¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, março 12, 2014
 
MIGRAR SE IMPÕE


Ainda há pouco, eu escrevia sobre a migração dos leitores de jornais e livros para a Internet. Nesta segunda-feira, José Roberto de Toledo fez ontem algumas considerações interessantes no Estadão sobre Internet e imprensa, no artigo “Origem e destino do leitor”.

Se você está lendo este artigo em um jornal impresso, você faz parte de uma minoria. Ou melhor, de uma minoria da minoria. E não é só por causa da qualidade duvidável deste texto. A leitura de jornais em papel no Brasil limita-se a 25% da população. Descontados os leitores ocasionais, que dão uma lida só um dia ou outro, sobram apenas 10% que leem quatro vezes ou mais por semana.

Não, não é uma questão educacional. Nunca houve tantos alfabetizados, nem nunca tantos brasileiros completaram o ciclo escolar, inclusive o nível superior. Um dos desafios do jornal em papel é que mesmo entre os diplomados a sua leitura é rara: 56% nunca leem, e só 14% o fazem diariamente. É uma questão de tempo. Quem lê jornal passa uma hora lendo. E no resto do dia?


Isso é verdade. Vivemos dias televisivos e da predominância da imagem. A televisão roubou muitos leitores de jornais e agora a Internet está abocanhando o resto. Constata Toledo:

Cerca de 3 horas e 40 minutos, em média, são gastas na internet. A proporção é essa, um internauta dedica 3,5 vezes mais tempo à tela do que um leitor passa folheando seu jornal. E ele já não é mais a minoria. Metade dos brasileiros de 16 anos ou mais costuma usar a internet intensamente: 36% da população usa-a quatro vezes ou mais por semana; 26%, diariamente.

Até eu, que desde jovem fui leitor de jornais, hoje tenho quase todos em minha telinha, sem restrição de leitura. Alguns pedem assinatura, outros não. Mas não consegui largar o vício. Ainda assino o Estadão e só recentemente deixei de comprar a Folha. Mais ainda: finalmente entrei no século XXI e comprei um desses objetos do desejo, um iPhone. Nos dias de estaleiro, leio a imprensa diária no aparelhinho. Aliás, eu o uso praticamente só para isso e ler e-mails. Mas só respondo por computador.

Assim, se um internauta dedica 3,5 vezes mais tempo à tela do que um leitor passa folheando seu jornal, não é menos verdade que os internautas continuam folhando o jornal na telinha. Mais ainda: a Internet está migrando do computador para os tablets e celulares. Como constata o articulista. Ou seja, até computador está assumindo ares de obsoleto.

Com uma outra vantagem: na internet não há a censura que, bem ou mal, todo jornal preserva. Em um não se pode denunciar as falcatruas do PSDB. Em outras, o PT é sagrado. Na Internet, pelo menos por enquanto, pau que bate em Chico bate em Francisco.

Há muita besteira, é verdade. Se disser que 95% (cálculo no olhometro) é abobrinha, acho que até estou sendo otimista. Mas as redes sociais têm milhões de leitores, que sempre trazem à tona notícias que escaparam dos leitores ou foram propositadamente omitidas pela imprensa. Sem ir muito longe: boa parte de minhas crônicas não teriam acolhida em jornal. Por outro lado, gora o leitor tem voz. Antes, sempre dispunha das colunas do leitor nos jornais. Mas essas colunas sempre resumem as cartas e acolhem pequena parte das cartas ou mails. Nem poderia ser diferente. Papel custa grana e todo espaço de jornal é limitado.

Sem falar que, para quem lê jornais todos os dias, as manchetes são capítulos previsíveis de um mesmo romance. O Estadão, por exemplo, não me toma mais de 15 minutos. Para começar, cadernos de esportes, economia, negócios, vou logo jogando fora. Ainda leio o Caderno B. Mas cada dia menos. O que se pretende dedicado à cultura, não passa de propaganda gratuita – ou talvez não – do show business. Um título bem feito, para bom leitor, dispensa até memo o texto. Vejamos a primeira página da edição de segunda-feira.

Ucrânia reage e planeja adesão à União Européia
Previsibilíssimo. Não há nada mais a ler.

Para vice dos EUA, situação na Venezuela é “alarmante”
No mínimo.

