a enorme heresia moderna é alterar a alma humana para adaptá-la às condições impostas à vida, em vez de alterar as condições para adaptá-las à alma". No amor ao tempo livre sou, confesso o crime, um aristocrata fanático. Não em louvor da desocupação tediosa, por Deus!, mas em razão da urgente tarefa de fazer algo de mim ...("O importante não é o ´livre de quê´, mas livre pra quê". Não foi Nietzsche quem colocou na boca de Zaratustra essa terrível verdade?)

Isso, ou seja, uma pá a mais de espaço nesse mundo apressado e louco, os anos de teoremas e demonstrações laboriosas puderam me proporcionar. Sempre gostei de considerar minha posição, num laivo de orgulho, como uma reminiscência cultural dos tempos onde eram concedidos privilégios a quem via na busca pelo conhecimento verdadeiro o destino da sua existência. Desnecessário dizer que a caminhada nunca foi movida pelo sonho de ser um "funcionário público". Em realidade, deploro toda a ideologia do "funcionarismo".

Todavia, o meu parêntesis era simplesmente enfatizar que as censuras direcionadas a doutorados inúteis não valem para as matemáticas e ciências exatas em geral. Na matemática, por exemplo, ao contrário de outras áreas, sobram vagas nas universidades, tamanha é a escassez de doutores. Vou mais longe: sem um bom doutorado cursado sob a tutela de cientistas experientes, dificilmente alguém progredirá de estudante promissor a matemático. A explicação resumida é bastante simples. A matemática — bem como a física e a química, embora a rígida abstração da "rainha das ciências" forneça a ela uma configuração especial - está imersa numa longa tradição de provas rigorosas e de métodos particulares extremamente lógicos e necessários. Ela também pode exprimir facetas masturbatórias, sem dúvida; entretanto, devido a sua incurável surdez ideológica, será uma masturbação muito menos comprometedora porque passível de ser eliminada pela maturidade.

Saudações,

Felipe Filho

Quarta-feira, Julho 22, 2009
 
DA INUTILIDADE DOS
CURSOS DE LETRAS



Um mal-estar perpassa os cursos de Ciências Humanas neste final de século. É como se as vagas concêntricas provocadas pela queda do Muro de Berlim começassem a fazer submergir, em ondas tardias, o apoio logístico que a universidade sempre emprestou ao marxismo. Durante décadas, nos cursos mais alinhados com o finado "sentido da História", ai do candidato a mestre ou doutor que não citasse em suas pesquisas Marx ou epígonos menores.

Se hoje marxismo não passa de verbete de enciclopédias, para esclarecimento dos mais jovens, até quatro ou cinco anos atrás a "filosofia da praxis" era tida como ciência. Todas as áreas humanísticas da universidade, de Letras a História, passando pela Filosofia e Sociologia, foram contaminadas pela peste. No caso específico da Sociologia, estávamos ante um laboratório de utopias.

Os acadêmicos brasileiros parecem ter adotado a receita de José Carlos Mariátegui que, em 1928, em Siete Ensayos de Interpretación de la Realidad Peruana, via a universidade como uma máquina de demolição da sociedade burguesa, uma instituição destinada a formar ativistas e militantes.

Com o fim da URSS, as ditas Ciências Humanas perdem seu eixo. A história não era ciência, o marxismo muito menos. Cursos, cátedras, metodologias, teses, bibliografias, bibliotecas, perdem o sentido. Em outras palavras, os próprios professores, antes firmemente ancorados nas certezas da dialética, perdem o pé e soçobram neste maremoto. Em um século em que mesmo - e principalmente - a literatura foi contaminada pela ideologia, os cursos de Letras não permaneceriam ao abrigo da intempérie.

O Circo das Letras - Uma lufada deste mal-estar de fin de siècle parece ter atingido o professor Flávio Loureiro Chaves. Em entrevista para Porto e Vírgula, desvelou um segredo de polichinelo ao afirmar que "a área de Letras está morta". Por um lado está cheio de razão e ao mesmo tempo não tem razão alguma. Se sua afirmação acabasse aqui, englobando os cursos de Letras do país todo e do estrangeiro, eu seria o último dos escribas a contraditá-lo. Mas sua afirmação é tímida. Se restringe ao Curso de Letras da UFRGS, onde trabalhou durante 30 anos. Ou seja, onde colaborou por três décadas para levar o curso à condição de área morta. Agora, protegido pelo escudo da aposentadoria, dispara sua artilharia contra seus pares.

O professor vai mais longe ao falar do curso que o nutriu e embalou: "é uma área caracterizada por sua absoluta inutilidade social". No que não lhe falta razão. Se o programa nuclear brasileiro se revelou um projeto inútil, de qualquer ponto de vista que se olhe, que dizer dos currículos de um curso de Letras? Mas nosso crítico peca mais uma vez ao restringir sua crítica ao curso da UFRGS, como se o da USP, onde se doutorou, tivesse alguma outra utilidade social fora a de garantir-lhe uma prebenda melhor remunerada na província.

Se os cursos de Letras um dia forem encerrados, só serão pranteados pelos professores que deles tiram seu sustento e mordomias, pelo mundo editorial e agências de turismo que os parasitam. Nenhum estudante precisa freqüentá-los para conhecer literatura. Pelo contrário, é melhor deles tomar distância, assim será poupado de carradas de leituras absolutamente chatas, que só servem para afastar um jovem dos bons autores.

Esta inutilidade do curso cujas mordomias usufruiu por trinta anos foi muito bem percebida por Loureiro Chaves quando afirma que homens como Erico Verissimo, Maurício Rosenblatt e Paulo Fontoura Gastal, que não pertenciam à academia, lhe ensinaram mais que o curso de Letras inteiro. Precisou de três décadas para perceber isto? Ou preferiu aposentar-se para afirmá-lo? Se lhe sobra razão em sua constatação, faltou-lhe a coragem de dizê-lo em alto e bom som quando militava nos quadros da guilda.

Quantas vezes Loureiro Chaves participou, de um lado e de outro da banca - ora como réu, ora como inquisidor - dessa farsa que se chama tese? Quantas vezes participou dessa outra farsa, o concurso para o magistério, em verdade uma ação entre amigos, com cartas previamente marcadas?

De quantos espetáculos circenses, chamados simpósios ou congressos, participou o professor Loureiro Chaves? São absolutamente inúteis do ponto de vista social, custam fortunas, e as viagens, hotéis e mordomias outras são pagas, em última instância, pelo contribuinte. Passo Fundo parece ter entendido o espírito da coisa, tanto que costuma organizar o Circo das Letras. Neste circo universal, cujas sessões ocorrem tanto em Florianópolis ou São Paulo, como em Paris ou Londres, acodem professores de todos os quadrantes para desfilar suas vaidades e acrescentar seus ensaiozinhos recitados a uma platéia adormecida a seus currículos chochos.

Quando estudava em Paris, tive oportunidade de testemunhar uma dessas sessões de circo. Vi professoras transportadas de Brasília ou São Paulo a Paris - com dinheiro público, evidentemente - para apresentar uma comunicação anódina de vinte minutos, que ninguém estava interessado em ouvir. Imagine-se, por exemplo, o absurdo de uma professora deslocando-se de Porto Alegre a Tóquio, para uma exposição crucial sobre... Literatura Comparada. Mas a comunicação fica nos anais do simpósio, no currículo da professora e nos créditos do curso. Maravilha de país o nosso: crianças morrendo de fome nas ruas e a universidade pública financiando viagens transoceânicas para comunicações literárias - certamente de importância vital para o futuro do continente - de vinte minutos lá nas antípodas.

Claro que em Passo Fundo a entrada para o circo é mais barata. Mas o show, salvo o fato de ser em português, em nada difere do exibido em Paris. Mas não era disso que pretendia falar.

A quem aproveita o crime? - Para algo hão de servir os cursos de Letras, já que estão disseminados mundo afora e parecem gozar de boa saúde. Bens materiais não produzem, é claro. Espirituais, muitos menos. Aliás, vivem da exploração destes mesmos bens, produzidos por criadores que, muitas vezes, morreram ou vivem na miséria. Para que serve então um curso de Letras?

Em primeiro lugar, para dar bom padrão de vida aos professores de Letras. Que outra profissão oferece quatro meses de férias ao ano, isso sem falar nas greves? Não será fácil achar melhor mordomia numa sociedade que se pretende capitalista. Uma vez aceito pela corporação, o professor tem estabilidade e escapa deste cruel mundo competitivo. Isso sem falar em férias vendidas em períodos de recesso universitário, turismo acadêmico, muita viagem ao exterior, tudo isso pago pelo contribuinte, é claro. Não que estas mumunhas sejam exclusivas dos cursos de Letras. Mas a eles são extensivas.

Em segundo lugar, para manter a boa saúde da indústria textil. Textil, assim mesmo, sem circunflexo. Não confundir com a têxtil, esta é honesta e necessária. Por indústria textil, entenda-se a do texto universitário, essa fábrica de teses e pesquisas inúteis, que às vezes envergonham o próprio autor e são guardadas como segredo de Estado. Isso sem falar na fantástica máquina editorial acionada pelos cursos de Letras. Ela dá vida a autores de ficção que de outra forma jamais seriam publicados e a teóricos que ninguém leria a não ser sob coação.

Se nos primórdios da universidade o livro era um instrumento da vida acadêmica, hoje a universidade se tornou um instrumento do mundo editorial. Se um dia os cursos de Letras fechassem suas portas, nenhum editor seria suficientemente insano para publicar esses elefantes brancos tipo Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, etc. Dou um doce para quem me apresentar um jovem que, espontaneamente, compre um livro qualquer desses autores. Eles só existem porque são empurrados goela abaixo por exigências de vestibular e programas acadêmicos.

Depois, a indústria editorial dos teóricos. Nenhum leitor mentalmente sadio compraria autores como Greimas, Kristeva, Lacan ou Saussure. Forçado pelos professores, principalmente na pós-graduação, o coitado do aluno tem de gastar parte de sua bolsa adquirindo essas enfermidades gálicas. Aqui, de cambulhada, ganham também todos os participantes do ciclo do livro: gráficos, distribuidores, livreiros, etc.

Em terceiro lugar, não esqueçamos os interesses do turismo. Em Florianópolis, para facilitar o "intercâmbio" acadêmico, uma agência se instalou no prédio da própria reitoria. Cada congresso de Literatura Comparada ou Semiótica em Tóquio, Helsinki ou Amsterdã é uma festa para a indústria do turismo. Ganham as agências, as companhias aéreas, a indústria hoteleira, a restauração local, afinal literatura e gastronomia sempre constituíram boa parceria.

Ora, direis, os cursos de Letras formam professores de português. Cantiga para ninar pardais, como dizem os lusos. A formação de professores de português não exige curso superior. Vi quartanistas de Letras escrevendo "eu poço" por "eu posso" e outras analfabetices do gênero. Minha mãe, que só fez o secundário em Dom Pedrito, tinha uma redação impecável, de fazer inveja a muito jornalista egresso dos cursos de Comunicações. Aliás, de minha passagem pelo magistério universitário, cheguei a uma desoladora conclusão: a formação que tive em meus quatro anos de ginásio, lá naquela cidadezinha da Fronteira Oeste gaúcha, que mal tinha na época vinte mil habitantes, nenhum diplomado em Letras a tem hoje. Saí de lá falando espanhol, francês e inglês, arranhando um bom latim e escrevendo um português do qual até hoje não tenho porque envergonhar-me. Em meus dias de UFSC, raros eram meus alunos de final de curso que conseguiam escrever em vernáculo não digo elegante, mas pelo menos correto.

Pode-se alegar que os cursos de Letras formam tradutores e intérpretes. Bobagem. Quem quer realmente especializar-se nestes ofícios, vai para o exterior ou busca cursos privados. Sem falar que os grandes tradutores que Porto Alegre produziu, como Erico Verissimo, Mário Quintana, Herbert Caro, jamais passaram por um curso de Letras. Permito-me um testemunho pessoal. Já traduzi vinte títulos, do sueco, francês e espanhol, sem jamais ter passado por um curso de tradução.

A encampação da tradução pela universidade é muito suspeita. Ao que tudo indica, a guilda quer regulamentar a profissão, crime de lesa-cultura que já cometeram contra o jornalismo. Quanto aos cursos de línguas fornecidos pela universidade, estes jamais levaram a qualquer lugar. Nestes dias de CDs-ROM, professor de línguas virou peça de museu. Professor que ainda não percebeu isso, em breve será mais um desses tantos malucos que andam falando sozinho nas ruas. Com a diferença de que será bem pago para falar para quatro paredes.

Muitos outros setores ganham com esta indústria do inútil. Quem então sai perdendo? No caso das universidades públicas, em primeiro lugar o contribuinte, que ignora a festança que estão fazendo com seu dinheiro. Tudo em nome dos sagrados interesses da cultura, é claro. Em segundo lugar, o estudante de Letras. Caso não encontre colocação no escalões inferiores da Máfia, terá perdido preciosos anos de sua juventude, percorrendo currículos absurdos, teorias estapafúrdias e literaturas insossas. Quando poderia ter-se dedicado a estudar algo mais concreto, que lhe garantisse profissão decente, reservando seu lazer para um estudo sério da boa literatura. Por experiência, tanto de rua como de campus, sei que é muito mais fácil encontrar uma pessoa com boa cultura literária em um bar do que nos cursos de Letras.

Sobre meu desencanto - Meu depoimento carrega o desencanto de quem perdeu boa parte de sua vida navegando pelas tais de Ciências Humanas. Estudei Filosofia na UFRGS, de 1965 a 1968. Discutimos, durante quatro anos, essa bosta de religião laica, o marxismo. Ou seja, foram quatro anos jogados ao vento. De minha passagem pela Filosofia me restou um ensinamento, o de que as diferentes visões de mundo se atropelam e se anulam com a passagem dos séculos. E só. Foi importante, eliminou em mim qualquer tentação de dogmatismo. Mas para chegar a essa conclusão, não precisava ficar com o traseiro pregado na universidade por quatro anos. Boas leituras de história me bastariam.

Fiz também o curso de Direito em Santa Maria. Mais cinco anos jogados ao lixo. Optei pelo jornalismo, em época em que não existia esta excrescência criada pela ditadura militar, os cursos de jornalismo. Desta opção não me arrependo, embora o jornalismo hoje seja mais ficção que tradução dos fatos. Mas não o aprendi na universidade. Em jornalismo, me formei nos bares e redações. Universidade não forma ninguém em jornalismo. É outro curso inútil: o professor de comunicações, que muitas vezes jamais pisou numa redação, ganha muito mais que o redator ou repórter que sofre a profissão. Sem falar que goza de estabilidade no emprego, sonho que jornalista algum ousa sonhar na empresa privada.

Viajei pelo mundo das Letras. Durante quatro anos, estudei Letras Francesas e Comparadas, na Université de la Sorbonne Nouvelle, em Paris. Só não foram mais quatro anos jogados ao vento porque o que menos fiz foi estudar literatura. Dediquei-me a pesquisar Paris, a França e a história deste século. De meus professores de literatura, de meu curso, não recebi nada, mas nada mesmo. Tive um professor de poesia francesa contemporânea que se chamava M. Décaudin. Eu vivia mordendo a língua para não incorrer em um ato falho e chamá-lo de M. Décadent. Tinha um projeto de tese em torno à literatura de Ernesto Sábato. Levei-o a bom termo por respeito a Sábato e ao Ministério de Cultura francês, que me concedera uma bolsa. Defendi minha tese, fui ator bem comportado durante toda a encenação. Mas tinha perfeita consciência de que tudo era farsa.

Para que serviu minha tese? Para mim, garantiu quatro anos de Paris. Para meu orientador, abriu novos rumos em suas pesquisas. Mas e daí? Para Sábato, foi mais um título em sua fortuna literária. E só. Meu país não se tornou mais rico com minhas pesquisas, nem econômica nem espiritualmente. Muito menos a França ou a Argentina. Do ponto de vista da construção de uma sociedade, minha tese é uma peça perfeitamente inútil, descartável. Como aliás todas as teses literárias. Outra coisa é uma pesquisa sobre uma proteína mais barata, sobre uma vacina mais urgente, sobre um chip mais rápido. Estima-se em torno de 100 mil dólares ao ano a formação de um doutor. Logo, a França terá gastado uns 400 mil comigo. De minha parte, muito honrado. Mas para quê? Se analisarmos a questão a fundo, para nada.

Lecionei mais tarde Literatura Brasileira e Comparada na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, nos cursos de graduação e pós-graduação em Letras. Para isso também serviu minha tese, para dar-me de comer e beber por mais quatro anos. Foi o período mais inútil de minha vida, que só me rendeu uma hipertensão. Cingido a obrigações curriculares, tive de digredir sobre esse suposto movimento literário, o modernismo brasileiro, no fundo uma ficção criada pelos PhDeuses uspianos. Lecionava para alunos que só queriam um papelucho ao final do curso para aumentar seus proventos na função pública.

Durante quatro anos fui pago para realizar um trabalho rumo a nada. Como eram, são e continuam sendo pagos, para marchar na mesma direção, as dezenas de colegas que tive no colegiado e os milhares de professores de Letras do país todo.

