¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, março 24, 2014
 
DA ETERNIDADE DO PADRE FERMINO *


"Vi como os católicos se revoltam com suas afirmações" — escreve um leitor -. "Não se conformam, brigam, discutem, retrucam, ora com mais precisão ora com menos. Curioso".

Também acho. Até hoje não entendo como pode alguém irritar-se com um texto. Ora, se o autor propõe uma idéia ou visão de mundo distintas da minha, posso concordar ou discordar, aceitá-las ou rejeitá-las, mas não vejo motivo algum para irritação. Sou grato aos autores e amigos que demoliram convicções que a cultura oficial tentou enfiar-me goela abaixo, via escola. Verdade que hoje tenho uma base mínima de certezas e já não resta muito a demolir. Mas sempre encaro com simpatia opiniões contrárias ao que penso. Desde que não firam os fatos, é claro. Não vou concordar, sob pena de renunciar à minha inteligência, afirmações do tipo Moscou é Europa, Mozart é alemão, Cristo é filósofo, Allende foi assassinado. Tolerância tem limites.

Desde adolescente, tenho irritado não poucos crentes. Para quem tem alma gaudéria, não é fácil responder a esta pergunta: "qual é tua cidade?". Vivi em tantas que tenho de parar para pensar na resposta. Em primeiro lugar, não nasci em cidade, mas no campo, na fronteira seca do Upamaruty, Livramento. Só fui conhecer cidade aos onze anos de idade. No caso, Dom Pedrito, onde vivi cinco anos. Ou seja, apenas um décimo de minha existência. Mas se entendermos "minha cidade" como aquela em que enfrentamos os primeiros embates da vida, é bem possível que a minha seja mesmo Dom Pedrito.

A Igreja foi buscar-me ainda no campo. Uma catequista uruguaia apanhava-me em um jipe na Linha Divisória entre Livramento e Dom Pedrito para jogar-me nas aulas de catecismo. Na cidade, fui estudar em colégio católico, dirigido por padres oblatos. A eles agradeço minha iniciação em latim, francês e inglês. E só. Para desgraça de meus catequistas, muito cedo comecei a ler a Bíblia. Como não há fé em Deus que resista a uma leitura atenta da Bíblia, minhas dúvidas começaram a inquietar os oblatos. Um sacerdote de Bagé, franzino e inquisitorial, veio às pressas para tentar trazer o herege em potencial de volta ao rebanho.

Discutimos um dia todo, com várias jarras de água e um almoço de permeio. A cada preceito de fé que eu contestava, o padre Fermino Dalcin me jogava no rosto a acusação: "Arrogância. Orgulho intelectual. Quem és tu para contestar, aqui em Dom Pedrito, o que autoridades decidiram em Roma?"

Era um argumento pesado para um piá de uns quinze anos. Eu só tinha como defesa descrer do que não conseguia entender. Mas resisti e consegui, ainda adolescente, libertar-me do deus judaico-cristão. Bem sabia a Igreja o que fazia, ao proibir a leitura do Livro a menores de trinta anos. Como cachorro que sacode o corpo para secar-se, sacudi minha alma e procurei, nos anos seguintes, livrar-me da craca ética que vinha grudada ao cadáver do deus cristão. Esta é, a meu ver, a grande função da leitura, libertar o homem de mitos e superstições.

E, principalmente, da educação oficial imposta pela escola. Anos mais tarde, quando exercia o magistério em Santa Catarina, recebi de uma universitária o que considero ser a láurea suprema que pode receber um educador. O chefe de Departamento chamou-me à parte, constrangido. "Professor, uma aluna veio queixar-se de que tinha certezas ao entrar na faculdade. Depois de suas aulas, ela já não sabe mais em que acreditar".

Foi a gratificação maior, jamais superada, de meus anos de magistério. Eu havia conseguido semear a fértil semente da dúvida. Claro que não esquentei cátedra por muito tempo na universidade.

De outro fiel leitor, recebi esta ironia, a propósito de uma discussão em torno ao dogma da transubstanciação: "A cúpula da Igreja deve estar preparando um Concílio, para debater as questões levantadas pelo Janer. Balançam as colunas da Capela Sistina. João Paulo II, dizem, perdeu o sono várias noites, e desistiu de viajar pelo mundo para se dedicar ao assunto. Pela primeira vez, desde a invasão dos mouros, a Igreja Católica sente-se ameaçada, pelo Califa de Dom Pedrito".

Quando eu imaginava que padre Fermino pertencia a meu passado, cá está de volta, quatro décadas depois, o espectro do homenzinho. Se alguém nasce ou vive em Dom Pedrito, deve renunciar, ipso facto, à sua capacidade intelectual. Roma locuta, causa finita!

Pois naquela aldeia da fronteira, que em meus dias de ginasiano tinha apenas 13 mil habitantes, líamos muito Voltaire, escritor que passou os últimos anos de sua vida defendendo os direitos da razão, sempre polemizando contra "l’infâme", ou seja, a Igreja Católica, segundo ele a fonte dos piores abusos e superstições. Voltaire nasceu em geografia mais prestigiosa, Paris. Mas não seria de duvidar que lá no século XVIII, estivesse o eterno padre Fermino a censurá-lo: "Mas quem és tu, François-Marie, para contestar o que autoridades decidiram em Roma?" O mesmo devem ter ouvido Galileu, Giordano Bruno, Savonarola, Calvino, Lutero e Nietzsche.

O melhor estava por vir. Quando já pensava ter ouvido tudo quanto de insólito há para ouvir no mundo, o padre Fermino redivivo me surpreende: "Até que ponto é minimamente elegante, para não dizer justo, estarmos em um espaço aberto a todos os tipos de público, a desmoralizar as convicções alheias?"

Os cadáveres de Nietzsche, Swift, Voltaire devem estar se contorcendo sob a terra. Onde fica o ridendo castigat mores, tão caro a Molière? Deverá ser banido da história como símbolo de intolerância? Até os ossos do velho Marx, tão fanático e iracundo, devem ter sofrido um sobressalto. Afinal, de omnibus dubitandum era seu lema preferido: de tudo deve-se duvidar.

* 23/6/2000