¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, maio 31, 2014
 
PNPS: TODO PODER AOS SOVIETES


Soviete – dizem os dicionários – é a palavra russa que significa conselho, mas depois passou a ser mais especificamente usada em linguagem revolucionária para significar os comi¬tês de trabalhadores na Revolução Russa de 1905 e depois na de Fevereiro de 1917. Foi quando conseguiram o controle do Soviete de Petersburgo que usaram para derrubar o Governo Provisório chefiado por Kerensky, que os bolchevistas conseguiram tomar o poder em Outubro de 1917 e quando o Soviete tornou-se a justificativa para a ditadura do proletariado.

O resultado é que o termo foi usado para todos os órgãos primários do governo em níveis nacionais, estaduais e municipais, com um Soviete Supre¬mo composto de delegados de todas as Repúblicas Soviéticas da União. Os sovietes voltaram a reaparecer nas malogradas Revolução Espanhola (1936-1939), na Revolução dos Cravos (Portugal, 1974) e na Revolução Polonesa de 1980. A estrutura dos sovietes consistia num sistema piramidal de conselhos. A base era formada pelos soviets de fábricas, nas cidades, ou de aldeias, no campo. Níveis sucessivos estabeleciam-se a partir de então. Nas cidades soviets de distrito e de província. O conjunto era coroado pelo Congresso de soviets de operários, soldados e camponeses, órgão supremo e soberano, que elegia um Comitê Executivo que, por sua vez, designava um Conselho dos Comissários do Povo (CCP), o governo efetivo do País.

Segundo Anton Pannekoek, teórico marxista holandês, os conselhos operários da Revolução de 1905, essencialmente, eram simples comitês de greve, tais quais aqueles que aparecem em greves selvagens. Como as greves na Rússia começaram em grandes fábricas, e rapidamente se espalharam pelas cidades menores e distritos, os trabalhadores precisaram manter contato permanente. Nas oficinas, os trabalhadores se juntavam e discutiam regularmente no final da jornada de trabalho, ou continuamente, o dia inteiro, em momentos de tensão. Eles enviavam seus delegados a outras fábricas e aos comitês centrais, onde a informação era trocada, dificuldades discutidas, decisões tomadas, e novas tarefas consideradas.

Eles tiveram que regular a vida pública, tiveram que cuidar da ordem e da segurança públicas e providenciar os serviços públicos essenciais. Eles tiveram que desempenhar funções de governo; o que eles decidiram era executado pelos trabalhadores, enquanto o governo e a polícia ficavam de lado, conscientes de sua impotência contra as massas rebeldes. Então os delegados de outros grupos, de intelectuais, camponeses, soldados, que vieram para se juntar aos sovietes centrais, tomaram parte nas discussões e decisões. Mas todo esse poder foi semelhante a um clarão de raio, como um meteoro passando. Quando finalmente o governo czarista reuniu sua força militar e golpeou o movimento, os sovietes desapareceram.

Ou seja, assumiram o governo do país sem serem eleitos. As pretensões ditatoriais do PT nunca foram segredo para ninguém. Filho de uma partouse ideológica entre comunistas, trostskistas, Igreja Católica, classe média deslumbrada e sindicatos, não tem paternidade precisa. Mas está em seu DNA o desejo de perpetuar-se eternamente no poder, algo assim como um Reich de mil anos, se possível for.

Dona Dilma, ao que parece, já desconfia que não vai levar estas eleições. Sob pretexto de querer modificar o sistema brasileiro de governo, está apelando à fórmula bolchevique encontrada há mais de século. Baixou decreto criando a Política Nacional de Participação Social (PNPS), com o objetivo de "consolidar a participação social como método de governo" e aprimorar "a relação do governo federal com a sociedade".

O decreto determina que sejam criados conselhos, a realização de conferências nacionais, audiências, entre outras sete formas de diálogo com a sociedade, para fazer consultas públicas antes de tomar decisões sobre temas de interesse da "sociedade civil".

Os dez formatos de atuação da Política Nacional de Participação Social serão, além dos conselhos, conferências e audiências, por iniciativas próprias da sociedade civil, comissões de políticas, ouvidorias, mesas de diálogos, fóruns, ambientes virtuais de participação social e consultas públicas.

Ou seja, a presidente deu um solene chute na bunda do Congresso, a quem cabia a função de legislar sem consultar conselho algum. Que deputados e senadores não legislam com muita propriedade, disto sabemos. Mas bem ou mal eram eleitos pelo povo. Os novos legisladores – pois obviamente não resistirão à tentação de legislar – serão obviamente eleitos pelo PT.

O decreto, obviamente, não é idéia da presidente. Não teria audácia nem bestunto para tanto. Terá sido achado de seu entourage petista. A ideia é desde há muito advogada por Tarso Genro. Que, em setembro de 2012, escreva na Folha de São Paulo:

“Na Europa, não somente foi feita uma moratória com a utopia socialista, cujo impulso foi responsável pelas grandes conquistas de proteção social e de coesão nacional no século passado, mas também foi congelada a utopia democrática. Os governos eleitos, sejam socialdemocratas ou conservadores, na primeira fala que fazem, quando chegam ao poder, é que “não há alternativa”.

Ao falar de impulso responsável pelas grandes conquistas de proteção social e de coesão nacional, Genro se referia à obra dos sovietes, seu antigo sonho. Dona Dilma parece ter aderido com gosto às esperanças do velho stalinista gaúcho. De uma penada, quer mudar por decreto o sistema democrático do país. O princípio um homem-um voto seria substituído por um apparatchik do PT-milhares de votos.

Teremos agora ongueiros, sem-terra, sem-teto, bugres e quem sabe até membros do PCC dando seu pitaco na hora de dar uma estrutura jurídica ao país. Só a CUT já dispõe de 400 comitês, espalhados pelas 27 unidades do país. O Congresso, pelo que leio, até agora nem notou ter sido diminuída sua função de legislar.

O sonho não acabou. Todo poder aos sovietes!

sexta-feira, maio 30, 2014
 
AVE, IA!


Quem não domina pelo menos três línguas, hoje, não entende a época em que vive. E já nem falo do espanhol. A meu ver, todo brasileiro minimamente culto deveria trafegar com aisance na língua de nuestros vecinos. Portunhol é preguiça mental de quem não lê. Há pouco, alguém me perguntava qual a melhor tradução do Quixote. Não tenho idéia. Adolescente, li Cervantes no original. Com dificuldade, é bom dizer. Mas com prazer e de dicionário em punho.

Mas os tempos são medíocres. Nestes dias em que até Machado precisa ser traduzido ao português, esperar que alguém saiba dizer muito obrigado em espanhol é milagre. Já conheci uma fazendeira da fronteira que dizia “mucho obrigado” e “buenas noites”.

O aprendizado do espanhol nem senti. Foi minha língua de cuna – como se dice allá. Eu tinha uma ama uruguaia, Doña Catulina, que só falava espanhol comigo. Havia ainda os versos de Fierro. E muito tango e mariachis, de Carlos Gardel a Miguel Aceves Mejía. Em verdade, sou muito mais platino que brasileiro.

No curso ginasial, o trote mudou. Costumo afirmar que no ginásio tive uma educação que hoje não temos nem na universidade. Dom Pedrito teria uns 13 mil habitantes na época. Mas no Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, dirigido por padres oblatos da Alemanha, tínhamos latim, inglês e francês. Em outros colégios estudava-se também o grego. Concluí o curso arranhando um bom latim, com um inglês que me foi suficiente para a vida e com um francês excelente. Português, impecável. Há tempos, achei em meus baús um mural manuscrito que fiz na época. Erros, nenhum.

Ainda há pouco, um bobalhão qualquer cujo nome já nem lembro, dizia nos jornais que o ensino não piorou, sempre foi ruim. Não sei a serviço de quem ou de quê está este senhor. Deve ser jovem, nascido já nos dias de decadência do ensino. Não viveu a época em que a escola secundária formava potenciais poliglotas.

Quando passei a lecionar na universidade, senti o abismo em que havíamos caído. Aconteceu na UFSC, Universidade Federal de Santa Catarina, na primeira reunião que participei no Departamento de Língua e Literatura Vernáculas. Duas alunas, quartanistas de Letras, pediam ao Departamento um professor para explicar-lhes o que era sujeito e predicado, que até então elas desconheciam o que fosse. Perplexo, eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo, nem como elas haviam sido admitidas na universidade. Pior ainda, estavam se formando e já praticamente habilitadas a exercer o magistério. Que se pode esperar desta geração de professores?

Nestas ocasiões, sempre costumo evocar meus dias de dias de ginásio em Dom Pedrito e os excelentes professores que tive quando adolescente, professores que não encontramos mais nas escolas. Quando comecei a estudar línguas no ginásio, não imaginava para que me serviriam. Meu ecúmeno era diminuto, iria talvez de Dom Pedrito a Porto Alegre. Mas me agradava pronunciar outros sons. Era como se fosse outro que não eu. E a língua que mais me aprouve – e mais me foi útil na vida – foi o francês.

Anos mais tarde, quando tive uma entrevista com o cônsul francês em Porto Alegre para uma bolsa em Paris, ele quis saber onde eu aprendera tão bem o francês. Fora com a Maria Veiga Miranda, em Dom Pedrito. Isso já faz mais de meio século.

Há dois anos, revisitei a cidade em que me criei. Na primeira foto, a estação nova de trens de Dom Pedrito, hoje jogada ao léu, assim como foram as ferrovias. Lá morava Maria, seu pai era o chefe da estação. Nas salas do segundo andar, à esquerda, muito pratiquei as guturais da nova língua. No Patrocínio, ela criou uma boutique, onde só se entrava falando francês.

O Patrocínio foi encampado pelo Estado, os oblatos sumiram, o ensino decaiu, trens e trilhos morreram, o ensino do francês desapareceu do secundário. Maria, obstinada, até hoje continua seu apostolado, apostando em jovens que aspiram a horizontes além do rio Santa Maria. O aprendizado que me foi de mais valia entre todos foi o de línguas. Uma língua a mais é mais uma janela aberta para o mundo. Maria abriu – a mim e aos de minha geração – a mais charmosa das janelas. Ao chegar às margens do Sena, tudo me pareceu um déjà vu.

Quando defendia minha tese na Sorbonne Nouvelle, há 34 anos – e parece que foi ontem –não deixei de evocar a mais decisiva de minhas professoras. Que hoje, sempre jovem e lépida, brisa de Paris que se mantém constantesobre as margens do Santa Maria, cumpre gloriosos 80 anos.

É comum, nos dias que correm, reverenciarmos celebridades, que só são célebres porque a mídia decidiu que são. Enquanto isso, nem sempre notamos as pessoas realmente grandes, sempre discretas e geralmente ignoradas, que estão ao nosso lado. Ia, como carinhosamente é chamada, é um destes seres, que enobrecem uma cidade. Dom Pedrito ficará mais pobre no dia em que Ia partir.

Ave, Maria, cheia de jovialidade. Bendita és tu entre os pedritenses e aventurados são os frutos de teu magistério. Nesta data importante para os que contigo aprendemos a perscrutar o mundo, segue um presente do qual sei que vais gostar: o tumor sumiu.

Beijo carinhoso.

quarta-feira, maio 28, 2014
 
ROUBOU, ROUBADO ESTÁ!


Joana Havelange, filha de Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, neta de João Havelange, ex-presidente da Fifa e diretora-executiva do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo (COL,), cargo pelo qual tem uma modesta remuneração mensal superior a 100 mil reais, referindo-se ao evento, comentou ontem em sua conta no Instagram: "Não vou torcer contra, até porque o que tinha que ser gasto, roubado, já foi. Se fosse para protestar, que tivesse sido feito antes".

Filha de seu pai, neta de seu avô e na posição que ocupa, a moça deve saber do que fala. Pelo jeito, foi acometida de uma crise de sincericídio, mal que atacou recentemente Dona Dilma. Ao ver que avançou demais o sinal, hoje Joana tentou voltar atrás e diz ter sido alvo de injustiças:

"Infelizmente eu não posso nem replicar algo positivo numa página pessoal que oportunistas vêm invadir meu círculo pessoal para a organização da Copa. Eu postei um texto que corre pelas mídias sociais que levantava o espírito num momento tão importante do nosso País. De fato não atentei para a frase que está gerando toda a polêmica. Não concordo com ela e lamento não ter me atentado para ela", disse Joana em uma postagem.

Não atentou, mas disse: roubou, roubado está. É uma tese interessante a ser analisada pelo STF, nestes dias em que a Suprema Corte rasga a Constituição criando neologismos mal construídos. Coincidentemente, no mesmo dia em que a moça tenta retratar-se, lemos no Estadão notícia sobre os ganhos dos bancos com os planos econômicos. O governo calcula que o montante chegaria a R$ 26 bilhões, quantia muito inferior à estimada pelo Ministério Público Federal.

O número foi apresentado nesta quarta-feira pelo advogado-geral da União, Luís Inácio Adams. Segundo o ministro, o valor de R$ 441 bilhões apresentado pelo MPF foi resultado de um equívoco, uma "sobreposição " de informações que potencializou os valores.

