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segunda-feira, março 08, 2010

En hommage au jour:
O MOMENTO DA LUZ

Ney Messias *



Difícil de entender os grandes, os que são árbitros da nossa vida e da nossa morte. Só sei que eles fazem discursos e que a cada discurso há um escândalo e uma nova dificuldade. Depois da Primeira Guerra Mundial eles organizaram a Liga das Nações, o maior picolé que já se derreteu ao calor das contendas internacionais. Os discursos da Liga das Nações prepararam a Segunda Guerra Mundial. Depois dela, os grandes estruturaram a Organização das Nações Unidas: mais discursos, desta vez virgulados com bombas nucleares. A gramática, embora inútil, tem agora novas nomenclaturas. Nixon lança um apelo, aos membros da Organização, no sentido de que convençam Hanói a aceitar a paz no Vietnam. Gromyko responde com outro discurso, dizendo que os EUA “não seriam realistas em acreditar que poderiam obter, na mesa de negociações, o que não conseguiram nos campos de batalha com um exército de meio milhão de homens”. Oh! Eles têm as suas razões, esses densos homens que falam em nome dos povos, porque os povos não podem falar.

Não há uma fotografia de Nixon, apanhada no momento histórico do apelo. Mas há uma de Gromyko neste jornal que acabo de ler. Não é a sua densidade o que me espanta, mas um vislumbre de humanidade que se nota na sua pose de glorioso climatério. Foi fotografado no momento em que interrompia o discurso para ver passar, diante de sua tribuna, uma jovem secretaria da ONU em minivestido. A figurinha é esguia, límpida, rítmica, sexy: um ponto de exclamação na saudável libido dos povos, um aceno de amor entre os discursos de guerra. Gromyko a viu passar, num interlúdio de silêncio, e depois continuou “orgulhoso de ver que a ajuda da URSS multiplica as possibilidades do Vietnam do Norte em sua luta difícil e heróica”.

Esse fugaz momento em que Gromyko suspendeu a frase para ver desfilar o mistério da anatomia de uma jovem, recoberto precariamente pelo minivestido, é a única esperança que resta. É possível que nesse momento a catadura de Magalhães Pinto, o sorriso industrial de Nixon e o hálito equívoco de Gromyko tenham melhorado e eles hajam pensado: “Isso, em beleza, em saúde, em promessa, é o que a guerra destrói”. Se pensaram assim, não foi o coração, nem foi a lógica, nem o orgulho das potências armadas que os fez pensar: foi o dom da luz, o milagre dos olhos que são os funcionários da luz.

Não creio que haja, entre os sentidos externos do homem, algum maior do que a vista, do qual todos os outros são complementares. É a luz que revela a ondulação de uma jovem desfilando, a caminhar para o futuro, em frente da tribuna de Gromyko. Não é em vão que, no mito do Gênesis, Deus criou o mundo no escuro, e depois, vendo a Terra sem forma e vazia, e sentindo as trevas sobre a face do abismo, disse a palavra inicial, a primeira palavra pronunciada por alguém depois que, no silêncio original, e nos confins da escuridão cósmica, os céus e a Terra foram criados: “Fiat lux”.

Faça-se a luz! Já havia cheiros, já havia corpos a apalpar, já havia o sabor das águas e da Terra, mas só quando houve a voz do Senhor falando para ordenar a existência da luz foi que tudo ganhou existência, porque o ato de ver se tornou possível. Apalpar a curva que a luz ilumina; sentir o gosto de fruto que é primeiro uma dança vermelha nas pupilas; aspirar o aroma do corpo amado que emerge da escuridão, como um peixe maravilhoso, para a rede tecida de raios de sol; saber que a palavra, que o ouvido escuta, não é de um monstro, mas da forma esperada que só se revela sob o foco da luz, tudo isso é o milagre dos olhos, o esquecido milagre do mundo iluminado.

Esse instante, em que Gromyko suspendeu a frase que pronunciava para enxergar um raio de luz que a opacidade do minivestido não escondia, é um resto do Gênesis, uma semente que pode um dia, talvez, ser lançada à terra do conflitos para explodir na flor da paz. Ainda bem que uma jovem translúcida e sadia consegue fazer parar, por um instante, o alarido da guerra. Essa hesitação de Gromyko, diante da juventude que cantava naquele corpo de menina faceira, foi o maior momento desse festival de discursos inúteis que é a Assembléia das Nações Unidas.

* Ney Messias, advogado e professor de Direito em Porto Alegre, foi, a meu ver, um dos maiores e mais densos cronistas do país. Vítima de câncer, morreu em 1970. Esta e outras crônicas, publicadas originalmente na Folha Esportiva, foram coligidas por este que vos escreve na antologia O Construtor de Mistérios.