¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, novembro 22, 2007
 
Crônicas da Guerra Fria (45)


POR UM FIO


Florianópolis - Leitores pedem que o cronista deixe de falar dessa coisa inconveniente que se chama História. Um deles, que certamente jamais saiu do Brasil e acha que social-democracia é algo distinto do capitalismo, preferiria que eu escrevesse sobre livros, bares, vinhos e mulheres. O que lembra um pouco minha falecida mãe. Em seu instinto cego de preservar a cria, lá pelos idos de 64, não perdia ocasião ao sugerir-me: por que não escreves sobre flores? No Brasil há tantas...

Mas de botânica eu não entendia. Quanto às pautas sugeridas por meu irritadiço leitor, bem ...delas talvez entenda um bocado. Como a fruição simultânea de livros e mulheres é pouco viável, deixo os livros para mais tarde. Evoco então as boas amigas que me aqueceram corpo e alma, com vinhos e afagos, em meus dias de auto-exílio e solidão.

Estocolmo, inverno de 71. As razões que nos impelem a viajar nem sempre são as que alegamos como motivo de partida. Conscientemente, eu fugia de um continente militarizado, do Brasil, do samba e da miséria. As gaúchas recém começavam a libertar-se dos preconceitos de Roma, e eu tinha pressa. Sem falar que, na época, o mito sexual por excelência eram as "adoráveis louras nórdicas". Quando o sol cai por trás dos fiordes, dizia uma atriz, só nos resta ir para casa e fazer amor. É para lá que eu vou, pensou este ingênuo que vos escreve. Pois as suecas eram bem mais inacessíveis do que insinuavam os pacotes turísticos. Tanto que minha primeira "sueca", de sueca nada tinha. Era uma brava cidadã soviética, de Ashkhabad, no Turquimenistão.

Tinha pômulos asiáticos e deles muito se orgulhava. Como língua comum tínhamos o sueco, do qual conhecíamos umas dez palavras. "Jag, vacker" - me confessava Gysel, indicando seu rosto. "Eu, bonita". Acontece que eu partira em busca das louras vikings. "Du vacker i Ashkhabad", respondi. "Tu bonita em Ashkhabad". "Jag, mycket exotisk", insistia a camarada. "Eu, muito exótica". Em suma, acabei partilhando do gosto dos Sveas - que assim se chama aquela tribo que erigiu a Suécia - pelos rostos orientais. Gysel casou-se com um sueco. Não que lhe agradassem os branquelas do Norte. Ocorre que faria qualquer sacrifício para jamais voltar a seu universo soviético.

A adorável loura nórdica surgiu bem mais tarde, afinal elas não dão em cachos à beira da estrada, como imaginam os latinos. Encontrei-a em uma festa, num daqueles verões em que o sol jamais se põe e os suecos correm desvairados pelos bosques. A noite não caía, o dia não amanhecia e o vinho jamais findava.

Se bem me lembro, naquela noite que não era noite, ensinei os nórdicos a dançar samba, logo eu que detesto samba, o que deve dar uma vaga idéia de meu estado etílico. Summa av kardemuma, como dizem os suecos: acabamos coincidindo na mesma cama. Amor? Nada disso, era puro porre. Em todo caso, daquela coincidência - como direi? - quase geográfica, resultou uma cálida amizade que embalou meus dias junto ao Ártico. Lena iniciou-me nos melhores autores suecos, e a ela devo minha descoberta de Karin Boye e a tradução de Kalocain ao brasileiro.

Como também meu primeiro livro, O Paraíso Sexual Democrata. Lena me havia introduzido no fechado universo estocolmense, nada mais justo do que dedicar-lhe meu ensaio. Justo até certo ponto, já que no Brasil me esperava minha companheira. Decidi como Salomão, dediquei-o às duas. Quanto a Lena, casou-se com um romeno. Em suas viagens como guia turística, encontrara Alex e decidiu tirá-lo da miséria e da tirania dos Ceaucescu. Jamais me deixava jogar no lixo sacos de plástico, "em Bucareste, isso vale uma fortuna e dá status". E foi essa a primeira idéia que tive da Romênia, um país onde o lixo das social-democracias era disputado como símbolo de prestígio.

Com Lena degustei minha primeira Uzicka Sljivovica e soube que na Iugoslávia havia uma ilha chamada Krk. (Para os cinéfilos atentos, em O Silêncio, de Bergman, Ingrid Tulin bebe este aguardente à base de ameixas). De modo que, ao encontrar uma iugoslava com o nome cheio de kas e ves, passei logo a chamá-la de Krk. Mas sigamos a cronologia. Antes aconteceu Úrsula, polonesa refugiada em Paris. Não era dissidente, nada disso. Era apenas jovem e queria viver. Após alguns anos de espera, conseguira vaga em uma excursão para a Iugoslávia. De lá, teria de voltar à Polônia, já que os iugoslavos, cujas fronteiras estavam abertas apenas para os nacionais, não lhe permitiriam sair rumo á Europa livre. Em uma nesga da Áustria, em uma pausa para fazer xixi, abandonou o ônibus e sua pátria. No que não foi nada original: para Varsóvia voltaram só dois polacos, o motorista e o guia.