O governo mantém a estimativa de impacto econômico caso o STF decida a favor dos poupadores. Estima-se que os bancos terão de pagar até R$ 341 bilhões aos poupadores, número contestado pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), que avalia impacto de aproximadamente R$ 8 bilhões.

"Queremos que a decisão possa ser tomada com tranquilidade, com a percepção clara do Supremo do seu impacto, para que o Supremo possa também, verificada a dimensão mais precisa, tomar decisões que neutralizem o prejuízo econômico de hoje. São decisões de 30 anos atrás que estão afetando o Brasil de hoje", afirmou Adams.

"O Brasil de hoje não é o Brasil de 30 anos atrás. Não queremos que o Brasil de hoje seja prejudicado por algo que aconteceu 30 anos atrás. O dano lá atrás já aconteceu, hoje precisamos manter o que conquistamos", continuou.

Qual a diferença? Apenas uma questão de prazo. A diretora-executiva do COL defende o que foi roubado ontem, pelos organizadores da Copa. O advogado-geral da União defende o que foi roubado há trinta anos, pelos bancos. Roubou, roubado está! Uma interessante colaboração brasílica ao Direito Constitucional.

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!

terça-feira, maio 27, 2014
 
JURO QUE VI! *


Vi uma moça solicitando crediário. E vi a balconista atendendo a moça. E a última ficha de crediário era de número 40.649. E a moça preencheria a seguinte. E ouvi a balconista chamar outra balconista. E ouvi perguntar qual seria o número da ficha seguinte. E vi a outra balconista emudecer. E vi a moça sugerir às balconistas: “não será número 40.650?” E vi as duas se entreolharem surpresas. E ouvi uma confirmar: “claro, é 40.650!” Com o que concordaram todas.

E fui ao correio postar uma carta. E perguntei à funcionária quanto pagaria em selos. E ouvi vinte cruzeiros como resposta. E paguei os vinte. E levei a carta para registro. E a outra funcionária me informou que eram 31 cruzeiros. E voltei ao guichê anterior para pagar o restante. E vi a moça manipular uma calculadora eletrônica. E vi registrar 31. E calcar a tecla de subtração. E depois 20. E vi a moça ler no visor: 11. Perplexo, paguei os 11.

E fui a uma farmácia. E vi um cliente pagando sua compra. E a conta era de Cr$ 13,60. E ouvi a caixa perguntar se o cliente não teria 60 centavos. E ouvi o cliente dizer que não. E vi a moça dar-lhe dois comprimidos de Melhoral. E ouvi o cliente reclamar: não queria Melhoral. E ouvi a moça dizer: vou dar um jeito. E a vi sair do caixa e ir até o balcão. E vi a moça voltando com Pondicilina. E ouvi o cliente furioso exigindo seus 40 centavos. E vi a moça confusa tentando encontrar uma solução. E ouvi a moça chamar o chefe. E vi o chefe providenciando o troco. E vi o cliente receber 36 centavos.

E fui a uma livraria. E ouvi um cliente perguntando por Sexus, do Henry Miller. E vi o livreiro procurá-lo nas estantes. E não o vi voltar com o livro. E o ouvi quando explicava: proibido pela censura. Mas temos Nossa Vida Sexual, do Fritz Khan, não serve?

E fui a uma estação rodoviária. E vi uma moça comprando passagem. E ouvi que insistia em ir pela freeway. E vi a moça dirigir-se ao ônibus. E ouvi a moça reclamar furiosa. Comprara uma passagem pela freeway. E um cartaz indicava que o ônibus ia pela auto-estrada.

E fui a um restaurante. E vi um cliente pedir um vinho. E o vinho havia sido cuidadosamente trabalhado pelo enólogo. Fora envelhecido durante anos e distribuído em sua idade mais vigorosa. Para melhor entregar seu bouquet, exigia uma taça bojuda. E o cliente pediu a taça. E vi o garçom servir-lhe o vinho. E vi o cliente apanhar uma pedra de gelo da caçamba e pôr na taça. E o gelo se fundiu no vinho cuidadosamente elaborado pelo enólogo. E o cliente, orgulhoso de seu toque pessoal, ergueu a taça, sorveu o vinho e sorriu.

E fui retirar um documento em uma repartição pública. E entrei em uma fila. E paguei uma taxa. E fui atendido. E um funcionário me engraxou os dez dedos das mãos. E calquei meus dez dedos em um papel. E tirei a graxa com querosene. E voltei para apanhar o documento. E a data de meu nascimento estava errada. Entrei de novo na fila. E paguei outra taxa. E fui atendido. E um funcionário me engraxou de novo os dez dedos. E calquei de novo meus dez dedos cheios de graxa em um papel.

E voltei para buscá-lo. E o funcionário pediu-me licença para mostrar ao chefe os dois documentos, o certo e o errado. E o chefe ficou furioso. E rasgou um dos documentos... o que estava certo. E o funcionário voltou desolado. E meus dedos já estavam limpos, olhei para a graxa com vontade de chorar. E perguntei se teria de engraxar os dez dedos de novo. E o funcionário me disse que não, afinal aquele documento dispensava a impressão dos dez dedos. E eu contei até dez antes de qualquer resposta. E cheguei aos dez. E resolvi contar até cem, louvar a eficiência do serviço público e safar-me com o documento, com ou sem a marca de meus dedos.

E muito mais ainda eu vi. Vi táxis fazendo fila para apanhar pessoas que faziam fila para apanhar um táxi. Vi gente esperando táxi quase uma hora para fazer em cinco minutos o percurso que a pé fariam em quinze. Vi gente procurando ganhar tempo para ter mais tempo livre e, sem saber o que fazer com o tempo ganho, procurar uma forma de matá-lo. Vi gente matando o tempo e vi o tempo matando gente.

E muito mais coisas eu vi, juro que vi!

* Porto Alegre, Folha da Manhã, 28.03.77

segunda-feira, maio 26, 2014
 
OS CAUSO DAS ESCRITURA
Sérgio Jockymann *


Pois não sei se já les contei os causo das Escritura Sagrada. Se não les contei, les conto agora. A história essa é meio comprida, mas vale a pena contá por causa dos revertério. De Adão e Eva acho que não é perciso contá os causo, porque todo mundo sabe que os dois foram corrido do Paraíso por tomá banho pelado numa sanga.

Naqueles tempo, esse mundaréu todo era um pasto só sem dono, onde não tinha nem dele nem meu. O primeiro índio a botá cerca de arame foi um tal de Abel. Mas nem chegou a estendê o primeiro fio porque levou um pontaço no peito do irmão dele, um tal de Caim, que tava meio desconforme com a divisão. O Caim, entonces, ameaçado de processo feio, se bandeou pro Uruguay. Deixou o filho dele, um tal de Noé, tomando conta da estância.

A estância essa ficava nas barranca de uma corredera e o Noé, uns ano despois, pegou uma enchente muito feia pela frente. Cosa munto séria. Caiu uma barbaridade de água. Caiu tanta água que tinha até índio pescando jundiá em cima de cerro. O Noé entonces botou as criação em cima de uma balsa e se largou nas correnteza, o índio velho. A enchente era tão braba que quando o Noé se deu conta a balsa tava atolado num banhado chamado Dilúlvio.

Foi aí que um tal de Moisés varou aquela água toda com vinte junta de boi e tirou a balsa do atoleiro. Bueno, aí com aquele desporpósito, as família ficaram amiga. A filha mais velha do Noé se casou-se com o filho mais novo do Moisés e os dois foram morá numa estância muito linda, chamada estância da Babilônica. Bueno, tavam as família ali, tomando mate no galpão, quando se chegou um correntino chamado Golias, com mais uns trinta castelhano do lado dele. Abriram a cordeona e quiseram obrigá as prenda a dançá uma milonga.

Foi quando os velho, que eram de muito respeito, se queimaram e deu-se o entrevero. Peleia braba, seu. O correntino Golias, na voz de vamos, já se foi e degolou de um talho só o Noé e o velho Moisés. E já tava largando planchaço em cima do mulherio quando um piazito carretero, de seus dez ano e pico, chamado Davi, largou um bodocaço no meio da testa do infeliz que não teve nem graça. Foi me acudam e tou morto. Aí a indiada toda se animou e degolaram os castelhano. Dois que tinham desrespeitado as prenda foram degolado com o lado cego do facão. Foi uma sanguera danada. Tanto que até hoje aquele capão se chama capão do Mar Vermelho.

Mas entonces foi nomeado delegado um tal de major Salomão. Homem de cabelo nas venta, o major Salomão. Nem les conto! Um dia o índio tava sesteando quando duas velha se bateram em cima dum guri de seus seis ano que tava vendendo pastel. O major Salomão, muito chegado ao piazito, passou a mão no facão e de um talho só cortou as velha em dois. Esse é o muito falado causo do Perjuízo de Salomão que contam por aí.

Mas, por essas estimativas, o major Salomão, o que tinha de brabo tinha de mulherengo.

Eta índio bueno, seu. Onde boleava a perna, já deixava filho feito. E como vivia boleando a perna, teve filho que Deus nos livre. E tudo com a cara dele, que era pra não havê discordância. Só que quando Deus nosso Senhor quer, até égua véia nega estribo. Logo a filha das predileção do major Salomão, a tal de Maria Madalena, fugiu da estância e foi sê china de bolicho. Uma vergonhera pra família. Mas ela puxou à mãe, que era uma paraguaia meio gaudéria que nunca tomo jeito na vida. O pobre do major Salomão se matou-se de sentimento, com uma pistola Eclesiaste de dois cano.

Mas, vejam como é a vida. Pois essa mesma Maria Madalena se casou-se três ano despois com um tal de coronel Ponciano Pilatos. Foi ele que tirou ela da vida. Eu conheço uns três caso do mesmo feitio e nem um deles deu certo. Como dizia muito bem o finado meu pai, mulher quando toma mate em muita bomba, nunca mais se acostuma com uma só. Mas nesses contraproducente, até que houve uma contrapartida. O coronel Ponciano Pilatos e a Maria Madalena tiveram doze filho, os tal de aposto, que são muito conhecido pelas caridade que fizeram. Foi até na casa deles que Jesus Cristo churrasqueou com a cunhada de Maria Madalena, que despois foi santa muito afamada. A tal de Santa Ceia.

Pois era uns tempo muito mal definido. Andava uma seca braba pelos campo. São José e a Virge Maria tinham perdido todo o gado e só tavam com uma mula branca no potrero, chamada Samaritana. Um rico animal, criado em casa, que só faltava falá. Pois tiveram que se desfazê do pobre. E como as desgraça quando vem, já vem de braço dado, foi bem aí que estouraram as revolução.

Os maragato, chefiado por uma tal de coronel Jordão, acamparam na entrada da Vila. Só não entraram porque tava lá um destacamento comandado pelo tenente Lazo aquele mesmo que por duas vez foi dado por morto. Mas aí um cabo dos provisório, um tal de cabo Judas, se passou-se pros maragato e já se veio uns tal de Romano, que tavam numas várzeas, e ocuparam a Vila.

Nosso Senhor foi preso pra ser degolado por um preto muito forte e muito feio chamado Calvário. Pois vejam como é a vida. Esse mesmo preto Calvário, degolador muito mal afamado, era filho da velha Palestina, que tinha sido cozinheira da Virge Maria. Degolador é como cobra, desde pequeno já nasce ingrato. Mas entonces botaram Nosso Senhor na cadeia, junto com dois abigeatário, um tal de João Batista e o primo dele, Heródio dos Reis. Os dois tinham peleado por causo de uma baiana chamada Salomé e no entrevero balearam dois padre, monsenhor Caifás e o cônego Atanásio.

Mas aí veio uma força da Brigada, comandada pelo coronel Jesus Além, que era meio parente do homem por parte de mãe e com ele veio mais três corpo de provisório e se pegaram com os maragatos. Foi a peleia mais feia que se tem conhecimento. Foi quarenta dia e quarenta noite de bala e bala.

Morreu três santo na luta: São Lucas, São João e São Marco. São Mateus ficou três mês morre não morre, mas teve umas atenuante a favor e salvou-se o índio. Nosso Senhor pegou três balaço, um em cada mão e um que varou os pé de lado a lado. Ainda levou mais um pontaço do mais velho dos Romano, o César Romano, na altura das costela. Ferimento muito feio que Nosso Senhor curou tomando vinagre na sexta-feira da paixão. Mas aí, Nosso Senhor se desiludiu-se dos home, subiu na Cruz, disse adeus pros amigo e se mandou-se de volta pro céu. Mas deixou os dez mandamentos, que são cinco e que se pode muito bem acolherá em dois: não se mata home pelas costa, nem se cobiça mulher dos outros pela frente.

* Sérgio Jockymann, escritor, jornalista e dramaturgo gaúcho, foi colunista da Zero Hora, Folha da Tarde e Correio do Povo, de Porto Alegre. Foi também autor de telenovelas, seriados de TV e peças de teatro. O conto supra foi publicado pela primeira vez na antologia Assim Escrevem os Gaúchos, organizada por este que vos escreve, em 1976.

