¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, outubro 23, 2003
 
IN MEMORIAM


Clotilde


Lembras, Clotilde, daquele guri boca suja e sem respeito que fugia para o chircal quando chegavam visitas? E que só voltava do mato para exibir aos visitantes - especialmente se eram moças - seu vasto repertório de nomes feios? Eu já não lembro muito dele. Entre aquela época e hoje se passaram mais de trinta anos, que dão a impressão de trezentos. Mas sei que lembras dele melhor do que eu.

Me dá teu braço. Vamos passear pelos campos de Ponche Verde e Upamaruty. Rever a sanga onde pesquei minhas primeiras joaninhas. Os mundéus para onde mangueei perdizes. A sombra da parreira onde me ensinaste as primeiras letras. A cacimba em que me debrucei para beber a água gelada do manancial. Vamos passear em silêncio, não sou de muito falar. Sabes que no campo não se admite intimidades entre pais e filhos. Se hoje tenho a coragem de te falar, decerto é porque estou longe.

Olhando paras trás, tudo me parece sonho. Lembras de quando escarafunchavas meus pés arrancando rosetas e espinhos de tala e coronilha? Sinto saudades daqueles espinhos. Aquele cascão grosso que protegia meus pés é hoje uma pele fina, sensível até mesmo a grãos de areia. Forçado pelas convenções, ao pôr sapatos me sinto um pouco como cavalo ferrado. Mas a cidade assim o exige.

Me passa um mate. Vamos sentar na frente da Casa, ao lado da pedra onde Canário afiava facas e tesouras. Enquanto o sol vai caindo e as sombras avançam, como fantasmas tristes coxilha arriba, vamos corujar a primeira estrela, ouvir a canção dos grilos, ver as ovelhas se aprochegando em fila para o abrigo de uma canhada.

Não sei se imaginaste alguma vez as andanças futuras daquele guri xucro. Eu jamais imaginaria. Se, naquela época, me dissessem que há um país onde o sol não se põe, eu insultaria o mentiroso. E não é que um dia fui parar lá? E à meia-noite o sol ameaçava esconder-se, mas era só ameaça, continuava rodando quase paralelo ao horizonte.

Lembro de ti muitas vezes atrelando o tordilho à aranha. Li há algumas semanas, num jornal, a queixa de umas professoras rurais que tinham de ir à escola a cavalo. Gente boba, não é? Durante trinta anos, alfabetizaste duas gerações, graças ao tordilho. E nunca ouvi de ti queixa alguma.

Devo ter sido bom aluno, não é verdade? Uma das coisas que lembro muito foi daquele quinto ano primário. Tirei o primeiro lugar da aula. Foi barbada. Pra começar, só tinha dois alunos, eu e a Chica. Como viriam fiscais da cidade para os exames, e a turma não estava bem preparada, as professoras nos deram a prova num domingo, para decorar em casa. Não sou ruim de memória, respondi tudo em dois minutos.

Lembras da professora que pulou o alambrado atrás de nós, quando a aranha já descia o lançante da coxilha? “Espera, pára, o teu filho é um gênio, tens de mandar esse guri pra cidade”. Pois é! Mandaste o geninho pra cidade. Lá já foi mais difícil continuar sendo o primeiro da classe. As professoras jamais deram a alguém as provas antes do dia do exame. Resultado: no fim do ano, um monte de reprovações. Por isso que o ensino moderno anda em crise.

Mais um chimarrão antes de a gente terminar este passeio! Já está ficando tarde, tenho de voltar ao presente. Só há um lugar no mundo para onde sempre volto com o coração aos pulos: Ponche Verde. Qualquer dia estarei de novo aí. Não é por meu gosto que vivo nos povoados. Sabes, já faz alguns anos que não dou uma boa galopada nem vejo um nascer de sol. Há muito não ouço um galo cantar nem vejo galinhas ciscando o pátio depois de uma chuva. Já nem sei se formigas de asa existem ou são lenda. Esqueci o gosto de um tatu assado na casca. Bebo um leite de sabor desagradável que nada mais tem a ver com um apojo quentinho.