Puta velha - Quem presta este depoimento não é portanto uma virgenzinha que olha espantada para a realidade de um bordel, mas uma puta velha que muito girou bolsinha nos corredores universitários. Se vejo as defesas de tese e concursos como farsas, é porque também participei delas e por isso sei do que estou falando.

Dezenas de professores foram, são e serão enviados ao exterior para mestrados e doutorados. Muitos cumprem seus compromissos. Mas não poucos voltam de mãos abanando e tudo fica por isso mesmo. No caso do curso de Letras, observei que os candidatos a bolsas no exterior eram, em sua quase totalidade, moças mal-amadas, em geral solteiras ou divorciadas, que partiam em busca de maridos ou similares. Ao final de alguns anos, as mal-baisées voltavam sem tese nem marido. Não sei se o mesmo fenômeno ocorrerá na UFRGS. Mas deveria ser capitulado como crime, na legislação sobre a função pública, usar dinheiro do contribuinte para fazer turismo sexual às margens do Sena ou do Tâmisa.

Quanto à crítica mais radical, que agora faço, me permito citar Chesterton: "só podemos conhecer uma catedral quando a olhamos de fora". O absurdo do ritmo de tartaruga dos cursos da área humanística me saltaram com força aos olhos quando passei a trabalhar com jornalismo eletrônico em São Paulo. A pesquisa que um professor achava difícil cumprir em cinco meses, um redator da Folha de São Paulo, por exemplo, tem de executá-la em cinco horas. E sem direito a errar.

Essa passagem da empresa pública para a privada, do emprego eterno para aquele sob a ameaça diária de um pontapé no traseiro, permite o contraste que evidencia o obsoletismo e a inutilidade de um curso de Letras. Se um professor de uma universidade pública fica quatro, cinco ou dez anos no estrangeiro para defender uma tese e volta de mãos vazias, nada acontece com ele. Não devolve o dinheiro público que lá despendeu nem perde seu emprego. Se um jornalista interpreta mal a declaração de um político - ou pior, se a interpreta com clareza excessiva - no dia seguinte pode estar no olho da rua.

O leitão e o cocho - Resumindo: os cursos de Letras constituem uma máquina autofágica, que se alimenta de si mesma. Professores de Letras formam professores de Letras que formarão professores de Letras, ad nauseam. Se a bicicleta pára, o ciclista cai. Loureiro Chaves ouviu o galo cantar, só não soube dizer onde. Intuiu a inutilidade dos cursos de Letras. Em um gesto de auto-defesa, excluiu a si mesmo do projeto do qual participou durante trinta anos. Foi cúmplice de todos os atos e fatos que levaram o curso a ser área morta. Agora acusa seus pares, como se suas mãos fossem imaculadas.

Se levar a crítica mais a fundo, terá de constatar a inutilidade de seus ensaios, de sua carreira, de sua tese, de sua vida, tão socialmente improdutiva quanto o curso que critica. Se o curso de Letras da UFRGS se caracteriza, nas palavras do professor, por sua “absoluta inutilidade social”, o mesmo pode se dizer de sua obra. Por que não estender, reitero, esta crítica à USP? Qual a utilidade social do curso de Letras da USP? A meu ver, a mesma de qualquer curso de Letras. Isto é, nenhuma.

Em meus dias de campo, tínhamos uma expressão para tal tipo de comportamento. Era o gesto do leitão mal-educado, que costumava virar o cocho onde comia.

(Texto escrito nos estertores do século passado)

Terça-feira, Julho 21, 2009
 
EM RESPOSTA AO RODRIGO


Meu caro Rodrigo:

Não creio que vaidade seja pecado. O problema é ter vaidades pessoais financiadas com dinheiro público. Se um cinqüentão quer investir em um doutorado, pagando do próprio bolso seus estudos, não vejo mal maior. O mal está, a meu ver, em usar dinheiro do contribuinte só para ter um diploma na parede, sem que isto se traduza em magistério.

A vontade de ter PhD aos 30 é tão vaidade quanto obtê-lo aos 60 – você afirma. Não é bem assim. As universidades hoje estão exigindo doutorado para o magistério. E 60 já é idade de aposentadoria. Para mim é patético ver um sexagenário - idade que significa muitas leituras e experiência de vida – submeter-se a metodologias estéreis de doutorezinhos jovens, que mal sabem onde têm o nariz. Este é o mal dos doutorados, sejam doutorados jovens ou senis, a maldita metodologia. Falo das ciências humanas, é claro.

Quelle est votre méthode? – perguntou-me um de meus inquisidores na defesa de minha tese. Nenhum, respondi. Ou, se quiser, ma méthode c’est la cristaldesque. Não estou aqui para refletir sobre dois escritores tomando emprestado o pensamento de um terceiro. Eu também sei pensar. A banca relutou, demorou uma boa meia hora para chegar a um veredito, mas me concederam o título.

Não o busquei por vaidade, nem mesmo pela intenção de lecionar. Meu doutorado teve uma única motivação: conhecer Paris, suas mulheres, sua cultura, sua gastronomia, seus queijos e seus vinhos. Nada mais do que isso. A condição para tal era defender uma tese? Ok! Defendo. Passei meus dias de jovem defendendo teses em bares, de nada me custaria defender mais uma em um anfiteatro. Fiz um doutorado por mero diletantismo.

Estava em meus trinta anos, junto a colegas da mesma idade. Me sentiria muito mal se tivesse sessenta, disputando com jovens o que deve se disputar quando se é jovem. Mais ainda: não tinha compromisso algum em defender tese. Eu a defendi primeiro porque costumo honrar meus compromissos. Segundo, porque me havia comprometido, junto a um dos autores estudados – Ernesto Sábato – a escrever um ensaio sobre sua obra. Foi o que fiz.

Canudos não me interessam. Tanto que nem peguei o meu em Paris. Havia uma burocracia tão tola para apanhá-lo que me irritei. Deixei-o então por lá. Devo ser o único doutor que desistiu de pegar seu título.

Tive um amigo, já perto dos sessenta, que decidiu enveredar por esse caminho. Formou-se pela USP. Por circunstâncias acadêmicas, trocou duas vezes – ou talvez três, já não lembro – de orientador. Cada orientador tinha seus gurus prediletos. A cada troca, novas bibliografias, novos enfoques. Este meu amigo – que fizera guerrilha urbana, diga-se de passagem – fora preso, torturado e condenado a quatro anos de prisão. Não se intimidou com prisão nem com tortura nem com condenação. Mas curvou a cerviz bonitinho ante os PhDeuses uspianos. Foi cerceado em sua liberdade de pensamento, foi obrigado a escrever o que banca queria que escrevesse, e cumpriu o ritual ridículo, a defesa de tese. Ora, se a USP exige uma prévia para aprovar uma tese, para que a cerimônia se a tese já está aprovada? Puro teatro. Muito triste, um homem já no entardecer da vida, ter de submeter seu pensamento ao arbítrio de jovens arrogantes.

Você diz, Rodrigo, gostar de meus textos pela qualidade intelectual, não por meu curriculum. Flatté. Mas o doutorado teve a ver algo com isso. De pouco me serviram as escassas aulas que tive na Sorbonne Nouvelle. Mas de muito me serviram os quatro anos que vivi em Paris. Tive um bom conhecimento da França e de sua cultura, como também da Europa. E, conseqüentemente, do Brasil. Gosto de repetir a frase de Chesterton: não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela. Sair do Brasil foi fundamental para conhecer o Brasil. O homem não conhece exatamente valorando. Mas comparando.

Quanto a crônicas sobre religiões, com a devida vênia, você vai ter de me suportar. É um de meus temas prediletos e, a meu ver, o que mais causa comoção entre meus leitores. Quando escrevo sobre o assunto, recebo em geral uma saraivada de xingamentos. É porque toco em chaga aberta. Sem falar que hoje, liberto de qualquer preocupação acadêmica, tenho me dedicado a ler sobre história das religiões. Um tratado de teologia me diverte mais do que qualquer ficção.

Mas, enfim, essas crônicas você pode muito bem deixar de lado. Em sua honra, vou reproduzir um texto que publiquei há bem mais de quinze anos – “Da inutilidade dos cursos de Letras” – e que até hoje tem sido lido e relido por quem estuda Letras.

Grande abraço.

 
MENSAGEM DO RODRIGO


Caro Janer,

Permita-me considerar o estudo de pós-graduação para qualquer idade, sem limites. Estudar como uma meditabundagem - como já escreveu uma vez o Ezio Flavio Bazzo -, aquele estudo despretensioso que o senhor fala, baseado em temas de interesse próprio, refinando o pensamento, é tão relevante quanto um quarentão pra cima pretender um canudo de mestre ou doutor. Sou mais inclinado ao primeiro, pois minha vaidade não contempla a chatice acadêmica. Mas considero perfeitamente adequado um cinqüentão, um sessentão pretenderem seu stricto sensu.

O efeito mais interessante das pessoas é a capacidade de maximizar benefícios a si próprias. Vemos tantas pessoas aborrecidas, mortas para a vida e de repente, resolvem modificá-la. Às vezes passa por um novo emprego, uma nova cidade, um novo amor, uma nova profissão. Quem sabe aquele advogado cinqüentão diz: eu não sou feliz advogando, quero ser professor, e parte para uma pós-graduação. Seus últimos 10, 15 anos de vida profissional na academia talvez sejam mais recompensadores que os 30 anos de, vamos dizer, admirável advocacia. Escrevo isso pensando muito em Gauguin, que não quis ser acadêmico, claro, mas largou a estabilidade material de financista para ser um artista marginal. A idéia é esta: dar uma reviravolta em sua vida e, contra tudo e contra todos, adentrar naquilo que não se considera usual, mas se satisfazer pessoalmente com a nova aventura.

A vontade de ter PhD aos 30 é tão vaidade quanto obtê-lo aos 60. E ambos vão se aborrecer um bocado com leituras maçantes e inúteis. "Tem gente se doutorando para logo depois aposentar-se. Isto é, o doutorado não foi de utilidade alguma ao magistério. Só serve então para aumentar o salário ou satisfazer vaidades senis." Nesse ponto eu recordo, doutorado para o magistério jamais será de utilidade, é pura vaidade. Ora se o cara quer ter vaidade em ser doutor aos 30, mesmo sabendo que essa joça é inútil para lecionar, será da mesma forma aos 60, pois se me chamarem para fazer um curso na minha área - mesmo apenas com graduação e com bastante afinco, menos do que é preciso para obter um canudo, passaria uma boa impressão, ou melhor, daria meu recado com cuidado e qualidade. Este é ponto Janer: da minha parte acho PhD em humanas, para qualquer idade, uma plena inutilidade. Mas tem quem queira sofrer. Janer, o senhor sem canudo, ou com canudo, tem a mesma importância. Gosto dos seus textos por sua qualidade intelectual, não por seu curriculum.

De outra parte, compreendo bem as suas críticas, mesmo porque, a massa que se orienta para o stricto sensu nas humanas é, em maioria, maçante, enganadora, poseur e repetidora de clichês. De vez em quando aparecem uns cabras machos pra dizer que esse trololó é picaretagem, mas são logo abafados pela voz uníssona do Grande Irmão Virtual no subsconsciente de nossos bravos PhDs. Entendo isso tudo. Terminei minha graduação e disse: pra mim chega! Eu só leio aquilo que quero. Eu sou um estudante/leitor eterno. Stricto sensu não é muito a minha não. Mas se daqui há 10, 20 anos me interessar em fazer, ah, eu faço, na boa. E para que? Ora, por vaidade. Não é por isso que todos fazem?

Sou seu leitor há uns três anos e esta é a primeira mensagem que encaminho diretamente ao senhor. Aproveito a oportunidade para responder a esta pesquisa de mercado: quando as crônicas do Janer Cristaldo são menos interessantes? Quando ele resolve "implicar" com religiosidade. E explico. Acho chatíssimo assuntos de religiosidade. Quando as pessoas próximas a mim falam de religião eu concentro minha respiração para não bocejar. Mas existe algo mais chato que falar bem de religião. É falar mal de religião. Religião... o assuntozinho chato.

No mais, grande abraço,

Rodrigo Xavier

Segunda-feira, Julho 20, 2009
 
BRASIL DESCONHECE VESPASIANO


Nada mais deprimente que ver, em pleno século XXI, uma cidade multando seus habitantes por urinarem na rua. É admissão total de ausência de civilidade e organização urbana. É o caso do Rio de Janeiro, candidata a sede dos jogos finais da Copa do Mundo de 2014. O problema foi resolvido há apenas... dois mil anos.

Suponho que meus leitores, em sua maioria, um dia estiveram no Coliseu, em Roma. Se não estiveram, sabem do que se trata. Também conhecido – mas não muito – como Anfiteatro Flaviano, é a obra máxima de Titus Flavius Vespasianus, imperador romano que viveu entre 9 e 79 d.C. Deve seu nome à palavra Colosseum, devido à estátua colossal de Nero, que ficava perto a edificação. Fica no no centro de Roma, pode abrigar 50 mil pessoas que podiam, dada sua arquitetura, esvaziá-lo em 15 minutos. Não sei se um estádio moderno consegue isto em nossos dias.

Mas não é esse, penso, o maior legado do imperador romano à humanidade. E sim as chamadas vespasianas, mictórios públicos ornados com mármores, pelo menos nos dias da Roma antiga. A França só os assumiu em 1834, com o nome de vespasiennes, em homenagem ao imperador. Eram mictórios mais ou menos a descoberto – e gratuitos – que serviam para ocultar dos transeuntes pelo menos o ato da micção. Foram substituídas nos anos 80 pelas chamadas sanisettes, cubículos mais fechados aos quais se tem acesso mediante a introdução de uma moeda, suponho que hoje de um euro.

Se as vespasiennes só serviam ao uso destes seres que urinam em pé, as sanisettes servem também às mulheres. E – diga-se de passagem – a prostitutas e travestis que precisam de um lugar prático e discreto para o exercício de seus ofícios. Que se vai fazer?

Vinte séculos depois, o Rio ainda não descobriu as vespasiennes e quer aplicar multa ao xixi na rua. Hoje, a multa é de R$ 80, mas apenas 30 pessoas foram pegas em flagrante neste ano, todas no Carnaval e em dias de jogos no Maracanã. A Prefeitura quer punição maior para quem for flagrado urinando nas calçadas. A nova legislação vai prever a conduta específica -"urinar em lugar público"- e o valor da multa será maior. "Não definimos o valor, mas tem que ser algo que doa no bolso", diz o secretário municipal da Ordem Pública, Rodrigo Bethlem.

Nobre propósito. Mas como cobrar 80 ou mais reais de um pobre diabo que não tem um vintém no bolso? Ora, são exatamente estes os que mais usam as calçadas – e não só para urinar – para aliviar-se. Há mictórios públicos no Brasil. Mas são raros, distantes de quem os necessita e deprimentes. Em geral, constituem um atentado ao olfato e à higiene. Quando não aos ditos bons costumes.

Vespasiano resolveu o problema há vinte séculos. O Brasil ainda não chegou lá.

Domingo, Julho 19, 2009
 
QUAL A MELHOR IDADE
PARA PARAR DE ESTUDAR?



Verba volant, scripta manent, diziam os romanos. As palavras voam, a escrita fica. Pelo menos assim foi traduzido o antigo brocardo até bem pouco tempo. Nestes dias de Internet, surge uma nova interpretação. Que a escrita, sim, permanece. Mas imóvel. E que as palavras voam, isto é, vão mais longe. Texto eletrônico é escrita ou palavra? É tanto escrita que fica como palavra que voa, diria eu. Minhas crônicas dos dias de jornal em papel sumiram no tempo. Estarão guardadas em arquivos de jornais ou bibliotecas, algumas em arquivos pessoais de alguns leitores.

Já as crônicas eletrônicas, estas, além de voar, permanecem vivas na rede. Um leitor está pesquisando uma palavra e de repente cai numa delas. Assim, é com prazer que recebo retorno de crônicas que escrevi há cinco ou mais anos. Há alguns anos, comentei a ridícula condição dos mestrandos carecas. Dizia que mestrado é para jovens, não para cinqüentões. Um magoado leitor me escreve:

Caro professor Janer:

Não gostei da parte que fala que as pessoas mais velhas não devem obter títulos. Tenho 47 anos e estou fazendo a minha primeira pós na área de educação. Estou adorando filosofia e pretendo estudar muito mais ainda e a sua coluna veio como um balde de água fria. Eu não concordo com os seus dizeres. O estudo pode vir em qualquer idade. Pedro Nava só começou a escrever muito tarde e foi um grande memorialista. Já pensou se ele pensasse como o Sr?


Vamos por partes. Estou com 62 e me sinto eterno estudante. Meu doutorado, eu o concluí aos 33. Foi uma fase de minha vida. Uma vez titulado, fui lecionar. Tive de ler bibliografias obrigatórias que, de meu grado, jamais escolheria ler. Mesmo nos dias de formação universitária, tive de estudar o que não queria estudar. O currículo obriga. Em Filosofia, se me deliciei com Platão e Sócrates, tive mais a frente de enfrentar os textos áridos de Kant e Hegel e a parlapatagem de vigaristas intelectuais como Sartre, Heidegger e Husserl. Ler obras como O Ser e o Tempo ou O Ser e o Nada – perdoem-me os adictos – nada mais é do que pura perda de tempo.