PS - Ouvi hoje na Globonews, juro que ouvi. Em reportagem sobre a visita do papa a Jerusalém, disse a repórter: "as crianças cristães..."

sábado, maio 24, 2014
 
EU, DIREITISTA RAIVOSO *


De quatro em quatro anos, vivo meus dias de inferno astral. São os dias da Copa. Não que eu abomine futebol. Considero um esporte estético, dinâmico, inteligente. O que me desagrada é o que vem junto. Futebol seria civilizado se um torcedor aplaudisse uma boa jogada do time adversário. Isso não acontece. Futebol traz à flor da pele os mais baixos instintos da plebe: facciosismo, fanatismo, agressividade, violência e o pior de todos, patrioteirismo. O futebol é início da guerra civil, escreveu George Orwell.

O que me desagrada é a identificação de futebol com nação. A seleção é a pátria de chuteiras, dizia Nelson Rodrigues. Pátria de chuteiras para países subdesenvolvidos. Em país decente, é apenas mais um esporte entre outros. Nestes dias, quando saio na rua e vejo gente uniformizada de verde e amarelo, sinto vergonha de ser brasileiro. Mas que se vai fazer? Meu passaporte é brasileiro e só me resta sentir vergonha.

Ontem, fui almoçar em um restaurante francês, do qual gosto, além de razões culinárias, por não ter televisão. Lá fugirei das massas, pensei. Santa ilusão! Quando vi os garçons com lenços verde-amarelos atados na cabeça, lembrei de um antigo filme, cujo título já não recordo. Alienígenas invadem a terra e começam a tomar o corpo dos terráqueos. O herói se insurge contra a invasão mas não consegue contê-la. Quando o planeta está totalmente dominado, ele diz à sua companheira: "Vamos fugir para algum lugar onde eles não tenham chegado". Ela, já com a voz rouca dos contaminados, pergunta: "Para onde?"Não há para onde fugir. Nem mesmo ficando em casa.

Sou avesso às grandes datas em que todo mundo confraterniza, como Natal e Ano Novo. Mas nestas datas, pelo menos meu silêncio não é perturbado. Nas Copas, é. Não há como escapar das cornetas e foguetes. Por isso, sempre torço nas Copas. Para que o Brasil seja eliminado no primeiro jogo. Assim se tem um pouco de silêncio no mês. Mas torço em vão. Para mim, pior que Natal e Ano Novo, só mesmo a Copa.

Dito isto, sempre fui tido como homem de direita. Pelas mais variadas razões. Primeiro, porque não sou nem nunca fui comunista. Para os comunistas, quem não é comunista é de extrema direita. Segundo, porque além de não ser petista abomino o PT. Para um petista, quem não é petista só pode ser de direita. Terceiro, porque não tenho papas na língua na hora de condenar ditaduras comunistas. Quarto, porque não considero Fidel nem Che libertadores do continente, mas operosos assassinos. Quinto, porque não hesito em afirmar que Francisco Franco salvou das garras de Stalin não só a Espanha como também a Europa. E por aí vai.

Hoje, surpreendentemente, descubro que sou de direita... porque não gosto de Copas. Leio no Estadão que vários comentaristas norte-americanos estão atacando a popularização do esporte no país, dizendo que se trata de uma modalidade esportiva "de pobre", coisa de sul-americano, resultado da crescente influência dos hispânicos no país e ligado às "políticas socialistas" do presidente Barack Obama.

Glenn Beck, o mais famoso comentarista conservador da Fox News, compara o futebol às políticas de Obama. "Não importa quantas celebridades o apóiam, quantos bares abrem mais cedo, quantos comerciais de cerveja eles veiculam, nós não queremos a Copa do Mundo, nós não gostamos da Copa do Mundo, não gostamos do futebol e não queremos ter nada a ver com isso", esbravejou Beck na TV. Segundo ele, o futebol é como o governo atual: "O restante do mundo gosta das políticas de Obama, mas nós não".

Comentário do redator da Agência Estado, que não assina a matéria: “A Copa do Mundo é a mais nova vítima da raivosa extrema direita dos Estados Unidos”. Mais um adendo em meu currículo. Pertenço à raivosa extrema direita brasileira, que não gosta de futebol. Mais um pouco e serão pichados como direitistas aqueles que gostam de ópera e não de samba, de zarzuelas e não de funk, de csárdás e não de axé.

Fanatismo em futebol é coisa de país pobre, sim senhor. Os países ricos também vibram com futebol, mas neles não vemos essa palhaçada de patrioteiros enrolados em bandeiras ou vestindo as cores do país. Em país rico não há essa canalhice demagógica de liberar funcionários do trabalho em horários de jogos. Muito menos esse zumbido atroador de cornetas e foguetes, típico de retardados mentais. Por que raios se tem de celebrar um gol perturbando a paz dos demais cidadãos?

Fanatismo em futebol é coisa de gente inculta. Ontem, ao voltar do restaurante para a casa, antes de terminar o jogo, vi as ruas de desertas de carros. São Paulo é mais inculta do que parece. Direitista raivoso, continuo minha torcida para que o Brasil caia no próximo embate e o país volte à normalidade. Sei que não estou só. Não poucos leitores participam desta direita raivosa.

* Junho de 2010

quinta-feira, maio 22, 2014
 
A GRANDE MISTIFICAÇÃO
DO SÉCULO PASSADO



Desde meus verdes anos, considerei a psicanálise uma solene vigarice. E Freud, um talentoso vigarista. Mas de que vale um universitário gaúcho contestar uma sumidade vienense? De nada. Segundo dogma estabelecido por seu criador, quem contesta a psicanálise está precisando de psicanálise. Ou seja, estamos diante de uma religião tão dogmática quanto o catolicismo.

A psicanálise, mal surgiu, foi violentamente contestada. Em Gog, Papini via Freud como um médico fracassado com pendores literários. Incapaz para a medicina, Freud dedicou-se à ficção. Assim nasceu a psicanálise. Surgiu agora na França, obra de um ensaísta que confirma minha posição de 40 anos atrás. Trata-se de Le crépuscule d’une idole. L’affabulation freudienne, de Michel Onfray, que trata Freud como um impostor. Se um intelectual francês faz esta afirmação, é claro que tem muito mais autoridade que um gaúcho de Dom Pedrito. Mas Onfray, é bom antecipar, nada tem original.

Antes de entrar na discussão, relato minhas restrições à psicanálise. Não, não li Freud. Li apenas O Futuro de uma Ilusão, quando o pensador dos bosques de Viena dá uma no prego, após dar 250 na ferradura. Minha desconfiança com a nova religião decorre de meus contatos com psicanalistas. Ao chegar em Porto Alegre, tropecei com um fenômeno do qual jamais ouvira falar em Dom Pedrito, a psicanálise. Defendo a idéia de que há embustes que só conseguem enganar intelectuais, jamais enganam o homem simples. Em Porto Alegre, capital intelectualizada, com universidades e farta massa cinzenta, os psicanalistas tinham um excelente mercado para vender seus peixes podres.

Em meados dos anos 70, na Reitoria da UFRGS, tive a chance de xingar a raça. Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman, era analisado por um crítico de cinema e dois psicanalistas. Como eu estava voltando da Suécia, fui convidado por um terceiro psicanalista para o debate. Porto Alegre, naqueles idos, vivia uma circunstância peculiar: sem produzir filmes, tinha uma crítica de cinema ativíssima. Luis Carlos Merten, o crítico, abriu os debates, com voz empostada: "Dois são os instintos básicos da humanidade: sexo e fome. Como não existe fome na Suécia, os suecos fazem um cinema de sexo".

Sem discutir a veracidade histórica da afirmação (no final do século XIX, Estocolmo era uma das cidades mais pobres e sujas da Europa), considerei que no Brasil ninguém passava fome. Vivíamos em plena época das pornochanchadas e o cinema nacional girava em torno a sexo. Merten mudou de assunto e passou a falar de Bergman, o "cineasta da alma".

Discordei. A meu ver, Bergman era o cineasta das neuroses sexuais. Em sua filmografia, o relacionamento físico entre os personagens é sempre sofrido, doloroso, traumatizante. (Quem não lembra o episódio dos cacos de vidro introduzidos na vagina, em Gritos e Sussurros?). Não por acaso, o cineasta estava em seu quinto casamento. Homem que não se acerta com uma mulher - afirmei - não se acerta com cinco nem com vinte e cinco. Mal terminei a frase, fui interrompido por um dos psicanalistas: "Não podemos invadir a privacidade de Bergman, que está vivo. Falemos de sua mãe, que já morreu".

O debate continuou por outros rumos. Em uma das cenas, a personagem principal, interpretada por Liv Ullmann, após jantar com o marido, pergunta-lhe se quer café ou se vai dormir. Interpretação do segundo psicanalista: "Café ou cama. Temos uma manifestação típica de sexualidade oral". Observei aos participantes da mesa que pretendia convidá-los para um cafezinho após o debate. Como arriscava ser mal interpretado, desistia da idéia. O debate foi rico em pérolas do mesmo jaez. Registro mais uma.

Da platéia, alguém perguntou por que razões Liv Ullmann usava duas alianças no mesmo dedo. Interpretou um dos analistas: "Agressão instintiva ao marido, desejo de viuvez antecipada. Ou ainda, uma projeção homossexual na mãe. Ela vê na mãe os princípios masculino e feminino e usa os dois símbolos no dedo". Lavei a alma naquela noite: o douto analista ignorava que na Suécia as mulheres costumavam usar ambas as alianças, a própria e a do marido.

Se a história terminasse aqui, até que não seria grave. Ao sair da Reitoria, fui abordado pelo Sérgio Messias, o psicanalista que me convidara para o debate: "Por que aquela agressão pessoal ao Meneghini? Tens algo contra ele?" Referia-se àquele que insistia em falar da mãe do Bergman. Ora, não me parecia ter agredido ninguém. E muito menos o tal de Meneghini, que via pela primeira vez em minha vida. "Acontece que ele também está na quinta esposa. E como sempre as leva para morar com a mãe, parece que também não está dando certo". Atirei no que vi, acertei no que não vi. Poucas noites ri tanto em minha vida.

Naquele dia, adquiri a firme convicção de que psicanálise era vigarice.

28/04/2010

terça-feira, maio 20, 2014
 
GIGOLÔS DAS ANGÚSTIAS HUMANAS
TÊM TUDO DOMINADO



Há horas venho denunciando os gigolôs das angústias humanas, isto é, os psicoterapeutas, psicólogos e psicanalistas, Há não muito tempo, surgiu uma nova vigarice no mercado, a terapia do luto.

Quando minha mulher morreu, coincidiu que na semana seguinte eu tinha consulta marcada com uma nefrologista. Ainda abalado, falei do acontecido e, inevitavelmente, chorei. “Quem sabe tu procuras um terapeuta?” – me sugeriu a médica. Quase perdeu o cliente. Eu passara minha vida toda denunciando essa malta de exploradores da fé dos incultos que, sem terem bem gerido suas vidas, dão-se ainda ao desplante de cobrar caro para gerir vidas alheias. No meu luto ninguém mexe.

Neste ano, completo cinco anos de luta contra um câncer renitente, e nunca falta um médico que me pergunte se não tenho o suporte de um psicólogo. Parece que a moda invadiu até o campo da medicina. Ora, que vão me dizer estes senhores para atenuar a dor que sofri com a partida de minha companheira ou com as consequências de um tumor? Já surgiram inclusive o que chamei de gigolôs de dekasseguis. O caminho de volta pode gerar depressão.. É a "síndrome do regresso", termo cunhado pelo neuropsiquiatra Décio Nakagawa para designar certo "jet lag espiritual" que aflige ex-imigrantes.

Morto em 2011, Nakagawa estudava a frustração de brasileiros que voltavam ao país após uma temporada de trabalho em fábricas japonesas.Psicanalista neles. Ora, se toda pessoa que perde um ente querido, se todo doente grave, se todo migrante que volta precisa de tratamento psiquiátrico, os psiquiatras, psicólogos e psicanalistas têm um mercado inexaurível e eterno a explorar.

Mas a situação é mais grave do que se possa imaginar. Nos conta a Veja São Paulo:

"Na sala de aula do 4o e do 5o ano do ensino fundamental, a professora pergunta: “Quem faz terapia?”. Metade dos alunos, por volta dos 10 anos, levanta a mão. A cena, ocorrida na semana passada no Colégio Nossa Senhora do Morumbi, ilustra o recente aumento na procura por atendimento psicológico infantil na capital".

Segundo levantamento da revista realizado em dez dos consultórios que mais atendem pessoas dessa faixa de idade, o número de pacientes abaixo dos 13 anos dobrou nos últimos dez anos.

"Entre os menores, até 3 anos, o índice triplicou. Pipocam até casais grávidos: quando o rebento vem ao mundo, é incluído nas sessões. A corrida em busca do tratamento, que custa a partir de 120 reais por sessão, aumenta nesta época do ano, devido à divulgação do boletim do primeiro trimestre. Pais e professores queimam neurônios em reuniões, e o psicólogo entra na pauta. Em alguns casos, nem é preciso ir ao consultório, ele vai à casa da criança".

Ou seja, dos psi só escapa quem não pode pagar. Pode-se imaginar um recém-nascido participando de sessões de análise? Do ventre para o divã. A moda parece ter contaminado a classe média e hoje já constitui uma caput diminutio ter um filho que não faça psicoterapia. O aluno é vagabundo, não estuda e tira más notas? Nada que a psicoterapia não resolva.

