¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, maio 01, 2010
 
LÁ ONDE TUDO É IGUAL


Leio na Veja que, de olho no crescimento das classes C e D e da falta de tempo das pessoas para cuidar da alimentação, o colombiano naturalizado argentino Woods Staton, que há três anos comprou as operações do McDonald's na América Latina, quer abrir duas lojas por semana e chegar ao sertão do Brasil. "Nosso público são as pessoas que pertencem às cidades, que têm pouco tempo para comer", afirma o empresário. "Esse estilo de vida e a dinâmica nas cidades são bons para nós. É uma mistura entre o hábito de consumo e a falta de tempo".

Propaganda desonesta de empresário com hábitos ianques. Mesmo em grandes metrópoles como Paris ou Madri, ou Berlim ou Roma, sempre sobra tempo para comer. Fast food é coisa de bárbaros, de gente que não tem savoir-faire. Isto é, de americanos. A boa restauração sempre foi escassa nos países anglo-saxônicos. E sempre foi generosa nos países latinos. Em meus dias de Europa, dizia-se que a Inglaterra construiu um grande império porque buscava uma boa cozinha. Não duvido.

É uma questão de estilo, que talvez tenha a ver com o “time is money”. Em Nova York, se eu pedia uma cerveja, a garçonete logo me trazia a conta e perguntava:

- É só?
- Não sei, moça. Depende de eu gostar da cerveja, do ambiente. Talvez seja uma só, talvez três ou quatro.

Em Madri, eu sentava duas ou três horas em um café, comia, bebia, lia ou conversava e, ao pedir a conta, o garçom me perguntava surpreso:

- Já?

Questão de estilo, dizia. Que mais não seja, quem tem pressa para comer nos sertões deste país? Não suporto McDonald’s. Nem é pela comida. É o fucking style, diria. Essa mania de sentar por pouco tempo, que impede a leitura ou a conversa. Isso sem falar na cultura do sanduíche. Sanduíche é para quem tem pressa, e isso foi coisa que nunca tive em minha vida. Mesmo nos dias em que tive de cumprir horários, sempre reservei umas boas duas horas para o almoço. Sem falar que a culinária dos McDonalds é paupérrima. E não há vinho.

Em minhas viagens, se por acaso tenho problemas de horário, prefiro comida de rua, um quiosque de grego ou árabe numa esquina, onde posso degustar um gyros ou um merguez, em vez dos sanduíches dos gringos.

Mais ainda. Não me relaciono com quem freqüenta Mcs. Certa vez, uma colega de magistério ia para Madri, passei-lhe roteiro ensinando o caminho das pedras. Conheço os melhores restaurantes da cidade – que nada têm a ver com os mais caros – e adoro recomendá-los a quem viaja. Quando voltou, perguntei:

- Que achou de minhas dicas?
- Não sei. Só comi em McDonald’s.

Relações cortadas. Quem vai a Madri e só come em McDonald’s é um inimigo da raça humana. Não é pessoa que mereça meu convívio. Deveria ser submetida a um auto-de-fé na Plaza Mayor, para escarmento das nações.

Mas não posso dizer que dessa água não bebi. Certa vez, aqui em São Paulo, entrei em uma dessas casas tão ao gosto dos brutos. Estava na Paulista e chovia a cântaros. Refugiei-me sob uma marquise, justo em frente a um Mc. A água foi subindo pela calçada e eu tinha duas chances: ou enfiava os sapatos no rio que se formara, ou entrava na abominação. Preferi entrar. Acabei comendo um sanduíche. Tinha sabor. Como disse, não é o que se come o que me afasta dos McDonald’s. É o ambiente de pressa, hostil à conversa, à leitura, ao vinho e à confraternização.

Continua o colombiano naturalizado argentino irremediavelmente ianquizado: “Sempre tivemos comida de boa qualidade e cuidamos muito dos produtos. Às vezes somos criticados, mas as pessoas visitam uma loja do McDonald´s, em média, 1,8 vezes ao mês. Se você vai comer uma vez ao mês ou duas não terá problemas de saúde porque comeu conosco”.

Quanto a isso, suponho que não terei problema algum. Pelo jeito, sou uma não-pessoa. Já vivi uns bons 756 meses. Considerando aquela visita compulsória a um Mc na Paulista, visitei estas biroscas 0,0166666 vez por ano. Dá até dízima periódica. 0,0013888 por mês. Minha calculadora tem memória curta, mas acho que dízima de novo.

Não é falta de tempo o que leva uma pessoa a estas casas. É falta de saber viver, a carência de um mínimo de requinte. É a opção pelo que a massa consome. Quanto mais aumentarem as redes de McDonald’s, mais aumentará sua clientela. Rebanho adora estar entre os seus. Não por acaso, este tipo de restauração tem mais adeptos em países subdesenvolvidos. Há um outro fator. Turista de Terceiro Mundo em geral é monoglota. Tem medo de enfrentar um cardápio em outra língua que não a sua. Vai então no Mc.

Lá não tem erro. Tudo é igual.