¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, agosto 12, 2010
 
DOENÇA É MAIS GRAVE
DO QUE EU IMAGINAVA



Além da dependência das drogas, uma outra está acometendo o homem contemporâneo. É o que pesquisadores britânicos chamam de nomofobia (de no móbile, isto é, sem celular). Recente pesquisa da União Internacional de Telecomunicações (UTI), que o número de aparelhos em todo o mundo pode chegar a 4 bilhões até o final de 2008. Cresce rapidamente também o número de pessoas que ficam dependentes desse aparelho e de outras tecnologias.

Uma outra pesquisa, feita pela consultoria Solutions Research Group, dos EUA, com uma amostra de 5 mil pessoas de 12 a 50 anos, concluiu que 68% dos entrevistados revelam algum tipo de ansiedade quando estão distantes do celular. Outras expressões que foram usadas para descrever o estado emocional dessas pessoas na ausência do celular são: pânico, tensão, vazio e perda de liberdade. É o que leio nos jornais.

A pandemia já invadiu o Brasil. Segundo a pesquisadora Anna Lúcia Spear King, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, entre os pacientes com síndrome do pânico, a maioria demonstrou ter também a dependência do celular. A surpresa foi o resultado entre os que se diziam saudáveis: 34% confessaram sentir ansiedade e 54 % disseram ter medo de passar mal na rua se ficarem sem o aparelho. Segundo o psicoterapeuta Carlos Eduardo Brito, “a nomofobia se caracteriza por um medo do indivíduo de ficar incomunicável ou desconectado. Medo geralmente, por exemplo, se ele perde o telefone celular, isso gera nele ansiedade até com sintomas físicos. Ele pode sentir taquicardia, falta de ar, suores frios e dores de cabeça”.

O primeiro celular do Brasil foi lançado pela TELERJ, no Rio de Janeiro, em 1990. Vi foto dele no Jornal do Brasil. Era um tijolo que devia pesar perto de quilo e custava 20 mil dólares. Nada de espantar. No mesmo ano, quando vim para São Paulo, paguei 4 mil dólares por um fixo. Estou falando de dólares, já que na época não se aceitava a moeda nacional (já não lembro qual), na compra de um telefone. Surgiram logo depois alguns aparelhos mais portáteis e mais baratos, que conferiam status a seus portadores. Cansei de ver em de bares e restaurantes a exposição de tais relíquias. Quando alguém queria exibir seu potencial econômico, jogava na mesa o celular, as chaves do carro e um pacote de cigarros.

Os tempos mudam. Hoje o cigarro está proibido e qualquer prostitutazinha de rua tem um celular preso à cintura. Se um telefone custava 4 mil dólares em 90 (e até mais, conforme a região), quando comprei este apartamento em 2001, o proprietário deixou-me três de brinde. Como não preciso de três telefones, devolvi dois. Mais ainda, tive de pagar para cancelar a conta. Com a privatização da Telebrás, no governo Fernando Henrique, o Brasil começou a entrar no rol dos países desenvolvidos. Hoje, até celulares estão sendo oferecidos como brindes pelas teles.

Foi em 90 também que comprei meu primeiro computador. Encomendei-o do Paraguai, onde eram mais baratos. Paguei, coincidentemente, também 4 mil dólares, cédula a cédula, por uma máquina com disco rígido de... 40 MB. Sim, estou falando de megabytes. Hoje, um HD de 300 gigas é considerado pequeno. ¡Dichosa edad y siglo dichoso! – diria Alonso Quijano.

Em uma década, o que antes era símbolo de status, ao alcance de poucos, virou doença. Mas contra o novo mal estou vacinado. Depois da morte da Baixinha, herdei seu celular, um Motorola mastodôntico que hoje é peça de museu. Tem para mim grande valor afetivo, já que sua voz está nele preservada. (Seja como for, passei a gravação para o PC). Mesmo assim, só o usava aos sábados e domingos, entre as 13 e 15h. É quando fazia contatos para o almoço. Só três ou quatro pessoas têm meu número de celular e estavam cientes dos horários em que eu o mantinha ligado.

Ano passado ainda, pensei atualizar-me. Quando notei que já estava esperando meia hora em uma fila, desisti. Não vivo em país socialista, me recuso a esperar mais de meia hora para comprar um objeto de consumo. Há pouco herdei o da Primeira-Namorada, que saiu à descoberta da América. Acabei por perdê-lo, sem ser acometido por taquicardia alguma, muito menos falta de ar, suores frios ou dores de cabeça.

Tomei vergonha outro dia e comprei um outro, baratinho e com poucas funções. Mas, exceto em viagem, só continuarei a usá-lo aos sábados e domingos. Das 13 às 15 horas. Leio hoje na Folha de São Paulo que as quatro operadoras móveis se preparam para lançar planos de TV digital fechada no celular a partir de outubro deste ano. Por esses planos, será possível assistir à programação transmitida pelas empresas de TV fechada em alta definição pagando uma mensalidade fixa para ter acesso à grade completa de canais.

A doença é mais grave do que eu pensava. Não bastavam os nomófobos, teremos agora os notevéfobos, como perdão pelo neologismo. Eu, que já quase não vejo TV, não consigo entender que alguém assista a filmes ou programas numa telinha de celular. Nem que alguém não consiga separar-se da televisão quando sai de casa.

Ça me dépasse. Continuo vivendo ainda no século passado. Sem reclamar.