¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, fevereiro 07, 2012
 
MEDO AO SILÊNCIO


Música em restaurantes? A questão é mais complexa do que parece. Restaurantes silenciosos me agradam, são propícios à conversa. Uma música de fundo, desde que seja de meu agrado, também topo. Mas a música que me agrada pode ser abominável para meu vizinho, e vice-versa. Às vezes, busco um restaurante pela música. De vez em quando, aqui em São Paulo, vou ao El Mariachi, para ouvir os charros, e mesmo cantar. Em Madri, freqüentei o La Favorita, restaurante cujos garçons e garçonetes são alunos de música operística e cantam árias durante a ceia. Vou pelas óperas. A comida é péssima.

Em meus dias de Porto Alegre, muita vezes procurei bares pela música. Meu predileto era o da Adelaide, na Floriano Peixoto, onde muitas noites participei da mesa do Lupicínio Rodrigues. Lá também tocavam o Clio do Cavaquinho e o Mário Barros, violonista que tinha a mesma desenvoltura executando um sambinha como o Concierto de Aranjuez. Mário Barros também tocava numa cantina do Brutus, antigo proprietário da livraria Coletânea. Lá, quando me despedia de minha gente, para ir a Paris, fui homenageado com uma noite de pajadas por Noel Guarani. Mas aí é um pouco diferente: é música entre amigos.

Já procurei, em Madri, bodegas para ouvir flamenco e cante hondo, sevillanas e seguidillas. Lá, vivi uma das grandes noites de minha vida. Um amigo de Paris veio visitar-me. Pensei brindá-lo com algo típico. Em Maravillas, meu bairro, havia um pequeno restaurante muito ligado às lides taurinas, que servia um excelente rabo de toro. Lá por las nueve de la tarde, como dizem os madrilenhos, rumamos à tasca. Mal entramos, um venenciador nos recebeu com dois finos em punho.

Venenciador é um profissional que se especializa em servir jerez. Veste-se com uma espécie de traje de luces, aquelas vestes de toureiro. O fino é um copinho fino - daí o nome - onde se serve o jerez. Com uma haste de mais ou menos um metro, com outro copinho fino na ponta, ele apanha o jerez em uma barrica, e o despeja de uma altura de mais de metro no fino propriamente dito. Sem derrubar uma gota. É uma arte fascinante, mais ou menos perdida na Espanha atual.

O bar estava tomado por bailaoras y cantaores, que cantavam sevillanas. Fomos recebidos por uma saraivada de palmas y taconeos. Mal nosso jerez evaporava, o venenciador mergulhava o copinho no tonel e repunha a dose. Tudo isso, tendo como pano de fundo o alarido infernal das sevillanas.

Mas meu propósito era comer. Chamei o garçom. Venimos por el rabo de toro.

- Hoy no se come. Hoy es fiesta.

Muy bien. Vamos então continuar a fiesta. Entre um fino e outro, hipnotizados, contemplávamos os meneios das bailaoras e os piropos dos cantaores. Acontecera que um toureiro amigo da casa havia matado cinco ou seis touros naquela tarde. A festa era em sua homenagem. Lá pela meia-noite, preocupado com o estômago, pedi a conta.

- Hoy no se paga. Hoy es fiesta.

Como não morrer de amores por uma cidade que acolhe o estrangeiro em suas festas íntimas, o recebe com a finesse de um venenciador, oferece-lhe seus melhores vinhos e suas mais lindas canções e mulheres, sem cobrar nada por isso?

Em novembro passado, no Gundel, em Budapeste, jantei ao som de violinos entoando valsas e czardas. Me senti em casa. A mesma música se pode ouvir no Café Central, um dos mais solenes de Viena, entre as colunatas de mármore onde conspiraram Hitler, Lênin e Tito, Trotski e Freud, Klimt, Kloester r Karl Kraus. Entre outros.