"Virou sinal de status: tenho paciente de 9 anos que só vem à terapia porque as amigas fazem“, conta Ander- son Mariano. formado em psicomotricidade.

A reportagem lista os casos em que uma criança precisa de apoio psicológico. Começa pela separação dos pais. Aqui o mercado já é vasto. Provavelmente uma boa metade da população infantil já está na mira dos gigolôs. Em segundo lugar, hiperatividade. Segue-se o isolamento pela vida digital. Medo da violência urbana e de sequestros, problemas de adaptação escolar, dificuldade de integrar-se com os colegas. Frustrações, dificuldades dos pais em dizer não, mimos excessivos. Isto é, a criança só escapa se for bruxo.

Costumo afirmar que há vigarices, como a psicanálise e o marxismo, que só atingem as classes minimamente cultas. Isto é, minimamente endinheiradas, pois educação, por menos que custe, sempre custa algo. Os psicólogos e psicos outros tomaram conta do pedaço e hoje, por definição, toda criança ou adolescente, é doente se não contar com uma muleta psicológica.

E adultos também. Você não tem apoio terapêutico? Só pode ser doente. Ou um pobre diabo que nem sequer tem recursos para curar-se.

segunda-feira, maio 19, 2014
 
ATOR ALMEJA UM
BRASIL DE MARIGHELLA



Comentei outro dia a extraordinária capacidade de síntese de frei Betto, que conseguiu resumir um amontoado de besteiras em uma única frase: “Não sei por que se fala do fracasso do socialismo na Europa e não se fala do fracasso do capitalismo no ocidente”. Mas não só frei Betto tem esse dom que, aliás, é característico de não poucos intelectuais.

É o caso do ator Wagner Moura, que declarou ao Estadão na quarta-feira passada: "Tenho o maior amor por esse País, mas não está dando para viver aqui”. A frase é típica de um jovem, embora Wagner já não coza na primeira fervura. Se um ator bem sucedido, com ampla divulgação na mídia e possibilidades no cinema não consegue viver aqui, quem conseguirá? O Zé da Silva que ganha salário mínimo ou pouco mais e nem sabe o que comer em um bom restaurante e tomar um bom vinho?

Frase típica de jovem, disse. E disse porque já fui jovem, condição que todos viveram vivem ou tiveram vivido. Também pensei assim, há mais de quatro décadas, quando busquei asilo cultural e espiritual na Suécia. Dá pra viver, sim senhor, e particularmente quando se é Wagner Moura. Em nenhum outro país o ator terá a fama, prestígio e facilidades das quais goza no Brasil.

Ele reclama do preconceito e do conservadorismo – diz a reportagem do jornal - e diz que Praia do Futuro (seu último filme) vai contra isso, mas reclama mais ainda da política. Na eleição passada, já se havia distanciado do PT e apoiado Marina Silva para presidente. "O PT não inventou o toma lá/dá cá, mas o institucionalizou", diz, desiludido.

Mais uma Madalena tardia. De sua declaração, deduzimos que votou no PT e nas últimas eleições apoiou uma hipotética candidata que levaria o país a um desastre que nem o PT conseguiria levar. Se o leitor acha que exagero, peço que espere algumas linhas para ver quais líderes Moura queria para o Brasil.

O PT é a última flor do Lácio marxista, ou do marxismo latino, como quisermos. Verdade que, uma vez no poder, degustou as delícias do capitalismo e das empreiteiras e desprendeu-se de suas plumas vermelhas. Se perdeu as plumas, não perdeu as garras e até hoje tenta instituir no país uma ditadura travestida de democracia – ao estilo do PRI mexicano –, seu projeto de controle social da mídia que o diga.

O Brasil é um bom país para se viver, que o digam os exilados que fugiram com o rabo entre as pernas durante o regime militar e hoje estão todos de volta, gozando as benesses do país que os militares salvaram da condição de republiqueta soviética. Mais ainda, gozando de gordas bolsas-ditadura, benefício que não tiveram as vítimas da guerrilha ou seus familiares.

Verdade que o país tem seus bolsões de miséria e uma rotina de violência. E seus preços, hoje, são exageradamente altos. Mas alguém na condição de Moura passa ao longe de tudo isso. Sua declaração é charminho de antigo petista que hoje, com o partido mais sujo que pau de galinheiro, pretende manter distância daquilo que um dia apoiou. Mas vejamos qual Brasil o ator almeja.

“Pai dedicado, Wagner adora curtir os filhos. Quer um Brasil melhor para eles. Ia fazer logo seu longa sobre Marighella, que agora está prevendo para 2016. "Tem gente que diz que era um assassino, mas ele entendeu o Brasil e sabia que a chapa ia esquentar, já antes do golpe. Marighella pertence a uma geração que se sacrificou pelo Brasil, eu quero fazer o filme sobre ele para a minha geração. Ficou difícil, hoje, entender e aceitar esse idealismo, as pessoas estão muito centradas."

Ah bom! Moura queria um Brasil comunista, liderado por um facínora. PT e seus desmandos para ele é pouco. Preferia uma ditadura nos melhores moldes soviéticos ou cubanos. Por isso não está dando para viver aqui. Enfim, Havana não fica muito longe.

Mas é claro que para lá o ator não vai. A não ser, é claro, como turista e hóspede privilegiado de hotéis aos quais o cubano não tem acesso. É espantoso que, 25 anos após a queda do Muro e do desmoronamento do comunismo ainda haja quem aspire viver em regimes cuja inviabilidade a história recente acaba de mostrar.

domingo, maio 18, 2014
 
MAIS FÁCIL MANIPULAR
POVO INCULTO



Me escreve Jorge Lobo:

- Na opinião do articulista não existe nenhum grande escritor brasileiro? Será que se Machado de Assis tivesse nascido na França não seria um dos grandes?”

Quando cito meus autores diletos, meu caro, jamais citei um francês. Não que a França não tenha grandes escritores. Apenas não estão entre os meus preferidos. Estes são russos, suecos, espanhóis, irlandeses, ingleses e argentinos Não preciso sair de minha terra natal para citar uma grande obra. Martín Fierro é o poema que mais leio e releio, cito e recito, e que sempre me acompanhou em viagens mais longas. Hernández é argentino, mas seu poema começou a ser escrito em Santana do Livramento.

- Querido Janer – escreve-me Cris Fontana – se "em um universo em que existem Cervantes, Swift, Dostoievski, Kuprin, Orwell, Koestler, Huxley, Machado faz feia figura." No universo , ou melhor no inferno dantesco dos bestsellers paradidáticos que são enfiados compulsoriamente goela abaixo das crianças, Machado de Assis e José de Alencar são maravilhosos! Não entro nem no mérito do argumento , mas pelo menos tem bom português, boa gramática, linha condutora e estilo.

- Sabe qual é o universo subliterário das crianças e adolescentes de hoje?! É Lygia Bojunga e o horrível Bolsa Amarela. São as famigeradas Ana e Maria Clara Machado com seus enfadonhos Bisa Bia, Bisa Bel e o chatíssimo fantasminha Pluft. Uma lástima chamada Até mais verde, da sofrível escritora Julieta "de" Godoy. Um arrítmico Pedro Bandeira e seus livrecos insossos! Neste universo de escrevinhadores paupérrimos de tudo, mas bons ADA (amigos dos amigos), Machado de Assis é maravilhoso. José de Alencar é fantástico. E sim, pra quem lê um livro em bom português,inglês, alemão ou francês, o "pai dos burros" continua sendo o melhor e inseparável amigo!

Sem dúvida nenhuma, Cris. Jamais afirmei que Machado escreva mal. Apenas o julgo escritor menor e que nada tem a dizer aos leitores de hoje. Muito menos aos de sua época, que já tinham um acervo excelente de boa literatura. Que mania é essa de endeusar a literatura nacional? Cultive-se a grande literatura e o resto que fique na famosa lata de lixo da história. Não que deseje este destino para Machado, mas o fato é que seria autor esquecido não fosse sua literatura imposta nas escolas.

- As crianças de hoje lêem gibi, e olhe lá – continua Cris – . As provas, muitas delas, no primário são de interpretação de FIGURAS e exercício imaginativo, interpretação do texto passa a léguas de distância das carteiras escolares. A tal ponto dos jovens nem saberem o que é e como se faz uma interpretação de texto .É só exercício opinativo e imaginativo, interpretativo de acordo com o texto lido, que é bom, nadica de nada!

Vivo longe do universo das escolas e desconhecia esta barbaridade. Escritores escrevem para serem lidos, não para terem seus textos traduzidos em desenhos. Desenho é uma coisa, atende aos olhos. Palavras é outra completamente distinta. Palavras apelam à imaginação.

Foi em 2006 que o governo federal, por meio do Ministério da Educação (MEC), comprou e distribuiu para a rede pública, pela primeira vez, literatura em quadrinhos. "Com o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), as editoras puderam tirar os quadrinhos do underground e direcioná-los para um público maior", afirmou na ocasião Ivan Pinheiro Machado, editor da L&PM Editora.

Vê-se um esforço deliberado do governo em eliminar o que de bom um dia a escola teve, de nivelar por baixo a educação, em suma, de analfabetizar a juventude atual. Talvez este esforço não seja consciente. Mas instintivamente as autoridades do ensino sentem que povo inculto é povo manipulável.

- O gibi – acrescenta Cris – para as crianças/adolescentes /adultos que já consolidaram o processo de alfabetização, que já sabem ler, não tem problema se for uma leitura esporádica. Mas o que vejo HOJE é gibi como leitura exclusiva para leitores que são leitores de figuras não de textos. E muitos clássicos "gibizados" para facilitar a "leitura" dos inábeis letrados pelo construtivismo. Isso é ruim , mau e apocalíptico!

E analfabetizador, acrescentaria eu. Ilustrações podem facilitar a leitura, mas desestimulam o conceito, o pensamento abstrato. Fui leitor voraz de quadrinhos em minha adolescência. Eram os “livros” aos quais tinha acess. Não sei como, os gibis chegavam até os rincões onde nasci. Quando fui para a cidade, fiz a festa. Nas matinês de sábado, após algum seriado do Capitão Marvel ou de Hopalong Cassidy, havia um farto mercado onde trocávamos revistinhas. Era leitura garantida para a semana toda.

Às vezes, quando encontro alguém de minha idade, fazemos um torneio de erudição. Qual a identidade secreta do Capitão Marvel? Billy Batson, é claro. E a eterna namorada do Mandrake? Narda. E como era mesmo o nome do negrão aquele que parecia ter um caso com o mágico? Lothar. Como se chamava o cavalo do Zorro? Silver.

E o cachorro do Fantasma que Anda? Capeto. Em verdade, não era um cão. Mas um lobo. E sua noiva? Diana Palmer. Foi um dos noivados mais longos da história. Durou 40 anos antes que o Fantasma tomasse uma decisão. Morava na Caverna da Caveira e era imortal, graças a um truque: a cada geração, o filho retomava a identidade do pai. tom de respeito e seguindo uma longa tradição, a Caverna da Caveira conta com uma cripta, na qual estão os 20 antepassados da linhagem, aos quais ele apresenta sua esposa e, posteriormente, seus filhos. Sua marca registrada era o anel da caveira, que deixava sua impressão no rosto dos bandidos que derrotava.

Mas há obviamente tempo de ler quadrinhos e ler bom livros. Adulto, curti duas revistinhas – e ainda curto – as de Mafalda e as de Asterix. Mas aí não é mais quadrinho e sim boa literatura.

Em suma, Cris, a situação está osca, como dizíamos lá no campo. Conheço não poucas pessoas adultas – e ocupando cargos importantes na administração - que não conseguem ler um texto do tamanho desta crônica. Ler para quê, se um analfabeto conseguiu eleger-se presidente? Quando fatos como este demonstram que leitura não é necessária para o que se chama de sucesso, o caminho está amplamente aberto para o analfabetismo funcional.

Mas não desespere, Cris. A filha de uma sobrinha minha, com quatro anos, está aprendendo inglês e mandarim. E não é só ela. Aqui em São Paulo há muitas crianças aprendendo mais duas línguas além do português. O esquecido Nestor de Hollanda, em A Ignorância ao Alcance de Todos, dizia que as hostes dos alfabetizados avançavam, já havia até mesmo alguns infiltrados no Exército. Ainda há um núcleo diminuto – diminuto mas teimoso – que insiste, contra ventos e marés, em alfabetizar-se.

sábado, maio 17, 2014
 
FICÇÃO FAZ FALTA?


Como imprensa que ousa fazer oposição, Veja cumpre sua missão. Faz melhor trabalho que os partidos ditos de oposição, que mal ousam criticar Dilma e alimentam um medo sagrado de perder votos se criticam Lula. Pena que a revista, como meio de divulgação cultural, seja um desastre.

Já não lembro quando Veja fez a crítica de um filme que mereça ser visto. A redatora do setor, Isabela Boscow, prima por comentar o pior que o cinema produz, best-sellers idiotas tipo Batman, Homem Aranha, Superman, X-Man e bobagens outras transpostas dos quadrinhos.