Para estudar nunca é tarde, meu caro. Não tive tempo de ler o que queria ler nos dias de Direito ou Filosofia. Passei cinco longos anos lendo tratados jurídicos. Fiz meu curso em Santa Maria. Ao concluí-lo, quando voltava a Porto Alegre, sobre a ponte do Guaíba, simbolicamente joguei ao rio os Washingtons de Barros Monteiros e Clóvis Beviláquas da vida pela janela do ônibus.

Doutorei-me em Letras Francesas e Comparadas, em Paris. Como pesquisei sobre dois escritores dos quais gostava, não fui forçado a leituras compulsórias. Mas quando fui lecionar na Universidade Federal de Santa Catarina, fui contratado para lecionar literatura brasileira. De novo as leituras forçadas. Lecionava modernismo. Tive de ler autores que não recomendo ninguém a ler: Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e outros que tais. Pior ainda, tive de forçar minhas alunas a lerem tais elefantes brancos. Mas pior mesmo, tive de ler teóricos literários, para acompanhar as teses de meus mestrandos. Teoria literária é uma das mais sofisticadas técnicas de masturbação intelectual que a universidade conseguiu criar.

Hoje, liberto das obrigações de universitário ou professor, leio apenas o que me agrada ler, e isso é ótimo. Virei estudante. Mas estudante sem professor nem orientador. Leio para onde os ventos me levam. Me dedico atualmente a algo que me fascina, o estudo de História e da História das Religiões. Eram leituras para as quais não tinha muito tempo nos dias de universidade. Por outro lado, os ensaios que têm me fascinado raramente são traduzidos no Brasil. Tenho de viajar para encontrá-los. Sem falar que muitos não existiam na época. Ultimamente, se alguém me encontrar em um bar, provavelmente me verá mergulhado no Dictionnarie critique de théologie, obrinha de 1588 páginas, coordenada por Jean-Yves Lacoste. Me diverte imensamente, muito mais que Asterix.

Qual a melhor idade para parar de estudar? Não há idade para parar de estudar, caro leitor. Uma das coisas que lamento é saber que morrerei sem ter lido todos os livros que me esperam na cabeceira. Mas para fazer mestrado ou doutorado há uma idade adequada. Isso de mestrandos ou doutorandos carecas, costumo afirmar, é coisa de Brasil. Tem gente se doutorando para logo depois aposentar-se. Isto é, o doutorado não foi de utilidade alguma ao magistério. Só serve então para aumentar o salário ou satisfazer vaidades senis.

Você cita Pedro Nava, um dos bons memorialistas nacionais. Ora, ele não fez doutorado algum para desenvolver sua obra. Era médico e encontrou seu caminho na literatura. Hélio Silva, um dos grandes historiadores do país, autor de vasta obra, era proctologista. Por enquanto, pelo menos por enquanto, não se exige diploma específico para escrever.

Continue estudando, meu caro. Nada o impede. Mais ainda: se você estudar por conta própria, não será obrigado a engolir leituras estéreis impostas por estéreis orientadores.

Era Stephan Zweig que dizia, ou talvez Thomas Mann, agora não lembro: “por que ler livros bons, quando podemos ler os melhores?”

Sábado, Julho 18, 2009
 
QUANDO O FUTEBOL ERA LAICO


Caroline Celico é a mais nova pastora da igreja Renascer. A Renascer, se alguém não lembra, é aquela igreja criada em fundo de quintal, pelos publicitários Estevam Hernandes e Sonia Hernandes, doravante denominados bispa Sônia e apóstolo Estevam. Ambos estão cumprindo prisão nos Estados Unidos por entrarem no país com dólares não declarados, dentro de uma bíblia. O livro sagrado tem muitas utilidades.

A pastora é também casada com o futebolista Kaká, grande doador da igreja do apóstolo e da bispa vigaristas. Kaká é aquele crente que decidiu casar virgem. Quando jogava no Milan, declarou à edição italiana da Vanity Fair que levava uma vida regrada dentro dos preceitos da Bíblia e que por isso chegou virgem ao casamento. Melhor falasse de futebol. Futebolista falando de Bíblia é algo como o Lula falando de gramática.

"Sou um jovem normal com valores fortes. Sou religioso, seguindo a confissão evangélica, e tento viver seguindo os preceitos da Bíblia" – disse na ocasião. Falando de sua mulher, Caroline, disse que ambos decidiram casar virgens e que não tiveram relações sexuais desde o início de seu noivado em 2002 até a noite de núpcias, em dezembro de 2005. "Optamos por chegar castos ao casamento. A Bíblia ensina que o amor verdadeiro é alcançado apenas com o casamento, um laço de sangue no qual a mulher perde a virgindade. Para nós, a primeira noite foi magnífica".

Caiu no conto do vigário. Pois se a Bíblia pune a mulher que não chega virgem ao casamento, não exige virgindade alguma do homem. Caroline, por sua vez, vai instalar uma franquia da Renascer em Madri. O que motiva o casal – diz Mônica Bergamo em sua coluna – "é que nós vamos estar podendo abrir uma igreja lá". "O Senhor estava nos querendo lá em Madri", diz a novel pastora.

Uma primeira pergunta se impõe. Qual Senhor estará querendo criar uma igreja em Madri? Porque aquele Senhor, o antigo Jeová, tem igrejas à beça, não só em Madri como em toda Espanha. Mais curiosa é a relação que a pastora Carol estabelece entre teologia e futebol, ao explicar o compromisso de Deus com a ida de Kaká para a Espanha. "Como pode no meio da crise alguém ter dinheiro? O dinheiro do mundo tem que tá em algum lugar. E Deus colocou esse dinheiro na mão de quem? Do Real Madrid, pra contratar o Kaká. Foi uma grande bênção."

Essa é nova. Antes, o bom Jeová investia em templos. Agora, segundo a pastora, está aplicando suas poupanças no futebol. Outra pergunta se impõe: declarará o Senhor sua aplicação às autoridades da Receita? Ou estará o Todo-Poderoso acima de todo fisco?

Houve época em que o futebol era laico.

Sexta-feira, Julho 17, 2009
 
VELHOS, SAFADOS E MENTIROSOS


Escreve Fernando Gabeira na Folha de São Paulo, edição de hoje:

“Há uma dezena de deputados dispostos a enfrentar o PMDB, aliados e a combatividade da estrela vermelha. Aliás, voltei ao Salão Verde, pensando nela. A estrela vermelha para mim não tem sentido. Eu a vi nos tanques sérvios que atiravam nos civis e em nós, repórteres. Agarrados à estrela vermelha, perpetraram crimes horrendos sob o título de limpeza étnica”.

Quem o lê, pode até imaginar que o bravo deputado esteve algum dia nalgum front. Ainda há poucos meses, contei como foi a cobertura de Gabeira. Sinto-me obrigado a contar de novo.

Guerra da Iugoslávia, 1991, nos dias de independência da Croácia. Eu trabalhava na editoria de Internacional da Folha de S. Paulo. Gabeira, nosso correspondente responsável pelo Leste europeu mandava suas matérias de Berlim, que isso de cobrir guerras no front é muito arriscado. Por volta das três horas da tarde, começava a enviar seus despachos, a partir do noticiário dos jornais da manhã. Isto é, os jornais haviam sido redigidos ontem, os fatos ocorridos anteontem e o leitor brasileiro os leria amanhã, com pelo menos três dias de atraso. As agências noticiosas, mais ágeis, nos enviavam notícias fresquinhas. A nós, redatores, cabia substituir o lead da reportagem por material mais quente. Lá pelas cinco da tarde, o despacho enviado caíra para o pé do texto. Quando o correspondente informava que os iugoslavos planejavam um ataque, nós já tínhamos os alvos destruídos e os aviões de volta às bases.

A cobertura da guerra, em verdade, era feita da redação na Alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Que, de certa forma, estava mais próxima dos fatos que o correspondente na Alemanha. O texto todo era redigido na redação. Começávamos a atualizar a matéria pelo lead e Gabeira ia descendo rumo ao pé. Muitas vezes não sobrava sequer uma linha do despacho original. Mas a matéria saía assinada por Fernando Gabeira, "enviado especial".

Como era feita esta cobertura? O redator recebia um punhado de despachos, que iam sendo renovados a toda hora pelo boy que os retirava do telex. (Eram ainda os dias do telex). Havia matérias quentes das agências, que tinham seus correspondentes no campo de batalha, reportagens frias que davam o clima local, análises de especialistas e informes sobre a repercussão dos fatos nas diferentes capitais do mundo. Cabia ao redator juntar todos esses relatos e criar uma história coerente. Fossem os textos assinados ou não, os fragmentos aproveitados pelo redator eram todos atribuídos ao “correspondente de guerra”, comodamente instalado em Berlim.

A segunda edição do jornal, a que circularia no dia seguinte apenas em São Paulo (na cidade), era fechada lá pela 01h da manhã. Como os redatores da Internacional eram ágeis, o leitor paulistano pelo menos tinha uma visão muito atualizada da guerra, graças ao intrépido correspondente Fernando Gabeira. Ocorre que o texto que chegava ao leitor não era de Gabeira. Era nosso.

Gabeira deveria sentir-se muito surpreso se lesse sua matéria publicada, falando de fatos dos quais ele, o suposto autor do texto, nunca ouvira falar. Mas nunca reclamou, como seria de se esperar de um jornalista honesto.

Gabeira, se alguém não lembra, é o impoluto deputado que criticou Ziraldo e Jaguar por receberem a bolsa-ditadura, sem se lembrar que ele mesmo a reivindicou, como indenização pelos anos em que passou fumando maconha em Estocolmo. É o mesmo deputado que não hesitou em beneficiar-se da farra das passagens aéreas, para visitar sua filha no Exterior. Hoje, como se nada tivesse a ver com as falcatruas do Senado, assim finaliza seu artigo:

“Não se trata só de um constrangimento ao ver o Senado definido como casa de horrores. Mas o de conviver um grupo de homens idosos, movendo-se com uma desenvoltura criminosa, unindo nos lábios do povo as palavras velho e safado, como se fossem gêmeas que nascem ligadas. Tempo de tormentas”.

Pelo jeito, de tanto assinar artigos que não escrevia, acabou acreditando que esteve no front. “Tanques sérvios que atiravam nos civis e em nós, repórteres”. Heróico, o deputado! Pena que só viu tanques sérvios pela televisão. Vai ver que sentiu-se ameaçado em seu sofá, pelos canhões que avançavam na tela. Ao mesmo tempo, dá a impressão de sequer ter participado das corrupções do Senado, das quais de fato participou. Chama seus colegas de bordel de velhos e safados, como se ele mesmo não fosse velho, safado e mais ainda, mentiroso.

Na mesma página, olímpico e indiferente ao mar de acusações que o incriminam, assina um inocente artigo sobre as virtudes do Chrome ou Windows 7 um senador velho, safado, mentiroso e ladrão. José Sarney, o presidente da Casa dos Horrores.

Vai mal a Folha de São Paulo.

 
TÃO JOVENS E JÁ CORRUPTOS

Leio no Estadão:

Aos gritos de "Dilma presidente" e "Lula, guerreiro do povo brasileiro", os cerca de 3 mil estudantes que se reuniram nesta quinta-feira, 16, na abertura do 51º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) mostraram uma adesão inquestionável ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com algumas poucas reivindicações e vários elogios, deixaram claro de que lado estão. Algum desavisado poderia pensar tratar-se de uma convenção petista.

Os estudantes de minha época de estudante empunharam não poucas bandeiras erradas. Mas nenhum deles apoiava governo. Triste ver jovens apoiando um governo corrupto.

 
MENSAGEM DO PIAIA


Escreve Raphael Piaia em seu blog, http://zefirosblog.wordpress.com:


Levítico 20:13 Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles.

Não me parece exagero tratar a religiosidade como uma doença. Um vírus altamente contagioso e mutável, sempre se adaptando para sobreviver. É claro que os crentes que ouvirem isso vão se indignar, mas eu não disse que as pessoas são obrigadas a cuidar dessa doença.

Há pouco o Janer comentou em seu blog sobre a sra. Rozângela Alves Justino, psicóloga ameaçada de perder seu registro no Conselho Federal de Psicologia por oferecer tratamento aos que “estão homossexuais”. Para sra. Justino, homossexualismo é uma doença que, como tal, pode ser curada. A psicóloga, que claramente é evangélica, decerto discordaria quando eu avento que a religiosidade pode ser uma doença. Da mesma forma que discordo quando ela afirma, no alto da parvoíce da qual só os crentes são capazes, que homossexualismo é um vício. E ficamos nisso. É assim mesmo que as coisas funcionam. Afinal, ninguém é forçado a procurar os serviços da sra. Justino.

É sabido que na internet encontra-se de tudo, desde figuras como Olavo de Carvalho até cópias um pouco mais vulgares dele – se é que isso seja possível. Rozângela é uma delas, síntese perfeita de carolas conservadores (ou direita cristã). Deve ser calada e ter seu registro cassado por isso? Evidente que não. Manifestar crença e opinião livremente é fundamento básico de qualquer democracia. No Brasil, apesar de tudo, é garantia constitucional. Ocorre que o politicamente correto já vai tão avançado em nossas terras que opiniões que não gozem de aprovação das chamadas minorias transforma-se imediatamente em injúria. Se você entende que a cultura africana não fez nenhuma contribuição relevante ao mundo que se equipare às européias, não poderá lecionar. Se você não aceita que a construção de uma canoa ou oca seja tão importante quanto de um aqueduto ou navio transatlântico, também não. Nesses dois casos, trat a-se de meras observações que levam a conclusões óbvias, porém politicamente incorretas. No caso da psicóloga Justino, longe de termos uma observação, tem-se uma opinião subjetiva e estúpida, porém também politicamente incorreta. Acontece que, como já dito, ser estúpido é prerrogativa dos homens livres. Mesmo quando essa estupidez subjetiva e cretina vai de encontro ao politicamente correto.

Entre gente como Luiz Mott – um dos líderes do movimento gay brasileiro – e esse pessoal não há muita diferença. De um lado está um militante homossexual imbecil que não se importa em divulgar o endereço de seus inimigos ideológicos a qualquer maluco que tenha interesse em procurá-los, do outro alguns sujeitos que curiosamente gastam tempo demais se preocupando com as práticas sexuais alheias. Pensem no Júlio Severo, por exemplo. Não sei se eu sentiria orgulho em ter meu nome, sempre, automaticamente associado à luta contra a “pérfida imoralidade dos gays”. Especular que esses crentes têm uma grande chance de serem mal resolvidos não é argumentação ad hominem, mas um raciocínio bastante razoável.

Quando eu digo que esses fundamentalistas são aliados involuntários da esquerda, me refiro também a coisas assim. É por essas e outras que ainda hoje muitos acreditam que as esquerdas detêm o monopólio da moral e da justiça. Contudo, esse é um dos preços da liberdade. Contanto que ninguém seja arrastado ao consultório da sra. Rosângela Justino, por que ela não deveria tentar trazer de volta à heterossexualidade aqueles que voluntariamente a procuram? Se seus pacientes se sentem culpados por suas escolhas sexuais a ponto de procurá-la, provavelmente se preocupam em serem coerentes com sua fé, de modo que ou devem abandonar o prazer ou a religião. Para mim a resposta a esse dilema seria fácil, entretanto essa é uma escolha que só eles podem fazer.

Enfim, que mais não fosse, se o repúdio ao homossexualismo ou a incitação ao que alguns entendem como homofobia forem efetivamente criminalizados, o livro que fundamenta toda a fé cristã, no mínimo, precisará ser proibido. E, caros, se proibirem a bíblia, o que poderemos ler quando quisermos nos divertir?

Quinta-feira, Julho 16, 2009
 
INSUPERÁVEL PAÍS,
ESTE NOSSO BRASIL



Para blindar o senador ladrão, o PMDB retirou de seu repouso uma múmia que dormia serenamente em seu sarcófago, o senador Paulo Duque, senador sem voto algum. Que evitou comentar as recentes denúncias contra José Sarney e ignorou as acusações de nepotismo. "Nepotismo existe desde que Brasil é Brasil. Pero Vaz de Caminha, lá no descobrimento, pediu emprego para o cunhado", disse a múmia em defesa do senador ladrão.

Ora, se é por isso a prostituição existe desde que o mundo é mundo. O assassinato existe desde Caim. Pilhagens, massacres, genocídios, também. Se vamos absolver tudo que é antigo, absolvam-se então todos os crimes presentes e passados.

Este país é insuperável. Tenho mais de sessenta anos. Se senadores e deputados são ladrões, eleitor é cúmplice. Eu deixei de ser. Há mais de vinte anos, desisti de votar. Não consigo entender como alguém ainda vota. A cada década que passou, nunca consegui imaginar que o Brasil continuasse ir mais adiante no nível de corrupção de seus representantes.

E, no entanto, consegue. Não imagine o leitor que isto me escandaliza. Tenho casca grossa, já me habituei. Estou apenas constatando. Para tentar safar-se do lamaçal, o senador ladrão anula os atos secretos que beneficiaram seus apaniguados. Em punir quem assinou os atos secretos ou quem deles se beneficiaram, nem se fala. Mais ainda: ao que tudo indica, corrupto algum perderá seus privilégios. Apelarão à Justiça em defesa de seus ilícitos e a Justiça lhes será mãe generosa.

