PESQUISADORES DA UFRJ DESCOBREM
UM DINOSSAURO CARNÍVORO RACISTANunca entendi muito bem os nomes com que os paleontólogos batizam certos espécimes pré-históricos. Por exemplo, o eoraptor, um dinossauro pequeno e leve, com cerca de onze quilos e um metro de comprimento, descoberto na Argentina. Que concluam que tenha um metro e onze quilos até que se entende. O que não se entende é seu nome, eoraptor, ladrão do amanhecer. Sugere que o bicho caçava nas madrugadas. Mas quem viu o raptor caçando? Que vestígios restaram destas práticas do dino argentino?
Outras denominações fazem sentido. Tiranossauro rex, por exemplo, significa lagarto tirano rei, ou ainda rei dos répteis tiranos, o que nos dá idéia da idiossincrasia do bichano. O Argentinossauro huinculensis, do latim "lagarto da Argentina" foi uma espécie de dinossauro herbívoro e quadrúpede que viveu na América do Sul e, como seu próprio nome sugere, foi descoberto na Argentina. O Velociraptor mongoliensis cujo nome significa ladrão veloz, era um pequeno dinossauro, feroz e agressivo , que alcançava altas velocidades e vivia na Mongólia.
O Apatosaurus Ajax tem seu nome a partir do grego apatelos (enganador) sauros (lagarto). Lagarto enganador, portanto. Como os paleontólogos descobriram que este lagarto enganava, não sei. Ajax é uma homenagem ao mitológico herói grego. O Albertossauro libratus - lagarto de Alberta - foi uma espécie de dinossauro carnívoro e bípede que viveu no fim do período Cretáceo. Assim se chama porque foi descoberto em Alberta, no Canadá. O Iguanodon bernissartensi tem esse nome porque foi achado em Bernissart, aldeia mineira do sudoeste da Bélgica, na fronteira com a França.
O Pycnonemosaurus nevesi tem sua origem em três palavras: pycnos (do grego, denso, grosso), nemus (do latim, vegetação, floresta) e saurus (do grego, réptil, lagarto), fazendo alusão ao nome Mato Grosso. Leio que o epíteto específico é uma homenagem ao falecido advogado Iedo Batista Neves. Porque um dinossauro homenagearia um advogado, confesso que não entendo.
Já o Staurikosaurus pricei é gaúcho, mais precisamente de Santa Maria. Considerada a época em que vivia, certamente não era gaúcho de asfalto. Seu prenome vem da constelação Cruzeiro do Sul (do grego stauriko, de uma cruz), para indicar que é um réptil do Hemisfério Sul. O epíteto específico é uma homenagem ao paleontólogo brasileiro Llewellyn Ivor Price.
Acaba de ser descoberto, por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o maior dinossauro carnívoro já encontrado no Brasil, que vivia no Maranhão. Tinha entre 12 e 14 metros de comprimento, pesava de cinco a sete toneladas e o atual fóssil perambulou na ilha de Cajual há cerca de 95 milhões de anos. Até aí, também se entende. Difícil de entender é o nome científico com que foi batizado Oxalaia quilombensis.
Segundo leio nos jornais, os pesquisadores do Museu Nacional da UFRJ descobriram vestígios do maxilar inferior, com sete dentes, e a narina no réptil. O nome do bicho homenageia Oxalá, divindade masculina respeitada pela religião africana e aos quilombos que existiam no Maranhão.
Por que batizar o bicho com o nome de uma divindade africana, se foi descoberto no Brasil? E por que quilombensis, se não viveu num quilombo? Quilombos, se não me engano, são um pouco posteriores à época dos dinossauros. Para um predador que viveu no Maranhão, salta aos olhos que o nome mais adequado seria Sarneysaurus maranhensis. Nem precisa explicar por quê.
Os pesquisadores da UFRJ conseguiram encontrar o primeiro dinossauro racista da pré-história. O Oxalaia, ao que tudo indica, é o mais novo militante dos movimentos negros de Pindorama. O próximo dino fóssil a ser descoberto no Brasil provavelmente se chamará Zumbinosaurus gilbertogilensis.