¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, julho 12, 2011
 
A BOA HORA DE VIAJAR


Há mais de dois anos, tenho comentado os preços abusivos de São Paulo. Posso comer em bons restaurantes em Madri ou Paris, por um terço ou até menos do que em um equivalente nesta cidade onde vivo. Pois bem, a Mercer acaba de divulgar o ranking que publica anualmente sobre os preços no mundo. São Paulo ocupa o desconfortável décimo lugar nesta competição. Rio de Janeiro fica em 12°, ao lado de Libreville, no Gabão. Luanda, em Angola, ocupa o primeiro lugar. O segundo é de Tóquio. E o terceiro é de Ndjamena, no Chade.

Que Tóquio seja uma das mais caras, até que se entende. Quanto a Luanda, Libreville ou Ndjamena, é difícil de entender. Cidades que nada oferecem e conseguem ser mais caras – muito mais caras – que Paris ou Londres. Que continuem liderando o ranking. Para lá eu não iria nem sendo pago.

A propósito, neste ranking, Paris ocupa uma posição simpática, o 27° lugar. Londres, o 18°. Mas o que me surpreendeu mesmo foi Oslo. Em meus dias de Europa, Oslo era a segunda cidade mais cara do continente. A primeira era Reykjavik. Em minha primeira viagem à Noruega, em 2000, me deparei com chopes a oito euros e vinhos a partir de oitenta. Ora, quando o preço da bebida é proibitivo, aí mesmo é que dá vontade de beber. Troquei então lautos jantares por sanduíches, mas preservando sempre o que faz bem ao espírito.

Hoje, Oslo está em 15° lugar, cinco pontos abaixo de São Paulo. Naqueles meus dias de Paris, intuí que quanto mais ao norte se viajava, mais caro se pagava pela comida e hospedagem. O clima é hostil para a produção de alimentos e mesmo bebidas. O bem-bom da vida estava no sul. Paris, Roma e, melhor ainda, Espanha, Grécia e Portugal. A Grécia era de graça. Para um estudante sueco em férias era mais econômico passar um mês nas ilhas gregas - passagem de ida-e-volta inclusa - do que ficar em Estocolmo. Para mim, saía muito mais barato navegar entre Creta, Mykonos e Santorini do que passar minhas férias em Porto Alegre.

Certa dia, em Ilunda, ilhota ao leste de Creta, num daqueles kafeneion cercado de cabras e velhotas vestidas de preto, resolvi pedir um ouzo. Veio a bebida, junto com seis escargots e seis fatias de compota de pêssego. Estou roubado, pensei, a cretina – isto é, a cretense – vai me cobrar os olhos da cara. Paciência. Pedi, levei. Quando veio a conta, minha surpresa: não chegava a dois francos, menos que um cafezinho em Paris. Pedi vários outros ouzos.

Quando vivia na Suécia e decidi voltar a meus pagos, marquei passagem no Eugenio C, a partir de Barcelona. Precisava fazer então o percurso até lá. Uma passagem de trem, somente de ida até Paris, me custava em torno a 300 coroas. Descobri então que poderia ficar doze dias em Palma de Mallorca, com hotel, meia pensão, passagem de ida-e-volta de avião e a cálida companhia de suecas em clima estival ... por 295 coroas. Não hesitei um átimo. E ainda vendi minha passagem de volta a Estocolmo para um cozinheiro dinamarquês por cem coroas. Ou seja, curti o verão das Baleares por dois terços de uma passagem de trem até Paris.

Os tempos mudaram. Suíça à parte - Zurique e Genebra -, as grandes cidades européias estão mais baratas que as brasileiras. Curioso observar a elevação de preços no Brasil. Ano passado, no mesmo índice da Mercer, São Paulo ocupava o 21° lugar. Passou para o décimo. Rio de Janeiro, que ocupava a 29ª posição, ocupa agora a 12ª. Se bem me lembro, isso tem um nome: inflação. Pelo jeito, ninguém quer pronunciar esta palavrinha.

O inquérito abrange 214 cidades em cinco continentes e mede o custo comparativo de mais de 200 produtos em cada local, incluindo alojamento, transporte, comida, vestuário, artigos domésticos e lazer. Estocolmo (39° lugar) está mais barata que Paris. Insólito. Curiosamente, Estocolmo ocupa a mesma posição de Djibouti, no Djibouti. Mas Djibouti, é claro, não nos interessa. Lisboa, então, está de graça, ocupa o 86° lugar.

Nos dados a que tive acesso, não consegui conferir a Espanha. A listagem se interrompe em Amsterdã (50° lugar) e recomeça em Lisboa. Ou seja, Madri ou Barcelona devem estar mais baratas que as primeiras cinqüenta cidades arroladas.

Os dias são propícios para viajar. Aos leitores, recomendo que façam suas malas e partam. Antes que seja tarde. O que é bom dura pouco.