¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, maio 17, 2010
 
ATEU NOIVO
QUIS CASAR



Tenho recebido inúmeras cartas de ateus, ofendidos e indignados porque afirmei não ver no Brasil discriminação contra ateus. Não penso publicar todas, ou me blog ficaria restrito a uma longa e interminável discussão sobre ateísmo. Seleciono hoje uma que me pareceu das mais significativas.

Me senti pessoalmente ferido e indignado com a coluna do Sr. Janer Cristaldo dizendo que não há preconceito contra ateus simplesmente porque ele, sendo ateu, nunca o sentiu. Transformar uma experiência pessoal em estatística nacional, além de sofisma grosseiro, é uma bela maneira de evitar que esse preconceito desapareça. Dizer ainda que associações de ateus são equivocadas é tentar caracterizar como ilegítima uma excelente iniciativa de agremiação, discussão e defesa dos direitos de opinião. Sou associado à ATEA e ao movimento Bright e não vejo como podemos defender iniciativas como a retirada dos crucifixos dos tribunais e a defesa do estado laico sem associações de frente para isso.

Nem sempre fui ateu e minha experiência de "conversão" ao ateísmo não ocorreu sem dores, em 2001. Mas em 2005, eu conheci no laboratório da Unicamp (Campinas) onde fazia mestrado uma mulher que me encantou, e logo a estava namorando e noivando. Por motivos que não interessam aqui e nada têm a ver com o ateísmo, naquele momento eu estava vivendo uma vida desregulada, e a companhia dela me permitiu o bom senso de pensar direito e corrigir alguns rumos da minha vida. Pela primeira vez, comecei a planejar a sério meu futuro, pesquisando imóveis para adquirir e melhorando meu desempenho no trabalho. A mesma ajuda que tive dei a ela, que enfrentava múltiplas inseguranças. Parecíamos o casal perfeito e, apesar de ela ter conhecido meu ateísmo um mês depois do começo de nossa relação, nunca tivemos muitos problemas por causa disso, pois eu nunca abordava o assunto e quando o fazia, não fazia de forma agressiva. Ela, nordestina de Natal (RN), vinha de família muito conservadora e era católica fervorosa. Fui algumas vezes a Natal com ela, conheci a família dela e nos demos bem. Nunca no entanto ousei expressar meu ateísmo naquelas bandas, sequer dizer que era ateu, pois já imaginava que o ateísmo seria entendido como imoralidade ou perversão.

Chegamos a ter um breve momento de tensão quando eu disse à mãe dela, evangélica que morava em Bragança Paulista, que era ateu, quando ela perguntou minha religião. Mas o momento se dissipou em visitas futuras e a mãe dela parece ter entendido que não era algo que me tornasse "mau".

No entanto, em 2007, quando eu até já a havia pedido em casamento, ela teve uma conversa com a família em Natal e revelou que eu era ateu. Avó, tios e pais foram quase unânimes em dizer a ela que não era "bom" e que ela devia terminar comigo, que foi o que fez, com lágrimas nos olhos. Disse objetivamente na minha frente que estava terminando comigo por eu ser ateu. Minha vida praticamente desabou nesse momento e posso dizer que demorei meses, talvez mais de um ano, para me recuperar, isto é, refazer meus objetivos de vida, conciliar-me consigo mesmo, até retomar minha auto-estima.

Até hoje lamento esse episódio como um dos mais tristes de minha vida. Me recuperei, mas por outro lado sei que nunca a terei de volta.

Não dá pra aceitar, não dá pra engolir um artigo que minimize o sofrimento que eu tive. É um desrespeito que fere bem fundo. Que descarta casualmente como "bobagem" ou "exagero" que eu poderia hoje estar muito bem casado e feliz não fosse o espectro que ronda quem diverge dos mitos irracionais da sociedade; espectro esse que nos coloca como assassinos, ladrões, desonestos ou corruptos.

Cláudio "Patola" Sampaio