O HOMEM É O QUE LÊ
Há horas venho namorando um aparelho leitor de ebooks. Me fascina a idéia de portar quinhentos livros no bolso quando viajo. Mas, pensando bem, para que quinhentos livros quando se viaja? As leituras são outras. Principalmente de cardápios.
Já pensei em comprar o leitor da Sony. Depois surgiu o Kindle. Quase comprei um ano passado. Na hora de comprar, hesitei. Será que realmente quero isso? Preciso disso? E acabei não comprando.
Subitamente, a epifania. Escuta aqui: se posso ter todos os livros que quero em meu notebook, ou no netbook, que tem muitos mais gibabytes que qualquer leitor eletrônico, para que quero esses gadgets? A imprensa está empurrando ao público geringonças que não têm sentido algum. Tenho uma razoável biblioteca eletrônica em meus computadores e inclusive uma em um pendrive. Para que um Ipad?
Decididamente, os leitores de ebooks estão fora de meu horizonte. Quem gosta do inútil, que os compre. Sem falar que hoje li um artigo interessante, no New York Times, assinado por Motoko Rich:
“Bindu Wiles estava no metrô do Brooklyn, Nova York, em março, quando viu uma mulher lendo um livro cuja capa tinha uma instigante silhueta negra da cabeça de uma menina diante de um fundo laranja.
"Wiles notou que a mulher tinha mais ou menos a sua idade, 45, e levava consigo um colchão de ioga, então imaginou que elas tinham afinidades e se inclinou para ler o título: Little Bee, romance de Chris Cleave. Wiles, pós-graduanda em escrita de não ficção na Faculdade Sarah Lawrence, em Bronxville, digitou uma anotação no seu iPhone e comprou o livro naquela mesma semana.
"Tais encontros estão ficando mais raros. Como cada vez mais gente usa o Kindle e outros aparelhos eletrônicos de leitura, e com a chegada do iPad, nem sempre é possível observar o que os outros estão lendo, ou projetar os seus próprios gostos literários. Não dá para julgar um livro por sua capa, caso ele não a tenha”.
É algo que não me havia ocorrido. Ebook não tem capa. Até pode ter, mas não é visível. Ora, capa é um importante elemento de comunicação. Define as pessoas pelas quais passamos. Certa vez, em Paris, sentei-me em um café e o garçom me abordou:
- C’est vrai, Monsieur! Qu’est-ce que vous désirez?
Fiquei um pouco perplexo. Foi quando notei a capa do livro que eu lia. Les hommes ont soif, do Arthur Koestler. O garçom era ágil.
Em outra ocasião, sentei no Zero de Conduite, restaurante da rue Monsieur le Prince que não mais existe, homenagem ao cineasta Jean Vigo. Tinha longas mesas de madeira, onde os clientes se sentavam em qualquer lugar. Na época, eu defendia tese sobre Ernesto Sábato. Tomei posse de meu território e peguei de minha bolsa, para reler, El Túnel. Justo à minha frente, senta-se uma menina adorável, que começa a ler o quê? El Túnel. O namoro começou ali mesmo e a peoniana acabou alegrando meus quatro anos de Lutécia. Tudo em função de uma capa de livro.
Sempre que vejo alguém lendo em algum lugar, espicho o pescoço pra ver se se trata de pessoa inteligente ou medíocre. O homem é o que come, diziam os antigos chineses. Vou adiante. O homem é o que lê. Certa vez, em um metrô, à minha frente havia uma menina lendo algo. Atrás dela, eu não conseguia ver a capa do livro. Me aproximei de seu ombro e bastou-me ler uma palavra: Winston. É claro que se tratava de 1984, do Orwell. Ora, duas pessoas que lêem Orwell sempre têm algo em comum. Dali a conversar com ela foi um segundo.
Falar nisso, adoro aqueles metrôs de Paris ou Estocolmo. São salas de leitura. Todo mundo lendo jornais ou livros. Mesmo nos ônibus. Já vi gente lendo partituras e regendo ao mesmo tempo. Viciado nestas práticas, ao voltar da Suécia, fui visitar uma amiga em São Paulo. Lembro que ela morava na rua Saratuiá. Calculei meu trajeto de ônibus e me muni com dois jornais para chegar até lá. Santa ingenuidade! Viajei espremido num corredor, mal tendo espaço para pendurar-me naqueles ganchos de pendurar passageiros.
Da mesma forma, a vista de uma capa nos afasta de gente que não vale um vintém. Se vejo alguém lendo Harry Potter ou Paulo Coelho, já tomo a devida distância. Esta foi uma decepção de minha última viagem à Noruega. Em um dos barcos da Hurtigruten, num percurso de cinco dias, encontrei cinco pessoas lendo livros do Paulo Coelho. Ora, eu imaginava que quem fazia a costa norueguesa seria pessoa de algum nível cultural. Não é. A estupidez é universal.
Há nuanças. Se vejo alguém lendo Proust ou Joyce, não direi que é um medíocre. Mas é pessoa com quem não me interessa conversar. Daquele mato não sai coelho. Da mesma forma, jamais me aproximaria de um leitor de Machado de Assis. Cada um com seu cada qual.
A capa de um livro é uma carteira de identidade do leitor. O leitor de ebooks extingue este sinal, que muitas vezes serve para aproximar pessoas.