¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, setembro 07, 2011
 
FORA DA LEITURA
NÃO HÁ SALVAÇÃO



Não desespere, Aldo!

Numa cidade das dimensões de Campinas, certamente existirá gente com alguma cultura. O problema é encontrar. Aqui em São Paulo, não me queixo. Outro dia, eu conversava em meu boteco com um amigo jornalista, redator ágil e bastante culto, quando chegou à mesa um amigo dele. Era professor de latim. Dali a pouco, chegou outro, professor de grego. Ambos jovens, coisa de trinta anos. Perguntei a este último: que te levou a estudar grego? Bom, eu queria ler Platão no original.

Dom Pedrito foi um caso bastante anômalo, reconheço, mas o ensino naquela época tinha um alto nível. Éramos adolescentes e aguerridos. A Baixinha se espantava com nossos feitos. Comecei escrevendo num jornalzinho estudantil, o Pirilampo. Certo dia, escrevemos um artigo a quatro mãos, onde defendíamos a tese de que, para fazer a reforma agrária, não era necessário mexer na Constituição, já que ela estava prevista na Carta Magna. Tínhamos uns quinze anos e éramos atrevidos. Saudades daqueles dias.

Nossa! Escândalo em Dom Pedrito. O Ponche Verde, o vibrante hebdomadário local, nos tachou de comunistas. Exigimos direito de resposta, que nos foi concedido. Mas nosso artigo foi prudentemente cercado por outros três, um deles de autoria do Dr. Márcio Bazan, latinista emérito, daqueles que escrevia mais em latim do que em português. Um outro era de João Bosco Dihl, nosso professor de português. Exigimos tréplica. E a salpicamos com alguns data venias, mais uns quousque tandems e latinórios outros. Ninguém entendia na cidade aquela erudição de adolescentes. Só a entendeu o padre Chico, sacerdote alemão professor de matemática.

- Eu sei. Focês lerram as páchinas finais do Aurrélio.

Acertou na mosca. O Aurélio tinha várias citações latinas ao final do tomo. Já o professor de português levou uma paulada severa. Em seu artigo, ousou empregar um pronome oblíquo no início da frase. Até hoje não esqueço nosso PS ao final do artigo:

- Admoestamos ao ínclito mestre da língua vernácula que as mais elementares regras gramaticológicas coarctam o emprego do pronome oblíquo nos proêmios de uma frase.

Tais debates inflavam nosso ego. Adolescentes, tínhamos a noção de que só lendo se chega ao conhecimento. Líamos muito, então. Enfrentávamos, com garbo, a velharada erudita local. Um artigo como esse nos rendia semanas de bom humor. Se faltavam livros na cidade, buscávamos no Uruguai.

Minha fé católica, enfiada a machado na cabeça, eu a perdi lendo a Bíblia. Ou melhor, antes dela me caíram nas mãos dois livrinhos, Por que no soy cristiano, de Bertrand Russel, e Hacia una moral sin dogmas, de José Ingenieros, pensador positivista argentino. Havia um tráfico muito intenso de idéias na fronteira, devido à proximidade com o Uruguai e a Argentina. Os livros proibidos na escola inevitavelmente caíam em nossas mãos, geralmente trazidos por militantes comunistas.

Para Russel, os três impulsos humanos que a religião representa são o medo, a vaidade e o ódio. "O propósito da religião, poderia dizer-se, é dar uma certa respeitabilidade a estas paixões, desde que sigam por certos canais. Como estas três paixões constituem em geral a miséria humana, a religião é uma força do mal, já que permite aos homens entregar-se a estas paixões sem restrições, enquanto que, não fosse pela sanção da Igreja, poderiam tratar de dominá-las em certo grau".

Para quem andava em conflito com a ética católica, o pensador inglês era um apoio caído dos céus. Russel pecava pelo otimismo, acreditava que a humanidade já possuía os conhecimentos necessários para assegurar a felicidade universal. Sua vontade de crer no homem punha entre parênteses o fator estupidez. De qualquer forma, era reconfortante ouvir que o principal obstáculo para a utilização daqueles conhecimentos na obtenção da felicidade era o ensino da religião.

"A religião impede que nossos filhos tenham uma educação racional; a religião impede suprimir as principais causas da guerra; a religião nos impede ensinar a ética da cooperação científica em lugar das antigas doutrinas do pecado e do castigo. Possivelmente a humanidade se encontra no umbral de uma idade de ouro; mas, se assim for, primeiro será necessário matar o dragão que guarda a porta, e este dragão é a religião".

Essas foram minhas leituras de adolescente. Meus professores certamente não leram Russel. Muitos outros trechos sublinhei no livro. Embora não participe de seu otimismo em relação ao bicho-homem, acredito que dentro em breve as nações mais desenvolvidas, ou pelo menos as camadas mais cultas destas nações, terão reduzido as religiões a meros verbetes de enciclopédias.

Se hoje os professores se queixam de que os alunos lêem pouco ou coisa nenhuma, os oblatos e as irmãs do Colégio Nossa Senhora do Horto, com as quais mantínhamos algum diálogo, viviam um drama inverso: nós líamos demais. (Por nós, entenda-se um grupo de cinco ou seis ginasianos, desconfiados com a cultura oficial e ávidos de idéias novas). O livro de Ingenieros, encomendamos de Montevidéu, através da irmã Helena, do Horto. Quando fui apanhá-lo, a coitada se consumia em dilemas, não sabia se nos entregava ou nos subtraía o livro, se o jogava no fogo ou se o guardava. "Este livro é diabólico, me queima nas mãos, não posso entregá-lo a vocês".

Não há outra saída, ponderei, agora mesmo é que queremos o livro. Se não nos entregasse, criava um atrito inútil, sem falar que Montevidéu não era assim tão longe. O livro finalmente foi entregue, não sem mais algumas trecheadas angustiadas da irmã Helena. Soube, alguns anos depois, que ela renunciara ao hábito. Em parte terá sido em função de Ingenieros, o que me envaidece. Ainda adolescente, dei uma mãozinha para salvar alguém do ranço vaticano e do dogmatismo.

Talvez um dia Dom Pedrito, município cuja sede teria então uns quinze mil habitantes, produza um pesquisador que se debruce sobre currículos e cadernos escolares da época. Verá que os ginasianos do Patrocínio tinham um nível de cultura humanística que hoje raramente se encontra em um curso de Letras. Terminei o ginásio falando um bom francês, sem o qual jamais teria tido acesso a Paris e à Europa. O inglês que manipulei como jornalista, o aprendi nos quatro anos de ginásio. O latim, também quatro anos, acabou quando eu começava a usá-lo com certa fluência. Nos anos 80, quando lecionei Letras na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), me dava por feliz quando encontrava, nos últimos anos de curso, alunas que dominassem o português.

Concluindo: nossos dias dão um outro tipo de acesso à cultura, que não tínhamos naquela época. Mas fora da leitura não há salvação. E está faltando leitura às gerações contemporâneas.