¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, agosto 20, 2010
 
DATA PARA COMPRAR
LIVRO? NÃO ENTENDO



Vivo cercado de livros, diria até mesmo que ler é atividade que mais tempo tem me tomado nestes últimos anos. Ler, em minha idade, é muito bom. Não preciso ler mais por obrigação, leio apenas o que me dá prazer. Meus piores dias em matéria de leitura foram quando lecionei Letras. Tinha de ler por necessidade curricular. Tanto literatura brasileira como teoria literária. Li de Clarice Lispector e Guimarães Rosa a Gramsci e Lacan. Hoje, estes livros restam inúteis em minha biblioteca, nas prateleiras mais altas. Livro é como funcionário público: quanto mais alto está, para menos serve. Longe da universidade, hoje só leio o que gosto. Tenho investido, nos últimos anos, em duas áreas que me agradam: história das religiões e história da alimentação. Recomendação nesta última área: Uma História Comestível da Humanidade, de Tom Standage. No livro, encontrei resposta a uma pergunta que há muito me intrigava. Como se alimentam os exércitos quando em guerra?

Já faz vinte anos que vivo em São Paulo e só uma vez fui à Bienal do Livro. Deve ter sido no início dos 90. Perdi meu tempo. Fica longe de onde moro, tem multidões percorrendo os estandes quais formigas tontas, sem falar nos rebanhos de crianças que são levados mais ou menos manu militari e só servem para atulhar os corredores. Ou talvez para inflar o número de visitantes. Isso sem falar nas luminárias, que fazem do percurso uma sauna. Desconforto total. Nada que se compare a uma visita tranqüila a livrarias imensas como a Cultura ou a da Fnac. Até grandes demais para meu gosto, mas satisfazem razoavelmente minha fome de leitura.

Situo a Bienal do Livro na faixa dos eventos e não suporto eventos. Nem multidões. As pessoas vão lá em função da publicidade, dos apelos ao consumo. Eu, que consumo livros o ano inteiro, não vejo porque procurá-los em local ou data especiais. Além do mais, quando procuro um título, dificilmente o encontro. Ainda há pouco, quis comprar A Origem do Cristianismo, de Karl Kautsky, recentemente lançado pela Civilização Brasileira. Revirei as livrarias de São Paulo. Acabei por encontrá-lo, mas não foi fácil. Em tempo: apesar de o autor ser marxista e lançar mãos de conceitos obsoletos como proletariado, a obra constitui uma reflexão inteligente sobre a peste que assolou o Ocidente.

Em Kautsky, descubro um plágio insólito dos evangelistas: “Quando o Evangelho de São Mateus apresenta Jesus dizendo “as raposas têm tocas, as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem um lugar onde repousar sua cabeça” (VIII, 20), está expressando pela sua boca um pensamento que Tibério Graco expusera, 130 anos antes do nascimento de Cristo, para todo o proletariado de Roma: “Os animais selvagens da Itália têm suas covas e cavernas onde descansar, mas os homens que lutam e morrem pela grandeza da Itália só possuem a luz e o ar, pois isso não lhes pode ser tirado. Sem lar e sem lugar onde abrigar-se, vagam de um lugar a outro com suas mulheres e filhos”.

Gosto de livrarias pequenas e, se possível, especializadas. No centro da cidade, resiste ainda a Livraria Francesa, onde sempre encontro os ensaios que necessito. Também me agrada muito uma aqui perto de casa, a Metido a Sebo Livraria, capitaneada pelo Marciano. Quando chego lá, sei que não vou encontrar os Paulos Coelhos da vida. O que não acontece em uma Saraiva, no shopping Higienópolis, na rua onde moro. Nela, me sinto no deserto. Em suas estantes, por mais que as revire, não consigo encontrar um título sequer que me interesse. Só dá best-seller. Foi lá que um dia procurei Jesus e Javé, do Harold Bloom, e o funcionário entendeu Jesus e Djavan.

Realiza-se, nestes dias, a 21ª Bienal do Livro em São Paulo. Que se realize. Nada tenho a fazer por lá. Para mim, que compro livros o ano todo, não é fácil entender a fixação de datas para comprar livros. Leio que o padre Marcelo Rossi provocou tumultos com sua sessão de autógrafos. A fila atravessava o Pavilhão do Anhembi. Ora, que tem a ver este senhor com literatura?