Úrsula seguidamente me surpreendeu com quilos e quilos de prospectos turísticos, propondo viagens pelo Nepal ou Nova Zelândia, Brasil ou Patagônia, Itália ou Espanha. Mas que fazes com esses folhetos - perguntei - afinal mal tens dinheiro para o metrô? "São de graça. E me fazem sonhar. Em meu país, até sonhar é proibido". Como adoro apresentar a alguém uma cidade que me fascina, convidei-a em uma de minhas viagens a Berlim. "Tenho medo, meu urso tropical. De trem, não vou nem atada, tenho de atravessar a Alemanha comunista e me mandam de volta para a Polônia. E para avião, me falta a grana". Enfim, acabou dando um jeito em ir de avião, rezando para que nenhum imprevisto a obrigasse a uma aterrissagem forçada em território alemão oriental. Do muro, manteve distância. A simples proximidade do horror lhe causava medo.

Enfim Krk. Chama-se em verdade Katica - pronuncia-se Katitza, o que soa bem mais terno - e a ela dediquei minha tese de doutorado. Peoniana, como Alexandre, era dirigente das juventudes comunistas da Macedônia. Nos encontramos em Paris, e não creio que por acaso. Quando duas pessoas gostam de Paris, vinho e literatura, o mais provável é que um dia tropecem uma na outra em algum bistrô do Quartier Latin. Estudávamos Literatura Comparada, disciplina que se nutre de viagens, exílio e traduções. Não que ela fosse exilada. Na época, a Iugoslávia era o único país do Leste europeu a permitir o livre tráfego de seus cidadãos. Orgulhosa de sua república, a Macedônia, Krk insistia para que eu a visitasse. O que fiz tão logo pude.

No barco de Bari para Dubrovnik, entabulei conversa com uma dálmata, que não entendia o que levava um brasileiro às terras de Tito. É que conheço uma macedônia, expliquei. Tive então, pela primeira vez, uma percepção da fama daquelas gentes: "ma sono tutti testadura" - exclamava a dálmata.

Hóspede privilegiado dos camaradas macedônios, eu preferia defini-los como altivos. E inflexíveis como um poste. Entre íntimos, em interiores aquecidos por um bom vinho, a discussão era livre e nada ortodoxa. Mas bastava que entrássemos em um ônibus, bar ou qualquer recinto público e lá se instalava, onipresente, aquele sentimento que tanto torturava Úrsula, o medo. Cabe lembrar que meus anfitriões pertenciam à Nomenklatura iugoslava. E quando a própria Nomenklatura tem medo, pode-se imaginar o que sente o cidadão comum. Poeta e contaminada pelos ares de Paris, Katica queria demonstrar-me que em seu país havia liberdade de expressão. Não conseguiu.

Em qualquer banca de jornais nas capitais brasileiras, mesmo durante o regime militar, havia mais evidência de democracia que nas bancas da Macedônia. Uma peste qualquer do século havia secado o solo que gerou Alexandre, o criador da primeira universidade da História. A Iugoslávia está por desintegrar-se. Talvez desapareça do mapa, mas sempre permanecerá em minha memória, país onde, sem entender língua alguma, não me senti estrangeiro.

Palavra puxa palavra e acabei desviando do assunto. Nesta altura, o leitor já deve estar intrigado. Ou o cronista é obcecado por meninas do Leste, ou fazia espionagem sexual. Nem uma, nem outra. Como comparatista, por um dever de ofício, estendi minhas pesquisas ao Ocidente. Em boa parte de minhas amigas do lado de cá constatei também um desejo de fuga, apenas as motivações eram distintas. Enquanto as camaradas do Leste queriam liberdade, as ocidentais partiam em busca de algo inefável. Uma de minhas professoras de francês, parisiense da gema, foi várias vezes a Cuba cortar cana. Voltava às margens do Sena com as mãos escalavradas pelo machete, por demais enrijecidas para o afago. O que te leva a abandonar Paris para cortar cana para Fidel? -perguntei. Solidariedade ideológica? "Não é bem assim. Acontece que conheci um dirigente do PC cubano..."

Ah, bom! Agora, eu entendia, mas cortar cana em Cuba passou de moda, como passam todas as modas. De volta ao Brasil, curiosamente, fui encontrar motivação semelhante em Florianópolis. Uma amiga, sempre que podia, juntava uns três mil dólares e ia colher café e passar fome na Nicarágua. Nos dias de Ortega, bem entendido. Não que a revolução a fascinasse. "É que conheci um comandante guerrilheiro num congresso do Partido".

O que me fez concluir que, nas ocidentais, as ideologias se transmitem por via uretral. Ou, como diria o gaúcho, um fio de pentelho puxa mais que vinte juntas de boi. Voilà, consegui mudar de assunto.


(Porto Alegre, RS, 12.01.91)