¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, fevereiro 15, 2009
 
JORNALISTAS SE EXPLICAM
SEM MUITO CONVENCER



Dois dias após a tremenda barriga sobre a brasileira que se automutilou em Zurique e alegou um ataque de skinheads para simular um aborto, as estrelas da Folha de São Paulo começam a apresentar suas desculpas esfarrapadas. Escreve Clóvis Rossi:

“Três ou quatro coisas que ainda é preciso dizer sobre o caso da brasileira Paula Oliveira, atacada ou automutilada nas imediações de Zurique:
1 - Se aceitei, precipitadamente, a versão dela sobre a agressão foi por absoluta falta de razões para duvidar. Afinal, ela não é clandestina nem tem ficha policial nem antecedentes comprometedores. Para que inventaria a história?”

Puta velha do jornalismo, decano dos cronistas da Folha, pelo jeito em toda sua vida de jornalista Rossi nunca viu ninguém inventando histórias. Até parece que nunca ouviu falar da Escola Base, em 1994, onde a partir de histórias inventadas – por crianças que não tinham razão alguma para inventar histórias – seis profissionais do ensino tiveram de fugir para o interior do Estado para escapar a um linchamento e suas vidas profissionais foram destruídas. O caso aconteceu sob as barbas de Rossi.

“2 - Mesmo que tenha se automutilado, não há razões para, ao contrário do que diz certa mídia suíça, o país ficar ofendido pelas críticas à xenofobia. O Partido do Povo Suíço e seu líder, Christoph Blocher, são um embaraço para boa parte do establishment político local, exatamente pela xenofobia. Blocher é da mesmíssima família política de outros líderes da extrema-direita, como o francês Jean-Marie Le Pen e o austríaco Jörg Haider, recentemente morto, para não falar da Liga Norte italiana. O embaraço é tamanho que a União Europeia chegou a impor sanções à Áustria quando o partido de Haider entrou para a coalizão governante. Portanto, a hipótese de um atentado racista era verossímil. Nem seria o primeiro, aliás”.

Se existe xenofobia na Suíça – como aliás em qualquer país do mundo – isto não tem nada a ver com a simulação de um atentado que não houve. Rossi cita líderes da extrema-direita, como Jean-Marie Le Pen e Jörg Haider. Sintomaticamente, não diz uma palavrinha sobre o presidente francês François Mitterrand, que foi colaborador nazista e foi condecorado com o galardão máximo da República de Vichy, a Francisque, por seus bons serviços prestados ao Reich. Mitterrand virou a casaca e passou a militar nas esquerdas. Está acima do bem e do mal.

Rossi cita o embaraço causado à Áustria quando o partido de Haider entrou para a coalizão governante, a ponto de a União Européia ter imposto sanções ao país. Correspondente internacional tarimbado, parece ter esquecido o embaraço causado à França quando a francesa Marie-Léonie Leblanc, que viajava com seu bebê de 13 meses no metrô de Paris, apresentou queixa à polícia de ter sido agredida por um grupo de jovens desconhecidos com idades entre 15 e 20 anos. Os agressores seriam negros e africanos do norte. Rasgaram sua roupa, cortaram seus cabelos, atiraram seu bebê no chão e pintaram suásticas em sua barriga por acreditar que ela fosse judia. Ainda segundo Marie, cerca de vinte pessoas assistiram à agressão passivamente, sem sequer prestar-lhe auxílio. O embaraço foi tamanho que o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, exortou os judeus da França a viajar imediatamente a Israel. "Proponho a todos os judeus que venham a Israel, mas para os judeus da França é absolutamente necessário, e eles devem partir imediatamente", disse Sharon. Como se a França tivesse declarado guerra a Israel.

Alguns dias mais tarde, a investigação mostrava que a moça era mitômana. Pegou quatro meses de prisão com sursis. Segundo a imprensa, ao ser interrogada porque havia descrito seus agressores como quatro magrebinos e dois negros, respondeu tranqüilamente: "Quando eu assisto televisão, é sempre eles que são os acusados".

“3 - Mas, se a versão da polícia for a verdadeira, só vai reforçar a desconfiança com que os brasileiros são vistos em parte da opinião pública europeia. Por mais que a maioria se mate de trabalhar, clandestinos ou não, os escândalos provocados por uma minoria de vigaristas contaminam todos, a ponto de ter ouvido, uma vez, de uma brasileira residente em Portugal, que todas as brasileiras são tratadas como prostitutas”.