Lasciate ogni speranza voi che entrate! Ama com fé e orgulho, a terra em que nasceste. Criança! Não verás país nenhum como este.

Não verás mesmo!

Quarta-feira, Julho 15, 2009
 
PSICÓLOGA QUER CURAR
O QUE NÃO TEM CURA



Em meus dias de Folha de São Paulo, escrevi um artigo aventando a hipótese de Cristo ser homossexual. O que não me parece inviável. Se queria encarnar a condição humana, dela faz parte a homossexualidade. De qualquer forma, alguma sexualidade haveria de ter. Ou era hetero, ou era homo, ou era um grande masturbador. Ou quem sabe tudo isto ao mesmo tempo. Fora destas quatro hipóteses, seria um assexuado. Isto é, um anormal.

Na ocasião, um pastor perguntou-me: o senhor é homossexual? Respondi que minha vida sexual só a mim diz respeito e com ela ninguém tem nada a ver. Dela só têm conhecimento meus íntimos. Não sou vedete da mídia, não sou ídolo pop, não sou ícone do cinema. Não tenho razão alguma para exibir meu sexo ao público. O pastor voltou a insistir: porque se o senhor é homossexual, nós temos onde você pode curar-se.

Ora, pastor – respondi -. Eu conheço ex-deputado, ex-militar, ex-padre, ex-guerrilheiro, ex-comunista. Ex-homossexual eu nunca vi. Se alguém optou pela homossexualidade porque ser homossexual lhe é prazeroso, por quais razões no mundo iria abandonar o que lhe dá prazer? Só porque Jeová não gosta? Ora, lixe-se esse deus que sequer existe, senão na imaginação de sacerdotes sedentos de poder.

Pode-se curar homossexuais? Antes de responder a pergunta, cabe uma outra: curar por quê? A pretensão de curar homossexuais implica entender homossexualismo como doença. Ora, desde quando é doença ter esta ou aquela preferência sexual? Se não há coação nem violência, ninguém tem nada a ver com o que alguém gosta de fazer na cama. Nem com quem ou com qual sexo gosta de fazer.

No mundo helênico e romano, homossexualismo fazia parte da vida cotidiana. Os filósofos gregos tinham seus efebos e nem por isso deixaram de criar uma cultura poderosa. Alcibíades, o mais valoroso guerreiro da Hélade, grande general e tido como o homem mais belo de seu tempo, era o discípulo mais amado de Sócrates. Foi Safo, a poetisa de Lesbos, que pela primeira vez introduziu na literatura o que recebeu o nome da ilha em que vivia, o amor lésbico. Alexandre, o conquistador, não teve sua obra civilizadora afetada só porque preferia Heféstion a Roxana e Statira. Júlio César era conhecido como marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos.

Quem transforma o homossexualismo em doença é o judaísmo. “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação”, diz o Levítico. Antes disto, Jeová já havia arrasado Sodoma a ferro e fogo só porque os sodomitas eram chegados a prazeres outros que não os filhos de Israel.

O Conselho Federal de Psicologia julga, no fim deste mês, a cassação do registro profissional de Rozângela Alves Justino por oferecer terapia para que gays e lésbicas deixem a homossexualidade. Se perder a licença, será a primeira condenação desse tipo no Brasil. É o que leio na Folha de São Paulo. Resolução do próprio conselho proíbe há dez anos os psicólogos de lidarem a homossexualidade como doença e recrimina a indicação de qualquer tipo de tratamento ou cura.

Segundo dona Rozângela, que afirma ter "atendido e curado centenas" de pacientes gays em 21 anos, homossexualidade é doença e que algumas pessoas têm atração pelo mesmo sexo porque foram abusadas na infância e na adolescência e sentiram prazer nisso. Ora, o mundo está cheio de homossexuais que nunca sofreram abusos e são homossexuais porque gostam. E se os que sofreram abusos sentiram prazer na homossexualidade, por que proibir-lhes os prazeres da descoberta? Que tem dona Rozângela a ver com isso?

Tem muito a ver. É evangélica. "Tenho minha experiência religiosa que eu não nego. Tudo que faço fora do consultório é permeado pelo religioso. Sinto-me direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais". Segundo a psicóloga – como também os redatores do Mídiasemmáscara - "o movimento pró-homossexualismo tem feito alianças com conselhos de psicologia e quer implantar a ditadura gay no país".

Pelo jeito, a psicóloga pertence à tribo do aiatolavo de Carvalho, o astrólogo que vê duas ameaças ao Ocidente, o Foro de São Paulo e a ditadura gay. A linguagem da psicóloga é significativa: “pessoas que estão homossexuais”. Pelo jeito, a doutora não admite que pessoas sejam homossexuais. “É uma doença – diz a psicóloga -. E uma doença que estão querendo implantar em toda sociedade. Há um grupo com finalidades políticas e econômicas que quer estabelecer a liberação sexual, inclusive o abuso sexual contra criança”.

Safadamente, dona Rozângela associa homossexualismo a pedofilia. Se pedofilia é condenável, homossexualismo também há de ser. Ora, uma coisa nada tem a ver com a outra. Pedofilia não é exclusividade de homos. Não há grupo algum com finalidades políticas e econômicas querendo estabelecer a liberação sexual. Há, isto sim, grupos explorando a liberação sexual. Da mesma forma que as igrejas exploram a credulidade de seus fiéis.

Que pessoas condenem o tabagismo ou alcoolismo, pode-se entender. São comportamentos que matam. Homossexualismo não mata ninguém. Nem fere. Doente, a meu ver, é o homossexual que renuncia a sua homossexualidade só porque uma crença supersticiosa condena a homossexualidade como doença.

Não acho que dona Rozângela deva ser cassada. A meu ver, deveria ser internada. Numa sauna. Para entender melhor o mundo em que vive.

Terça-feira, Julho 14, 2009
 
CONY CADUCOU


Escreve Carlos Heitor Cony, hoje, na Folha de São Paulo:

Mesmo assim, lembrei que a corrupção, aqui e em qualquer lugar, nasceu lá atrás, quando o Criador mandou que todos, homem e mulher inclusive, crescessem e se multiplicassem. Esta multiplicação deu no que deu. Arrependido, o Criador não deu uma entrevista exclusiva para a "Veja". Foi bem mais radical e eficiente: abriu as cataratas do céu e inundou a Terra, só salvando um justo e os animais, um de cada espécie.

Não adiantou. As filhas de Noé embebedaram o pai e deste incesto nascemos todos.


Carlos Heitor Cony, jornalista contemplado com uma gorda bolsa-ditadura, além de ter sido seminarista, é imortal da Academia Brasileira de Letras. (Assim como um outro impoluto personagem, José Sarney). Analfabeto não há de ser. Só resta uma hipótese: está caducando.

Para começar, não foi por corrupção que o bom Jeová destruiu a quase totalidade do gênero humano, isso sem falar nos animais, que com corrupção nada tinham a ver. Jeová extermina todo o gênero humano porque os filhos dos deuses haviam descoberto que as filhas dos homens eram belas e com elas se cruzaram. Só porque os filhos dos deuses admiravam a beleza, Jeová destrói o gênero humano, exceto Noé e os seus. É o ódio hebraico à beleza que determina o genocídio do Gênesis.

Continuando: de fato, segundo o mito bíblico, somos todos filhos de incesto. Mas o incesto primevo é anterior a Noé. É o de Eva. O cronista está confundindo o dilúvio com Sodoma. Noé também tomava seus porres. Mas as moças que embebedaram o pai e com ele tiveram relações foram as duas filhas de Ló.

Gênesis, 19:

37 A primogênita deu a luz a um filho, e chamou-lhe Moabe; este é o pai dos moabitas de hoje. 38 A menor também deu à luz um filho, e chamou-lhe Ben-Ami; este é o pai dos amonitas de hoje.

Segunda-feira, Julho 13, 2009
 
DISCO RACHADO



Inconformado com a resposta esfarrapada do secretário de Redação da Folha de São Paulo, o leitor Hilton Wagner volta a questionar:

Boa tarde,

Não posso me furtar de responder a posição que encaminhou-me.

Em resposta ao meu email, informando algo quanto a pluralidade e defende-se informando que até o momento em nada Sarney foi condenado, porém em sua coluna, cita:

"O presidente do Senado, José Sarney, pode tentar o quanto quiser, mas nada apaga a certeza de que, por conivência ou omissão, patrocinou uma rede de compadrio à custa de recursos públicos. Dinheiro este que certamente o Maranhão agradeceria tivesse sido utilizado para mitigar a miséria do Estado que deu fama e fortuna ao senador".

Responda-me ao que até o momento não entendi:

Em público, joga pedra, em privado, afaga.

Como pode?

Grato,

Hilton Vagner


O ombudsman, mais uma vez, chuta a bola pra frente:

RESPOSTA PARA MANIFESTANTE

Caro Sr. Hilton,

Obrigado pelas suas observações, que encaminhei aos jornalistas responsáveis pela seção para que lhe respondessem diretamente. A resposta está abaixo.

O ombudsman não pode emitir juízo de valor sobre colunistas ou textos opinativos que saiam no jornal. Sua função é fazer a crítica técnica do jornalismo praticado pela Folha, não analisar as posições dos colunistas.

Um abraço,

Carlos Eduardo Lins da Silva
Ombudsman - Folha de S.Paulo


Como um disco rachado, o secretário de Redação repete a resposta esfarrapada padrão:

A Folha considera importante manter a pluralidade de opiniões na sua equipe de colunistas. Ressalte-se que o colunista em questão, até o momento, não foi condenado em nenhuma das acusações de que é alvo.

Ricardo Melo, secretário de Redação interino

 
AINDA ADEFÉSIOS


Janer,

Estava lendo seu blog agora há pouco e parei para pensar um pouco sobre o artigo sobre o Homem Novo de Mussolini e do Apóstolo Paulo.

Nosso ídolo Beato de Carvallho define a mentalidade revolucionária como a autoridade presente ante a promessa de um futuro ideal e hipotético. Não é exatamente a mesma coisa que promete o Cristianismo? A prostração nos dias de hoje tendo em vista um futuro maravilhoso e hipotético pós-Juízo Final?

Você conhece algo na literatura que trace paralelos entre esta mentalidade religiosa e a promessa de movimentos como o marxismo e outros? Não seria hora de alguém dar um basta nestas asseverações de que comunismo é tradução de ateísmo, sendo que na verdade o que parece é que comunismo é cristianismo com outro profeta e outra entidade divina?

Sds,

Jorge A. Neto

 
A NOVA IGREJA


Meu caro Jorge,

foram muitos os escritores que fizeram este paralelo. A meu ver, Paulo de Tarso foi o precursor de Stalin. Te mando um excerto de minha tese de doutorado, Mensageiros das Fúrias, onde listo alguns.

A nova Igreja – Deus morto, escreve Camus, é preciso transformar e organizar o mundo com as forças do homem. A partir deste dado, começa suas reflexões sobre a revolta histórica. Urge fazer uma distinção entre a revolução e o movimento de revolta. Spartacus não é um revolucionário, ele não quer mudar os princípios da sociedade romana. Ele se bate para que o escravo tenha direitos iguais aos do senhor, recusa a servidão e quer a igualdade com seu amo. Esta vontade de igualdade o conduzirá ao desejo de tomar o lugar do amo.

A revolução, por sua vez, é a mudança total. A partir da concepção astronômica de revolução –movimento que fecha um ciclo, que passa de um regime a outro após uma translação completa– Camus precisa sua definição. A revolução implica uma mudança do regime de governo. Para que uma mudança econômica seja uma revolução econômica é preciso que ela seja ao mesmo tempo política. Sejam seus meios sangrentos ou pacíficos, é a mudança política, a mudança de governo, que distinguirá a revolução da revolta. Esta dicotomia fundamental é posta em relevo pela frase célebre, citada por Camus: "Não, Sir, não se trata de uma revolta, mas de uma revolução".

Analisando a revolução russa, Camus vê no comunismo a ambição de edificar, após a morte de Deus, uma cidade do homem enfim divinizado. Este paralelismo entre a Parusia perseguida pelo cristianismo e uma Parusia terrena no final da História será uma constante em toda a análise camusiana. Nas origens do marxismo, o autor vê um messianismo de origem cristã e burguesa. Segundo Jaspers, "é um pensamento cristão considerar a história dos homens como estritamente única".

A História, considerada como um movimento que se desenvolve de uma origem rumo a um fim, segundo o cristianismo, será retomada por Marx, via Hegel. Camus aborda o tema em O Homem Revoltado. Várias passagens deste ensaio demonstram este paralelismo.

"Para os cristãos, como para os marxistas, é preciso dominar a natureza. Os gregos são de opinião que o melhor é obedecê-la".

"O ateísmo marxista é absoluto. No entanto, ele restabelece o ser supremo ao nível do homem. A crítica da religião chega a esta doutrina na qual o homem é para o homem o ser supremo. Sob este ângulo, o socialismo é um empreendimento de divinização do homem e adquiriu certas características das religiões tradicionais".

"...o socialismo autoritário, que vai dessacralizar o cristianismo e incorporá-lo a uma Igreja conquistadora".

"O messianismo científico de Marx..."

O proletariado, "por suas dores e lutas, é o Cristo humano que resgata o pecado coletivo da alienação".

"Nesta Jerusalém rugiente de máquinas maravilhosas, quem ainda se lembra do grito do degolado?"

"O movimento revolucionário, no final do século XIX e no começo do XX. viveu como os primeiros cristãos, à espera do fim do mundo e da Parusia do Cristo proletário".

"A revolução russa continua só, viva contra seu próprio sistema, longe das portas celestes, com um apocalipse a organizar. A Parusia ainda está longe. A fé está intacta, mas se curva a uma enorme massa de problemas e descobertas que o marxismo não havia previsto. A nova igreja está de novo frente a Galileu: para conservar a fé, ela vai negar o sol e humilhar o homem livre".

"Dito de outra forma, estamos no purgatório e nos prometem que não haverá inferno".

Para Camus, o que está em jogo é o mito da divinização do homem, da dominação e unificação do universo pelos poderes da razão humana. A Rússia acreditava ser o instrumento deste messianismo sem Deus. Em Carnets, será incisivo:

"Origens da loucura moderna. Foi o cristianismo que desviou o homem do mundo. Ele o reduziu a si mesmo e à sua história. O comunismo é uma continuidade lógica do cristianismo. É uma história de cristãos".

Aqui, temos uma ironia só inteligível em francês. Ao criar a expressão histoire de chrétiens, Camus insinua uma histoire de cretins.

Para Sábato, nenhum movimento histórico se apoiou sofre a fome. O grande erro de Marx seria ter dado uma excessiva importância aos fatores materiais. Se estes fatores foram importantes no século XIX, dominado pelas lutas entre o capital o trabalho, "os mais tremendos sacudimentos da História se deveram a impulsos religiosos ou fanáticos, basta se pensar em Cristo ou Maomé, em Napoleão ou Hitler. E, o que é mortal para o marxismo, em Stalin".

Como toda religião, o marxismo estabelece seus dogmas. Os Livros Sagrados não podem ser contestados. A sociedade racionalista-totalitária será então dedutiva. Extrairá seus conhecimentos através de silogismos que partem das Premissas Sagradas. Um outro escritor do início de século, que viveu este confuso noivado bem antes que Camus e Sábato, será ainda mais incisivo nesta aproximação.

Em Voyages – Russie, Nikos Kazantzakis lembra como se fez a luz em seu espírito. Para ele, todos os apóstolos do materialismo davam às questões respostas grosseiras, de uma evidência simplória. Como em todas as religiões, tentavam difundir aquelas respostas tornando-as compreensíveis para a multidão. Kazantzakis fala da existência, na Rússia, de um exército fanático, implacável, onipotente, constituído de milhões de seres, que tinha em mãos milhões de crianças e as instruía como bem entendia. Esse exército, continua o cretense, tinha seu Evangelho, O Capital. Seu profeta, Lênin, e seus apóstolos fanatizados que pregavam a Boa Nova através do mundo. Esse exército possuía também seus mártires e heróis, seus dogmas, seus padres apologistas, escolásticos e pregadores, seus sínodos, hierarquia, liturgia e mesmo a excomunhão: "somos contemporâneos deste grande momento em que nasce uma nova religião".

 
TERÁ A FOLHA
O RABO PRESO
COM SENADOR?



Continuam se acumulando as denúncias sobre as falcatruas do presidente do Senado, o imortal José Sarney. Semana passada, o Estadão denunciava o desvio de R$ 500 mil da Petrobrás para a fundação que o senador criou em louvor ao próprio ego. Na edição desta semana, Veja revela mais uma, que certamente está longe de ser a última: uma conta na Itália, de 870,5 mil dólares, não declarados à Receita Federal.

