¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, fevereiro 01, 2010
 
INTELIGÊNCIA NÃO ACOMPANHA TECNOLOGIA


Acordei mal hoje. Fui despertado por uma telemarqueteira, que me propunha novos serviços da Net. Às nove da matina, o que me parece ser uma violação do repouso alheio. Já ia desligar quando ela atalhou: “estaremos” lhe fornecendo um novo decodificador e um novo controle remoto. Bom, veremos! E quanto vou pagar por isso? Nada, é cortesia da Net. Quer dizer que não vou pagar nada? Bem, o senhor poderá receber emissões HD, então terá um acréscimo de 30 reais em sua assinatura. Mas este mês é de graça. Só passa a pagar em abril.

Quando me falam em HD, penso em disco rígido. O que é HD? Alta definição, respondeu a moça. E daí? Daí que o senhor vai poder ver as emissões como se estivesse no meio delas. Ah bom! Até pode ser. Sua televisão é de plasma ou tubo? Tubo. Ah, então o senhor assina o novo plano, e quando comprar televisão de plasma não paga mais nada.

Mas, moça, não está em meus planos comprar nenhuma televisão de plasma. Ah, mas isto é uma promoção excepcional, e quando tiver televisão de plasma talvez a promoção não exista mais. Moça, eu não tenho nenhuma intenção de comprar televisão. Não tem? Mas este ano tem Copa.

Foi a gota d’água que extravasou o balde. Em anos de Copa, meu mais profundo desejo é fugir para algum canto do mundo onde não haja Copa. Acontece que a Copa é mundial e se você, em algum ímpeto de desespero, fugir para alguma aldeia africana, lá estarão os televisores ligados na Copa. E a afrodescendentada em volta, torcendo para seus heróis.

Fugir para o mundo desenvolvido não adianta mais. Em 2.000, quando pretendia subir a costa norueguesa, entrando de fjord em fjord, caí em Oslo, que é por onde se começa a viagem. Lembro que era um feriadão, os cafés em geral estavam fechados, e achei pelo menos um em uma grande praça central. Oito telões enormes de televisão transmitindo a Copa Europa. Meu Deus – há momentos em que viro místico – eu saí do barro para cair na merda! Como não conhecia a cidade e desconfiava que não encontraria por perto bar decente, assumi. Comi um medíocre sanduíche de atum com cerveja e me afastei do universo das bestas.

Foram as copas que introduziram a televisão nos bares na Europa. Como a estupidez é universal, os bares tiveram de aderir. Uma vez instalado o aparelhinho, foi ficando. Sim, ainda se encontra muito bar e restaurante na Europa sem televisão. Mas a barbárie está avançando a passos rápidos.

Moça – disse eu – eu já quase não assisto mais televisão. Para que quero uma tecnologia sofisticada para assistir a programas, de modo geral, idiotas? Isso sem falar que abomino futebol. Nem chegou o carnaval, e já se pensa em Copa.

O senhor não torce nas Copas? Até que torço. Mas só quando o Brasil está em final ou semifinal. Aí, torço contra o Brasil. Perplexidade do outro lado da linha. O senhor não vai comprar uma TV de plasma para esta Copa? Não, moça! Bem que gostaria de ver o Brasil derrotado em alta definição. Mas não vale o investimento. Em baixa resolução já me serve.

Na Folha de São Paulo de hoje, leio que a Copa do Mundo deve mais do que triplicar o número de telespectadores de TV digital no país. Desde dezembro de 2007, quando as redes inauguraram a TV digital aberta no Brasil, até 2009, foram vendidos 2 milhões de unidades, entre TVs prontas para exibir canais digitais, "set-top boxes" (caixas conversoras de sinal), celulares com TV digital, mini TVs digitais e outros aparelhos.

Em 2010, a expectativa é de que sejam vendidas mais 5 milhões de unidades, o dobro do que foi comercializado em dois anos. Seriam 7 milhões os aparelhos com TV digital no Brasil. O aumento na venda de televisores digitais tende a estimular também a procura por assinaturas de pacotes HD.

Eu fora. Não que seja um neoludita. Tecnologia é bom e suspeito que a tal de HD seja mais prazerosa de se assistir. Mas assistir o quê? Futebol, novelas da Globo, seriados ianques? Não vale a pena. Certo, de vez em quando um filme bom. Mas a inteligência e o bom gosto não acompanharam o desenvolvimento da tecnologia.

Segundo Alexandre Annenberg, presidente executivo da ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura), "ver jogo em alta definição é uma experiência diferenciada. A Copa deve atrair mais gente ao HD e seus recursos, como gravar, parar e voltar à cena. Sem dúvidas, haverá aumento na procura".

Sim, eu adoraria fazer um replay quando o Brasil levasse um gol em final de Copa. Mas é prazer que só teria de quatro em quatro anos, e assim mesmo olhe lá. Obrigado moça, pela sua oferta. Mas não vou aceitá-la.