Se a versão da polícia suíça for a verdadeira – como ao que tudo indica é – Rossi terá prestado um grande serviço à desconfiança da Europa em relação aos brasileiros, já que os europeus não podem mais nem mesmo confiar em seus jornais e jornalistas mais prestigiosos.

“4 - Presidente da República e chanceler não deveriam tratar publicamente de assuntos policiais, menos ainda antes de ter todas as informações. Devem, sim, criar as condições para a proteção de brasileiros, em vez de comentar os episódios que os envolvam".

Jornalistas também não deveriam tratar publicamente de assuntos policiais – aliás de assunto algum, antes de ter – não digo todas – mas pelo menos as informações necessárias para não difamar um país.

Eliane Cantanhêde, por sua vez, distribui volontiers a todos – não sei se brasileiros ou apenas jornalistas - a responsabilidade de sua irresponsabilidade:

“Estamos todos morrendo de vergonha com a reviravolta do caso Paula Oliveira: ninguém viu skinhead nenhum, há possibilidade de automutilação, e a moça nem sequer estava grávida”.

Estamos quem, cara-pálida? Eu não estou morrendo de vergonha. Nem todos os demais jornalistas e leitores que ficaram com um pé atrás após os primeiros relatos. Toda notícia falsa traz em seu bojo elementos de inverossimilhança. Onde estavam os fetos decorrentes do aborto? Cortes na pele provocam aborto? Como pode ser atacada uma moça, às 19h30 da tarde, em uma estação de trem por três marmanjos, sem que nenhum usuário da estação testemunhasse a agressão? Cantanhêde, jornalista também com não poucos anos de carreira, se jogou às cegas nas primeiras versões da notícia, sem a mínima preocupação de checar os fatos.

“Lula chegou a berrar contra "tamanha violência", Amorim acusou "evidências de xenofobia", Marcondes Gadelha, da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, protestou na embaixada da Suíça, TVs e jornais encheram-se de indignação, e grupos brasileiros estavam prontos para ir às ruas, hoje, em Zurique.
Um vexame! O que seria selvageria neonazista está confluindo para uma patologia individual, em que a vítima é também tristemente ré. “

Um vexame – diz Cantanhêde. Como se ela mesmo não fizesse parte do vexame. Todos cometeram vexame, menos a jornalista. Como se não tivesse escrito, dois dias antes, estas dramáticas palavras:

"Globalização remete a livre mercado e a portas abertas, mas o que se vê são os mercados e as portas dos ricos batendo na cara dos outros. Não de todos, só de uns, seletivamente. Se a Paula fosse de Washington, Chicago, São Francisco ou Boston, seria vítima desse absurdo? Não. Então... se a história foi como foi, a Paula somos todos e cada um de nós”.

Nenhum pedido de desculpas, nem aos suíços nem aos leitores de seu jornal. Nenhuma admissão de inépcia. Cantanhêde concluí suas esfarrapadas escusas apelando ao atual tratamento dispensado por alguns países europeus a candidatos a trabalhos clandestinos na Europa:

“Se os cortes em Paula são superficiais, lineares e femininos demais para terem sido feitos por brutais skinheads, eles não eliminam as dores dos brasileiros humilhados em aeroportos espanhóis, sem banho, sem ressarcimentos e até sem dentes, perdidos a socos policiais. Paula pode ter sido um erro, mas o erro maior está lá. Por que foi tão fácil inventar e acreditar num ataque de skinheads? Porque há quem não creia em xenofobia, mas que ela existe, existe. E tende a piorar”.

Mas que tem a ver uma palhaçada inventada por uma maluca na Suíça com o barramento de brasileiros nos aeroportos espanhóis? Por que foi tão fácil inventar e acreditar num ataque de skinheads? A pergunta é oportuna. Porque as esquerdas alimentam um wishful thinking da constatação da veracidade de tais episódios. Todo racismo, toda xenofobia, deve ser atribuído a brancos, ricos e preferentemente europeus. Oriundos do Terceiro Mundo, imigrantes, árabes, negros, estes não são xenófobos nem racistas. Nunca foram nem jamais o serão.

O ódio ao Ocidente – aquele visceral ódio de Marx à Europa – dormido no meigo coração das viúvas, ainda não se apagou. Que ele existe, existe. E tende a piorar.