¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, junho 04, 2006
 
TESTEMUNHA DO ALÉM ABSOLVE NA TERRA



Nunca convivi com espíritas. Só fui ver um há três anos. Quando morre alguém perto da gente, de onde mal se suspeita sempre salta um espírita vendendo suas muletas metafísicas. Minha mulher morrera há mais de mês e eu conversava com amigos comuns. Em dado momento, uma moça atalhou: "Eu conversei ontem com ela". Nessas ocasiões, tomo uma atitude de crédulo. Se a moça afirmava com tanta convicção ter conversado com minha mulher, não seria eu quem iria contestá-la. Perguntei apenas o que ela havia dito. Ela deixou uma mensagem, disse a moça: "seja feliz".

O que me lembrou a aparição de Maria aos três pastores em Fátima. Quando interrogada sobre quem era, teria dito a Virgem: "Eu sou a Nossa Senhora". Ora, sendo Maria mais que santa, semideusa, não é de supor-se que tivesse domínio tão precário do português. Se se dirigia aos três pastores, o correto seria: "Eu sou a Vossa Senhora". Por um descuido sintático do narrador, o milagre ficou prejudicado.

Da mesma forma, a mensagem de minha companheira. Éramos gaúchos. Depois de passarmos por Curitiba e São Paulo, ela passou a usar o você, mas apenas ao tratar com curitibanos e paulistanos. Jamais me trataria por você. Como a comunicação de Maria, a de minha mulher também ficou sob suspeita. Mas não neguei o testemunho da moça. Aproveitei o ensejo para pedir-lhe que, quando falasse de novo com ela, pedisse o código do celular, que eu havia ficado sem.

A moça entrou em pane, achava que não ia dar, códigos são coisas confidenciais, começou a perguntar que horas são e logo deu as de Vila Diogo. Contei a história mais tarde a professores universitários e um deles, também espírita, prometeu-me perguntar às instâncias do Além sobre o código do celular. Mas me alertou que o médium teria de ser muito poderoso para descobri-lo. Bem entendido, nunca mais me falou no assunto. Nem eu precisava do código, afinal sempre o tive e queria apenas divertir-me com a capacidade comunicativa dos tais de médiuns.

Talvez código de celular seja matéria de pouca monta. Assuntos de mais gravidade, como a absolvição de um crime, têm imediata atenção do Além. Aconteceu em Viamão, RS. Uma mulher de 63 anos, acusada de matar um tabelião, com dois tiros na cabeça, foi inocentada, por 5 votos a 2, da acusação de mandante de homicídio. Inocentada por quê? Porque uma carta psicografada da vítima declarava: "O que mais me pesa no coração é ver a Iara acusada desse jeito, por mentes ardilosas como as dos meus algozes (...). Um abraço fraterno do Ercy", leu o advogado de defesa, ouvido atentamente pelos sete jurados.

Vamos ao que diz a Folha de São Paulo sobre o fato:

Não consta das cartas, psicografadas pelo médium Jorge José Santa Maria, da Sociedade Beneficente Espírita Amor e Luz, a suposta real autoria do assassinato. O marido da ré, Alcides Chaves Barcelos, era amigo da vítima. A ele foi endereçada uma das cartas. A outra foi para a própria ré. Foi o marido quem buscou ajuda na sessão espírita. O advogado, que disse ter estudado a teoria espírita para a defesa (ele não professa a religião), define as cartas como "ponto de desequilíbrio do julgamento", atribuindo a elas valor fundamental para a absolvição. (...) Os jurados não fundamentam seus votos, o que dificulta uma avaliação sobre a influência dos textos na absolvição. Os documentos foram aceitos porque foram apresentados em tempo legal e a acusação não pediu a impugnação deles.

Curvem-se as nações mais uma vez ante este colosso, o Brasil. Glória ao Rio Grande do Sul, este Estado pioneiro em matéria de ciência jurídica. Viamão über alles. Que sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra, como diz o hino rio-grandense. Esta extraordinária inovação do tribunal do júri, verdadeiro ovo de Colombo ainda não intuído pelos sistemas judiciários dos demais países, dirime definitivamente quaisquer dúvidas que possam pairar sobre os veredictos dos jurados. Quem com mais autoridade para inocentar um réu senão a vítima? Está morta, é verdade. Mas se os espíritas consideram ser possível falar com os mortos, em nome do sagrado respeito a todas as profissões de fé, não seremos nós, ateus empedernidos, que contestaremos tal crença. Só nos resta esperar que este novo recurso jurídico se integre definitivamente ao Direito Processual e seja mais e mais utilizado pelos nossos tribunais.

Que estão esperando as autoridades que investigam os assassinatos dos prefeitos de Santo André e Campinas? Irão invocar os espíritos de Celso Daniel e Antonio da Costa Santos (o Toninho do PT) apenas ao final de algum júri, que só será realizado quando algum suspeito for indiciado? Por que não invocá-los já, na fase inicial do processo, para que determinem, com aquela veracidade que conferimos aos depoimentos de defuntos, quem de fato os assassinou? No caso do prefeito de Santo André, teríamos mais sete mortos a depor. Médiuns competentes bem que poderiam organizar uma coletiva no Além, invocando todos os espíritos na mesma data e hora. O que certamente não terá inconveniente algum, já que espíritos não devem ter agendas apertadas. Como é de supor-se que mortos não mintam e seus depoimentos sejam considerados de fé pública, os crimes seriam elucidados em um átimo.

Já que falamos de crimes momentosos, começa nesta semana o julgamento de Suzane von Richthofen e seus cúmplices no assassinato de seus pais, que tiveram seus crânios esfacelados com barras de ferro. Segundo os jornais, a acusação tentará provar que Suzane matou os pais para pôr as mãos na herança da família. Já a defesa pretende que a meiga Suzane era uma moça de conduta irretocável e temperamento doce, mas de cabeça virada por influência do rapaz que a iniciou na vida sexual e no uso de drogas. É espantoso que, tendo ciência do precedente de Viamão, o tribunal do júri ainda sequer tenha aventado a hipótese de invocar os espíritos de Manfred von Richthofen e particularmente o de sua mulher, Marísia. Quem sabe Suzane não era mesmo moça de conduta irretocável e temperamento doce. Coração de mãe nunca se engana.

Claro que problemas podem ocorrer. Digamos que haja divergências nos testemunhos do Além. Nada que não se resolva com a colaboração de um perito médium, que confrontará as afirmações dos protoplasmas. E se você, leitor, pelas circunstâncias da vida, algum dia se encontrar na condição de réu de homicídio, nem pense em advogados. Contrate logo um bom médium. Aliás, considerada a trouvaille gaúcha, está mais do que na hora de regulamentar a profissão.