¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, março 10, 2010
 
UM ANO E MEIO DEPOIS,
RECÓRTER CHAPA-BRANCA
TUCANOPAPISTA HIDRÓFOBO
DESCOBRE A AMÉRICA


Na Veja on line de hoje, leio:

COMO GLORIFICAR UM HOMICIDA. OU: “ALÔ, LEITORES DO PARANÁ! VAMOS DEBATER O LEGADO DO HERÓI MARIGHELLA?

quarta-feira, 10 de março de 2010 | 12:45

Recebo da Universidade Federal do Paraná um release que é do balacobaco. Sabe-se lá por que estou na lista, mas estou. É que meu endereço não denuncia a pessoa. Título do texto: “Grupo encena peça de rua sobre Marighella nesta sexta”. Sim, no próximo dia 12. Reproduzo o texto em vermelho, entremeado de comentários em azul. Não deixa de ser uma coisa emblemática. Afinal, temos um presidente que considera os presos políticos de Cuba “bandidos”.

O grupo “Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz”, de Porto Alegre (RS), apresenta nesta sexta-feira (12/3) em Curitiba o espetáculo de rua “O Amargo Santo da Purificação - Uma Visão Alegórica e Barroca da Vida, Paixão e Morte do Revolucionário Carlos Marighella”. O início da peça está marcado para as 16 horas, na Praça Rui Barbosa. Em caso de chuva forte, o espetáculo será transferido para o sábado, no mesmo horário e local.

O título já merece umas boas chicotadas intelectuais porque pretende, assim, fazer uma espécie de mistura de Glauber Rocha com a tontice universotária. Glauber, no mais das vezes, era insuportável, mas reconheço: não dava bola para essas cretinices pseudo-acadêmicas. Qualquer pessoa que escreva “alegórica e barroca” dá demonstração cabal de ignorância. Não porque o alegórico compreenda necessariamente o barroco, mas porque o barroco não existe sem o alegórico. E é sem dúvida bonita a idéia de transformar Marighella, QUE ESCREVEU UM MANUAL SOBRE AS VIRTUDES NO TERRORISMO, NUMA ESPÉCIE DE CRISTO DO NOVO HOMEM.

Com patrocínio da Petrobras, através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, o projeto percorrerá ao todo doze cidades brasileiras.

É mesmo? A Petrobrás está patrocinando a hagiografia de Marighella? Há coisa de um ano, noticiou-se que a área de apoio à cultura da empresa estava com pouco dinheiro. Aplaudi aqui as almas que estavam sendo salvas.

Na seqüência de cenas da peça, o público assiste a diversas passagens da trajetória de Marighella: origens na Bahia, juventude, poesia, ditadura do Estado Novo, resistência, prisão, democracia, constituinte, clandestinidade, ditadura militar, luta armada, morte em emboscada. “É uma história de coragem e ousadia, perseverança e firmeza em todas as convicções”, diz a sinopse. “Marighella não abdicou ao direito de sonhar com um mundo livre de todas as opressões. Viveu, lutou e morreu por esse sonho.”

Nem me digam! Quando recomendava que se assassinassem soldados e policiais só porque soldados e policiais, o que ele queria? Ora, o bem da humanidade. Quanto escreveu que hospitais eram potenciais alvos de ataques terroristas, estava se mostrando um exemplo de coerência. Quando fez a defesa do terrorismo em seu manual do guerrilheiro urbano, estava sendo apenas um humanista.



Etc, etc, etc. Recórter ágil tá aí. Traz ao leitor notícias de fatos ano e meio depois de acontecidos.