¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, janeiro 02, 2013
 
FRACASSA EXPEDIÇÃO AO ÁRTICO





Tromsø é nome pouco conhecido no Brasil. Conheci a cidade em 2000, graças à uma empresa abominável, que felizmente hoje jaz morta, a Varig. Baixinha queria gelo, neves, fjordes, e pensamos na Patagônia. Pesquisei preços e descobri que uma passagem São Paulo-Ushuaia ida e volta custava 1.500 dólares. Te importa se o gelo for ao norte? Não, não tinha objeção nenhuma. Enderecei minhas pesquisas para a Noruega. E consegui uma passagem São Paulo-Oslo-Estocolmo-São Paulo, pela Swissair... por 669 dólares. Para me levar até ali na Argentina, qualquer empresa me cobrava mais de duas vezes o preço que a Swissair me propunha para me deixar lá na outra ponta do planeta. No fundo, o monopólio da Varig sobre os vôos no continente, que não permitia preços menores.

Fomos em julho de 2000, no verão ártico, o que não excluía nem gelo nem neve. Tromsø, o sol da meia-noite e a Hurtigruten foram a mais fantástica viagem de nossos dias. Em 2008, repeti a viagem com a Primeira-Namorada. Em plena meia-noite, ela não acreditava no sol que aquecia e animava a cidade. Esse sol tem de cair – disse. Não vai cair. Vamos tomar mais uma garrafa de vinho e esperar pelos acontecimentos. Claro que não caiu.

O verão ártico é uma das mais tocantes experiências que pode viver quem lá não vive. Um sol paranóico percorre o planeta o dia todo, quase paralelo ao horizonte. Vontade nenhuma de dormir, pelo menos para nós, homens dos trópicos. Bares simulam noite com grossas cortinas de veludo preto. Você sai do bar a uma da madrugada e o sol lhe bate na cara. Verão ártico não exclui frio. Pode fazer zero grau e nos bares há cobertores nas cadeiras para abrigá-lo do clima estival.

E aqui entra a Hurtigruten, que em língua de gente quer dizer Rota Expressa - ou Expresso Costeiro – é uma frota de doze soberbos navios que fazem diariamente o trajeto entre Bergen, no sul do país, e Kirkenes, ao norte, já na fronteira com a Rússia. A um dia de navegação antes de Kirkenes está Tromsø, cidade universitária além do Círculo Polar Ártico, e por isso chamada de a Paris do Norte. Mas só por isso, já que fora de universidade nada tem a ver com Paris.

Os navios, quando sobem, vão entrando pelos fjordes e atracando em cidades e ilhas, o que permite aos passageiros tanto descer em qualquer porto como dar um giro pela cidade. Você também pode, se quiser, deixar o barco em uma cidade, percorrer os fjordes por terra e retomar o navio lá adiante. O passeio também é culinário, e você pode degustar o bacalhau norueguês, cujo preparo nada tem a ver com o português. Bom lembrar nestas horas que a Noruega é o quarto país mais caro do mundo, e isto você sente a cada garfada e a cada gole de vinho.

É a fórmula mais prática de viajar pela Noruega, uma tripa de país montanhoso. Mais ainda: viajando pela Hurtigruten, viajar é melhor que a viagem. O primeiro fjord é o Geiranger. Fascinante. Cachoeiras caem o tempo todo dos penhascos, de picos sempre cobertos por neves, mesmo no verão. Em determinado momento, sete cachoeiras se reúnem. São as Sete Irmãs. Espetáculo de cortar a respiração. Mais adiante, os penhascos se afunilam e a largura do fjord se reduz a uns trezentos metros. Na penúltima viagem, foi precisamente neste momento em que a Força Aérea norueguesa deu sua contribuição ao show. Dois caças sobrevoaram o navio e mergulharam naquele estreito abismo. Não pode ser coincidência, pensei. Não era. Todos os dias, mais ou menos ao meio-dia, os caças voltavam para abrilhantar o espetáculo. Uma espécie de lembrete: a Noruega não tem apenas uma portentosa frota naval, mas também uma Força Aérea.

Mas se você perdeu a respiração nas Sete Irmãs, guarde um restinho de fôlego para o que vem pela frente. Um pouco antes de chegar a Tromsø, na altura das ilhas Lofoten, o mais lindo dos fjordes o espera, o Trollfjorden. É pequeno, coisa de dois quilômetros. Mas a beleza é tanta que dá vontade de chorar. Vontade não, chorei mesmo. Visitei-o pela primeira vez em 2000, com a Baixinha. Eu lia no lounge do Vesterålen, quando ela desceu do convés, desesperada. “Sobe logo, nem imaginas o que está acontecendo lá fora”. Era meia-noite, uma daquelas meias-noites irreais de sol de meio-dia. Frio de lascar. Era uma espécie de cinema em 360 graus, onde era difícil saber para onde olhar. Confesso que nem no Sahara vi algo tão belo. Muito menos na Terra do Fogo. Nos foi servida uma sopa de mariscos, que aqueceu até a alma.

