¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, fevereiro 04, 2009
 
ARGUTOS LEITORES
DEMOLEM CRONISTA



Recebi algumas críticas arrasadoras a meu artigo sobre o Woodstock das esquerdas, isto é, o recente Fórum Social Mundial, realizado em Belém.

“Salvo algumas frases, que foram bem colocadas, no geral nunca li um texto tão idiota na minha vida, escreve Leonardo Korndorfer.

“Frase nenhuma se salva. Idiota é pouco, muito pouco” – diz Sofia.

“Se o autor despreza tanto o MST, deve ser porque acredita que os latifúndios do Brasil foram havidos de forma legal. Certamente, o autor não mora numa grande cidade, onde sofreria com a violência causada pela êxodo rural caótico que ocorreu no Brasil. O autor deve ser daquelas 200 famílias que possuem uma área igual a duas vezes o estado de São Paulo e que devem rir a toa quando a classe média treme de medo de perder seu apartamento porque um trabalhador vai ser presidente”, escreve Gabriel.

“Pelo texto, parece que o Janer tem algum problema com sexo anal, afinal ele "mete o pau" no pessoal que lá estava, e no final diz que a "revolução" está nessa forma de sexo... hehehehe acho que o Janer tá precisando sair do armário e segurar firme na "bandeira" do MST!” – diz Henrique Klein Filho. Esta foi definitiva. Não sobrou nada de meus arrazoados.

Estou envergonhado, leitores. Vontade de sumir terra adentro. Minha argumentação foi desmontada, ponto a ponto. Não sobrou pedra sobre pedra. Meus críticos foram ao cerne do artigo e o contestaram com virtuosismo. “No geral nunca vi um texto tão idiota na minha vida”. Que posso contestar após tão brilhante argumento? A crônica toda foi destruída com uma só frase de gênio. “Frase nenhuma se salva. Idiota é pouco, muito pouco.” Sinto-me de novo acachapado sob argumentação tão contundente. Nem tenho palavras para responder. Os leitores acabaram me convencendo que fui um embuste minha vida toda. Estou pensando, ao final de minha existência, abandonar definitivamente o jornalismo.

O Gabriel também faz tabula rasa de meu artigo. Verdade que também não entra no mérito de questão alguma, mas tem certeza de que não vivo em cidade grande e que devo pertencer àquelas “200 famílias que possuem uma área igual a duas vezes o estado de São Paulo e que devem rir a toa quando a classe média treme de medo de perder seu apartamento porque um trabalhador vai ser presidente”.

O leitor fez pelo menos algumas observações relevantes à condição do autor. Pena que se equivoca completamente. Vivo em São Paulo, meu caro, a maior cidade do país e não sofro violência alguma causada pelo êxodo rural. O banditismo de São Paulo é essencialmente urbano, resultante inclusive da migração de outras cidades, mas não do campo. Não pertenço àquelas “200 famílias que possuem uma área igual a duas vezes o estado de São Paulo” e sim aquelas centenas de milhares de famílias que possuíam algumas bracinhas de terra e foram empurradas para a cidade pela expansão do latifúndio. Da mesma forma, todo meu clã, que não é pequeno. Graças ao bom Deus dos ateus fomos expulsos do campo. Não fosse isso, lá teríamos permanecido, semi-analfabetos, longe das trocas culturais, da comunicação, da educação e das demais benesses da cidade.

O MST não luta mais por assentamentos. Luta pelo poder. É guerrilha criada pela Igreja Católica e seus líderes deviam estar na cadeia. Esta condição de movimento armado em luta pelo poder ficou amplamente demonstrado em reportagem de Veja da semana passada. Com uns vinte anos de atraso, é verdade, mas antes tarde do que nunca. O MST já nem encontra mais camponeses para seus acampamentos. Precisa buscar sem-terra nos cinturões de ódio constituídos pelas periferias urbanas. E está poluindo os campos com suas favelas rurais.

Há alguns anos, passei por um desses assentamentos, entre Dom Pedrito e Livramento. São ranchos tristes e nus, sem uma árvore sequer no pátio, sem uma só horta no terreno. Pasto algum, cereal algum, plantado em torno às casas ou nos terrenos que medeiam as casas. Os sem-terra, hoje, são favelados e pobres diabos urbanos, sem relação nenhuma com a terra. Não são pessoas expulsas da terra. São sem-terra no sentido mais radical da palavra. Nunca as tiveram, delas nada conhecem e por elas não têm interesse algum. São apenas massa de manobra de apparatchiks inescrupulosos, que declaram abertamente, em alto e bom som, pretender instaurar um regime comunista no país. Logo aquele regime que nasceu obsoleto e morreu nos estertores do século passado.

Este é o cerne da questão. O cerne, as esquerdas não gostam de discutir. Preferem os arabescos colaterais. Mas o argumento definitivamente arrasador, que demole sem piedade minha argumentação, é o de Henrique Klein. Acha que o cronista precisa sair do armário. Com esta singela frasezinha, demoliu toda minha construção intelectual. Ora, caro, nunca entrei em armários. Desde meus tenros anos, sempre defendi o exercício de toda e qualquer sexualidade, desde que não implique coação nem violência. O que tenho criticado é o estímulo oficial do Estado ao homossexualismo. Ora, não é função do Estado estimular sexualidade alguma. A menos, talvez, no caso de decréscimo populacional, o que absolutamente não é o nosso caso.

A alusão ao gel lubrificante se deve ao fato – nunca antes visto na história deste país – de o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, ter aberto edital para comprar 15 milhões de sachês de lubrificantes KY para distribuir aos gays. Se o governo do Pará forneceu 600 mil preservativos para uso dos bravos buscadores de um mundo melhor, Temporão bem que podia dar uma mãozinha para tornar ainda mais melhor o mundo melhor pelo qual lutam os participantes gays do Woodstock das esquerdas.