Literatura, idem. Haja best-sellers ianques para enfiar na goela do leitor. Em sua penúltima edição, a revista traz um discutível ensaio sobre as excelências da ficção. No fundo, um gancho para divulgar “o maior fenômeno da atual literatura para jovens”, a um tal de John Green, ao qual dedica cinco páginas, que está em primeiro lugar em sua lista de mais vendidos e já vendeu 1,2 milhão de exemplares no Brasil. Quer dizer, não pode ser leitura que preste. Não o li nem vou ler. Em primeiro lugar, não leio best-sellers instantâneos, fabricados ao gosto do público. Curiosamente, as cinco páginas da reportagem citam obras do autor, mas nada dizem sobre nenhuma delas. Ficamos no escuro.

Em segundo lugar, desde jovem tomei distância dessa próspera indústria chamada literatura infanto-juvenil. Ou melhor, não que tomasse distância. Em meus dias de jovem, essa colossal indústria praticamente não existia. O mercado era suprido por gibis que, confesso, li com prazer. De certa forma, aprendi a ler com eles. Mas jamais deixei de lado o livro. Se gostava de ler Tarzan em quadrinhos, mais me interessavam os livros de Edgar Rice Burroughs, que deixavam espaço à imaginação. Muito viajei pelos pântanos de Par-Ul-Don e muitas vezes vibrei com o homem-macaco gritando kriagh bandolo tarmangani: matar o homem branco.

Vamos ao ensaio. Segundo Veja, a ciência comprova que a arte da ficção não é supérflua: está, ao contrário, profundamente arraigada na natureza humana e é necessária a ela. Até aí, nada a discordar. A humanidade repousa em ficções. A começar pela mais bem sucedida de todos os tempos, a idéia de Deus. É o personagem de ficção mais universal e conhecido já criado pela literatura. É invocado tanto por sábios e como por analfabetos. Seu nome está na boca de reis, governantes, como na de príncipes da Igreja ou criadores de seitas. É uma ficção peculiar, que sobrepaira a literatura e, ao contrário desta, que apenas propõe caminhos, é normativa e gera dogmas, leis e mesmo ética.

Outra coisa são as ficções não-religiosas, que não pretendem dominar as mentes de nenhum leitor. “não é mistério saber por que informações verdadeiras importam para nossa sobrevivência. Mas é bem mais desafiador, para a ciência, entender por que nos importamos com os dramas de mentirinha de personagens inventados”, diz Jonathan Gottschall, autor de The Storytelling Animal. Gottschall complica. Não é preciso apelar à ciência para encontrar explicações. Nos importamos com os dramas de mentirinha porque eles são bem melhor tecidos que a vida. A vida está cheia de momentos de monotonia, que são eliminados na ficção. (Não falo de Kafka ou Joyce, bem entendido). Todo grande personagem é tão bem construído que fascina – ou causa repulsa – bem mais que o homenzinho real.

Além disso, ao enfrentar uma ficção, o leitor tem de aceitar a convenção proposta pelo autor, a de que o personagem é alguém existente. Por exemplo, os romances de Tomas Mann ou Dostoievski. Hans Kastorp ou Settembrini, o príncipe Mishkin ou Rodion Romanovitch Raskolnikov não são pessoas que você vai encontrar no boteco da esquina. Suas intervenções são verdadeiros ensaios, que nada têm de um diálogo descompromissado. Se você não aceita a premissa de que tais digressões sejam naturais, você não entra na obra.

Os personagens são hipóstases do autor, como diz Ernesto Sábato, e só um grande autor criará grandes personagens. Em um de seus ensaios sobre a condição do escritor, o escritor argentino apoia-se em Donne, quando este diz que ninguém dorme na carroça que o leva da prisão ao patíbulo e, no entanto, todos dormimos desde a matriz até a sepultura, ou pelo menos não estamos totalmente acordados. “Uma das grandes funções da literatura: despertar o homem que viaja rumo ao patíbulo”.

"A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta", escreveu Fernando Pessoa. A literatura pode nos fazer chorar ou rir, nos inspira solidariedade e sentimentos nobres, como também repulsa ou horror. A vida de homens como Alexandre, Schliemann, Fernão de Magalhães também. Mas quando lemos uma biografia destes vultos, estamos lendo uma espécie de ficção, na qual foram selecionados seus melhores momentos.

Sim, a arte da ficção não é supérflua, como diz a reportagem de Veja. Só faltou dizer algo: a grande ficção, a boa literatura. Porque a ficção que a revista tem divulgado não faz falta nenhuma à humanidade.

quarta-feira, maio 14, 2014
 
MACHADO PARA ANALFABETOS


O Brasil está cheio de escritores que escreveram mais de 50 ou 100 livros, dos quais não conhecemos nem os títulos. São o que chamo de escritores de Estado. Amigos do Rei e do MinC, têm suas “obras” distribuídas a bibliotecas e impostas às escolas como leitura obrigatória pela indústria nefasta da dita literatura infanto-juvenil. Leitor mesmo – falo de quem lê por prazer e iniciativa própria - não têm nenhum.

Este parece ser o caso de Patrícia Secco, autora de mais de 250 livros, dos quais duvido que os leitores tenham ouvido falar. Nas últimas semanas, a prolífica escritora saiu do anonimato, após ter captado dinheiro graças à infame lei Rouanet, para adaptar a uma linguagem mais simplificada O Alienista, de Machado, e A Pata da Gazela, de José de Alencar, que devem sair mês que vem.

"Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis", diz a escritora. "Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso."

Pessoalmente, não tenho maior apreço por Machado e quem me lê sabe disso. E não é por seu vocabulário. Em um universo em que existem Cervantes, Swift, Dostoievski,Kuprin, Orwell, Koestler, Huxley, Machado faz feia figura. Entende-se que tenha sido lido em sua época: poucos escreviam no Brasil no século XIX e Machado supria uma lacuna no panorama literário nacional. Como cronista da época, passa. Como autor que tenha algo a dizer ao leitor contemporâneo, é paupérrimo.

Enquanto Dostoievski, mais ou menos na mesma época, remexia os subterrâneos da alma humana, discutia Deus, terror, crime, castigo e sentido da vida, o carioquinha construía o grande drama nacional, se Capitu traiu ou não Bentinho. O Alienista é uma das poucas obras de Machado que me dizem algo. Mas é bom lembrar que a história já está em Swift, com a diferença de que o irlandês situava sua história em um hospital para doenças físicas, e não mentais.

Leio na Folha de São Paulo que a equipe que "descomplica" o texto é formada "por um monte de gente", entre eles a própria autora e dois jornalistas amigos. A tiragem, de 600 mil exemplares, será distribuída de graça pelo Instituto Brasil Leitor. O lançamento será em junho, e terá direito a um túnel construído com 60 mil livros no vale do Anhangabaú, centro da cidade.

Por que Machado ainda é lido e publicado? Graças ao affonsocelsismo da intelectuália tupiniquim, que precisa encontrar algo nacional para cultuar. Não fosse a imposição da leitura de seus livros através das escolas, vestibulares e universidades, morreria à míngua o editor que o publicasse.

Imagine se, para comer em um restaurante, você fosse obrigado a consumir vinho nacional. Claro que qualquer cidadão, em nome do elementar direito a beber o que bem entendesse, estrilaria. Curiosamente, quem pretende entrar na universidade é coagido a ler autores obsoletos, só porque são nacionais. Na hora de comprar um carro, beber uísque ou vinho, o consumidor prefere os importados. Na hora da literatura, os jovens recebem goela abaixo essa excrescência, o autor nacional.

Sê como o Machado que perfuma o vândalo que o fere – parafraseou alguém. Se perfuma quem o fere, imagine o que faz a quem o incensa. Machado vale ouro. Cultuar Machado é ter passe livre na academia. Não adorá-lo é exílio perpétuo. Mas vamos ao cerne da questão: adaptá-lo ou não adaptá-lo?

A adaptação seria feita para alunos, isto é, para adolescentes. Ora, Machado, adaptado ou não, não é leitura para adolescentes, mas para adultos. Por outro lado, pelo que diz a celebérrima escritora, adaptar seria simplificar sua linguagem. Ora, um escritor é fundamentalmente sua linguagem. Se trocarmos Machado em miúdos, Machado não é mais Machado.

Esse crime já foi cometido contra autores bem mais importantes, como Cervantes, Shakespeare, Swift e vários outros. As Viagens de Gulliver, o mais virulento libelo já escrito contra o ser humano, foram transformadas em conto de fadas. Conheço muita gente que deixou de ler uma obra de gênio por julgá-la ser um livro infantil. Não li o Quixote adaptado. Mas pode-se imaginar como fica uma história recheada de palavras que designam objetos que não mais existem, transposta para um vocabulário contemporâneo. Como será traduzido o elmo de Mambrino? O capacete de Mambrino? E adarga em riste? Cacete apoiado no peito? Escudeiro será o quê? Secretário?

Por outro lado, a adaptação redutora proposta pela conhecidíssima escritora, rouba aos alunos uma das funções da leitura, o enriquecimento do vocabulário. Em meus dias de Folha de São Paulo, tive colegas que falavam duas ou três línguas mas desconheciam palavras banais do português, como obus ou preito. E palavra que jornalista de um grande jornal não conhece, é palavra que não existe.

O jornalista considera então que o leitor é tão inculto quanto ele e evita a palavra que desconhece. Não é inusual encontrar na Folha, como aposto à palavra marxismo: doutrina criada pelo pensador alemão Karl Marx. Hoje, com um mísero vocabulário de 500 (ou 600 palavras, vá lá!) você entende qualquer jornal. Quando fujo por um segundo desse feijão-com-arroz, não falta leitor que proteste. Uma amiga reclamou certa vez que, para ler minhas crônicas, precisava de um dicionário ao lado. Era aeromoça, dominava inglês e espanhol, tinha longa quilometragem em vôos para todos os cantos do mundo e nem sempre conseguia entender-me.

Os educadores – e a brilhante escritora – parece ter esquecido de um livrinho que deve acompanhar toda pessoa que lê, o dicionário. Me considero pessoa razoavelmente culta, mas ao lado de meu computador repousa eternamente um dicionário, que mais não seja para diriir dúvidas. Na prateleira ao lado, tenho mais de quarenta. De vocabulário, de línguas, de história e da Bíblia. Desta, tenho três. E acho muito difícil ler o Livro sem um bom dicionário ao lado.

Em minhas aulas de sueco, fiz um desafeto, um de meus professores. Segundo ele, a forma correta de dizer “deste modo” era på det sätt. Insisti que poderia dizer på detta sätt. Para ele, era erro. Puxei então Selma Lagerlöf. Lá estava på detta sätt. Ele ficou sem graça diante dos demais alunos e fechou-se em copas comigo. Eu lia os clássicos suecos. Ele não. Provavelmente, nas versões contemporâneas, Lagerlöf já foi devidamente adaptada.

O mesmo ocorreu em Madri. Em uma das aulas de literaatura espanhola, uma aluna perguntou à professora o que queria dizer “vale”. É expressão usada para manifestar acordo, adesão, seja a uma idéia, seja a um convite. Segundo a professora, era criação da gíria contemporânea dos jovens. Parece que naquele dia o bom Deus dos ateus velava por mim: para fugir das bobagens que dizia a professora, eu relia o Quixote. E lá estava, encerrando o prólogo:

“Panza, su escudero, en qien, a mi parecer, te doy cifradas todas las gracias escuderiles que en la caterva de los livros varios de caballerias etán esparcidas. Y con esto, Diós te dé salud y a mi no me olvide. Vale”. Eu lia o Quixote. Ela provavelmente não. E considerava ser gíria dos anos 80 uma palavra usada já há quatro séculos. Li a passagem para a professora. Um anjo pareceu ter descido na sala e um silêncio constrangedor tomou conta de todos. Menos de mim, que intimamente ria às gargalhadas.

Independentemente da excelência ou não de Machado, traduzi-lo para a pobreza vocabular contemporânea é empobrecê-lo. E empobrecer Machado é empobrecer seus leitores. No que não vai nada de original. A função da escola contemporânea parece ser manter seus alunos na insciência dos infantes.

Vale?

segunda-feira, maio 12, 2014
 
... Y YA NO PUEDO
A MI MANSIÓN VOLVER


“Janer, eu já te disse, outra vez – escreve uma boa amiga, Laís Legg - , que, quando falas dos teus pagos, eu
sempre me lembro do tango "Adiós, pampa mia" (para mim, uma das mais lindas músicas que eu conheço). Aliás, todas as músicas que falam sobre a terra natal me encantam, desde "La golondrina", "Green, green grass of home" e até "Querência amada".

Bingo, Laís. Naqueles dias nos campos do Ponche Verde e Upamaruty, a música mexicana e platina nos eram mais familiares que a brasileira. Ainda criança, eu já trauteava La golondrina e Pampa mía, que nos chegavam da Argentina. Parece que estou ouvindo agora o prefixo: ce-erre-ele-equis-ce-erre-ele-uno, rádio Belgrano, de Buenos Aires... para el mundo. Ouvíamos Luiz Gonzaga e Inesita Barroso. Mas Miguel Aceves Mejía e Carlos Gardel eram de longe os preferidos.