Dilma busca aliança com PMDB
Óbvio. Quem duvida?

Corinthians se complica
Que se complique. Nada tenho a ver c0m futebol.

Impulso a empresas inovadoras.
Muito bem. Mas não leio sobre negócios. Salvo maracutaias, que me divertem, não me interessam.

Busca por avião é ampliada
Normal. Afinal, ainda não foi achado.

Marcola não terá prisão mais rígida
Até merece uma olhadela, para constatar a leniência com o crime de nosso Judiciário. O que nada tem de novo. A decisão foi revertida na mesma noite.

Presidência vai apurar atraso em pagamentos
Que apure.

Unesp e Unicamp fazem corte de gastos
Que façam.

Aceleradoras de startups ganham força no país
Quando se dignarem a traduzir startup, talvez de uma vista d’olhos para saber do que se trata.

Nó apertado
Artigo sobre o crescimento do PIB. Não me diz nada.

A Ucrãnia sem maniqueísmos
Por Roberto Romano. Prefiro um analista mais próximo do conflito.

Relativismo moral
Por Lúcia Guimarães. A moça é chata e parece estar escrevendo para americanos. Depois dos vômitos de Aiatolavo e papistas sobre o assunto, tomo distância do assunto. Qual moral não é relativa?

Tempo em São Paulo
Isto interessa. Mas meu PC já me dá quando o aciono. Isto é, da vitrine do jornal, que anuncia os melhores conteúdos, pouco sobrou. Resta algum editorial interessante, sempre raros, porque editorial é digressão sobre o óbvio.

No miolo do jornal, até pode se encontrar alimento digerível, alguma crônica, algum fait divers, tipo pai mata três filhos, se suicida e leva o cachorro junto. Aí tem matéria boa. Senso de humanidade está aí. Não quis deixar o cachorrinho desamparado. Eu, que sempre condenei os leitores de títulos, estou virando um deles. Com a diferença que já li há muito a novela.

E está lido o jornal. No Face Book, posso encontrar matérias mais legíveis, posso comentá-las ou não, e de inhapa converso com meus interlocutores. Sem falar que encontrei parentes, amigos e namoradas que não via há mais de quarenta anos. É inteligível que a que a Internet esteja comendo a imprensa em papel pelas beiradas. E até mesmo a televisão. Hoje um leitor passa mais tempo frente ao computador que frente à TV.

Continua Toledo: Enquanto o leitor de papel passa uma hora lendo um ou dois jornais, o internauta pulveriza seus 220 minutos diários entre dezenas de sites, checando suas redes sociais prediletas, e lendo e respondendo mensagens de e-mail. Num, a leitura é concentrada e contínua. No outro, dispersa e fragmentada.

Quando se trata de informação, essa diferença tem consequências. No papel, quando a edição é bem feita, há história e contexto. Uma foto remete a uma reportagem, que é explicada por um texto analítico. Uma informação puxa a outra, formando uma narrativa. O leitor tem um roteiro entre seções e assuntos. Na internet, o internauta ricocheteia num eterno entra e sai dos sites.


Tem toda razão. Jornal tem síntese, planejamento e espaço rigidamente limitado para um texto. Num jornal-papel, seriam inviáveis as tripas sem fim do recórter tucanopapista hdrófobo e grafônamo da Veja. Só a Internet permite tais linguiças. Além disso, o jornalista amador dos blogs, se não passou por uma redação, desconhece recursos gráficos e de redação – como o lead, a linha fina, a estrutura em pirâmide invertida – que facilitam a leitua do texto.

Nada impede que, em futuro próximo, os jornais migrem totalmente de mala e cuia para a rede, isto é, com corpo de editores, repórteres e redatores. Nesse dia, poder-se-á escrever um R.I.P. para a imprensa escrita. Toledo não deixou passar despercebido isto:

Um dos motivos que acentua essa mudança radical de comportamento é que o papel da primeira página está sendo substituído progressivamente pelas redes sociais. Em vez de passar pela capa de um portal, é grande a chance de você ter chegado a este texto através de uma rede social - e voltar para lá depois de lê-lo.

Isso sem falar no universo blogueiro, que tem melhores redatores que muito jornal. Acho que meus leitores concordam com isso.