¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, setembro 11, 2011
 
11/9 OU 9/11?


As datas históricas das quais tenho lembrança são escassas. Há uma que não esqueço. Eu tinha sete anos e ainda vivia no campo. Estava atrelando um tordilho à aranha que nos levava – eu e minha mãe – à escola, quando tio Ângelo chegou a galope, como quem traz notícia ruim. Antes de apear, já foi anunciando:

- Canário, mataram o homem.

O dia era 24 de agosto de 1954. Canário era meu pai. O homem era Getúlio. Tio Ângelo era o homem que sabia das coisas, o único que tinha rádio em nosso clã. Não foi preciso dizer o nome do homem, tamanho era seu carisma.

Depois disso, não tenho muitas datas a lembrar. Do assassinato de Kennedy, que é outro marco na memória das gentes, não tenho a mínima lembrança. Só sei que estava em Dom Pedrito, onde as notícias, naqueles dias, custavam a chegar. Da chegada do homem à lua, tampouco não lembro. Estava em Porto Alegre, mas não tenho lembrança alguma da data.

Mas guardei outras duas, que talvez pouco digam ao leitor. Lembro muito bem do 28 de janeiro de 1986. Era manhã e eu tomava café em um bar em Salamanca. Olhei o jornal e vi aquela estranha rosácea em pleno espaço. A Challenger explodira acima do Oceano Atlântico, após 73 segundos de vôo, ceifando a vida de sete tripulantes, entre eles Christa McAuliffe, uma professora de New Hampshire de 37 anos. Confesso que senti um nó na garganta.

Outra data que não esqueço foi o 28 de maio de 87. Era madrugada e eu vagava com um amigo na madrugada de Madri. Ele botou o olho na manchete de um vespertino e me disse: desta tu vais gostar. Naquele dia, Mathias Rust, um alemão de 19 anos, pilotando um monomotor e burlando toda vigilância aérea de Moscou, deu três vôos rasantes sobre o mausoléu de Lênin e aterrissou a 50 metros das muralhas do Kremlin, em pleno coração do comunismo. Estava acompanhado de uma menina. Cercados por moscovitas e turistas que lhes perguntaram de onde vinham, Mathias respondeu com a maior naturalidade: Helsinque.

Um feito e tanto. O mundo todo se perguntava como um aviãozinho de turismo havia penetrado numa capital protegida por um cinturão de mísseis antiaéreos, poderosas estações de radares civis e militares e instrumentos capazes de detectar qualquer objeto voando pouco acima do solo num raio de 30 km. Por cúmulo da ironia, Rust aterrissou na Praça Vermelha quando se comemorava o Dia da Guarda Soviética das Fronteiras. Dia seguinte, caía o ministro da Defesa soviético, o marechal Sergei Sokolov, por negligência. Molecada das boas.

Depois destas, a única que me marca é o 11 de setembro. Eu trabalhava em casa, quando uma amiga me telefona: dá uma olhada na televisão. Olhei. Tive a impressão que todo mundo deve ter tido. Seria mais um filme-catástrofe americano. Mas, pensando bem, nove horas da manhã não é horário de filme-catástrofe. Era fato.

Se houvesse um Nobel para o terrorismo, bin Laden o mereceria sobejamente. Era preciso contornar algumas variantes. Primeiro, encontrar um punhado de malucos dispostos a morrer em prol de uma causa inútil. Parece que no mundo muçulmano há farta mão de obra. Encontrados os iluminados, era preciso treiná-los como pilotos. O que não foi difícil. Depois, era só escolher o alvo, de preferência um dos ícones do Ocidente. Bin Laden, em sua paranóia, imaginava que bastava matar alguns milhares de americanos para dobrar os Estados Unidos. É o que dá viver isolado do mundo.

Morreram três mil pessoas, sofreram outros milhares. O atentado abalou o Ocidente. Uma década depois, o poder americano continua intocado. Os malucos se consumiram no atentado, seu cúmplices foram mortos ou presos e bin Laden foi fuzilado. O episódio gerou uma guerra estúpida. Apesar de quinze entre os dezenove terroristas serem sauditas, Bush, o boçal, insistiu na tese de que o Iraque estava na origem do atentado. Ok! Sempre é salutar ver um ditador como Saddam Hussein fora do poder. Mas os Estados Unidos se atolaram em um novo Vietnã e os homens-bombas continuam matando no Iraque. E não há nem sombra de esperança para um regime democrático na região.

Que restou do atentado de bin Laden? Fora a dor dos que ficaram, um desconforto maior nas viagens aéreas no Ocidente todo. Foi também um desserviço ao Islã. Se antes os muçulmanos, com seus malucos que se explodiam na esperança de encontrar as 72 virgens no paraíso, já eram associados a terrorismo, hoje a associação é mais evidente. Não que todo muçulmano seja um terrorista. Mas eram muçulmanos todos os terroristas que atacaram as torres gêmeas.

Não partilho da idéia de que o 11/9 seja a data mais emblemática do século. Já fiz várias vezes esta experiência: perguntar a pessoas de minha idade, ou mais jovens, a universitários e jornalistas, o que ocorreu em Nove de Novembro de 1989. A data é até fácil de guardar, por ser aliterante. Ninguém lembra, ninguém sabe, ninguém viu. 11/9 todos lembram. 9/11 já está enterrado nos escaninhos da memória.

Ocorre que o 9/11 transformou muito mais o mundo e o século que o incidente do 11/9. Parece que professor algum, jornalista algum, percebeu a importância do fato. Ou, propositadamente, o omite a seus alunos e leitores. Não é de espantar. Imprensa e universidade brasileiras estão contaminadas até os ossos pela nostalgia do comunismo. Viúvas sofrem muito ao relembrar a morte do marido.

Se o 11/9 marcou uma década, o 9/11 marcou um século. No 11/9 morreram cerca de três mil pessoas. No 9/11, morreu um regime que matou 20 milhões de seres humanos.