¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, julho 09, 2011
 
QUANDO PIADA
SE TORNA CRIME



Leio na Folha de São Paulo que uma propaganda da rede de lanchonetes Habib's para promover seu bolinho de bacalhau não foi bem recebida pela comunidade portuguesa, que acionou órgãos de defesa do consumidor.

A campanha diz que o preço do produto é uma piada e faz brincadeiras jocosas -"Como se chama um homem inteligente em Portugal? Turista". Uma das piadas no papel das bandejas é: "Qual é o único português que serve para alguma coisa? O Manuel de instruções". O Instituto Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo diz que recebeu ao menos dez denúncias. "Trata-se de discriminação contra o consumidor", diz seu presidente, José Geraldo Tardin. A portuguesa Maria Teresa Ferreira Nunes, há 29 anos no Brasil, diz que se sentiu humilhada e constrangida. "Não tinha nada de propaganda, era só piada de português."

Ou seja, não se pode mais contar piadas de português. Ora, piada, de modo geral, sempre fazemos sobre o habitante do país vizinho. E de país que tem algum prestígio. País sem prestígio não vale. Não ouvimos piadas sobre paraguaios ou uruguaios no Brasil. As piadas sempre se referem aos argentinos, e não são nada gentis. Portugal pode estar geograficamente distante, mas está historicamente perto. Perfeitamente normal que entre nós existam piadas sobre portugueses. Da mesma forma, na França há muitas piadas sobre belgas. Os belgas são os portugueses dos franceses. E há muitas piadas de alemães sobre franceses. E de franceses sobre alemães. Os suecos fazem piadas em cima dos daneses. E os daneses fazem piadas de sueco de volta. Humor faz parte da vida.

Com a emergência do tal de politicamente correto, fazer piada virou crime. Hoje, se você faz piada de negro, está arriscando prisão por racismo. E sem fiança. Mais um pouco, e será proibido fazer piada de judeu. Brasileiros, passamos a vida inteira fazendo piada de portugueses. E vice-versa. Nunca ninguém se ofendeu com isso. Agora, de repente, surgiram pessoas que se ofendem.

Ora, piada é piada. Quando faço piada de judeus, negros ou portugueses, não estou chamando ninguém de canalha ou coisa parecida. Estou fazendo humor, amigavelmente, com judeus, negros ou portugueses. Da mesma forma, não me incomodo se alguém fizer humor a meu respeito, seja pela condição de branco, brasileiro ou gaúcho. Só o que faltava, não podermos rir de nossos semelhantes. Só o que faltava proibir alguém de rir de mim.

Este episódio, contei há onze anos. Como ninguém deve lembrar mais, conto de novo. Almoçávamos em três, em um restaurante de Perdizes. Este gaúcho que vos escreve, mais dois amigos jornalistas, um judeu e outro negro. Como seria de esperar-se neste tipo de encontro, logo surgiram as piadas. Contei as que lembrava de gaúchos, de judeus e quando comecei as de negro, o afrodescendentão a meu lado protestou:

- Vamos fazer uma coisa. Gaúcho conta piada de gaúcho, judeu de judeu e negro de negro.

Ali estava, a meu lado, o racista atroz. Contaminado pelo fanatismo dos movimentos negros americanos, ele pretendia regulamentar conversas em mesa de bar. Contar piadas de negro era politicamente incorreto, a menos que um negro as contasse.

Ora, faz parte do humor - e particularmente do humor negro, sem trocadilhos - rir das desgraças alheias. Em boa parte das piadas, sempre há uma vítima. A vítima, de modo geral, é quem está por baixo. Antes ser rico e ter saúde, que ser pobre e doente. Difícil fazer piada com quem está por cima.

Ocorreu-me então uma piadinha que, espero, ainda não seja proibido contar. Três pessoas perambulavam perdidas no deserto, um judeu, um negro e um alemão. De repente, o alemão tropeça numa lâmpada. Pega, esfrega e dela salta um gênio, que se propõe a satisfazer três desejos, um de cada um dos três. Pergunta ao judeu o que ele quer.

- Bom, eu gostaria que você varresse da face da terra a raça negra.

- Muito bem - diz o gênio - E você? - pergunta ao negro.

- Quero que você extermine a raça infame dos judeus.

O gênio dirige-se ao alemão. O alemão pondera:

- Você vai mesmo atender os pedidos desses dois?

- Claro. Prometi, vou cumprir.

- Bom, então acho que vou pedir um cafezinho - respondeu o Fritz.

Dentro dos critérios de meu amigo negro, a quem caberia contar esta piada? Fui curto e rasteiro com ele: e tu vai pra puta que te pariu. Eu conto piada de gaúcho, de negro e de judeu e sobre quem me aprouver, e jamais vou proibir-me de contar piadas, seja sobre quem for.

Neste sentido, meus aplausos aos gaúchos do Rio Grande do Sul - e ainda existem alguns no Rio Grande do Sul – que cultivam o salutar hábito de rir de si próprios. As piadas em torno a gaúchos nascem no Rio Grande do Sul mesmo e foram editadas em vários volumes por uma editora de Porto Alegre. Suponho, inclusive, que boa parte das piadas sobre Pelotas sejam de lavra dos próprios pelotenses.

Rir de si próprio é uma virtude. E se me permito rir de mim mesmo, por que não riria de meus semelhantes? Paira no ar, hoje, uma tendência totalitária e perversa, a de proibir o humor.