¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, abril 11, 2010
 
BISPO DE ROMA EM XEQUE


Comentei há pouco que quem acoberta um crime, acoberta dois, dez e mesmo cem. Se acoberta um por que não acobertar todos? Surge agora na imprensa o terceiro caso de proteção a um padre pedófilo por parte de Bento XVI. Desta vez com um agravante: cartas trocadas entre o Vaticano e a diocese californiana de Oakland mostram que o papa, preocupado com o "bem da Igreja universal", atrasou, nos anos 80, o afastamento de um padre californiano acusado de pedofilia.

Sexta-feira passada, a agência Associated Press afirmou ter obtido uma carta de 1985, assinada por Ratzinger, na qual o hoje Bento XVI resiste a um pedido de afastamento do padre americano Stephen Kiesle, envolvido em um escândalo de pedofilia em 1978 e acusado de relações sexuais com seis adolescentes entre os 11 e os 13 anos.

Segundo a AP, o Vaticano confirmou que a assinatura é do Bento. A carta, escrita em latim, é parte de uma série de correspondências entre o Vaticano e a diocese de Oakland, que pediu a exoneração de Kiesle em 1981 - o que só ocorreu em 1987. Ou seja, desta vez Ratzinger não pode alegar que não viu as denúncias que lhe foram dirigidas, muito menos que não teve conhecimento dos casos de pedofilia no seio da igreja em que ocupava uma posição de destaque. A situação do papa se agrava. É claro que outros casos de acobertamento surgirão nos próximos meses.

Ainda há pouco, eu escrevia: “O que está faltando é indiciar Ratzinger junto à Justiça laica. Como acobertador de abusos sexuais é cúmplice de um crime. Está incurso nos Códigos Penais de qualquer país ocidental. Mas é claro que tribunal algum vai cometer essa indelicadeza com o vice-Deus”.

Não faltou leitor que objetasse: o papa é chefe de Estado e como tal não pode ser indiciado. Depende. O Vaticano é Estado quando lhe convém. E não é quando não lhe convém. Em 1870, com a unificação da Itália, o papa perdeu seus domínios no país então emergente. Quando Mussolini subiu ao poder, no século seguinte – graças aos bons ofícios do papa Pio IX, quem diria? – o governo italiano firmou com a Santa Sé o Tratado de Latrão, que devolveu à Igreja terreno suficiente para a criação de um Estado minúsculo.

O Vaticano – pasme quem não sabe – é uma concessão do fascismo à Santa Madre. É obra de Mussolini, o ditador que foi executado e pendurado pelos pés em praça pública em Roma. Cabe ainda lembrar – já que muita gente esquece – que Ratzinger militou nas Juventudes Hitlerianas e foi soldado da Wehrmacht ao final da II Guerra Mundial.

Assim sendo, não espanta que, quando se tratou de cooperar com o Tribunal Penal Internacional, a Santa Sé negou ser um Estado para justificar sua recusa. Também nega sua condição de Estado ao apoiar-se na Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que protege as ações das instituições religiosas. Mas quando se tratou de reclamar imunidade diplomática nos casos de abuso sexual nos EUA, a Santa Sé reivindicou ser um Estado. Tudo para salvar a pele do papa e dos padres pedófilos.

Minha sugestão de indiciamento de Ratzinger não é de todo gratuita. No Reino Unido, o biólogo Richard Dawkins tentará fazer com que o papa Bento XVI seja preso para responder pelo acobertamento dos escândalos de abuso sexual de crianças por padres católicos. Dawkins, que está se revelando um ateu profissional – isto é, faz de seu ateísmo fonte de renda – pediu para advogados especializados em direitos humanos analisarem se seria possível fazer uma acusação formal contra o papa nas cortes britânicas.

Dawkins e o jornalista britânico Christopher Hitchens contrataram dois advogados para buscar meios de abrir um processo legal contra o papa. Mark Stephens, um dos advogados contratados, disse que há três possíveis abordagens: uma queixa à Corte Penal Internacional, na Holanda; uma ação popular por crimes contra a humanidade ou uma ação civil.

Claro que dará em nada. Corte alguma, em lugar algum do mundo, pedirá a cabeça do vice-deus. Mas vê-lo indiciado como criminoso comum já é um avanço. A acusação contra as autoridades vaticanas é tão insólita que ninguém parece ainda ter se dado conta que os dias de Alexandre VI são café pequeno diante do que hoje ocorre na Santa Madre.

Os Bórgias podiam gostar de orgias, inclusive em família. Mas não temos notícias que acobertassem crimes contra crianças.