A Folha de São Paulo continua dando espaço em página nobre ao senador ladrão. Inúmeros leitores têm escrito, seja ao Painel do Leitor, seja ao ombudsman, perguntando se o senador ladrão permanecerá como colunista do jornal. O Painel do Leitor publica cartas de leitores indignados com o político corrupto, mas nenhuma que se refira à manutenção de Sarney como colunista. O ombudsman passa a bola para o secretário de Redação. Este, por sua vez, remete aos leitores uma resposta esfarrapada padrão. Carta de um leitor:

Prezado Ombudsman,

Gostaria de saber a posição do "nobre" colunista Sarney frente a folha, pois é de extrema demagogia critica-lo ao mesmo tempo em que o temos como colunista.

Fica aqui registrado meu protesto, bem como pedido de retorno desse email.

Grato,

Hilton Vagner


Ombudsman mata no peito e passa a bola pra frente:

Caro Sr. Hilton,

Obrigado pelas suas observações, que encaminhei aos jornalistas responsáveis pela seção para que lhe respondessem diretamente. A resposta está abaixo.

O ombudsman não pode emitir juízo de valor sobre colunistas ou textos opinativos que saiam no jornal. Sua função é fazer a crítica técnica do jornalismo praticado pela Folha, não analisar as posições dos colunistas.

Um abraço,

Carlos Eduardo Lins da Silva


Secretário de Redação repete resposta esfarrapada padrão:

A Folha considera importante manter a pluralidade de opiniões na sua equipe de colunistas. Ressalte-se que o colunista em questão, até o momento, não foi condenado em nenhuma das acusações de que é alvo.

Ricardo Melo, secretário de Redação interino


No entanto, na edição de hoje, o próprio Ricardo Melo escreve:

“O presidente do Senado, José Sarney, pode tentar o quanto quiser, mas nada apaga a certeza de que, por conivência ou omissão, patrocinou uma rede de compadrio à custa de recursos públicos. Dinheiro este que certamente o Maranhão agradeceria tivesse sido utilizado para mitigar a miséria do Estado que deu fama e fortuna ao senador”.

O secretário de Redação, de público, afirma sua certeza de que o colunista da Folha patrocinou uma rede de compadrio à custa de recursos públicos. Em privado, na resposta esfarrapada ao leitor, salienta que o senador não foi condenado em nenhuma das acusações de que é alvo. A Folha, sempre solícita em publicar cartas denunciando corrupções, não publica nenhuma que questione sua cumplicidade com o senador ladrão.

Ora, a questão não é ter sido ou não condenado. O que se pergunta é se a Folha continuará dando sustentação a um político notoriamente corrupto. Que o Senado o segure, se entende, não há senador que não tenha se beneficiado das falcatruas praticadas na Casa. Que a Folha o mantenha como colunista, é mais difícil de entender. Os senadores têm o rabo preso com o senador ladrão. A Folha diz ter o rabo preso com o leitor.

Ou será com o senador?

Domingo, Julho 12, 2009
 
A REDENÇÃO DA CERVEJA?


Estudos sobre os benefícios do vinho à saúde têm pululado na imprensa nos últimos anos, particularmente como preventivo de alguns tipos de câncer e auxiliar na quimioterapia e radiografia. Agora parece ser a vez de redimir a cerveja. De um leitor, recebo esta nota da BBC Brasil:


Estudo aconselha atletas a beber cerveja todos os dias

Além de matar a sede e relaxar, a cerveja ajuda na recuperação após a prática esportiva. A afirmação é do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha, que apresentou um estudo defendendo o consumo moderado da cerveja para os atletas como fonte de hidratação diária.

O estudo "Idoneidade da cerveja na recuperação do metabolismo dos desportistas" , apresentado nesta terça-feira, foi baseado em relatórios e pesquisas de especialistas em medicina, fisiologia e nutrição da Universidade de Granada com o aval do CSIC. Segundo o documento, os componentes da cerveja ajudam na recuperação do metabolismo hormonal e imunológico depois da prática desportiva de alto rendimento e também favorece a prevenção de dores musculares.

A tese é defendida pelo cardiologista e ex-jogador de basquete da seleção espanhola, Juan Antonio Corbalán, medalha de prata nas Olimpíadas de Los Angeles (1984). O estudo foi realizado em dois anos e recomenda o consumo de três tulipas de 200 ml de cerveja (ou de 20g a 24g de álcool) para homens e duas para mulheres (10g a 12g) por dia; volume que os autores do relatório definem como moderada.

Cerveja ou suco de laranja?

De acordo com os pesquisadores, a cerveja contém 95% de água e é a bebida alcoólica com menor gradação (5% em média). Uma tulipa de 200 ml possui 90 calorias, o mesmo que um copo de suco de laranja. Para chegar a essa conclusão de consumo na dieta de desportistas, os cientistas fizeram pesquisas com 16 atletas universitários com idades entre 20 e 30 anos, em boa forma física e que alcançavam uma velocidade aeróbica máxima (VAM) de 14 km/h.

Além disso, todos deveriam ser consumidores habituais e moderados de cerveja, manter uma dieta mediterrânea, não ter hábitos tóxicos nem antecedentes familiares de alcoolismo. Os testes foram feitos durante três semanas em baterias diárias de uma hora de corrida, sob calor de 35º, 60% de umidade relativa e duas horas de pausa para hidratação.

Nesse intervalo os atletas bebiam água ou cerveja (máximo de 660 ml), alternando as bebidas em cada pausa de hidratação para comparar resultados.

"Tão boa quanto água"

A conclusão foi que a cerveja permitia recuperar as perdas hídricas e as alterações do metabolismo tão bem quanto a água. Os cientistas usaram parâmetros indicativos como: composição corporal, inflamatórios, imunológicos, endócrino-metabó licos e psico-cognitivos (coordenação, atenção, campo visual, tempos de percepção-reação, entre outros) para comprovar que o álcool não afetava a atividade de hidratação.

O estudo destaca ainda que a cerveja contém substratos metabólicos que substituem algumas substâncias perdidas durante o exercício físico como aminoácidos, minerais, vitaminas e antioxidantes. Mas apesar desta defesa do consumo da cerveja, os pesquisadores espanhóis afirmam que o consumo nunca deve passar da moderação, porque o excesso de álcool não se metaboliza e, por isso, afeta o sistema nervoso central.

No caso dos desportistas a recomendação do relatório é beber durante as refeições. Nunca momentos antes de praticar exercícios nem logo depois. O intervalo indicado para a cervejinha da hidratação é de duas horas antes ou depois de suar.

Sábado, Julho 11, 2009
 
CASA DOS HORRORES
QUER MAIS CADÁVERES



Quando falo que o Brasil costuma importar do estrangeiro as piores idéias, me refiro a idéias dos Estados Unidos ou da Europa. O Senado Federal deu um passo adiante. Passou a importar as piores idéias da África e da Ásia. Me refiro à regulamentação da profissão dos mototaxistas. A decisão de jerico foi tomada nesta semana. O texto aprovado na Casa dos Horrores – como diriam os britânicos – segue para sanção presidencial e ao que tudo indica o jerico-mor não a vetará.

Segundo a agência Estado, de 1990 a 2006, o número de mortes em acidentes de moto no Brasil subiu de 299 para 6.734, o que significa, em termos percentuais, um aumento de 2.252%. Em 2006, as motos mataram 19 pessoas por dia no país. A gripe suína, até agora, matou duas pessoas. Fala-se em epidemia. Não das mortes por motos. Mas epidemia da gripe suína.

Uma moto, teoricamente, conduz uma pessoa. Uma mototáxi, necessariamente, conduz duas. Fácil deduzir o que vem pela frente. O número de mortos duplicará. Com o aval da Casa dos Horrores e provavelmente do Supremo Apedeuta.

Segundo o engenheiro e sociólogo Eduardo Alcântara Vasconcellos, representante brasileiro na Organização Mundial da Saúde, o discurso de que a moto gera emprego e liberta o pobre é demagogia. Dado o apoio amplo e irrestrito do governo federal à indústria da motocicleta, haverá um incentivo muito forte para a proliferação do mototáxi. Em entrevista para a Folha de São Paulo, diz o engenheiro:

“O governo facilitou a ida da indústria para a zona franca de Manaus. Tem um subsídio muito alto. Agora, com a crise, o governo também reduziu o IPI da motocicleta. Além disso, a moto que entrou no Brasil é altamente poluente. O governo não exigiu que a indústria adaptasse os motores. É uma licença para poluir com um custo social enorme. Importamos o pior do que já existe na África e na Ásia pobre, de uma maneira populista e irresponsável".

Luíza Erundina, a prefeita petista de São Paulo, já havia dado um considerável passo – rumo à Idade Média – ao introduzir a tração humana em substituição à roda e ao motor, com suas carroças de coleta de lixo. O Senado não fez percurso tão longo para trás. Apenas legalizou instrumentos de morte contemporâneos. Em nome da expansão da indústria das motos, o Senado pede mais cadáveres.

Ave, Brasília. Morituri te salutant.

Sexta-feira, Julho 10, 2009
 
MENSAGEM DO MARÇAL


Evoé, Janer.

Seu artigo “ARTICULISTA INCORRE EM FLAGRANTE ADEFÉSIO” me fez lembrar um semestre na Filosofia da USP muito interessante. Isso contrariará o senso daqueles que acham que não existe vida inteligente na FFLECH.

Um professor, naturalmente rejeitado pelas estrelinhas decadentes que por lá irradiam um brilho avermelhado, pensou como tema de curso (optativo, claro) o seguinte: e se retornássemos ao mundo antigo, apreendêssemos seus valores e depois, de volta à contemporaneidade, comparássemos com os atuais valores?

Para encurtar, após vinte semanas de imersão no universo clássico greco-romano, digo que o que mais nos “chocou” na volta foram os adjetivos “novo” e “moderno”. Novo e moderno são como areia na praia: está por todos os lados, inclusive nos recônditos mais inacessíveis. E o pior de tudo é que nos doutrinaram para pensar que tais adjetivos têm valor intrinsecamente benéfico. Se for novo e moderno, então é bom. Quanta canalhice nos é forçada desde o neo-judaísmo , passando pelos “movimentos libertadores”, até chegar nas propagandas comerciais: “Compre isso porque é novo e moderno!” Bah!

Em um outro artigo seu, do qual não mais me lembro do título, você pediu aos leitores que narrassem sobre experiência de churrasco de livros à época do governo de exceção.

Por volta de 71, morava no bairro do Cambuci, em frente a um quartel do exército e de costas a outro da aeronáutica. Do nada, bateu lá em casa um primo que ninguém conhecia, foragido da dita ditadura. Ele ficou meses recluso em um quarto, repartindo o tempo entre estranhos livros que trouxera e histórias de terror militar.

Temendo pela saúde de nossa família e pelo emprego de funcionário público de meu pai, minha mãe, aliada a outra prima que morava conosco, pediu que o aprendiz de Marx fosse cantar em outras plagas. Antes de partir ele nos presenteou com sua coleção de livros que não tardou a arder dentro de um tanque de lavar roupas.

Pressentindo o destino daquela coleção ímpar, desviei alguns na surdina e os vendi no mercado negro, o que me rendeu quantia suficiente para adquirir algumas garrafas de cerveja e um maço de figurinhas. Quanto à cerveja, no alto de meus 11 anos, tornei-me um garoto muito popular entre as pré-adolescentes que com rapidez espalhavam que por apenas um beijo podia-se tomar uma geladinha.

Viva la revolución!

Henrique Marçal.

 
ARTICULISTA INCORRE
EM FLAGRANTE ADEFÉSIO



Um artigo de Demétrio Magnoli é sempre um convite à leitura. Culto e bem informado, o sociólogo e geógrafo sempre dá um enfoque original a seus artigos. Pena que às vezes incorre em adefésios. Há dois meses, atribuía racismo aos segregacionistas americanos, aos nazistas alemães ou aos defensores do apartheid na África do Sul. Afirmava que “a pedra fundamental dos Estados baseados no princípio da raça é a proibição legal da miscigenação”. Só deixava de lado aquela nação que desde há cinco mil anos até hoje condena as uniões mistas.

Ontem, em artigo para o Estadão, cometeu outro. É como se os conhecimentos de história do articulista recuassem apenas poucos séculos atrás e deixassem de lado eras mais distantes e nem por isso menos fundamentais. Comentando a lei antifumo, escreve Magnoli:

“A busca do "homem novo", o indivíduo virtuoso que encarna as qualidades de uma nação renascida, é um traço crucial dos totalitarismos do século 20. O "homem novo" de Benito Mussolini, um guerreiro infatigável sempre em uniforme militar, tinha como inimigo primordial não o judeu ou o estrangeiro, mas o espectro envolvente da degeneração física e mental. Mens sana in corpore sano - o princípio fundador da educação física e também do eugenismo foi invocado pelos mais diversos regimes totalitários em campanhas de reforma dos hábitos e comportamentos individuais”.

Ora, antes de ser slogan de Benito Mussolini, homem novo foi o sonho dos marxistas. Tanto que Stalin via os escritores como engenheiros de almas, a quem cabia construir o tal de homem novo. Contemporaneamente, foi bandeira de Che Guevara, que passou sua vida matando homens velhos e novos em busca do homem novo. Mas antes de ser ideal do comunismo, foi ideal do proto-stalinista Paulo. Quem primeiro usa este conceito na História, pelo que se sabe, foi o fundador do cristianismo.

Em Epístola aos Efésios (ad Ephesios, aos habitantes de Éfeso), escreve o apóstolo dos gentios:

2- 13 Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. 14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, 15 isto é, a lei dos mandamentos contidos em ordenanças, para criar, em si mesmo, dos dois um novo homem, assim fazendo a paz.

E mais adiante, na mesma epístola:

4 - 20 Mas vós não aprendestes assim a Cristo. 21 se é que o ouvistes, e nele fostes instruídos, conforme é a verdade em Jesus, 22 a despojar-vos, quanto ao procedimento anterior, do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; 23 a vos renovar no espírito da vossa mente; 24 e a vos revestir do novo homem, que segundo Deus foi criado em verdadeira justiça e santidade.

A palavra novo tem um apelo considerável para quem está insatisfeito com a ordem antiga. Acrescida a qualquer substantivo, lhe confere uma maior dignidade: novos filósofos, nova ordem, novo mundo, novo pensamento, nova cozinha, e por aí vai. Paulo foi o precursor desta antiga moda. O novo homem que pretendia construir se opunha tanto ao judaísmo como à cultura helênica ou romana. O adjetivo fez fortuna na História e foi assumido tanto pelos católicos como pelos marxistas e mesmo por proprietários de bares: “sob nova direção”.

Com a diferença de que proprietários de bares nunca mataram ninguém em nome do novo. O que não foi o caso de católicos, comunistas e fascistas, que mataram com gosto o que consideravam homem velho sem chegar a ter construído nenhum outro homem.

Antes que me esqueça: adefésios. Já que falei em Paulo, importo a palavra do espanhol, por alusão a sua epístola aos de Éfeso. O dicionário da Real Academia Española a registra como sinônimo de despropósito, disparate, extravagância. Já o Diccionário Histórico de Real Academia atribui a palavra a uma lenda etimológica. Um sacerdote ia ler uma das epístolas aos coríntios mas apanhou por erro a que Paulo havia dirigido aos efésios. Esta seria a razão pela qual as afirmações equivocadas se chamam adefesios.

Ao atribuir a Mussolini a idéia de homem novo, o articulista incorreu em flagrante adefésio.

Quinta-feira, Julho 09, 2009
 
LOS BANDOS DEL ALCALDE


Falei em crônica de passada de Enrique Tierno Galván. É nome desconhecido no Brasil. Tomei conhecimento dele no dia de seu enterro. Autor de vários ensaios, o que mais me fascina no prefeito adorado pelos madrilenhos são seus bandos. A palavra existe em português, mas caiu em desuso. Significa anúncio público, proclamação. Daí contrabando, o que é contra o bando. Tierno Galván, ao anunciar suas portarias municipais, em vez de um texto jurídico fazia um poema em prosa.

Uma das mais ternas lembranças que tenho de Madri é um livrinho de 120 páginas, Bandos del Alcalde, onde Galván fala aos vecinos de Madrid. Por vecinos não se entenda vizinhos, mas habitantes. Com erudição e extrema elegância, el alcalde admoesta e dá recomendações a sus vecinos para bem tratar “esta hermosa Corte y Villa”. Por sua importância literária, foram reunidos em livro. No prólogo à 2ª edição, escreve Fernándo Lázaro Carreter, da Real Academia Española:

Por que o êxito? Há um motivo básico: estes textos, além de cumprirem com seu objetivo fundamental de comunicar o Alcaide com a Vila, constituem uma invenção nada fácil, que surpreendeu a muitos ainda capazes de admirar as invenções delicadas. Enrique Tierno criou um minúsculo porém grato gênero de discurso: o do bando didático-lúdico. Quem não está habituado a transitar pelos recônditos da escritura, mal dará valor ao que isto supõe.

Literatura, estes bandos? Claro que sim. Também circula hoje como convicção comum que é literário todo texto que atrai para sua leitura fora do tempo e da ocasião em que foi escrito. (...) Não é nada falso que a literatura é fundada pelo leitor, quando estima valioso para si, para seu gozo desinteressado, um determinado escrito.


