TRÊS PAIS NOSSOS
E LAVA A BOCA!
Surpresa ao ler ontem, na edição do El País, esta manchete:
EL FISCAL VATICANO PARA LA PEDOFILIA
RECONOCE 3.000 CASOS EN OCHO AÑOS
Minha surpresa não reside no fato de uma autoridade do Vaticano reconhecer 3.000 casos de pedofilia. Tampouco na safadeza do fiscal vaticano, que reduz a oito anos o universo de busca. Só na Irlanda, seriam 25 mil os abusos sexuais de crianças pobres nas escolas católicas, durante quase 70 anos. Isso sem falar de outros milhares na Alemanha e Estados Unidos. Não, isto não me surpreendeu. O que me causou espécie foi ver El País falar em pedofília. Pelo jeito, pela força dos fatos, entrou uma nova palavra no espanhol de Castilla, la Vieja.
A palavra não consta do dicionário da Real Academia, muito menos do Maria Moliner. Para definir o que chamamos de pedofilia, os espanhóis sempre usaram pederastia. Palavra que, para nós, tem outra conotação. O fiscal do Vaticano em questão é monsenhor Charles Scicluna, entrevistado pelo diário Avvenire, da Conferência Episcopal Italiana. "Promotor de justiça" da Congregação para a Doutrina da Fé, monsenhor não gosta muito da palavra pedofilia. Prefere falar em delicta graviora, os delitos que a Igreja católica considera absolutamente os mais graves, isto é: contra a Eucaristia, contra a santidade do sacramento da Penitencia e o delito contra o sexto mandamento ("Não cometerás atos impuros") por parte de um clérigo com um menor de 18 anos. Delicta graviora soa melhor que pedofilia. Mais elegante.
No que vai um grosso sofisma. O entrevistador, que certamente jamais leu a Bíblia, não lembrou a monsenhor que este “não cometerás atos impuros” não existe no Livro. Você pode revirá-lo de ponta a ponta e não o encontrará. É coisa de catecismo. Na Bíblia, existe no máximo o “não adulterarás”, o que é bastante distinto. O insigne promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, pelo jeito, não tem muita familiaridade com os textos sagrados. Por outro lado, nem no catecismo – que deve ter sido a fonte de monsenhor – se fala de atos com um menor de 18 anos. Ato impuro é ato impuro, seja com maior, seja com menor.
As declarações de monsenhor surgem nestes dias em que as denúncias de pedofilia estão se aproximando perigosamente do santo dos santos, o Vaticano. No início deste mês, surgiu na Alemanha notícia envolvendo nada menos que o padre Georg Ratzinger, regente do coral da catedral de Regensburg (Ratisbona). Ratzinger, isto lembra algo ao leitor? Pois bem, é o irmão do outro, o Joseph Ratzinger. Vulgo Bento XVI.
Descobriu-se recentemente que os meninos-cantores da catedral de Regensburgo eram pasto dos padres que os educavam, entre 1958 a 1973. E padre Georg, o irmão do Bento, dirigiu o coral da catedral de 1964 a 1994. Claro que, como Lula, ele não sabia de nada. Quinze anos de abusos e nada transpirou junto ao regente do coral.
Fosse só isto, seria pouco. Recentes denúncias implicam o irmão do irmão, isto é, o próprio Bento. Um sacerdote alemão obrigou um menor de onze anos a praticar-lhe sexo oral e foi transferido de Essen a Baviera quando Ratzinger – o Joseph, isto é, o atual papa – que foi bispo de Munique entre 1978 e 1981, era o responsável pelo traslado dos curas. Na Baviera, o padre pedófilo foi posto a trabalhar sem interrupção na comunidade e nunca foi denunciado à justiça civil, muito menos afastado de seu cargo, pois continua exercendo o sacerdócio.
Para monsenhor Scicluna, o promotor de justiça do Vaticano, as acusações que pretendem que o papa tenha contribuído a abafar os abusos sexuais são “falsas e caluniosas”. Curiosa coincidência. É o mesmo que diz Lula e o PT a respeito das denúncias do mensalão e demais corrupções do PT.
Mas a imprensa está exagerando. Uma felaçãozinha aqui, outra acolá, não é coisa que não tenha conserto. Leiamos este relato de Peter Rueth, um ex-coroinha em um lar para crianças dirigido pelos salvatorianos perto da cidade de Paderborn, no noroeste da Alemanha, noticiado pelo Der Spiegel:
“Certa manhã, quando ele estava sozinho no vestiário comigo, um padre fechou a porta para ouvir minha confissão antes da missa. Ele disse: apenas um espírito puro pode servir a Deus. Eu tive que me sentar em uma cadeira. Então o padre me vendou com sua estola e amarrou minhas mãos com outra peça, dizendo que tinha que fazer isso porque supostamente não se deve ver a outra pessoa durante a confissão. Ele me pediu para falar sobre meus pecados, e quando confessei, ele me disse que, como punição, eu devia abrir minha boca para que ele pudesse colocar uma esponja embebida em vinagre, como a esponja que foi oferecida ao Senhor na cruz.”
Após degustar a esponja embebida em vinagre, o menino foi instruído a recitar o Pai Nosso três vezes e lavar a boca. Nada que um bom ato de contrição não resolva.