Mais tarde, descobri que essas canções – assim como Cielito Lindo – são universais, e por onde quer que você ande neste planetinha, seja Paris ou Madri, Moscou ou Estocolmo, sempre encontrará quem as entoe, e falo dos nacionais. Em meus dias de Suécia, me surpreendi ouvindo os Svenssons cantá-las... em espanhol. Entre latinos, quando se abatía a morriña, eram nosso refúgio espiritual. Lá naquelas latitudes gélidas, eu me sentia um pouco em meus pagos.

A donde irá
veloz y fatigada
la golondrina
que de aquí se va
por si en el viento
se hallará extraviada
buscando abrigo
y no lo encontrará.

Isto toca fundo em todo migrante. Busquei abrigo e não o encontrei. I come to Sweden to find hapiness, I go from Sweden and have nothing, li certa vez em um muro de Estocolmo. Eu ainda não sabia, mas esta foi a saga da andorinha que vos escreve.

Deje también
mi patria idolatrada
esa mansión
que me miró nacer
mi vida es hoy
errante y angustiada
y ya no puedo
a mi mansión volver.

Não que minha pátria fosse idolatrada. O Brasil é grande demais para ser pátria. Não dá pra carregar nas costas. Mas a infância sempre se leva junto. Logo que saí daqueles rincões, sabia que não havia como voltar. Verdade que voltei, mas só para chorar um pouco.

Em 77, quando ia para uma longa estada na França, voltei ao berço, para mostrá-lo à Baixinha. À medida que me aproximava da tapera, o coração se acelerava e o nó aquele começava a estrangular a garganta. Antes do rancho, passei pela cacimba que me matou a sede quando guri. Era inverno e a fonte regurgitava de água. Debrucei-me no chão e a sorvi como se sorvesse a vida, as lágrimas caindo sem pudor algum no bocal de pedras. Por mais que chorasse, não havia como voltar.
Embora sedentário na época, Pampa mía me tocava fundo, como se fosse um prenúncio dos dias a vir.

Adiós, pampa mía
Me voy, me voy a tierras extrañas.
Adios, caminos que he recorrido, rios, montes y quebradas.
Tapera donde he nacido.

Fui para as terras estranhas, onde a geada era grossa de mais de palmo e a indiada falava uma língua que não era língua, mas doença da garganta. Fui, vi e voltei.
Há dois anos,revisitei a tapera donde he nacido, desta vez para mostrar meus campos à minha filha. Curiosamente, não chorei. Mas não havia só uma tapera. Havia um taperal. Meu clã todo bateu na marca e mandou-se à la cria. E só podia ser assim. Ficar seria suicídio. Com o campo despovoado, o pastiçal reivindicou seus direitos ancestrais e dificultava o caminhar. A cacimba estava seca, era apenas um buraco com pedras por cima.

No hallé ni rastro del rancho, solo estaba la tapera – como dizia Fierro. A casa fora engolida pelo mato. Só restava ali perto o rancho do tio Ângelo, também abandonado. Era a casa senhorial, onde viviam meus avós, que de senhorial nada tinha. A casa era modesta, pero mucho se saco la viruta al piso, em bailes para despachar as machorras. Nada a ver com a acepção contemporânea. Machorra é a vaca que não deu cria.

Si no volvemos a vernos, tierra querida
Quiero que sepas que al irme dejo la vida
Adiós! Al dejarte, pampa mia,
Ojos y alma se me llenan con el verde de tu pasto
Y el temblor de las estrellas
Con el canto de los vientos y el sollozar de viguelas
Que me alegraron a veces y otras me hicieron llorar

Adiós, pampa mia
Me voy camino de la esperanza
Adiós, llanuras que he galopado, sendas, lomas y quebradas
Lugares donde he soñado

Panta rei, Laís. Hoje estou mais para Adiós, muchachos, que, tenho certeza, está também entre tuas diletas.

Adiós muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos.
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada.

Adios muchachos. ya me voy y me resigno...
Contra el destino nadie la talla...
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más...

Adiós muchachos, compañeros de mi vida,
Barra querida de aquellos tiempos.
Me toca a mi hoy emprender la retirada,
Debo alejarme de mi buena muchachada.

Adiós muchachos, ya me voy y me resigno...
Contra el destino nadie la talla...
Se terminaron para mi todas las farras,
Mi cuerpo enfermo no resiste más...

Quer dizer, resiste ainda. Mas as farras terminaram. A andorinha extraviou-se pelo mundo e a pampa ficou lá longe, perdida no tempo e no espaço.

Para curtir...

Adiós, pampa mia:
http://www.letras.com.br/#!carlos-gardel/adios-pampa-mia

La golondrina:
http://www.letras.com.br/#!trio-los-panchos/la-golondrina

Adiós,muchachos:
http://letras.mus.br/carlos-gardel/178741/

domingo, maio 11, 2014
 
CLOTILDE


Lembras, Clotilde, daquele guri boca suja e sem respeito que fugia para o chircal quando chegavam visitas? E que só voltava do mato para exibir aos visitantes - especialmente se eram moças - seu vasto repertório de nomes feios? Eu já não lembro muito dele. Entre aquela época e hoje se passaram mais de trinta anos, que dão a impressão de trezentos. Mas sei que lembras dele melhor do que eu.

Me dá teu braço. Vamos passear pelos campos de Ponche Verde e Upamaruty. Rever a sanga onde pesquei minhas primeiras joaninhas. Os mundéus para onde mangueei perdizes. A sombra da parreira onde me ensinaste as primeiras letras. A cacimba em que me debrucei para beber a água gelada do manancial. Vamos passear em silêncio, não sou de muito falar. Sabes que no campo não se admite intimidades entre pais e filhos. Se hoje tenho a coragem de te falar, decerto é porque estou longe.

Olhando paras trás, tudo me parece sonho. Lembras de quando escarafunchavas meus pés arrancando rosetas e espinhos de tala e coronilha? Sinto saudades daqueles espinhos. Aquele cascão grosso que protegia meus pés é hoje uma pele fina, sensível até mesmo a grãos de areia. Forçado pelas convenções, ao pôr sapatos me sinto um pouco como cavalo ferrado. Mas a cidade assim o exige.

Me passa um mate. Vamos sentar na frente da Casa, ao lado da pedra onde Canário afiava facas e tesouras. Enquanto o sol vai caindo e as sombras avançam, como fantasmas tristes coxilha arriba, vamos corujar a primeira estrela, ouvir a canção dos grilos, ver as ovelhas se aprochegando em fila para o abrigo de uma canhada.

Não sei se imaginaste alguma vez as andanças futuras daquele guri xucro. Eu jamais imaginaria. Se, naquela época, me dissessem que há um país onde o sol não se põe, eu insultaria o mentiroso. E não é que um dia fui parar lá? E à meia-noite o sol ameaçava esconder-se, mas era só ameaça, continuava rodando quase paralelo ao horizonte.

Lembro de ti muitas vezes atrelando o tordilho à aranha. Li há algumas semanas, num jornal, a queixa de umas professoras rurais que tinham de ir à escola a cavalo. Gente boba, não é? Durante trinta anos, alfabetizaste duas gerações, graças ao tordilho. E nunca ouvi de ti queixa alguma.

Devo ter sido bom aluno, não é verdade? Uma das coisas que lembro muito foi daquele quinto ano primário. Tirei o primeiro lugar da aula. Foi barbada. Pra começar, só tinha dois alunos, eu e a Chica. Como viriam fiscais da cidade para os exames, e a turma não estava bem preparada, as professoras nos deram a prova num domingo, para decorar em casa. Não sou ruim de memória, respondi tudo em dois minutos.

Lembras da professora que pulou o alambrado atrás de nós, quando a aranha já descia o lançante da coxilha? “Espera, pára, o teu filho é um gênio, tens de mandar esse guri pra cidade”. Pois é! Mandaste o geninho pra cidade. Lá já foi mais difícil continuar sendo o primeiro da classe. As professoras jamais deram a alguém as provas antes do dia do exame. Resultado: no fim do ano, um monte de reprovações. Por isso que o ensino moderno anda em crise.

Mais um chimarrão antes de a gente terminar este passeio! Já está ficando tarde, tenho de voltar ao presente. Só há um lugar no mundo para onde sempre volto com o coração aos pulos: Ponche Verde. Qualquer dia estarei de novo aí. Não é por meu gosto que vivo nos povoados. Sabes, já faz alguns anos que não dou uma boa galopada nem vejo um nascer de sol. Há muito não ouço um galo cantar nem vejo galinhas ciscando o pátio depois de uma chuva. Já nem sei se formigas de asa existem ou são lenda. Esqueci o gosto de um tatu assado na casca. Bebo um leite de sabor desagradável que nada mais tem a ver com um apojo quentinho.

Virei bicho da cidade, mãe. Mas qualquer dia desses, o diabo sai de trás da porta, ato a mala nos tentos e me mando à la cria!

sexta-feira, maio 09, 2014
 
O CRIME DE MARONI


Não que eu pretenda defender quem explora a prostituição. Mas não é fácil entender a sanha com que autoridades se empenham em condenar Oscar Maroni, um entre os milhares de exploradores do ofício em São Paulo.

Desta vez, foi o Sepex-SP (Sindicato das Empresas de Publicidade Exterior do Estado de São Paulo) que notificou as três empresas veiculadoras dos outdoors que a Bahamas Hotel Club pagou para serem exibidos em rodovias de São Paulo, como Imigrantes, Castelo Branco e Bandeirantes. As peças começaram a ser veiculadas nas últimas semanas pela boate localizada em Moema, na zona sul da capital paulista, famosa por ser freqüentada por garotas de programa e que foi fechada em 2007 por irregularidades e reaberta em setembro último acrescentando a palavra "Hotel" ao nome.

O diretor executivo do Sepex, José Roberto Fogaça, afirma que as peças começaram a ser retiradas na última terça-feira e que esta é uma questão vergonhosa, pois a entidade não defende nem faz apologia, de forma alguma, à prostituição. “Não se pode dizer que a peça é ilícita, mas atenta à moral e à ética. Não é assim que gostaríamos que os consumidores vissem os nossos painéis. O sindicato, representando as empresas de mídia exterior, tem feito várias campanhas contra o crack, doação de sangue, ações de benefício público. É desse jeito que queremos ser lembrados”, destaca Fogaça.

As empresas de publicidade usam a mulher para vender desde cerveja a automóveis, e de repene o sindicato da classe se enche de brios ante anúncios que vendem... mulher. A peça traz o título “Bahamas Hotel Club – Onde suas fantasias se tornam realidade” e mostra uma mulher bronzeada, de short provocativo e salto alto, agachada em frente a um homem de chuteiras e com o calção abaixado. O painel também exibe a foto de Oscar Maroni, que responde a processo por suspeita de incentivar a prostituição, identificando-o como “proprietário”.

Como se mulher não fosse mercadoria neste nosso mundinho capitalista. A julgar pela manifestação do sindicato, até parece que prostitutas não existem neste país.

Em outubro de 2011, a juíza Cristina Ribeiro Leite condenou a 11 anos e oito meses de reclusão Oscar Maroni, o autodenominado "empresário do erotismo". Empresário sem dúvida é. Sua boate, próxima ao aeroporto de Congonhas, que funcionou até 2007, era freqüentada por garotas de programas e clientes de alto poder aquisitivo.

O Bahamas oferecia o que dezenas de boates continuam oferecendo em São Paulo: shows de striptease, sauna mista, restaurante executivo com cardápio variado e também contava com 23 suítes luxuosas para encontros íntimos. Por ocasião dos eventos da Fórmula 1 na cidade, a boate desempenhou importante função social. Recepcionava em média cerca de 400 clientes, entre eles o pessoal de algumas escuderias famosas da Fórmula 1 com shows eróticos com garotas de programas que usavam o tema baseado no evento automobilístico. Agora que se aproxima a Copa, querem roubar de atletas, turistas e autoridades o bem-bom da vida.

Maroni já esteve preso, por ordem de Gilberto Kassab, por ter construído um hotel de 11 andares na esquina da rua dos Chanés com a alameda Anapurus, a 600 metros de uma das cabeceiras da pista do Aeroporto de Congonhas, ao lado da boate Bahamas. Após o acidente com o vôo TAM 3054, o prefeito cassou o alvará de aprovação e construção do hotel. Ocorre que o acidente da TAM nada teve a ver com altura de edifícios. O avião estatelou-se em um posto de gasolina. A situação se arrasta até hoje na justiça.

A juíza Cristina Ribeiro Leite usou de vasta erudição para proferir sua sentença, apelando a experts do ramo. Entre elas, a prostituta-celebridade Bruna Surfistinha, que em seu livro O Doce Veneno do Escorpião assim descreve o Bahamas, onde ela, entretanto, nunca trabalhou: "De bom gosto, elegante mesmo. Por fora, você nem se toca do que é lá dentro. As garotas que vi por lá não tinham nada de anormal, não tinham puta estampado na testa nem ficavam na porta se oferecendo a quem passasse".

