¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, março 31, 2008
 
ZDANOVISMO COM NOME NOVO



Veja desta semana pretende criar um neologismo, “pobrologia”. A reportagem, de Leandro Narloch, trata dos documentaristas brasileiros que adoram a pobreza, cujos filmes sobre o tema já constituem um gênero. Lembra a ambição vã de Reinaldo Azevedo, o recórter chapa-branca tucanopapista tomista hidrófobo que pretendeu ter criado a palavra pobrismo, que já existia há meio século.

Quanto ao personagem, diz a reportagem,

- qualquer pobre está valendo. Melhor ainda se ele for um tipo exótico e viver num ambiente pitoresco, como a doente mental de Estamira.

Quanto à fotografia,

- deve capturar “a beleza em meio à miséria”. Focalize o rosto pobre sempre em closes estourados, como em Sumidouro.

Quanto ao roteiro,

- não se preocupe com esse “detalhe”. As obras-primas da pobrologia exploram, invariavelmente, três personagens: o pobre, o rico (culpado pela situação do primeiro) e o líder de esquerda que luta para mudar a situação.

E por aí vai. Narloch deve ser jovem. Certamente nunca ouviu falar de zdanovismo. Ou realismo socialista, como ficou conhecida a nova doutrina estética russa. Coincidentemente, comentei em crônica passada o realismo socialista em Jorge Amado. Foi besteirol ideológico praticado com muito entusiasmo, não só no Brasil, como até mesmo na Europa.

Além de Jorge Amado, outros tentaram, sem maior sucesso, seguir-lhe as pegadas. Entre eles, Dalcídio Jurandir, com Linha do Parque; Alina Paim, com A Correnteza e A Hora Próxima; José Ortiz Martins, com Eles possuirão a Terra (tradução do título de um romance de Robert Charbonneau, publicado em Montreal, em 1941); Maria Alice Barroso, com Os Posseiros; Ibiapaba Martins, com Sangue na Pedra; Figueiredo Pimentel, com A Inspiradora de Luís Carlos Prestes; Lauro Palhano, com O Gororoba, Marupiara e Paracoera.

Escritores de porte, cá e lá, não deixaram de dirigir acenos à nova religião. É o caso de Graciliano Ramos, em São Bernardo e Viagem; Oswald de Andrade, em A Escada Vermelha e O Homem e o Cavalo e Patrícia Galvão, em Parque Industrial. Pagu, justiça seja feita, ao manter um contato mais prolongado com a realidade soviética, torna-se o primeiro escritor, no Brasil, a denunciar o stalinismo. Por outro lado, homens como Aníbal Machado e Dyonélio Machado, embora sendo militantes do Partido Comunista, em momento algum se renderam ao novo gênero.

Se Graciliano, apesar de seu culto crepuscular a Stalin, manifesto em Viagem, não se deixou fascinar pelas teorias de Zdanov - a quem considerava “uma besta” - Amado a elas entregou-se qual noiva ardente. Por ocasião da morte de seu mestre, em O Mundo da Paz, carpe sua viuvez:

“Foi em Varsóvia, numa cálida noite de verão, que soubemos a notícia da sua morte repentina quando tanto ele tinha ainda a nos ensinar. Estávamos numa alegre conversa, escritores e artistas de vários países, quando alguém chegou com a terrível nova: ‘Zdanov morreu!’. Entre nós estava Alexandre Fadéev, mestre do romance soviético, amigo e colaborador do homem que, nos últimos anos, deu mais concreta contribuição ao desenvolvimento da literatura e da arte. Pelo resto da noite indormida, Fadéev, emocionado, contou de Zdanov. Parecia-nos tê-lo ali, junto a nós, comandando o povo de Leningrado na resistência indomável, vencendo não só os inimigos nazistas mas também a fome e o medo, o desânimo e o desespero. Nós o víamos, depois, andando para um piano, na discussão sobre música com os compositores soviéticos, para ilustrar, tocando um ária qualquer, as teses justas que explanava, ele a quem não parecia estranho nenhum problema da ciência política, da filosofia, da literatura e da arte, esse exemplo da cultura bolchevique.

“A voz de Fadéev, molhada de dor, trazia para junto de nós, naquela noite de luto, a presença do grande desaparecido. Pensávamos na estrada aberta, sob seu comando, sob o gelo, cada dia apagada pela neve, cada dia reconstruída, que garantia o contato de Leningrado assediada com o resto da pátria. Pensávamos nele, nessa mesma cidade de Varsóvia, em 1947, fazendo seu histórico informe na primeira reunião do Bureau de Informação dos Partidos Comunistas. Gigante do pensamento humano, esse outro filho da classe operária, educado pelo Partido Bolchevique, nascido dos ensinamentos de Lênin e Stalin.”

Os novos documentaristas brasileiros estão apenas repetindo a fórmula antiga e rançosa do zdanovismo. O que o repórter de Veja pretende rebatizar como pobrologia. Não há pobrologia alguma. O que há é o velho pensamento stalinista, do qual os intelectuais brasileiros ainda não conseguiram se libertar.