Restaurantes assim me fascinam. Mas há aqueles pelos quais que passo de largo, justo pela música. Se ouço rock e bate-estacas outros, vou tirando meu cavalinho da chuva. Em Lesbos, ilha do Egeu, por longos minutos tive uma experiência do que imagino ser o inferno. Entrei em uma rua turística, bordada de boates de ambos os lados, cada uma emitindo centenas de decibéis de bate-estaca.

A notícia me chega via El País,que retoma uma discussão surgida no Reino Unido. A revista britânica Waitrose Kitchen propõe em seu último número um debate crucial: deve-se proibir a música nos restaurantes? A publicação confronta dois artigos em que a presidenta do London Restaurante Festival e o dono da cadeia Boisdale manifestam opiniões contrárias entre si.

Fay Maschler argumenta que se não comemos nas salas de concerto, não precisamos de música nos restaurantes. “A maior parte do que se ouve é tão agradável quanto os ambientadores pendurados nos táxis”. Ranald Macdonald, por sua parte, conta como passou horas montando recopilações de jazz clássico, blues e soul para que fossem ouvidos em sua primeira casa, e garante que se a música é onipresente nos bares é porque a maioria das pessoas gosta. “Tire a música e você acabará com a ocasião de passar um bom momento”.

Segundo Mikel López Iturriaga, autor do blog gatrônomico Ondakín, o problema é que na Espanha os restaurantes bares de tapas não selecionam a música. O que toca pode ser um CD que o cozinheiro trouxe, o iPod do garçom de modo aleatório ou qualquer outra rádiofórmula infecta. E sempre em alto volume. Com a música ocorre um pouco como com o ar condicionado. Se estás muito tempo com o rum-rum de fundo, chega um momento em que não o ouves ou ouves baixinho. Então, ou não te incomoda ou, se a música em questão te agrada, tendes a aumentar o volume, sem perceber que podes estar obrigando tua clientela a vociferar. Some-se ao efeito anestesia a tendência em falar em voz alta dos espanhóis e a péssima sonoridade de muitos locais, e já temos uma torturante gritaria montada.

Iturriaga acha que o boom da música em restaurantes é um claro caso da modernidade mal entendida, aparentada com a entronização do “juvenil” que sofremos. Que chega um momento em que comer sem ruído, usufruindo da conversação, era próprio de velhos antiquados. Pensa ainda que o mal da música sem critérios afeta não apenas os restaurantes, mas também grande parte dos espaços públicos, como hotéis, estações, transporte, escritórios... parece que a paz significa aborrecimento e que precisamos do ruído para aturdir-nos e não pensar muito.

O gastrônomo basco tocou no ponto essencial da discussão. Conheço não poucas pessoas que se sentem perdidas quando rodeadas de silêncio. É como se o silêncio induzisse ao pensar, e pensar atemoriza. Há quem ligue a televisão mal acorde, não para assistir a algum programa, mas para encher o ambiente de som. Há muitos anos, eu me recusava a consultar médico que tivesse televisão em sua sala de espera. Desisti, ou não consultaria mais nenhum.

Voltando aos restaurantes e à música. Se quero ouvir algum tipo de música, vou onde possa encontrá-lo. Mas aí a restauração é secundária, o que importa é a música. Mas se quero conversar com amigos, procuro aqueles, cada vez mais raros, onde se ouve até o tinir dos talheres.

- Desta forma – continua Iturriaga - o silêncio se converteu no maior dos luxos, só ao alcance de monges ou de terratenentes com hectares de terrenos disponíveis para marcar distância com o tumulto permanente. Minha esperança é que existem outras pessoas sensíveis a este problema: no Reino Unido há webs como Pipedown ou Quiet Corners, nas quais se come o chamado “muzak” e se recomendam lugares livres da praga musical.

De fato, o silêncio tornou-se um luxo no mundo contemporâneo. E mete medo. Há quem prefira aturdir-se. Se pensa, se confunde.