Desta vez, fui no inverno. O objetivo era outro, uma aurora boreal, fenômeno que ocorre nas proximidades do Círculo Polar Ártico. A economia norueguesa parece reduzir-se basicamente a três produtos: petróleo, bacalhau e auroras boreais. Acompanhado de minha fotógrafa particular e sua mãe, rumamos a Tromsø de avião, para depois descer pela Hurtigruten. Três dias na Paris do Norte, e mais outros quatro de navegação, ainda com chances das luzes do norte, como são conhecidas as auroras.

Em vão. A moça, caprichosa, não deu o ar de sua graça. Há expedições organizadas para caçar auroras. Isto é, os turistas saem em um ônibus à cata de lugares ermos e escuros, onde as luzes da cidade não atrapalhem as auroras. Se você tem o hábito de pensar à frente, já terá deduzido que a aurora caçada não será das mais brilhantes, já que só pode ser vista no escuro.

Saímos à caça de uma. A previsão do passeio era de sete horas, das seis da tarde (isto é, da noite) até a uma da madrugada. Lá pelas tantas, já perto de Kirkenes, na fronteira com a Rússia, o ônibus estacionou em um ermo junto a um fjord. Os caçadores foram convidados a sair, descendo por um arriscado declive de gelo endurecido. Antes da excursão, cada turista assina um compromisso de que está ciente dos riscos e que, em caso de acidente, terá de esperar pelo menos quatro horas por socorro.

Mal saí do ônibus, dei meia volta. A temperatura deveria estar em torno a -10º. Não havia aurora, por linda que fosse, que me fizesse deixar o quentinho do ônibus e ficar parado no meio do gelo. Perguntei ao guia quanto tempo pensavam esperar lá fora. “Toda a noite, se for preciso”. Não acreditei. Quinze minutos depois, voltavam os primeiros valentes. Por que não esperar dentro do ônibus? Quando a aurora pinta, todo mundo sai pra fora, ora bolas.

Por outro lado, bem que podiam propiciar ao turista um abrigo aquecido – uma tenda sami, por exemplo, se quisessem dar um toque local. Nada disso. Os turistas ficavam, enregelados, junto à água, esperando uma moça que não tinha pressa alguma em vir. E que, aliás, não veio. Pelo jeito, os organizadores da excursão queriam dar ao passeio um toque de aventura. Recompensa, sim. Mas só depois de muito sofrimento.

Lá pelas tantas, o motorista anunciou uma aurora. Os que estavam no ônibus puseram o nariz para fora. O guia apontava no céu lácteo uma mancha também láctea que, segundo ele, se movia. Era a aurora. Alguns turistas disseram tê-la visto. Não vi nada. Foi como se o sol girasse nos campos da Cova de Iria, em Fátima. Setenta mil portugueses disseram ter visto o sol girar. Estivesse eu lá, certamente também não teria visto nada. A aurora anunciada pelo guia me pareceu estar mais para uísque paraguaio.

Voltamos, o guia se congratulando por termos visto o fenômeno. Ateu, continuei com minha fome de auroras. Esperamos pela moça mais dois dias em Tromsø, e navegamos mais três com chances de ver uma. Nada feito.

Aurora boreal é ilusão. Isto é: aquelas gloriosas, resplandecentes, orgíacas como orgasmos múltiplos, aquelas que desejamos ver, ocorrem raras vezes no ano. No mais das vezes, vê-se apenas fiapos de aurora. Encontramos um casal que já fizera o percurso quatro noites consecutivas e nada feito. Ficar uma semana e ver uma aurora como sói é privilégio dos abençoados pelos deuses do Valhala. Digamos que você fique um mês em Tromsø. Lembre-se que a Noruega é cara e suas cidades são hostis no inverno. A cidade estará mergulhada em uma noite eterna e em ritmo de hibernação. Mesmo assim, nada garante uma aurora pra valer. Minha sugestão: deixe a moça de lado. Nenhuma mulher vale tanto. Melhor marcar encontro com ela em um planetário. Garantido e mais barato.

Uma outra atração da saison são os passeios de trenós puxados por renas ou huskies siberianos. Já ressabiado com a caça à aurora, preferi não ir e ficar no lugar sabidamente mais aconchegante de Tromsø, o quarto do hotel. Minhas valentes foram. – 18°. Contou-me Isa que mal tirava o dedo da luva para clicar, tinha de protegê-lo de novo, para não enrijecer. Cabem algumas perguntas.

Por uma hora, sofrendo um frio do cão – sem trocadilhos – o turista se traveste de lapão. E paga caro por isto. Perguntinha que me parece procedente: será que os lapões costumavam passear alegremente na neve em seus momentos de lazer, sob estimulantes 18 graus negativos? Eu, sem ser especialista em civilizações primitivas, diria que não. Suponho que um sami só enfrentaria aquele suplício se a mãe estivesse morrendo e precisando de socorro. E isso se houvesse chance de sobreviver. Se não, nem vale a pena atrelar os cães ou as renas. Deixa a velha morrer no quentinho. O sentido de tais excursões, a meu ver, é fazer o turista sofrer, para mais valorizar o que pagou.

Em suma, minha expedição ao Ártico foi um rotundo fracasso. Mesmo assim, valeu pela estranha sensação de visitar um planeta sem sol.