CELIBATO, OJERIZA À MULHER,
CASTIDADE E CONFESSIONÁRIOS
Neste debate sobre pedofilia nas hostes do Vaticano, o celibato dos padres católicos tem sido apontado como a causa dos abusos de criança. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Verdade que o celibato tem sido o motivo maior da deserção dos soldados de Cristo. Movimentos e associações de padres casados existem no mundo todo, no Brasil inclusive. Consta que 95% dos defroqués largaram a batina por não suportar o celibato.
Celibato não pertence à área do dogma. Até os concílios de Latrão de 1123 e 1139 – que declararam nulos os matrimônios dos padres – a obrigatoriedade do celibato era praticamente inexistente. Em sua Enciclopedia del Erotismo, Camilo José Cela lembra a resposta do bispo de Liège ao papa Bento VIII. Quando este, em 1023, quis afastar de suas funções todos os sacerdotes casados e impuros, o prelado lhe esclareceu que, neste caso, deveria destituir a totalidade de seus ministros.
A obrigação do celibato foi solenemente sancionada pelo Concílio Ecumênico de Trento (1551) e por fim inserida no Código de Direito Canônico (can. 277 § 1): “Os clérigos são obrigados a observar a continência perfeita e perpétua por causa do Reino dos Céus; por isso são obrigados ao celibato, que é um dom especial de Deus, pelo qual os ministros sagrados podem mais facilmente unir-se a Cristo de coração indiviso e dedicar-se mais livremente ao serviço de Deus e dos homens”. É o que diz eufemisticamente o Código Canônico. Em verdade, o celibato foi introduzido pela Igreja Católica para evitar que a Igreja perdesse posses em eventuais disputas de herança, e se mantém até hoje.
Meu círculo de amigos é constituído quase que exclusivamente por celibatários, tanto homens como mulheres. Não existe nenhum pedófilo entre eles. Mas são pessoas que não precisam privar-se da sexualidade. O problema maior da Igreja, a meu ver, reside em três outros pontos de sua doutrina: a repulsa à mulher, a exigência de castidade e a confissão. Desde Paulo a Agostinho, passando por outros pensadores do cristianismo, a Igreja sempre foi misógina.
Paulo, I Epístola aos Coríntios: “bom seria que o homem não tocasse em mulher”. Mais adiante: “Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu. Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se”. Ou seja, o casamento não é um bem, mas um mal menor. Mais ainda. Na Epístola aos Romanos, Paulo atribui às mulheres a responsabilidade pelo homossexualismo masculino: “Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro”.
Um pretendido Evangelho de Tomás dizia: “Bendito é o ventre que jamais concebeu e os seios que jamais amamentaram”. Mas aqui o puchero foi por demais gordo e este Evangelho não foi aceito entre os canônicos. Escreveu Agostinho: “nada é mais infame que amar uma esposa como uma amante”. São Tomás, o Doutor Angelical, manifesta toda sua repulsa ao sexo: “no coito, o homem se torna semelhante a um animal no sentido em que a razão não pode controlar o deleite e a concupiscência que há em todo coito”.
Escreveu ainda o Aquinata que um homem só devia engendrar homens, "porque o homem é a perfeita realização da espécie humana". Se, apesar de tudo, nascem mulheres, isto se deve, segundo a Lux Theologorum - como também era chamado - seja a um defeito do esperma (a corruptio instrumenti), seja ao sangue do útero ou aos "ventos úmidos do Sul" (venti australes) que, devido às precipitações que provocam, são a causa de filhos com alto conteúdo aquoso, isto é, meninas.
Ou seja, o asco à mulher perpassa a Igreja, desde os Evangelhos. Nada mais lógico que os homens se busquem no espelho. Há nos pensadores católicos uma forte ojeriza à mulher, ser imperfeito para muitos deles. Daí à "opção preferencial" pelos efebos, o caminho é curto. O homossexualismo está latente nas origens da Santa Madre. Nada contra os homossexuais. Cada um se diverte como melhor lhe apraz. Ao longo de minha vida profissional, não poucas vezes fiz a defesa do homossexualismo como opção de vida ou comportamento. Acontece que padre fez voto de castidade.
Segundo problema, a exigência de castidade. Permitir o casamento aos padres católicos, como pretendem Hans Küng e outros teólogos, implica derrubar outro pilar do sacerdócio, o voto de castidade. Padre não pode ter relações nem com menor nem com maior, nem com homem nem mulher e muito menos, é óbvio, com crianças. (Padre não pode sequer masturbar-se. É pecado mortal). Ocorre que criança é mais fácil de subjugar e manter a transgressão às ocultas. Um padre hoje, se mantém um namoro prolongado com uma mulher, incorre no risco inclusive de pagar pensão. Já uma criança, é mais fácil mantê-la calada.
Terceiro estímulo aos abusos sexuais, a confissão. Na Igreja não existe o conceito de crime, mas o de pecado. Todo pecado é perdoável, mediante contrição e a recitação de alguns mantras. Sendo todo pecado perdoável, sempre se pode pecar de novo. Leo Taxil já viu isto, há mais de século, no Les Livres secrets des confesseurs dévoilés aux Pères de famille (1899) no qual comenta crimes e criminosos da época:
“Pode-se cometer todos os crimes, assassinar pai e mãe, violar meninas como Monsenhor Maret, ou sodomizar jovens como Monsieur le comte de Germiny; pode-se tirar as calças de um menino e perfurá-lo com golpes de faca; pode-se cometer os mais execráveis crimes, enlamear-se nas turpitudes mais obscenas e degradantes. Ao sair do confessionário se está, segundo a Igreja, mais inocente que um bebê que acaba de nascer. Uma vez dada a absolvição pelo confessor, Dumollard torna-se um arcanjo e Troppmann (célebre assassino) se transforma em um verdadeiro querubim”.
Resta ainda saber se a Igreja produz pedófilos ou atrai pedófilos. É natural que homens homossexuais procurem aglomerações masculinas: igrejas, quartéis, clubes de escoteiros. É lá que encontrarão o parceiro preferencial. Se quiserem um parceiro indefeso, nada melhor que colégios, corais, abrigos de adolescentes.
Pretender que a Igreja não é a instituição que mais pedófilos reúne é negar o óbvio. Confesso não saber qual o interesse de alguém em negar o óbvio. Aqueles que vêm nas denúncias dos jornais uma campanha contra a Igreja esquecem que as denúncias são feitas também por católicos que se sentem mal no seio de uma instituição que acoberta crimes.