"Se o Bahamas não é uma casa de prostituição, o que seria uma casa de prostituição?", alega a juíza várias vezes ao longo da sentença. Claro que é casa de prostituição, e isto Maroni não nega. Mas não aceita a pecha de proxeneta. "Sou apenas um empresário que está sendo perseguido por trabalhar no ramo da diversão masculina. O Bahamas nunca ficou com um só centavo do que as moças auferiam como prostitutas". Segundo ele, o local era aberto a homens e mulheres em busca de lazer adulto. "Se alguém queria fazer programas, tratava privadamente com seus clientes. A casa não tinha participação alguma nisso".

Ora, São Paulo tem milhares de boates do gênero, algumas de alto luxo, outras médias e muitas vagabundas mesmo, que continuam fornecendo sexo a quem quiser pagar por sexo. Similar à Bahamas, até bem pouco havia o Café Photo, de suntuosos interiores. Fechado há alguns anos, voltou a instalar-se no chique bairro de Vila Nova Conceição. Foi interditado em 2010, não por prostituição, mas por falta de alvará para funcionar. Com a interdição, as meninas simplesmente migraram para uma outra boate, o Garden. E tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. O proprietário aguarda pela liberação da prefeitura para a boate voltar a funcionar.

Se a Dra. Cristina pretendia mandar para a cadeia quem tem casa de prostituição em São Paulo, precisaria construir mais cárceres. A pergunta que se impõe é uma só: por que o Maroni? A acusação é de exploração da prostituição, o que constitui crime em nosso Código Penal. Mas isto é de difícil comprovação. Em primeiro lugar, ninguém viu as moças repassando dinheiro ao proprietário das Bahamas. Em segundo, nenhuma profissional vai denunciar quem lhe propicia ambiente de trabalho, conforto e proteção. Em terceiro, Maroni pode dispensar tranqüilamente qualquer colaboração das meninas.

Maroni cobrava R$ 69 por hora passada em uma das 23 suítes de intensa rotatividade à disposição da clientela. Pelas contas da juíza, uma diária custaria 24 vezes R$ 69, ou R$ 1.656, "dignos do Ritz de Paris, para um quarto onde abundam espelhos e faltam armários!!! Seguramente, sem as lindas garotas de programa não haveria clientela perdulária para justificar o preço".

A juíza parece ter descoberto a América. Claro que sem as lindas garotas não haveria clientela perdulária. Quanto a ser perdulário, isto não é crime nem pecado. É perdulário não quem quer, mas quem pode. Aparentemente, a doutora preferiria uma espelunca suja e baratinha, ao alcance dos não-perdulários.

Com esse faturamento, não há porque achacar as meninas. Isso sem falar na consumação mínima, bebidas e comida. Por outro lado, faltou assessoria à Meritíssima. Se consultasse a Surfistinha, talvez entendesse porque não há armários em uma boate. Bordel é local de trabalho, não de moradia.

Prostituição, particularmente a de luxo, exige gerenciamento. Alguém tem fornecer o local, as instalações e tratar inclusive da segurança das moças. Não se imagina uma profissional de luxo catando clientes nas calçadas. Diga-se de passagem, essas pobres meninas que se prostituem nas ruas melhor viveriam se alguém as administrasse. Entregues à própria sorte, têm de repassar boa parte dos parcos ganhos a seus cafetões.

Pelo jeito, o crime do "empresário do erotismo" é o de ser bem sucedido no ramo. Entre os milhares de motéis que anunciam seus serviços nas rodovias, só o de Maroni está provocando indignação.

quinta-feira, maio 08, 2014
 
UMA DATA INCONVENIENTE


Sou indiferente a datas. Que um feito histórico seja celebrado em um dia determinado, até que entendo. Afinal, acontecem em datas. Quanto ao mais, nada vejo de particular em cada dia. Nem mesmo em meus aniversários, dos quais eu mesmo esqueço. Quem me lembra são minhas gerentes de banco.

Falei em meus aniversários. É que tenho dois, o dia de nascimento e o dia de registro. No campo, os cartórios ficam distantes e é melhor esperar para ver se a cria vinga, para não encilhar um cavalo e perder a cavalgada.

Natal, Ano Novo, carnaval nada me dizem. Boa parte de minha vida, passei esses dias em quartos de hotel, pois costumava viajar no inverno europeu. De réveillons, fujo. Detesto multidões e foguetórios. Melhor contemplar os fogos no bar do hotel.

Dia dos Pais ou das Mães muito menos, embora costume homenagear os meus nessas ocasiões. São datas criadas pelo comércio. Sem ser consumista, defendo o consumo. Cria trabalho distribui renda. E considero hipócritas esses milhares de pessoas que, gozando das benesses de uma sociedade capitalista, condenam tais festas.

Estas datas são problemáticas. Se pai e mãe deviam evocar momentos felizes, isto nem sempre acontece. Sem falar das crianças que os perderam, há milhões que jamais os conheceram. Para estas, qualquer celebração traz à tona uma lacuna dolorosa.

Sou favorável à eliminação destes festejos nas escolas. Em família, seja feita a vontade de cada uma. Os pais estarão lá para comemorar juntos. Já nas escolas, só aumenta o número de crianças sem pais, crianças órfãs e filhos de pais separados. A celebração será contraproducente, se não traumática.

Assim sendo, manifesto meu apoio a decisão das escolas que deixam a data passar em branco. Claro que não faltarão olavetes que verão nisto mais uma vitória do comunismo em sua tentativa de solapar a família e demais valores do Ocidente. Ora, os comunistas sempre foram fanáticos defensores da família, e o lapso que produziu no mundo soviético uma Alexandra Kolontai, feminista avant la letre e defensora do dito amor livre, foi muito curto. Stalin logo botou ordem no pedaço.

Leio que no Rio algumas escolas deixaram de comemorar o dia das Mães. Com o objetivo de contemplar alunos órfãos ou com pais gays, ou mesmo para ir na contramão no consumismo incentivado pela data, creches e escolas vêm abolindo a comemoração. Criaram o Dia da Família, mais inclusivo.

No Colégio Hélio Alonso, na zona norte do Rio, a mudança, há dois anos, levou a protestos. "As mães querem ouvir as crianças cantando, querem chorar. Mandaram bilhetes reclamando, postaram no Facebook", conta a diretora, Lúcia Assis. A escola resolveu fazer a festa da família neste sábado e repetir a comemoração no sábado anterior ao Dia dos Pais.

Querem ouvir as crianças cantando quem tem filhos. Mas e os filhos que não têm mães ou pais para ouvi-los? As canções soarão como lacunas pungentes para estes. E aqueles que têm mães ou pais alcoólatras ou verdugos, ou de alguma forma odiosos? Nem toda criança tem a ventura de ter pai ou mãe amorosos. Que estes pais festejem a data em família e ouçam suas crias cantando em casa.

A celebração pública machuca não só crianças, mas também mães que perderam seus filhos. Em um país em que uma família certinha, com os pais e mães – como direi? – originais, é cada vez mais rara, tais festas mais machucam do que alegram.

"A gente entende que, independentemente da forma como a família está estruturada, sempre existe alguém que faz o papel da mãe e do pai. Mas as crianças que tinham mães ou pais ausentes, ou cujos pais não conseguiam chegar para a festa, que era no fim da tarde de sexta, ficavam muito tristes. A festa da família traz abordagem mais ampla, de aproximação com a escola", diz Lúcia Assis.

Uma outra instituição, criada há 45 anos, a Escola Dinâmica de Educação Moderna (Edem), na zona sul, só organizou essas festas nos primeiros anos. "Para quem não tem o pai ou a mãe, a ocasião evidencia esse buraco. Mas a motivação principal foi a vontade de sair desse jogo do consumo desenfreado. É um dia que só serve ao comércio", defende a psicóloga e pedagoga Judy Galper, diretora da Edem. O Dia da Família, realizado em setembro, acaba sendo "uma farra coletiva", com piquenique e oficinas, mas sem presentes.

Na creche Amora, na zona sul, freqüentada por bebês e crianças de até 5 anos, este será o segundo ano sem tributo às mães. As descontentes já se conformaram, mas fazem questão de ganhar lembrancinhas, aponta a diretora pedagógica, Cláudia Castro. "A gente tem de acompanhar as mudanças da sociedade. Os alunos estão pintando cachepôs para entregar para toda a família."

Já é um avanço, neste país que só costuma copiar o pior. Se bem que a família, nestes anos que correm, já não está com essa bola toda. Que vai acontecer quando os homoafetivos, os poliamorosos e os homolesbotransexuais ocuparem seu espaço nas escolas?

Será no mínimo divertido. Mais cauteloso seria não fazer festa alguma.

terça-feira, maio 06, 2014
 
MULHERES VALEM
U$ 12 NA NIGÉRIA



O Islã avança rumo a uma religiosidade cada vez mais pura e próxima às fontes. No norte da Nigéria, um homem que se diz líder do Boko Haram assume sequestro de mais de 200 adolescentes no norte da Nigéria. A organização – cuja tradução é “a educação ocidental é um pecado” - deseja fundar Estado islâmico no país e já teria matado mais de 3.000 pessoas. Segundo os jornais, os puros e duros islâmicos do grupo reivindicaram ontem o sequestro de 276 meninas de Chibok, no norte do país, ocorrido no dia 14 de abril. Em vídeo, o movimento prometeu tratar as adolescentes como escravas, vendê-las em países vizinhos e forçá-las a casar.

A mensagem foi lida por um homem que se identificou como Abubakar Shekau, líder do grupo radical. "Eu capturei suas meninas. Nós vamos vendê-las no mercado, por Alá. Alá diz que eu devo vendê-las. Ele me ordenou que as venda. Vou vender mulheres. Eu vendo mulheres".

No vídeo, ele aparece usando uniforme militar e de pé diante de um veículo blindado e duas camionetes com metralhadoras.

"Eu disse que a educação ocidental deve parar. Vocês, meninas, devem deixar a escola e se casar", acrescentou Shekau, que indicou manter as jovens como "escravas".

Alguém ainda lembra de Malala Yousufzai? Aconteceu há pouco mais de um ano. As celebridades criadas pela mídia são tão fugazes que até eu, que escrevi sobre o assunto, não mais lembrava.

Malala foi aquela estudante paquistanesa, de 16 anos, atacada com tiros na cabeça pelos talibãs por defender o direito de educação das meninas, que ganhou projeção mundial ao defender o óbvio. Em julho passado, foi aplaudida de pé na sede da ONU, onde pediu aos líderes mundiais que proporcionem educação compulsória e gratuita para todas as crianças.

Ora, quem não quer educação gratuita e compulsória para as crianças? A fortuna de Malala foi viver em um país dominado por fanáticos muçulmanos e ter sido alvejada na cabeça. Suas conclamações nada têm de novo ou original. Até parece o papa pedindo preces pela paz. A ONU declarou a data de seu aniversário, 12 de julho, como Dia de Malala.

Ao discursar para líderes jovens de mais de 100 países, ela pediu "uma luta global contra o analfabetismo, a pobreza e o terrorismo". "Vamos pegar nossos livros e canetas", disse ela. "Eles são nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. Educação é a solução".

Só que a fama súbita parece ter subido à cabeça da menina e inspirado sandices. Malala inaugurou em setembro passado, na Inglaterra, a maior biblioteca pública da Europa, na região central de Birmingham.

Com a mosca azul zumbindo sobre sua cabecinha adolescente, Malala desatou a dizer bobagens. “Não há arma mais poderosa do que o conhecimento nem maior fonte de conhecimento do que a palavra escrita. Canetas e livros são armas que derrotam o terrorismo”, disse Malala, que vive na cidade inglesa desde outubro, após ter sobrevivido ao atentado praticado por militantes do Talibã.

Que educação é a solução, isto não se discute. Que canetas e livros sejam armas que derrotam o terrorismo, isto é solene bobagem de jovem que melhor teria feito se inaugurasse a biblioteca em silêncio. Afinal, é um livro que está a base da opressão islâmica, da mesma forma que um livro oprime judeus e cristãos até hoje. Não por acaso, árabes, judeus e cristãos são chamados de povos do Livros. Livros libertam, sim. Mas podem muito bem oprimir. Todo movimento terrorista tem em sua base um livro.

Terrorismo não é achado de homens incultos, muito antes pelo contrário. Em meados do século XIX, surgiu na Rússia tzarista um pequeno manifesto intitulado O Catecismo do Revolucionário, escrito na Suíça e assinado por dois revolucionários russos, Serguei Guennadovich Netchaiev e Mikhail Bakunin. Este panfleto tem sido até hoje a cartilha que inspirou todo terrorismo do século seguinte, desde Lênin, Stalin, Yasser Arafat, George Habash, Wadi Haddad, Carlos, o Chacal, Che Guevara, Aloysio Nunes Ferreira, Lamarca, Marighella e Fernando Gabeira, etarras ou OLP. Entre milhares de outros, bem entendido.

O atentado contra a menina provocou protestos ao redor do mundo, incluindo críticas da ONU e de potências ocidentais, assim como uma mobilização popular dentro do próprio Paquistão, ultrapassando as barreiras étnicas, religiosas e políticas do país. Malala foi indicada a premiações internacionais e recebeu o Prêmio Nacional da Paz, concedido pelo governo paquistanês, no ano passado.

