AINDA A PSICANÁLISE
Do Humberto Quaglio recebo:
Caro Janer,
Saudações!
Interessantes suas reflexões sobre Freud e a psicanálise. Tive meus primeiros contatos com Freud em 1999, através da leitura de Conjecturas e Refutações, de Popper, nome que, aliás, marxistas e freudistas detestam ouvir. Meu descrédito com a psicanálise tornou-se completo quando, em 2000, eu e minha esposa cursamos uma disciplina na universidade cujo tema era o pensamento de Lacan. Nos anos seguintes, sabendo que vinte miligramas de fluoxetina por dia durante duas semanas fazem mais efeito do que mil anos de bate-papo, parei de me preocupar com Freud.
Porém, em janeiro deste ano, por conta dos estudos com os quais venho me ocupando, comprei e li Moisés e o Monoteísmo, de Freud. Posso dizer, Janer, que qualquer pessoa com conhecimentos rudimentares de lógica teria vergonha de argumentar como o médico vienense argumenta em vários trechos da referida obra. Só para você ter uma idéia, Freud incorre mais de uma vez na grosseira falácia da afirmação do conseqüente, quando afirma que as hipóteses e teorias que sustentam suas idéias devem estar corretas pois senão as idéias dele (de Freud), estariam incorretas. Freud tenta demonstrar a validade das teorias que sustentam as idéias dele afirmando que suas próprias idéias estão corretas, ou seja, que elas são o fundamento das idéias que as fundamentam!
Mas o ponto mais alto da argumentação estapafúrdia de Freud está quase no final da obra, quando ele sugere que uma hipótese rejeitada amplamente em um campo do conhecimento pode ser utilizada em outro campo sem maiores problemas, como se a simples mudança de área pudesse tornar válida uma idéia refutada em seu ramo do saber original. Como você costuma dizer, a las pruebas... Na página 155 da primeira edição brasileira, publicada pela Editora Imago em 1975, Freud fala que repetidas vezes ele foi censurado por não ter mudado suas opiniões embasadas nas hipóteses de um pesquisador chamado Robertson Smith, unanimemente rejeitadas por etnólogos posteriores. Freud, então, após algumas linhas, à página 156 vem com essa: "Acima de tudo, porém, não sou etnólogo, mas psicanalista. Tenho o direito de extrair, da literatura etnológica, o que possa necessitar para o trabalho de análise." Ou seja, para utilizar na área dele, ele pode extrair qualquer coisa de outra área, até mesmo hipóteses em descrédito no seu ramo original.
E tem gente que até briga quando alguém critica esse médico austríaco...