Claro que um prefeito assim só pode conversar e ser entendido por uma cidade culta. Madri mereceu seu Alcalde e Tierno Galván mereceu sua Villa. Felices vecinos os que tiveram tal administrador. Para fugir um pouco ao clima putrefato que vivemos neste país que se apodrece pelas copas, ofereço ao leitor um momento de grandeza e requinte. Transcrevo um de seus bandos, em que o prefeito recomenda a vecinas y turistas maior recato no vestir-se durante o verão manchego. Transcrevo em espanhol, para não estropiar o saboroso estilo do autor.

 
EL ALCALDE PRESIDENTE
DEL EXCELENTISIMO
AYUNTAMIENTO DE MADRID



Madrileños:

Es viejo decir poético, con varia fortuna repetido, que con la llegada de la primavera, la naturaleza se viste con sus mejores galas, encubriendo la magra y seca desnudez del invierno con brillantes y copiosos adornos. Pero la humana especie que a veces contraría y repele lo que natura hace, lejos de cubrir, descubre, y lo que tapado había, destapa, en obsequio del más alegre, descuidado y gozoso vivir al que el bonancible tiempo invita.

Nada tendrá el Alcalde que advertir, respecto de lo dicho,si entre los que tal hacen no hubiera algunos y también algunas que caen en desquiciada y peligrosa confusión, pues hacen de esta Villa lo que esta Villa no es, tomando los ábregos vientos que de la Mancha vienen o los cálidos Aires que del africano Sur nos llegan por suaves y marinas brisas y el recio sol de Castilla, que más quebranta que alivia, por el suave y reparador que los altos montes luce.

De tan quimérica visión de la verdad nacen extrañas y peligrosas costumbres, pues desprovistos los hombres de jubón y calzas, pavonéanse en lienzos o lienzuelos, en extremo contentos de si, aunque hayan las carnes flacas, desdichadas las proporciones y mal encajados los huesos, como si lo hubieron sido por un torpe algebrista.

Algo semejante, aunque no igual, ocurre con buena copia de nuestras feminiles visitantes que por esta ciudad vagan y peregrinan y con numerosas vecinas que arrastradas por la antigua y legítima inclinación al discreteo, más la quimérica confusión que ya dijimos, dan en despojarse, como con particular y escrupulosa atención ha observado el Alcalde de esta Villa, de corpiños, basquiñas, briales y otras prendas, que por respecto no se nombran, faltando poço, en algunos casos, para que tanto mozas como menos mozas en carnes queden.

Ocasionánse de este modo graves y supérfluos daños, pues quienes desde el pescante los coches guían, alejan la atención de su principal menester, arrastrados por el invencible deseo de mirar, con menoscabo de haciendas, peligro para la vida y aumento de la común confusión.

Sucede además que el grande polvo que la ciudad produce, particularmente en el estio, la quemazón del sol, el rebullir las simientes y otras vegetales materias en la urbana atmósfera, amén de los humores a cuya expulsión la desnudez promueve, ocasionan salpullidos, llagas, postemas, abscesos y hasta lamparones, males que, según los físicos del Concejo, empodrecen los suaves miembros e gentiles cuerpos de las vecinas de esta Corte.

Conviene, por último, añadir a lo ya dicho que las buenas costumbres piden comedimiento y mesura en cuanto al destaparse toca, pues en esos lugares de común recreación y roce que son las públicas piscinas, como natura huye lo triste y apetece lo deleitable, exagéranse los destapamientos sin haber cuenta del decoro que cada uno a si próprio debe y del respeto que la tranquilidad de los demás merece.

También a veces acaece, cuando los estivales calores son muy grandes, que alguno de nuestros visitantes, para alivio, descanso y alegre algazara y regodeo, se meten en cueros vivos en el agua que llena las tazas de las fuentes públicas monumentales. De cundir este ejemplo, faltarían tazas o sobrarían visitantes, con perjuicio notório para el bueno y equilibrado proceso de la vida en esta Corte. Amén de que con esos médios, según esta Alcaldía se alcanza, los ardores, lejos de bajar, aumentan, por lo que conmina a moradores y visitantes a que no practiquen tan dañosos y censurables usos.

Confia, pues, el Alcalde, que durante el presente estio, visitantes, andantes en Corte y las vecinas y vecinos de esta Villa, de cualesquiera edad y condición que sean, salvo los ancianos de cansada y molida senectud, tengan el debido cuidado en cuanto a lo que este Bando se aconseja, sin caer en impropias mojigaterías, exageraciones ni afectación de virtud.

Madrid, 25 de mayo de 1984.

Quarta-feira, Julho 08, 2009
 
AMIZADE E INTERNET


Falava do Orkut. Certo dia, pouco após a partida da Baixinha, um de meus conhecidos passou aqui em casa e jogou-me na comunidade. Trinta segundos depois, nada mais que isso, uma certa Shirlei surgiu na telinha, perguntando se eu a aceitava como amiga. Ora, quem seria Shirlei? Por via das dúvidas, aceitei. Pois não é que a Shirlei era mulher de um excelente amigo, com quem convivi em meus de universidade, e a quem eu procurava há anos na Internet? Como ela me encontrou trinta segundos após meu ingresso na comunidade? Profundo mistério. Ou acaso daqueles da ordem de um em um milhão.

No Orkut, não busco exatamente amigos, mas expressar e trocar idéias. Claro que daí surgem relacionamentos mais estreitos e já me encontrei com vários orkutianos mundo afora. Reencontrei primos e primas que já nem sabia por onde andavam. Uma destas primas, creio tê-la visto pela última vez em meus dez anos. Encontrei uma pedritense dos dias de ginásio, que não via há cinqüenta anos. Quer dizer, mesmo depois de meio século ainda nos restam chances de rever pessoas perdidas no tempo.

Mas os grandes reencontros foram, em sua maioria, decorrentes do blog ou de publicações em outros sites. Entre estes, um poeta canarino com quem convivi durante uma travessia do Atlântico, no Augustus. Uma sabra muito querida que encontrei em outra navegação, desta vez no Eugenio C. Isto tudo há mais de trinta anos. Surgiram também amores passados e novos encontros. Mas nada a ver com o Orkut. Para encontrar alguém no Orkut é preciso estar no Orkut. Para encontrar alguém na rede, basta chamar o Google. Desde, é claro, que a pessoa buscada tenha alguma visibilidade na Internet.

Um amigo se queixava outro dia das decorrências da vida urbana. Que não tinha relação com nenhum de seus vizinhos de prédio. Não vejo nisto nada demais. Não sabemos o que pensam nossos vizinhos, nem quais são seus hobbies ou preferências, muito menos que literaturas ou culinárias cultivam. Não sei se bebem ou não bebem, muito menos se são vegetarianos ou carnívoros. Além disto, encetar relações com vizinhos implica sempre um risco. E se o vizinho é um chato de galocha - eles existem, e como! - e pega no seu pé? A solução é mudar de prédio.

Em um site de relacionamentos, você já tem uma idéia de seu interlocutor em seu perfil. Você quer encontrar pessoas que adoram dançar tango em Paris? Procure a comunidade dos que curtem tango em Paris. Não existe? Crie uma. Certa vez, encontrei um clube de tango em Rautavaara, cidadezinha de pouco mais de dois mil habitantes no norte da Finlândia. Mais um monte de letras de tango... em finlandês. Quanto a meus vizinhos, não tenho a mínima idéia se gostam ou não gostam de tangos.

Amizades dificilmente decorrem de encontros fortuitos. E sim de afinidades. Meu prédio tem 90 unidades residenciais. Conheço uma vizinha por acaso, amiga que mudou-se para cá há pouco. Não tenho relações com mais ninguém. Mas tenho amigos e amigas na Finlândia, na Macedônia, em Israel, na França, na Bélgica. Alguns de Internet, outros de outras andanças. É um avanço considerável para quem na infância se comunicava com seus vizinhos mais próximos com espelho.

"A internet é muito boa para administrar amizades já existentes, garantindo sua continuidade mesmo a grandes distâncias, mas é ruim para criar do zero relações de qualidade", diz Dunbar à Veja. Sim e não. Conheço, tanto pessoalmente como de ouvir falar, quem tenha encontrado sua cara metade teclando no computador. Caras metades estão às vezes a centenas ou milhares de quilômetros de distância.

Segundo a revista, ter milhares de amigos virtuais não deixa ninguém menos solitário. Claro que não. Não existe amizade teórica. Amigo é aquele a quem apertamos a mão, com quem bebemos e comemos, com quem temos prazer de trocar idéias e confidências. A Internet pode ser um elemento catalisador para a amizade, mas jamais substituirá a conversa face a face.

Assim, não consigo entender a expressão amizade virtual. Ou a amizade é real e se consuma na mesa de um bar, ou não é amizade. Dito isto, coincidem neste feriadão, aqui em São Paulo, amigos de várias geografias. Da época pré-Internet. Ainda bem que não são muitos. Ou não teria como curti-los.

 
JORNAL ENCONTRA NOVA
FÓRMULA PARA JUSTIFICAR
COLUNA DE SENADOR LADRÃO



Para um leitor que pergunta se o senador ladrão continuará assinando coluna na Folha de São Paulo, Ricardo Melo, o secretário de Redação, encontrou outra fórmula de resposta:

"Caro Senhor,

a resposta da direção do jornal está abaixo.

Atenciosamente,

Carlos Eduardo Lins da Silva
Ombudsman - Folha de S.Paulo

"Ressalte-se que o colunista em questão, até o momento, não foi condenado em nenhuma das acusações de que é alvo."

Ricardo Melo, secretário de Redação interino".



Ora, condenação nunca foi obstáculo para a Folha contratar um colunista. Toni Negri foi condenado a 30 anos de prisão na Itália, por terrorismo, e assinava coluna no caderno Mais! Soa no entanto estranho ver todos os dias um jornal denunciando novas maracutaias de um de seus colunistas.

Terça-feira, Julho 07, 2009
 
O NÚMERO DE DUNBAR


“O número máximo de pessoas com quem cada um de nós consegue manter uma relação social estável é, em média, de 150, segundo o antropólogo inglês Robin Dunbar, um dos mais conceituados estudiosos da psicologia evolutiva”. É o que leio na Veja, em reportagem sobre as redes sociais da Internet. Eu diria que o antropólogo tanto pelo otimismo quanto pelo pessimismo.

Por um lado, não me parece muito viável manter relações sociais estáveis com tanta gente. Manter este tipo de relação exige uma dedicação impossível. Sem me dar ao trabalho de contar, acho que consigo isto com no máximo 50 pessoas. E claro está que não incluo estes 50 no rol de meus amigos. São o que chamo de conhecidos. Com eles mantenho contatos esporádicos, mas raramente participam de minha mesa em um bar. Meus amigos, costumo afirmar, posso contá-los nos dedos das mãos e sobram dedos.

Por outro lado, se falamos de políticos ou líderes religiosos, este número ultrapassa em muito o número de Dunbar. Um político ou líder religioso mantém relações estáveis com dezenas de milhares e mesmo milhões de pessoas. Em 1986, por acaso estive no enterro de Enrique Tierno Galván, político, sociólogo, ensaísta e prefeito de Madri. Um milhão de pessoas chorava sua morte, inundando o espaço todo em torno à fonte de Cibeles. Marxista mas não fanático, homem de grande cultura, governava sua cidade através de “bandos”, que foram reunidos em livros. Suas posturas municipais eram extremamente poéticas e muitas vezes o prefeito começava citando Platão para tratar da organização da cidade. Um milhão de madrilenhos erguia os punhos e gritava: “Alcalde, presente!”

Cito Tierno Galván não por acaso. (Mais adiante, publicarei um de seus bandos). Era pessoa unanimemente querida e aquela multidão toda me provocou um nó na garganta, logo em mim que nada tinha a ver com o homem. Nós tivemos os nossos. Getúlio Vargas manteve uma relação íntima e sólida com milhões de brasileiros. Sua morte comoveu o país de sul a norte. E até mesmo um caudilho menor, como Leonel Brizola, teve seu exército de devotos. Já nem falo de um Hitler ou Stalin. Schickelgruber foi certamente a pessoa mais amada no mundo. Cristo não teve nem mesmo seus doze discípulos em sua crucificação.

Voltemos ao número de Dunbar. Os 150 estariam na categoria dos chamados “laços fracos”. Já os "laços fortes" constituiriam um núcleo reduzido de confidentes, que não costumam passar de cinco. Esses são os amigos do peito, com quem podemos contar sempre, mesmo nos piores momentos. Já melhorou. Mas que é um amigo? Até alguns anos atrás, eu imaginava que precisamos de uma boa década para qualificar alguém como amigo. Hoje, considero que às vezes nem quarenta anos bastam.

A reportagem de Veja trata das amizades na internet, que não seriam sequer mais numerosas do que na vida real, já que de nada adianta ter 500 ou 1 000 contatos no Orkut. Depende do que se busca no Orkut, diria eu. Entrei na comunidade por insistência de um amigo e não me arrependo. Mas não estou lá em busca de amigos, já que mal me sobra tempo para administrar minhas escassas amizades.

Amizade é planta que tem de ser regada. Ou fenece. E ninguém consegue regar um matagal de mil plantas. O bom do Orkut foi encontrar amigos e mesmo parentes que eu havia perdido no tempo e na geografia. Conto adiante.

 
PROMOTOR JERICO QUER
CRIAR NOVA PROFISSÃO



Continuam fazendo fortuna no país as idéias de jerico. Desde há muito o Estado delegou aos cidadãos a missão de proteger suas propriedades. Se você quiser ter segurança em seu prédio, a polícia nada tem a ver com isso. Contrate porteiros, vigilantes, instale sistemas de segurança. E pague por isso. O problema é seu, não das autoridades às quais você paga para garantir sua segurança. Este pagamento é destinado a subsídios mais nobres, tipo silicone para travestis, putas para deputados e turismo para senadores.

O mesmo quanto a seu carro. A polícia nada tem a ver com isso. Aqueles extorsionários que riscam ou furam os pneus de seu carro se você não pagar para que não o façam, que haviam sido regulamentados em Porto Alegre, foram agora regulamentados no Distrito Federal. Em breve, extorsão será direito adquirido de marginais em todo o país. Não bastasse este encargo, o Ministério Público de São Paulo houve por bem delegar a segurança das ruas... aos proprietários de restaurantes. Quer o MP que os donos de bares deixem de ser só platéia para exercerem a função de "mediadores de conflitos". A proposta é transformá-los em instrumento de redução da criminalidade da capital.

Segundo o projeto, idealizado pelo arguto promotor Augusto Rossini, coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal, os proprietários passariam por curso de capacitação, que seria condição para conseguirem o alvará de funcionamento. "Assim como é preciso ter licença para ter uma arma, é preciso treinamento específico para ter um bar". Mais um pouco, sem diploma cidadão algum poderá instalar um bar.

Segundo os jericos-mentores do projeto, as histórias que ilustram a proximidade entre bares e violência são inúmeras. Depois do exagero na bebida, maridos violentos voltam para espancar as mulheres, jovens universitários resolvem acertar as contas com desafetos e traficantes também costumam escolher os barzinhos como escritórios clandestinos. Foi então elaborada a idéia de “um curso simples de capacitação para que os proprietários possam reconhecer um potencial assaltante e barrar uma violência doméstica".

Caberá agora aos donos de “bares mediadores” prevenir assaltos e surras de marido em mulher. Todo bar passará a ter atribuições de delegacia. Algumas perguntas se impõem. Se o dono de bar vai exercer função de policial, receberá algo por isso? Terá direito a portar arma para prevenir a violência? Terá poderes para decretar a prisão de suspeitos? Se um cliente recusar-se a pagar a conta – o que não deixa de ser um conflito – poderá dar-lhe voz de prisão?

Para o secretário da Coordenação das Subprefeituras, jerico Andrea Matarazzo, a medida é oportuníssima. "Acho ótimo. Atualmente, já oferecemos treinamentos de manuseio de alimentos, limpeza e higiene aos bares. A mediação de conflitos poderia ser agregada”. A meu ver, o secretário está sendo tímido. Poderia agregar também a competência de juiz. Já que o dono de bar terá função de policial, poderia também ser magistrado. A clientela, colaborando com o brilhante projeto, poderia constituir um júri. Aposto que muita gente iria adorar. Ao ir para o bar, sentir-se-ia indo para o tribunal.

Mais alguns anos, e os “mediadores de conflitos” teriam sua profissão regulamentada, assim como os flanelinhas e demais achacadores. Com direito a sindicato, mordomias, imposto sindical e carro de som. Por falar nisso, acaba de passar pela Comissão de Constituição e Justiça um projeto que regulamenta a profissão de repentista. Cuidado leitor! Se você é dado a improvisos, acautele-se. Dentro em breve, poderá ser incurso em exercício ilegal da profissão.

Segunda-feira, Julho 06, 2009
 
ECAD AMEAÇA TELEINTOX


Televisão em espaços públicos é uma das piores agressões que se pode fazer a um cidadão. Falta de respeito. Muitas vezes são os garçons que querem assistir a um jogo de futebol e impõem o suplício ao cliente. Isso quando não são os clientes que querem assistir ao jogo. E você, que foi lá para almoçar e conversar, tem de suportar as explosões de boçalidade dos boçais. Televisão em bar tem muito a ver com futebol. Os aparelhos são instalados durante as copas. E vão ficando.

