¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, março 04, 2013
 
TERÁ CUBA UM SÓ BLOG?


Deus está morto, Marx agoniza, o papa renunciou e eu fui parar numa UTI. Que século, meu Deus! Não, a boutade não é minha. Estou parafraseando achado de um jornalista do Monde, que li há uns bons 40 anos. Resumindo: estou voltando de um mês de estaleiro, onde vivi longe do que ocorre no planetinha. Mas há fatos da época que ainda merecem um comentário.

Assim sendo, perdi a visita da única blogueira que existe em Cuba. Sim, única, pois pelo jeito ninguém mais bloga na ilha. Foi saudada pela Veja como a blogueira que assusta a tirania. Ora, se assustasse, estava no fundo das grades, e não fazendo turismo privilegiado mundo afora, onde fustiga a tal de tirania com pétalas de rosa. Veja, entusiasmada, vai mais longe e pergunta: “por que a ditadura cubana e seus seguidores no Brasil têm tanto pavor de Yoani Sánchez, a ponto de tentar calar sua voz à força?”

Ora, ninguém tem pavor da blogueira. Cuba certamente não, pois a deixou sair.

Alguns malucos que ainda vivem no século XIX tentaram bagunçar a viagem da moça ao Brasil e impedi-la de falar. Leio que a maioria tinha menos de 25 anos. Roberto Arlt, considerado o Dostoievski argentino, coloca na boca de um de seus personagens: “A revolução, a faremos com os jovens. São estúpidos e entusiastas”.

Em minha vida, encontrei não poucos jovens maduros e sensatos e tive imenso prazer em confraternizar com eles. Mas, no geral, tenho de concordar com Arlt. E vou mais longe: estúpidos, entusiastas e senis. A Europa largou o castrismo há décadas. É espantoso que no Brasil ainda haja quem o defenda.

Acompanho um dia sim, um dia não, os artigos de Yoani no Estadão. Jamais a ouvi falar dos Castros como ditadores. Aliás, já li “presidente Raul Castro”. Até parece o Samy Adghirni, o correspondente muçulmano da Folha de São Paulo em Teerã, que chama Ahmadinejad de presidente.

Em seu périplo, Yoani disse que nem os cubanos chamam os americanos de yankees. Bom, eu sempre chamei e vou continuar chamando, nada tenho a ver com os cubanos. Mas já li a própria blogueira chamando os americanos de estado-unidenses, que é como algumas esquerdas os chamam pejorativamente.

Em época em que nem Internet havia – e os fatos morriam na ilha, dificilmente chegando ao Exterior - Armando Valladares passou 22 anos nos cárceres de Castro, unicamente por expressar suas idéias contrárias ao marxismo-leninismo. Preso rebelde, negou-se ao planos de "reabilitação" do regime comunista. Isto desencadeou sobre ele represálias brutais, prisão solitária e torturas. Sua família sofreu perseguições. Negaram-lhe alimento durante 46 dias, na tentativa de quebrar sua resistência. Como consequência, teve de permanecer oito anos em cadeira de rodas. Já Yoani andou tomando sorvete nas praias do Rio e tem um longo roteiro político-turístico pela frente.

Em janeiro de 2011, comentei artigo do repórter americano Patrick Symmes, sobre como viver 30 dias na ilha com o salário de um jornalista cubano, isto é, 15 dólares. Sem falar que deixou de lado as despesas de aluguel de um imóvel vagabundo. Segundo Symmes, a ração padronizada de produtos básicos consiste, por pessoa, em dois quilos de açúcar refinado, meio quilo de açúcar bruto, meio quilo de grãos, um pedaço de peixe, três pãezinhos.

Riram muito quando perguntei se recebiam carne de vaca. "Frango", disse a mulher, mas isso provocou uivos de protesto: "Qual foi a última vez que recebemos frango?", o marido questionou. "Pois então, é verdade", ela disse. "Já faz alguns meses". A ração de proteína é distribuída a cada 15 dias e consiste numa carne moída de misteriosa composição, que inclui uma bela proporção de pasta de soja (se a carne for suína, a mistura recebe o falso nome de "picadillo"; se for frango, é conhecida como "puello com suerte", ou frango com sorte).

A ração basta para o equivalente a quatro hambúrgueres. Por mês, mas até aquele momento, em janeiro de 2010, cada um só havia recebido um peixe - em geral,uma cavala seca e oleosa. E há os ovos. A mais confiável das fontes de proteínas, eles são conhecidos como "salva-vidas". Antigamente, a ração era de um ovo por dia; depois, um ovo a cada dois dias; agora, é de um ovo a cada três dias. Eu teria dez deles como ração para o mês seguinte.A opinião geral é de que a ração mensal hoje só dá para 12 dias de comida.

A minha viagem serviria para que eu fizesse o meu próprio cálculo: como alguém pode sobreviver durante um mês com comida para apenas 12 dias?


Resumindo: em um mês, Symmes perdeu quatro quilos.

Eu havia perdido primeiro dois, depois três, por fim quatro quilos. Mas estômago e mente se ajustaram com facilidade assustadora. Meus gastos totais com comida foram de US$15,08 ao longo do mês. (...) Minha última manhã: sem desjejum, para complementar o jantar que não tive na noite anterior. Usei a moeda que ganhei de uma prostituta para apanhar um ônibus até perto do aeroporto. Tive de caminhar os 45 minutos finais até o terminal; quase desmaiei no caminho.

Me corrija o leitor se me engano. Mas não vi, nem nas crônicas de Yoani, nem em suas declarações, nenhuma menção à geladeira dos cubanos. Muito menos ao desastre do sistema de saúde.