Hoje, quem lembra de Malala? Mas o Islã avança, dizia. Há exatamente uma semana, eu comentava o projeto de lei que quer legalizar o casamento das meninas e o estupro conjugal no Iraque. Um de seus artigos permite que as crianças se divorciem a partir dos nove anos, o que significa que podem se casar antes desta idade. Outro prevê que uma mulher seja obrigada a ter relações sexuais com seu marido quando ele pedir.

Tudo muito coerente com o Islã. Maomé – abençoado seja seu nome – não se casou com Aisha quando ela tinha seis e consumou o casamento aos nove? Se o profeta pode, por que não poderiam os crentes?

Os opositores ao projeto afirmam que representa um retrocesso em matéria de direitos da mulher e que pode agravar as tensões entre diferentes confissões do país. Os partidários do projeto de lei afirmam que o texto apenas regula práticas que já existem.

Segundo a imprensa nigeriana, Abubakar Shekau vendeu algumas das estudantes seqüestradas como esposas em mercados na fronteira com o Chade e Camarões, a US$ 12 (R$ 26). Perguntinha que me parece pertinente: qual mulher não é vendida no mundo árabe? Ou alguma muçulmana pode escolher namorado ou marido? Só que 12 dólares me parece muito barato.

Os festivais de camelo de Riad, Arábia Saudita, atraem todos os anos milionários empresários árabes que pagam até US$ 5 milhões por um camelo.

domingo, maio 04, 2014
 
HOMOLESBOTRANSFOBIA
VIRA BANDEIRA ELEITORAL



Os fatos são teimosos. Em falta de poder transformar a realidade, dá-se novo nome às coisas. Vivemos em época fértil em neologismos: afrodescendente, homoafetividade, poliamor. Comunidade não é exatamente um neologismo, mas adquiriu um sentido novo, o de favela. Na verdade, em termos: se não fica bem falar em líder da favela, tampouco soa bem falar em tráfico na comunidade.

Nestes dias eufemísticos, acabo de ler mais um neologismo, pelo jeito com futuro pela frente: homolesbotransfobia. Meio difícil de gravar pelo cidadão comum, mas se barbaridades como homoafetividade e poliamor passam, por que não passaria esta? É só martelar na imprensa e televisão e logo a palavrinha será digerida até por adolescentes.

Aparentemente, o neologismo surgiu ano passado e teve como padrinho o deputado Jean Wyllys. Agora virou bandeira. Um dos lemas da 18ª Parada Gay, realizada hoje em São Paulo é: "País vencedor é país sem homolesbotransfobia". Para dona Dilma, país rico era país sem pobreza. Pobreza já era, para o governo já somos ricos. A grande chaga social, daqui pra frente, é a homolesbotransfobia.

Verdade que, defendendo suas causas, os militantes contra a homolesbostransfobia deixaram de lado duas facetas importantes das opções, como os bissexuais, os heteros e os travestis. Os heteros, vá lá, a passeata se pretende das minorias. Mas e bissexuais e os travestis que, segundo os ideólogos da classificação de sexos, não são transexuais?

Segundo o Manual de Comunicação LGBT, a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Transgêneros, travesti, por exemplo, nada tem a ver com homossexual. Travesti é pessoa que nasce do sexo masculino ou feminino, mas que tem sua identidade de gênero oposta ao seu sexo biológico, assumindo papéis de gênero diferentes daquele imposto pela sociedade.

Travesti é homossexual? Nada disso. Homossexual é categoria à parte: é a pessoa que se sente atraída sexual, emocional ou afetivamente por pessoas do mesmo sexo/gênero. O que vai gerar uma curiosa tautologia, o travesti homossexual. Ou um solecismo, o travesti heterossexual. Algo como um homem se travestir de homem para ter relações com mulheres.

E se bissexual – conforme a cartilha – é a pessoa que se relaciona afetiva e sexualmente com pessoas de ambos os sexos/gêneros, teremos – ó coincidência! – o travesti bissexual. E por aí vai. O manual define várias outras categorias, mas esqueceu de definir a neomulher, conceito criado pela Folha de São Paulo no Dia Internacional da Mulher, em 2011. Pelo jeito, não pegou.

E durma-se com um barulho destes. Para ser realmente abrangente, o lema deveria ser heterobihomolesbotranstravestifobia. Verdade que a palavrinha começa a ficar longa e dificilmente caberia em um título de jornal. E por que não sexofobia simplesmente? Assim não tem graça. Não distingue os homolesbotransfóbicos dos meros heterófobos.

Mas isso é o de menos. O inusitado nesta marcha são seus patrocínios. Ano eleitoral vale tudo, como dizia dona Dilma. Pela primeira vez, o próprio governo federal aparece como patrocinador da parada, ao lado de Petrobras e Caixa Econômica Federal, empresas estatais que patrocinam o evento desde 2007.

O ministério da Saúde reaparece em 2014 contribuindo para o ato, o que tinha acontecido de 2000 e 2010 com uma verba de R$ 290 mil no período. Neste ano, um edital do ministério deslocou R$ 600 mil para paradas, incluindo a de São Paulo, para divulgar campanhas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, além de distribuição de preservativos.

Por seu lado, a Petrobras aumentou sua cota de patrocínio, subindo de R$ 200 mil dados em 2013 para R$ 220 mil desembolsados neste ano. Já a Caixa manteve o valor de R$ 50 mil que contribuiu na última edição. O Estado financiando bandeiras sexuais! Morro e não vejo tudo. Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! não verás nenhum país como este! E os ingênuos militares de 64 ainda achavam que seria o comunismo quem destruiria a sacra organização da família no Brasil e no Ocidente.

Alexandre Padilha, titular do ministério da Saúde até o início do ano e candidato ao governo de São Paulo - atolado até o pescoço nas corrupções do dia a dia do PT - não deixaria de tirar sua casquinha: foi o primeiro a chegar na entrevista coletiva da parada. "Estamos tranquilos e vamos fazer uma campanha de paz contra os tucanos", disse o pré-candidato do PT aos anti-homolesbotransfóbicos.

O apelo das urnas é forte e até mesmo o governador Geraldo Alckmin, católico temente a Deus e membro da Opus Dei, principal rival de Padilha, também bateu ponto na parada.

sexta-feira, maio 02, 2014
 
A LUTA DE ERIK GÖRANSSON
CONTRA A COLETIVIDADE


Por Tage Danielsson *

Tradução do sueco de Janer Cristaldo

Erik Göransson chamava-se um homem que não teve exatamente uma boa vida ao crescer. Seu pai, Hilmer Göransson, ganhara tanto dinheiro que a maior parte foi paga em impostos. Com os anos, Hilmer Göransson tomou-se cada vez mais amargo com o Estado e a Prefeitura, que implacavelmente aplicavam suas escalas progressivas de imposto aos seus imensos ganhos. Os sensíveis anos da puberdade de Erik Gõransson transcorreram pois em uma atmosfera de azedume e ódio reacionário contra as autoridades.

Quando Hilmer Gõransson faleceu foi encontrada em seu testamento a seguinte passagem:

"Não me sobrou dinheiro algum devido à política tributária deste país. No entanto, paguei ao Estado e à Prefeitura durante minha honesta existência a soma de 4 967 563,90 coroas. Utilizei as estradas do Estado, seus hospitais, escolas, acampamentos militares, etc, num montante (calculado por alto) de 1 695 156,85 coroas. Restam portanto 3 272 407,05, que o Estado e a Prefeitura devem a mim e a minha família. Deixo em testamento este dinheiro a meu filho Erik. No uso perfeito de minhas faculdades mentais, subscrevo-me

Hilmer Gõransson." Erik ficou naturalmente muito alegre por receber tanto dinheiro e foi imediatamente à Receita Federal para apanhá-lo. Imaginem seu espanto de jovem inexperiente quando não recebeu podre öre.

Ante esta incrível mesquinharia Erik foi acometido de uma crise interior. A última vontade de seu pai precisava ser respeitada! O Estado e a Prefeitura veriam com quem estavam tratando!

Erik sentou-se e pensou como poderia escamotear do Estado e da Prefeitura todo esse dinheiro que lhe pertencia. Primeiro, pensou, durante toda minha existência devo ganhar tão pouco dinheiro quanto possível, de modo que meus pagamentos de imposto sejam insignificantes. Caso contrário, apenas aumentará a dívida do Estado em relação a mim. Segando, continuou, vou tomar-me extremamente caro ao Estado e à Prefeitura, de todas as formas imagináveis. Se eles pensam que vão ficar com o dinheiro de papai, estão redondamente enganados!

Após a morte do pai, Erik foi para o ginásio. Procurou repetir cada série, com o que recebeu 9 650 coroas escamoteadas às autoridades sob a forma de pagamento de professores, material escolar, etc. Dedicou-se assiduamente a abrir buracos com um canivete nos bancos da escola, que tiveram de ser trocados várias vezes. Um ganho para Erik de 560 coroas.

Quando ia terminar o secundário, começou a estudar intensivamente, e como tinha boa cabeça conseguiu ótimas notas. A vantagem disso é que poderia obter auxílio e subvenção o Estado para estudar na universidade. Conseguiu-os sem problema algum. Mas primeiro deveria fazer o serviço militar.

Com o uniforme da Coroa Erik faturou uma boa grana do Estado. Comeu imensas porções de comida da Coroa (boa não era, mas ele precisava comê-la pelo dinheiro do pai), era extremamente descuidado com o material da Coroa e tornou a vida tão amarga para os oficiais que estes se dirigiram ao Tesouro exigindo acréscimo de salário por condições adversas de trabalho. A defesa sueca jamais tivera antes um soldado que abateu tantos bonecos de tiro ao alvo, estraçalhou tantos pares de calça e pôs abaixo tantas paliçadas como Erik Göransson.

Erik anotou minuciosamente cada öre que ele custava ao Estado e à Prefeitura. Ao final do serviço militar havia retomado da coletividade nada menos que 260 546:64 coroas do dinheiro falecido Hilmer Göransson.

Agora aproximavam-se os estudos universitários. Que profissões, perguntou-se Erik Göransson, custam mais dinheiro ao Estado e à Prefeitura? Bem, respondeu, naturalmente são os professores na área humanística, que vivem toda a vida a custas da coletividade através de auxílios para pesquisas e outros mais, sem dar ao Estado e à Prefeitura compensação alguma em forma de dinheiro vivo. Serei professor.

Assim começaram as autoridades, lenta mas inexoravelmente, a pagar sua grande dívida para com Erik Göransson em forma de pagamentos de estudos e outras despesas. Mas Erik conseguiu ainda ganhos extras de várias coroas por dia caminhando e sujando as ruas. Uma das ocupações favoritas de Erik era apanhar toda a espécie possível de formulários nas agências de correios e telégrafos e outras instituições públicas. Punha os formulários em uma sacola, que depois esvaziava nas ruas e praças de forma que os salários dos trabalhadores da Prefeitura subiram, consideravelmente. Com apenas este simples expediente ele ganhava umas boas vinte coroas por dia da coletividade.

Por fim Erik tomou-se professor em lingüística comparada. Recebia agora um salário sobre o qual tinha de pagar imposto, mas este não era muito alto, e o que o Estado retomava por um lado, perdia pelo outro. Entre outras coisas, Erik encomendou do estrangeiro a custas do Estado pilhas de inútil literatura especializada em lingüística comparada, honrando assim a memória de seu pai.

Casou-se e teve filhos, mais pelos auxílios natalidade e maternidade que por qualquer outra razão. As crianças foram especialmente instruídas a quebrarem em pedacinhos as gangorras dos parques infantis públicos e a fazer orelhas nas cartilhas da escola.

0 professor Erik Göransson obteve ainda permissão para fazer uma viagem de estudos à Mongólia para pesquisar como os mongóis pronunciam o som tj. Viajou em primeira classe e em sua chegada providenciou uma caravana de camelos com todo o conforto possível e TV nas tendas. A dívida da coletividade com Erik Göransson baixou com isto a apenas alguns milhões de coroas.

Por mais que se esforçasse e trabalhasse e destruísse sinais de tráfico na escuridão da noite, ao atingir a aposentadoria lhe restava ainda cobrar 896 574:13 coroas da herança de seu pai. Havia apenas uma forma de recebê-la do Estado e da Prefeitura: viver ainda muito tempo.

E Erik Göransson viveu e viveu e quitou a dívida com a aposentadoria popular, aposentadoria no magistério, fundo de garantia e auxílios-doença (saía no inverno sem chapéu para manter-se gripado). Aos 87 anos finalmente débito e crédito se igualaram e a dívida da coletividade para com Erik Göransson finalmente chegou a zero. . * "Agora começa a vida", gritou Erik Göransson”.

E morreu.

* Conheci Tage Danielsson (1928-1985) em Estocolmo, em 1982, quando visitei a Suécia a convite do Ministério de Relações Exteriores sueco. Jovial e sempre irônico, me recebeu com fidalguia em sua casa. Danielsson foi um dos mais importantes escritores suecos do século passado, dividindo sua criatividade entre a literatura e o cinema. Crítico mordaz de sua própria sociedade, a Suécia cosmopolita e superdesenvolvida, seus contos continuando ecoando no mundo contemporâneo. O conto traduzido pertence à coletânea Estórias para crianças de mais de 18 anos.