Sempre tive a Noruega como um país culto. Em minha primeira passagem por Oslo, tive amarga decepção. Era feriadão e poucos bares estavam abertos. Caí em um destes, imenso, no meio de uma praça no centro da cidade. Sete telões de televisão, todos transmitindo a Copa da Europa. Me pareceu estar chegando no Brasil. Minha conclusão: a estupidez é universal.

Ao escolher um bar ou restaurante, sempre dou preferência àqueles que não impõem ao cliente a telinha infame. Mas nem sempre consigo escapar. Uma solução é sentar exatamente embaixo do aparelho. Se não há som, é a única maneira de fugir dela. Assim como têm ambientes para fumantes ou não-fumantes, os restaurantes deveriam ter espaço para cultores da estupidez e para quem não gosta de estupidez. Hoje, em São Paulo, se paga preço forte para comer sem televisão. Em restaurantes caros, você consegue escapar da praga. Nos de preço médio para baixo, ela é onipresente. É o que chamo de teleintox.

Vá lá! Estou tolerante hoje. Restaurantes não são de freqüência obrigatória e você sempre pode escolher este ou aquele. O que não dá para escolher é hospital ou consultório médico. Há uns vinte ou mais anos, quando a peste começava a instalar-se, eu conseguia fazer com que a desligassem. Ao chegar em São Paulo, fiz um escândalo. Fui consultar um alergologista e lá estava a maldita televisão. Com desenho animado japonês. Pedi pra moça desligar. Ela disse que não desligava. "A questão é muito simples, moça. Fala com teu patrão. Se não desligar, vou buscar outro médico". Ela foi lá, o médico mandou desligar. Furiosa, saiu e me deixou sozinho na sala. O silêncio a levava ao pânico.

Mas isso faz quase vinte anos. Hoje, se insisto em silêncio, melhor morrer. Não encontraria médico para consultar. Muito menos hospital. Na academia onde exercito a carcaça há nove aparelhos de TV. E não existe academia sem televisores. Ou você os assume ou seus músculos enferrujam. Paciência! Mas pelo menos as academias nos oferecem outras imagens, curvas em movimentos generosos que nos desviam o olhar da telinha. Adoro contemplar as meninas que se exercitam naquelas máquinas que simulam caminhadas. Cada uma tem um ritmo próprio e fico imaginando que é naquele ritmo em que... Deixa pra lá! Em suma, elas anulam a peste.

No fundo, o medo ao silêncio. Meu apartamento fica num bloco no meio de um quarteirão e é extremamente silencioso. Em plena São Paulo, o que soa a milagre. Certa vez, ao receber uma amiga do Sul, louvei esta virtude de meu tugúrio. Ela não gostou. “Silêncio demais”. Ora, silêncio nunca é demais. Em Florianópolis, durante um ano aluguei casa de um pescador de alto mar. Casa enorme, de dois andares. Eu morava no térreo, a família em cima. A mulher tinha três televisores, um em cada peça e os ligava todos ao mesmo tempo. Ao passar de uma peça para outra, não corria o risco de enfrentar o silêncio. Silêncio machuca quem não gosta de pensar.

Por ínvios caminhos, talvez a situação melhore em São Paulo. Com o advento da Internet, pelo jeito andou caindo a arrecadação de direitos autorais. O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) apertou a fiscalização para o pagamento pela execução das obras. Não está perdoando nem festa junina, nem casamento, nem salão de barbeiro. Se antes as ações eram voltadas para emissoras de rádio e televisão – leio no Estadão -, os alvos passaram a ser pessoas comuns, em seus locais de trabalho e mesmo no dia de seu casamento. Os fiscais estão nas ruas, em bares, restaurantes, lojas, salões de beleza, escolas e festas realizadas em clubes e bufês, mesmo que sejam eventos particulares. Mais um pouco, e até os Modugnos de banheiro terão de pagar direitos autorais por suas canções sob a ducha.

A quantidade de ações judiciais iniciadas pelo Ecad até junho deste ano já corresponde a praticamente o total de todo o ano passado. A maioria ainda é contra emissoras de rádio (1.036). No entanto, aparecem na sequência os processos contra bares e restaurantes (386) e contra hotéis e motéis (198). O que me pergunto é como se fiscalizará a audição de um programa de rádio ou televisão num quarto de motel.

A fúria arrecadatória do Ecad é absurda e ilegal. Se uma emissora de rádio ou televisão já pagou pela emissão da música, porque tem alguém de pagar por ligar rádio ou televisão? Os fiscais estão famintos de grana e seus blitzen incluem desde barbeiros a academias. Como se alguém fosse ao barbeiro para assistir televisão. Já não se trata de uma multa legal, mas extorsão pura e simples. O extorquido que se vire, recorrendo à Justiça.

No que a mim diz respeito, esta extorsão me soa simpática. Se não consigo desligar a televisão de bares ou consultórios, talvez o Ecad consiga.

Domingo, Julho 05, 2009
 
ATÉ CHANCELER
INFLA CURRÍCULO



Não bastasse Dona Dilma intitular-se mestra e doutora, sem ter nem mestrado nem doutorado, descobriu-se agora que nosso chanceler também infla currículo. Segundo O Globo, no site do Ministério de Relações Exteriores consta que o ministro Celso Amorim é doutorado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela London School of Economics and Political Science (1968-1971). Não é.

O ministro admite que não concluiu o curso e não tem o diploma:

- Não tenho mesmo. Fiz estudos de doutorado na London School. Mas nunca terminei. Não é mistério. Nunca disse diferente. Inclusive, quando fiz meu currículo escrevi PhD abd, que é como eles usam nos Estados Unidos e Inglaterra e na Inglaterra, que é all but dissertation (tudo menos a dissertação). Não estava pronta a dissertação. Depois, até mudei o currículo: botei estudos de doutorado, para não deixar dúvida.

Ora, ministro, estudos de doutorado induz quem lê a pensar em doutorado. Por outro lado, que malandragem é essa, o tal de PhD abd? Ou é PhD ou não é PhD. Se a moda pega, ainda vai se descobrir que no Brasil tem mais PhD abd que PhD.

Permanecem no ar as três perguntinhas:

- O ministro Celso Amorim, como todo doutorando, se beneficiava de alguma bolsa?

- Se se beneficiava, terá devolvido o que recebeu da União para cursar doutorado?

- Se não devolveu, será cobrado pelo TCU?

 
TERÁ DOUTORA DILMA
RESSARCIDO A UNIÃO?



Segundo a revista Piauí, são falsas as informações divulgadas pela Casa Civil, de que a ministra Dilma Roussef tem mestrado em teoria econômica e doutorado em economia monetária e financeira pela Universidade de Campinas (Unicamp). Tornado público o embuste, o currículo da ministra foi corrigido. A Casa Civil informou que a candidata à Presidência da República concluiu todas as disciplinas do curso de mestrado, entre 1978 e 1983, mas não chegou a apresentar a dissertação que lhe daria o título.

Tampouco concluiu o doutorado. Desde há alguns anos, o Tribunal de Contas da União (TCU) está analisando casos de ex-bolsistas do CNPq e já condenou 118 da Capes a pagar R$ 18 milhões ao governo. Se todos os beneficiados do CNPq fossem obrigados a ressarcir o instituto, os cofres públicos receberiam R$ 4,7 milhões.

Perguntas que ainda não foram respondidas e em verdade nem foram feitas:

- Dona Dilma, como todo mestrando ou doutorando, se beneficiava de alguma bolsa?

- Se se beneficiava, terá devolvido o que recebeu da União para cursar mestrado ou doutorado?

- Se não devolveu, será cobrada pelo TCU?

Sábado, Julho 04, 2009
 
FOLHA PAGARÁ CARO
POR SENADOR LADRÃO



Leitores continuam perguntando à Folha de São Paulo se o senador ladrão continuará assinando sua coluna no jornal. A resposta padrão que está sendo enviada é esta:

O pluralismo é um dos pilares do projeto editorial da Folha. A presença de José Sarney como colunista do jornal atende a esse requisito de pluralidade.

Comenta um de meus leitores:

Não vejo a hora de ler a coluna do Fernandinho Beira-Mar ... ou do chefão do PCC. Isso sim é pluralidade. E ficamos no mesmo nível de bandidagem. Há tempos jornal de papel serve apenas pra embrulhar peixe. Tenho informação mais rápida e com opinião de verdade na internet, não só aquele bla bla bla politicamente correto dos jornais.

O que a Folha não está entendendo é que não se trata de pluralismo. E sim de dar guarida a um senador corrupto. O UOL online está oferecendo um infográfico listando as corrupções de José Sarney. A Folha continua lhe dando sustentação. Não bastassem os escândalos passados, os jornais nos trazem mais uma maracutaia do senador. Ocultou da Justiça Eleitoral – e do Fisco - a propriedade da casa avaliada em R$ 4 milhões onde mora, na Península dos Ministros, área mais nobre do Lago Sul de Brasília. De acordo com documentos de cartório, o parlamentar comprou a casa do banqueiro Joseph Safra em 1997 por meio de um contrato de gaveta. Em nenhuma das duas eleições disputadas por ele depois da compra - 1998 e 2006 - o imóvel foi incluído nas declarações de bens apresentadas à Justiça Eleitoral.

O caldo engrossou. Ora, quem cometeu tantos ilícitos, mais outros terá cometido. Novas canalhices surgirão à tona nos próximos dias. Ninguém é mafioso pela metade. Impertérrito, ontem o senador ladrão fazia a louvação de José Aristodemo Pinotti em sua coluna na Folha.

“Neruda, quando Silvestre Revueltas morreu, disse num verso forte que sua impressão era que um carvalho tinha tombado no meio do tempo. Essa é a sensação que temos quando perdemos um amigo que não era só uma ligação sentimental, mas um homem que carregava qualidades e virtudes que envolvem nessa perda a sociedade, o patrimônio humano do País”.

Conivente com o que de pior a humanidade produziu, o senador ladrão associa a vida de um homem honesto ao stalinista chileno. É possível que os senadores – afogados na lama até pescoço – estendam a mão ao cúmplice que afunda. O que não se entende é como a Folha, jornal que conquistou leitores por sua independência, dê sustentação ao canalha.

Ou talvez se entenda. A Folha mantém também Fernando Gabeira, o impoluto, em suas páginas. Que ontem ainda aconselhava o senador ladrão a renunciar e assim fechava seu texto, como se nada tivesse a ver com o assunto:

"A denúncia do escândalo das passagens no Congresso representou um grande avanço. Milhões de reais foram economizados quando se adotaram novas regras. É a face material da luta pela transparência: otimizar o dinheiro público. O Senado e a Câmara, num nível menor, revelaram-se para a sociedade como duas instituições perdulárias. O preço é a perda da credibilidade, em seguida, a perda total do respeito. Como é possível aceitar este caminho, fazer da política uma vergonhosa atividade humana?"

Como é possível, deputado? Só é possível quando Sua Excelência, parecendo não lembrar que usufruiu da farra das passagens, denuncia seus colegas como se inocente fosse. Sua coluna na Folha, como a do senador ladrão, é a perda da credibilidade, a perda total do respeito do respeito ao leitor. É bom lembrar também que a Folha, durante muito tempo, teve como colunista no caderno “Mais!” o terrorista Antonio Negri, condenado a dez anos de prisão na Itália. Só falta dar espaço a um assassino como Cesare Battisti.

Como é possível fazer da política uma vergonhosa atividade humana? É fácil, Gabeira. Basta não destituir de seus mandatos – nem enviar à cadeia – políticos como Sarney, Arthur Vírgilio, Fernando Gabeira, Eduardo Suplicy, Pedro Simon et caterva. Todos beneficiários da corrupção e posando de vestais.

Falava da Folha. Que o Senado mantenha um ladrão em sua presidência é inteligível. É preciso prestigiar a categoria. Que a Folha mantenha um ladrão em suas páginas nobres é mais difícil de entender.

Otavio Frias Filho vai pagar caro por esta cumplicidade. Está em jogo a reputação de seu jornal.

Sexta-feira, Julho 03, 2009
 
SE VOCÊ NÃO CHOROU
PELOS COMORENSES, É
ÓBVIO QUE É RACISTA



Você não se comoveu com aquela tragédia no Índico? Com aquele avião iemenita que caiu no mar, matando 152 pessoas? Nem um pouquinho? Então você é racista. Pelo menos é o que se deduz das declarações de Jérémie Gandin, professor da Escola Superior de Jornalismo da França. Segundo o professor, não comover-se pode ser pode ser definido no mínimo como preconceito.

"Infelizmente, no imaginário dos franceses, um francês de origem comoriana parece ser menos francês do que um que nasceu em Paris. É triste. Como os passageiros eram todos negros, parece que a França e a mídia francesa se interessam menos por essas vítimas, sendo que, na verdade, eles são igualmente compatriotas".

Compatriotas em termos, professor. Em verdade, são imigrantes. Compatriota é uma coisa. Imigrante é outra. Podem até ter passaporte francês. Mas franceses não são. Nós nos comovemos por aqueles que nos são caros. Não nos comovemos com a morte de pessoas que desconhecemos e que não nos dizem nada. É óbvio que um desastre com uma empresa ocidental, transportando ocidentais, comove os ocidentais. As vítimas têm um rosto como o nosso, pertencem a nosso meio, vivem em nossa cultura. Em um vôo Rio-Paris estão pessoas que nos são familiares, quando não nossos familiares. Que familiaridade temos nós, ocidentais, com negros muçulmanos de ilhotas da costa africana?

Ao longo da terça-feira, dia do segundo acidente – diz a notícia – os telejornais não gastaram mais do que dez minutos para falar da catástrofe, mesmo que mais do que um terço das 152 vítimas fosse de nacionalidade francesa. Nos sites dos principais jornais, como o Le Monde ou o Libération, o acidente, por poucos instantes, ocupou os espaços de maior destaque, como a manchete. O interesse era nitidamente menor, se comparado ao vôo proveniente do Brasil.

É normal, professor. No vôo Rio-Paris poderíamos estar nós ou pessoas que a nós são queridas. Em um vôo para as Comores não voa ninguém que nos diga respeito. No dia anterior ao acidente, despedi-me de uma amiga que voaria para Paris naquela tarde. Pela Air France. Dia seguinte, ao acordar, leio sobre o desaparecimento do avião. Angustiado, telefonei para seu marido. Telefone sempre ocupado. Aconteceu, pensei.

Não, não havia acontecido. Ela partira de São Paulo. Quando vi que o avião desaparecido partira do Rio, fui tomado por uma extraordinária sensação de alívio. Alívio mas não muito. E se ela tivesse voado até o Rio para pegar aquele vôo? Só fiquei tranqüilo mesmo quando falei com seu marido. Seu telefone estava sempre ocupado porque muitas outras pessoas também queriam notícias dela.

Um acidente de trem em que morram cinco pessoas em Munique ou Paris obviamente nos comove muito mais que outro em que morrem 150 na Índia ou no Paquistão. Será a imprensa brasileira racista porque deu suplementos inteiros à queda do Airbus da Air France e escassas linhas ao desastre do avião da empresa iemenita? Ora, os comorenses mortos na tragédia não nos dizem nada. Quantas pessoas no Ocidente sabem da existência das Comores? Muitos só terão ouvido falar delas agora, com o acidente. Já seria diferente se o vôo se dirigisse às ilhas gregas ou Canárias. Ou mesmo às Seychelles. Para lá vão as pessoas que conhecemos.

Reclama o professor que a mídia francesa não falou de outro assunto, a queda do Airbus da Air France, durante diversos dias consecutivos. Que, tal como na imprensa brasileira, na França todas as abordagens relativas ao acidente - investigações, causas, localização de destroços e corpos, famílias de vítimas ou indenizações - recebiam atenção especial. O fato de este novo drama não envolver uma companhia aérea francesa e de o acidente ter ocorrido no último percurso de um trajeto com três escalas influencia a cobertura menos intensa. Resta saber o quanto pesa o fato de os 65 mortos serem humildes, de origem africana, e em sua maioria habitantes da periferia de Paris ou, principalmente, Marselha, que abriga a segunda maior comunidade imigrante e muçulmana do país.

Ora, não é o fato de serem pessoas humildes ou negras o que nos deixa indiferentes. É que eles não são “os nossos”. Da mesma forma, o acidente da Air France não terá provocado comoção alguma em Pequim, Karachi ou Riad. As centenas de imigrantes que morrem no Mediterrâneo fugindo da miséria africana me provocam uma vaga e teórica comiseração pela desgraça do Terceiro Mundo. Mas nada que invada minha mente por mais de alguns segundos. Não os conheço. Não sei quem são, nem como vivem, sofrem ou amam.

No entanto, lembro muito bem que chorei no dia 28 de janeiro de 1986. Estava em Salamanca quando a Challenger explodiu. Os nomes dos tripulantes nada me diziam. Mas a explosão mexeu fundo comigo. Eram sete bravos que tentavam o que ao macaco não é dado nem sonhar. Era minha raça – a humana – que se esforçava para ir bem mais além do sonho de Ícaro.

Mas quem, entre nós, vai se preocupar com a queda de um avião cheio de comorenses? O professor francês que me desculpe. Mas isso de amor universal é projeto utópico de cristãos. E digo utópico, porque cristão algum está preocupado com a morte de pessoas longínquas.

