¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, outubro 25, 2007
 
CANONIZAÇÃO JÁ!



Apoio da Igreja é o que não falta ao padre Júlio Lancellotti, desde ontem acusado formalmente da prática de atos libidinosos com menores. O bispo Pedro Luiz Stringhini, da região episcopal de Belém, zona leste, disse confiar no religioso, que conhece há mais de 30 anos. Para ele, Lancellotti é uma pessoa "pobre" que se viu vítima de um esquema de extorsão. "Ele anda de ônibus e metrô; foi enganado e teve de dar dinheiro sem querer". É o que nos informa a edição de hoje do Estado de São Paulo.

O que o solícito prelado parece não ter entendido é que, com sua declaração, enreda ainda mais o defensor incondicional dos meninos de rua e "casinhas" (nova denominação para os antigos febens). Como pode uma pessoa pobre financiar uma Pajero a um pobre excluído, cujo único pecado foi aspirar a possuir o que os incluídos possuem? Sem falar que padre Júlio não foi tão mesquinho como diziam as primeiras notícias, que falavam de 50 mil reais. Em verdade, padre Júlio foi mais generoso, na esperança de trazer ao redil a ovelha perdida. Foram 80 mil reais, conforme desmentido do próprio padre. A desastrada defesa do bispo só serve para colocar sob suspeita o santo e desprendido homem.

Já avancei o nome do padre Júlio para eventual canonização. Recente revelação de uma ex-funcionária da Casa Vida 2 só confirma a boa fundamentação de minha proposta. A entidade abriga crianças e jovens portadores de vírus da Aids com idades entre 8 e 14 anos. A ex-funcionária diz ter visto padre Júlio tocando o adolescente.

Ora, lemos no evangelho de Mateus que quando Jesus desceu do monte, grandes multidões o seguiram. "E eis que veio um leproso e o adorava, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. Jesus, pois, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. No mesmo instante ficou purificado da sua lepra".

São Francisco de Assis não beijou um leproso? Transcrevo o relato de Gianmaria Polidoro:

Francisco "cavalgava distraído quando uma figura desagradável o fez voltar a si. Diante dele, em seus andrajos e com o rosto entumecido, estava um leproso. Francisco sentiu um amargo na boca e não deu conta do que estava fazendo: puxava as rédeas do cavalo para voltar e fugir. Um gesto instintivo, pois os leprosos o impressionavam muito.

"Voltou a si; um momento de indecisão, e girou o leme da própria vida.

"Desceu do cavalo, trêmulo diante da decisão violenta e doce que lhe brotara no interior; procurou dinheiro nos bolsos e o ofereceu ao pobre, boquiaberto por tanta coragem e generosidade; depois forçou-se ainda mais. Tomou a mão do miserável a aproximou dos lábios. Deu-lhe um beijo feito medo e de paixão e, portanto, de impulso, e montou no cavalo mastigando o heroísmo que se havia imposto".

Se Cristo não hesitou em tocar um leproso, se São Francisco não pensou duas vezes para beijar um leproso, como podemos condenar padre Júlio por acariciar um aidético?

Canonização urgente para o santo homem. Ao abrir inquérito para apurar denúncia de corrupção de menores pelo padre Júlio, a polícia está laborando em inequívoco erro. Está confundindo gestos da mais lídima píedade cristã, digno de hagiografias, com atos libidinosos.