Em 2010, comentei um filme muito safado, Sicko, do agitprop ianque Michael Moore. O filme é de 2007 e se pretende documentário. No fundo, uma defesa inverossímil da medicina cubana. Moore começa expondo os altos custos da medicina americana, no que não vai nada de novo. Depois se transporta para o Canadá, França e Inglaterra, onde a saúde é subsidiada pelo Estado. Mostra americanos felizes morando em Paris e Londres, como se estivessem no paraíso. No Canadá, há até mesmo americanas casando com canadenses, por um seguro saúde.

O “documentarista” é tão fiel aos fatos que chega a mostrar um cidadão que se fere em Londres, no momento em que atravessa uma rua plantando bananeira e logo após suas démarches junto aos serviços de saúde. Documentarista bom é isso mesmo, pega a história desde o início. Moore estava no exato instante do acidente, para depois acompanhar a história toda. Mas o filme não tem por objetivo mostrar as excelências dos serviços de saúde da Europa. E sim dos de Cuba, o paraíso do Caribe.

Moore descobre que em Guantánamo os prisioneiros lá encarcerados têm assistência médica total e gratuita. E reúne vários americanos em dois barcos, três deles com seqüelas decorrentes do socorro às vítimas do atentado às torres gêmeas. Aproxima-se da prisão, pelo mar, e pede internação de seus passageiros na prisão americana. Como se Guantánamo fosse um hospital público. Na verdade, Moore fala apenas para seu câmera. Fala de longe, em pleno mar, sem ao menos usar um megafone. Claro que não recebe resposta alguma.

O agitprop pega então sua turma e dirige-se ao paraíso. Em Cuba, como se fosse a coisa mais normal do mundo chegar a um país para receber tratamento médico, todos são bem recebidos em um hospital de primeira linha. Com cuidados personalizados. Voltam curados para casa. Sem pagar nada ou quase nada. Por remédios que custam U$ 120 nos Estados Unidos, os americanos pagam 0,5 cents em Havana. Por tratamentos que custam de 7 mil a 15 mil dólares, pagam zero dólar em Cuba. Porque é assim? – pergunta o cineasta à Aleida Guevara, filha de um dos mais operosos assassinos do continente. “Porque nós podemos e vocês não” – responde Aleida.

Resposta definitiva. Incontestável. Ingênuos no Brasil é o que não falta para acreditar que a saúde é um direito de todo cidadão na Disneylândia das esquerdas. Mas o cineasta se revelou mais castrista do que os Castro. Em 30 de janeiro de 2011, o jornal espanhol El País, trouxe à tona um informe confidencial de 2008, no qual uma delegação americana na ilha descrevia uma paisagem desoladora da saúde.

Segundo o relatório, as autoridades cubanas proibiram Sicko, por subversivo. Embora o filme trate de desacreditar a política sanitária nos Estados Unidos, salientando as excelências do sistema cubano, o regime sabe que o filme é um mito e não quis arriscar-se a uma reação violenta das pessoas, quando os cubanos vissem instalações que não estão disponíveis para a maioria deles. Quando os cubanos da delegação americana viram o filme, alguns se incomodaram tanto com a descarada distorção do sistema de saúde em Cuba que “se foram da sala”.

No entanto, o filme de Moore fez fortuna no Ocidente. Haja panacas neste nosso mundinho. Me corrija de novo o leitor se me engano: não vi menção nenhuma da blogueira ao sistema de saúde cubana. Mas li protesto contra o embargo americano, o que é ridículo, já que, fora os Estados Unidos, Cuba pode comerciar com todos os países do mundo.

Li, isto sim, artigo da moça lamentando que os cubanos não possam mais fumar charutos cubanos:

“Para os cubanos que ainda apreciam os charutos cubanos hoje é complicado satisfazer essa vontade. O mercado em pesos conversíveis absorveu a maior parte da produção que agora é comercializada a preços estratosféricos em luxuosas tabacarias especializadas. Diante dos atônitos pedestres, cujos salários mensais mal superam os 20, são exibidas nas vitrines caixas de Romeu e Julieta com valor equivalente ao salário de um ano inteiro, ou um único Cohiba ao custo de 20 dias de trabalho.

“A oferta de charutos em moeda nacional a um preço acessível para as massas está praticamente em extinção. Em parte porque os hábeis comerciantes do mercado ilegal os monopolizaram, mudando as cintas e vendendo aos turistas como se fossem da mais alta qualidade. E também porque o Estado não tem mais interesse em vender aos cidadãos um produto que prefere exportar e arrecadar uma boa receita”.

Yaoni nada disse de novo além disto. Que aliás nem precisava dizer. É claro que cubanos não podem fumar Cohiba ou Romeu y Julieta. Isto é luxo de Lula, Marco Aurélio Garcia, Hugo Chávez – quando fumava. E de quem tiver moeda forte para comprá-los.

Os fãs da moça que me desculpem. Yoani não me convenceu. Nenhuma menção aos fuzilamentos de Castro e Guevara, aos julgamentos sumários, aos que morreram na prisão por contestar o regime. Nenhuma crítica ao argentino que, não conseguindo destruir a Argentina, foi para o Caribe destruir outro país mais frágil. Nada sobre os que morreram tentando fugir da ilha. Depois de sua viagem, Cuba adquiriu a imagem de país que admite liberdade de expressão. Sobraram até mesmo alguns confetis para Dona Dilma e o PT. Sem falar que a moça elege como seu “Quijote particular” um tanso como Suplicy.

Contem outra. Terá Cuba uma só blogueira, um só dissidente? Onde estão os demais?