Só o que faltava insultar alguém como racista porque não chora com a queda de um avião cheio de imigrantes, muçulmanos e para nós desconhecidos.

 
SENADOR NEOLUDITA QUER
BODE DE VOLTA NA SALA



Com 50 assinaturas de senadores, 23 a mais que o necessário, já começou a tramitar no Senado a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que quer trazer o bode de volta para a sala. Ou seja, a que restitui a exigência de diploma superior para a profissão de jornalista. A PEC de jerico foi protocolada ontem pelo líder do PSB, senador Antônio Carlos Valadares (SE). Comunistas adoram reservas de mercado.

Segundo o neoludita senador, a formação acadêmica afasta o amadorismo e permite que o jornalista possa dedicar toda sua vida à profissão. "Empresas de fundo de quintal poderiam se proliferar contratando, a preço de banana, qualquer um que se declare jornalista".

Difícil saber em que século o senador se situa. Neste nosso é que não é. Hoje, para se constituir um jornal, nem quintal nem mesmo fundo de quintal é necessário. Basta um computador. O universo blogueiro está avançando e ultrapassando os jornais impressos, a tal ponto que até o governo já descobriu a vantagem da agilidade dos blogs. Até um mesmo um tosco como Lula já percebeu isto: "O jornal impresso fica tão velho que todos os jornais criaram blogs para informarem seus leitores junto com os internautas do mundo inteiro".

Pretenderá o senador exigir diploma para blogueiros? Por outro lado, blogueiro não cobra nem preço de banana. Boa parte do universo blogueiro vive de qualquer outra coisa que não jornalismo. Para o blogueiro, mais do que meio de ganhar dinheiro, blog é uma forma de expressar-se.

Ao século passado o senador também não pertence. Nos séculos passados, desde Hipólito da Costa, Euclides da Cunha e Machado de Assis a Assis Chateaubriand, Roberto Marinho, Nelson Rodrigues, Hélio Fernandes ou Paulo Francis, ninguém teve diploma. Antes da famigerada lei dos Três Patetas, era jornalista qualquer um que se declarasse jornalista.

A formação acadêmica, segundo o senador, afasta o amadorismo e permite que o jornalista possa dedicar toda sua vida à profissão. Não é o que o jornalismo contemporâneo demonstra. A palavra, instrumento por excelência do jornalismo, nunca foi tão maltratada como hoje. Por uma razão simples. Antes, os jornais contratavam quem escrevia bem. Dos anos 70 até o fim da lei infame, só podiam contratar quem tivesse diploma de jornalismo. O que não tem necessariamente nada a ver com escrever bem.

Quinta-feira, Julho 02, 2009
 
SENADOR FAZ VAQUINHA
PARA FINANCIAR VIAGEM



Faz mais de trinta anos que viajo, e pelo menos uma boa metade destas viagens foi com dinheiro contado. Comecei a viajar em época em que não havia cartão de crédito internacional no Brasil. Mais ainda, durante longos anos os militares limitaram o valor em dólares que se podia levar ao Exterior. Se bem me lembro, o limite era de mil dólares. Mesmo que fosse mais, era insuficiente para uma estada de mais de uma semana na Europa ou Estados Unidos. Quem quisesse viajar, tinha obrigatoriamente de infringir a lei.

Foi a época do que chamei de viajantes marsupiais. Levávamos os mil dólares na carteira e mais uns cinco ou dez mil... na barriga. Nas cuecas ou em guaiacas que comprávamos na Argentina. Também era muito utilizada uma cinta de tecido, que as mulheres, principalmente, levavam sob a calcinha. Ou seja, o dólar na cueca não é fenômeno contemporâneo. Nada tinha a ver com corrupção. Era necessidade.

Passei viajando esse tempo todo com a cintura forrada de dólares, e os dólares não eram muitos. Nunca precisei pedir socorro a alguém no Brasil.

O senador Arthur Virgílio, líder do PSDB no Senado, seguidamente tem empunhado o verbo para denunciar os "bandidos", os "meliantes", a "camarilha" que montou uma rede de ilicitudes no Senado, "certamente" tendo por trás deles senadores, "cujos nomes precisam ser averiguados, divulgados e enviados ao Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar". É o que leio no Estadão.

Curiosamente, o corajoso senador não dá nome aos bois. Quem são os senadores quem estão por trás? Até pode ser que o novel Catão não consiga nominar todos, mas em sua condição de líder da oposição deveria conhecer pelo menos alguns deles. Um, pelo menos, é de conhecimento público, e nem este nome o senador cita. O impoluto líder no máximo balbucia os nomes dos mandaletes, os agaciéis e zoghbis da vida, que apenas cumpriam ordens.

Houve época, no Uruguai, que os militares proibiram a imprensa de grafar ou pronunciar a palavra tupamaros. Jornais e televisão criaram então uma fórmula alternativa. Começaram a falar dos innombrables (inomináveis). A deduzir-se do discurso do senador, os inomináveis já estão entre nós.

Segundo a revista Istoé, o líder tucano teria pedido US$ 10 mil emprestados ao ex-diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, para sanar um problema com seus cartões de crédito durante uma viagem ao exterior. Arthur Vírgilio diz que não foi bem assim. Que os US$ 10 mil foram pagos por três funcionários do seu gabinete, que se cotizaram.

Desde quando um senador da República, que ganha o que raros mortais ganham neste país, precisa que seus funcionários façam uma vaquinha para financiar sua viagem? Logo nesta época de travelers-cheques, VTMs e cartões de crédito? Isso sem falar que hoje ninguém viaja com um cartão de crédito, mas com quatro, cinco ou mais.

O Catão do Planalto é ainda acusado de ter R$ 723 mil bancados pelo Senado para tratamento de saúde de sua mãe. De ter nomeado parentes e assessores seus na Casa onde desempenha seu mandato. E de manter um funcionário fantasma em seu gabinete, que vivia no Exterior. O próprio senador admite a corrupção, mas a chama de “gesto paternal equivocado”.

“Cometo a idiotice de permitir que o filho de um grande amigo permaneça ligado ao meu gabinete por um tempo, uma imbecilidade, um gesto paternal equivocado”.

Esta trouvaille é bem mais sofisticada que os “recursos não contabilizados” do Delúbio Soares. No Estadão de hoje, Dora Kramer aventa uma hipótese a ser considerada:

“Ou o senador Arthur Virgílio enlouqueceu ou tenta se defender do abrigo que deu a um funcionário fantasma difamando o restante da Casa. (...) Se está louco e delira, deve ser interditado. Se mente e avilta a instituição, merece abertura de processo no Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar”.

Com um acusador de tal naipe, José Sarney escapa da correnteza nadando com um braço só. Como está escapando.

 
DESDE HÁ MUITO


Janer,

li outro dia aqui no seu blog um post referente a literaturas de ficção científica. Li que você traduziu um livro de um autor sueco que previa um cenário onde um grande computador tornava-se consciente e entrava em conflito com o ser humano.

Fiz algumas associações e conclui que computadores já estão tomando decisões sérias que interferem na vida humana, de maneira discreta, mas efetiva. O exemplo que me induziu a tal conclusão está nos aviões da Airbus. Lendo a respeito das tragédias aéreas recentes, deparei-me com informações dizendo que os computadores dos aviões tomam decisões independentes, não passíveis à interferência dos pilotos. Tais dados fazem sentido quando cruzamos com a queda do Airbus da TAM, em Congonhas. O computador não permitiu o funcionamento dos freios aerodinâmicos (spoilers) porque uma das manetes que controlam os motores estava na posição acelerar. Entendo que o desastre teria uma face diferente se os pilotos tivessem total controle do avião naquele momento. Mesmo com um dos motores acelerando, se os spoilers fossem acionados a colisão do avião seria em uma velocidade bem menor, ou talvez não acontecesse.

Portanto, é possível dizer que já estamos colocando nossas vidas, de certa maneira, nas mãos de computadores.

Abraços

João Samuel Batista - Guarapuava - PR


Meu caro João:

A Saga do Grande Computador, de Olof Johannesson, foi publicado em 1971. Quando ainda nem existia a Internet. Desde há muito estamos dominados pelos computadores. Hoje, um apagão de algumas horas de um provedor provoca milhões de reais em prejuízos.

Uma pane como a aventada por Johannesson levaria o mundo ao caos.

Quarta-feira, Julho 01, 2009
 
VINHO E CÂNCER


Da Reuters:

Vinho pode minimizar efeito de radioterapia, diz estudo
13:56 | 01 de Julho de 2009

ROMA - Um copo de vinho por dia pode ajudar pacientes com câncer de mama a tolerar melhor a radioterapia e reduzir os efeitos colaterais adversos, segundo um novo estudo realizado por uma universidade de medicina da Itália e divulgado nesta quarta-feira.

O estudo afirma que polifenóis encontrados no vinho podem ajudar a proteger tecidos saudáveis dos efeitos da radiação ao mesmo tempo que combatem células cancerígenas.

A pesquisa foi realizada com 348 mulheres em tratamento de câncer de mama entre 2003 e 2007 na unidade de radioterapia e tratamento paliativo da Universidade Católica de Campobasso, no sul da Itália.

O estudo mostrou que o consumo diário moderado de vinho estava associado com uma redução de 75 por cento de lesões na pele das mulheres em comparação com a daquelas que não consumiam a bebida.

"Nossos dados têm de ser avaliados com precaução, já que se tratou de um estudo de observação", disse Alessio Morganti, diretor da unidade de radioterapia.

"Uma experiência formal aleatória deve ser realizada agora. Estabelecer o papel do vinho e de seus componentes não-alcoólicos é certamente uma questão crucial que pode abrir um novo caminho para o uso preventivo de antioxidantes", disse.

O estudo na íntegra será publicado no site do International Journal of Radiation Oncology Biology Physics (www.redjournal.org).

 
LITERATURA VIRA MICHÊ


Foi inaugurada hoje a Flip, Feira Literária Internacional de Paraty. Com o custo de mais de R$ 5,9 milhões, captados por meio de leis de renúncia fiscal, a Flip prevê 19 mesas em que 34 autores vão debater temas variados, de ciência e poesia a história em quadrinhos e música erudita – dizem os jornais. O público estimado é de 20 mil a 30 mil pessoas.

Ou seja: além de financiar o cinema nacional, shows da Máfia do Dendê, apresentações do Cirque du Soleil, silicone para travestis, putas para deputados, turismo para parentes de senadores, o contribuinte passa agora a financiar spas para escritores.

É ilegal? Não é. Mas é imoral. Literatura virou michê de prostitutas literárias.

 
SINDICATO À VISTA


Janer!

Será "flanelinha" profissão, ofício, ou os dois? Respondo. Não é nada. É mascarar a vagabundagem e a vadiagem.

Desde quando "tomar conta de carro" ou transformar a via pública em lavatório de automóveis é profissão? Logo, a associação desses "profissionais" se transformará em sindicato e teremos verbas do fundo sindical! Além da "representatividade", da participação em passeatas e badernas organizadas pelas centrais sindicais e outras maravilhas dessa República Delirante. Estaremos criando empregos e renda para a vagabundagem "especializada", sindicalesca e petelha.

Os "guardadores e lavadores autônomos de veículos" constituem uma aberração. Qualquer dia desses vamos ter a volta da profissão de "distribuidor de refrigeração alternativa", o antigo geleiro, dos meus tempos de criança, quando as geladeiras não passavam de armários de madeira, com isolamentos de cortiça e folhas de metal galvanizado. Quem sabe o pessoal que vende refrescos, salgados e sanduíches nas praias do Rio, possam ser "distribuidores autônomos de alimentação eventual artesanal", e tome baboseira.

Está sobrando desocupado, vagabundo e vadio para preencher vagas de quebradores de pedras em pedreiras regulamentadas. Essa sim deveria ser profissão reconhecida e compulsória a todos que ficassem vadiando, delinqüindo, sujando as ruas e perturbando a cidadania produtiva.

Abraço,

Raul Almeida

 
FSP ALEGA PLURALISMO
PARA MANTER COLUNA
DE SENADOR CORRUPTO



Quando Flávio Alcaraz Gomes, todo-poderoso jornalista da Caldas Júnior, de Porto
Alegre, destroçou a calota craniana de uma menina com um tiro de escopeta, foi demitido da empresa na mesma noite do crime. Quando Pimenta Neves, diretor de redação do Estadão, assassinou com dois tiros pelas costas sua amante, também foi demitido. Certo, José Sarney não matou ninguém. Mas quem mata uma pessoa mata apenas uma pessoa. Sarney, ao usar o Senado para empregar seus parentes e seus cupinchas, lesou a nação inteira. Reproduziu na mais alta instância legislativa do País as práticas feudais dos senhores de baraço e cutelo.

Continua no entanto assinando serenamente sua crônica na Folha de São Paulo. Segunda-feira, 22 de junho, perguntei ao ombudsman se o jornal manteria a coluna do senador ladrão. Na quinta-feira, 25, recebi como resposta:

Caro Senhor Janer,

agradeço sua manifestação, levada ao conhecimento da direção do jornal.
Atenciosamente,

Carlos Eduardo Lins da Silva
Ombudsman - Folha de S.Paulo


Hoje é quarta-feira, 30 de julho. Resposta alguma da direção do jornal. Sei que outros leitores da Folha estão encaminhando a mesma pergunta ao ombudsman. Resposta recebida por um deles:

O pluralismo é um dos pilares do projeto editorial da Folha. A presença de José Sarney como colunista do jornal atende a esse requisito de pluralidade.

Esperamos que o sr. continue como nosso leitor.

Grato,

Ricardo Melo, secretário-assistente de Redação


Ou seja: amanhã, o impoluto prócer da República estará digredindo olimpicamente sobre o sexo dos anjos, como se mácula alguma tingisse seu nome. Que seus pares o protejam, entende-se. Todos têm o rabo preso. Mas um jornal que se pretende independente não tem porque segurar um senador corrupto. O secretário-assistente de Redação alega pluralismo. Não é o caso.

Pluralidade de opiniões é uma coisa. Conivência com a corrupção é outra. A Folha, que pretende ter o rabo preso com o leitor, em verdade tem o rabo preso com o senador.

 
PORTO ALEGRE REGULAMENTA EXTORSÃO


Leio na Zero Hora que 72 flanelinhas legalizados começam a atuar em Porto Alegre a partir de hoje, durante a final da Copa do Brasil. Ontem, foi assinado o termo de compromisso entre a Brigada Militar, prefeitura de Porto Alegre, Ministério do Trabalho e trabalhadores. Os guardadores vestirão uniforme, além de portarem carteira de trabalho e carteirinha de identificação. Eles não podem exigir um valor a ser pago que fica a critério do motorista, que receberá um recibo como comprovante. Ontem ainda, cerca de 20 guardadores participaram de uma cerimônia de formatura sob o olhar do comandante do Policiamento da Capital, coronel Jones Calixtrato.

Mal cai uma lei da ditadura, a que regulamentava a profissão de jornalista, Porto Alegre trata de confirmar outra, a de flanelinha. A de jornalista foi regulamentada pela junta dos Três Patetas, em 1969. Era composta por Adelita, ministro do Exército, pelo almirante Augusto Rademaker, da Marinha e pelo brigadeiro Márcio de Sousa e Melo, da Aeronáutica. Talvez os leitores não saibam, mas Adelita era o general Aurélio de Lyra Tavares, um dos grandes vultos da literatura nacional. Imortal da Academia Brasileira, sua extraordinária obra poética foi assinada com o acrônimo Adelita.

A de flanelinha foi regulamentada por um só pateta, em 1975, através da lei 6.242, na qual Ernesto Geisel, então presidente da República, faz saber:

Art. 1º O exercício da profissão de guardador e lavador autônomo de veículos automotores, em todo o território nacional, depende de registro na Delegacia Regional do Trabalho Competente.

Art. 2º Para o registro a que se refere o artigo anterior, poderão as Delegacias Regionais do Trabalho celebrar convênio com quaisquer órgãos da Administração Pública Federal, Estadual ou Municipal.


Se existe só no Brasil e não é jaboticaba, boa coisa não há de ser – disse alguém. Ainda há pouco, eu comentava esta mania nossa de criar profissões inúteis. Já viu alguém, em algum lugar do mundo, um profissional pago para cuidar de seu carro estacionado? Eu não vi. Que é um flanelinha? Flanelinha é aquele marginal que lhe propõe: ou você me paga tanto ou seu carro será riscado ou terá um pneu furado. Pode ser até roubado. A prefeitura de Porto Alegre está conferindo status profissional a extorsionários.

Consta que não podem exigir um valor a ser pago. Pretenderá a prefeitura que um exército de guardadores zele por seu carro de graça? É claro que os flanelinhas continuarão a extorquir seu dinheiro, só que desta vez com cobertura das autoridades que deveriam proteger suas posses. Vestirão inclusive uniformes, o que dá mais legitimidade à extorsão. Tudo muito coerente, neste país em que os magistrados do Supremo Tribunal Federal já decidiram que furtos de pequeno valor não devem ser considerados crimes. Há algum tempo, em Curitiba, tentou-se regulamentar a profissão de mendigo. Só poderia mendigar quem tivesse carteira de habilitação para tanto.

A profissão de mendigo não colou. A de extorsionário, sim.