Virei bicho da cidade, mãe. Mas qualquer dia desses, o diabo sai de trás da porta, ato a mala nos tentos e me mando à la cria!

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terça-feira, outubro 14, 2003
 
IN MEMORIAM


Canário



Não me esperaste, Canário! E como eu tinha causos pra te contar depois desta última campereada. Andei por plagas onde a geada era grossa por mais de palmo e o pasto cresce só de teimoso. Montei nuns matungos de duas corcovas, de trote mais feio que potro redomão. Dancei com uma indiada de semblante maleva, cara embuçada, que reboleava os mosquetes por cima da cabeça e terminava cada marca com um tiroteio. Ouvi uns gringos falando uma língua que não era língua, mais parecia doença da garganta. Vi uns maulas tomando café com sal e comendo peixe podre, mais satisfeitos que guri roendo rapadura. Tirei até uns retratos desses causo mais difícil de dar crédito. No meu peito sentia uma vontade de sentar contigo no oitão da Casa e ir proseando entre um mate e outro. Não me esperaste.

Levei muito tombo nestes rodeios da vida, só depois fui te entender. Um dia abandonei teu rancho, fui pro povoado, me tornei letrado e não te entendia. Acordavas antes dos galos e ias buscar as vacas naquelas manhãs brancas de sereno. As vacas já na mangueira, me acordavas para o mate no galpão. Enquanto eu chorava com a fumaça da madeira verde, me contavas as peleias de Martín Fierro, histórias de contrabando, brigas de baile, intrigas de chinas. Eu só ouvia, era guri sem mundo. E agora que eu tinha uns causos pra te contar, não me esperaste.

Não te entendia. Eu, o letrado, o doutor, não entendia tuas lidas. Inverno e verão levantando cedo, apojando as vacas, tomando mate, rasgando a terra com o arado, largando a semente e cortando a aveia, colhendo o milho e fazendo a parva. Rasgaste tuas mãos alambrando, derrubaste cercas do Uruguai e Brasil fugindo de peleias que não eram tuas. Me ensinavas a encilhar um cavalo, clavar na volta-e-meia, manguear perdiz pro mundéu, tirar lonca e trançar laço. E tudo isto me parecia inútil. E eu não entendia teu lugar no universo. Um dia te entendi. Não me esperaste.

Te lembro já de noitinha, descendo o Cerro da Tala, voltando de um trago no bolicho do Jacinto. A cachorrada te saudava, eu corria até a sanga e voltava na garupa. (Onde andarão meus cachorros?). Voz já meio enrolada, um hálito de cachaça, apeavas contando as novas lá das Três Vendas. Eu desencilhava teu baio e voltava ligeirito para me acocorar na roda de chimarrão e ouvir as histórias que tu tinhas ouvido. A lua ia nascendo lá no Uruguai, do outro lado da Linha, e quem vai a bolicho não volta sem uma botellita debaixo do braço. E me falavas de causos de assombração que me gelavam o espinhaço e perturbavam meu sono. E agora eu tinha causos pra te contar. Não me esperaste.

A última vez que fui te ver... Sentias que era a última vez, eu não sentia. Vou pras Oropas e depois volto, pensei, pra mais um chimarrão. Tu sabias que aquele mate era o último. E quando juntei meus trapos pra voltar a Porto Alegre, choraste. Como não entrava em minha cabeça dura ver aquele gaúcho chorando, virei as costas e me vim. Ah, Canário! Nesta vida nada é mais sem volta que a morte. Mas esta lição sempre vem tarde.

Hoje te entendo em teu mundo, cumpriste teu ciclo no tempo e no espaço que te foi dado. E a dor que tua memória me traz, é dor que me revigora. Me dá até vontade de crer noutra vida depois desta, pra tomar mais uns mates e te contar aqueles causos que queria te contar.

Hasta luego, Canário!


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segunda-feira, outubro 06, 2003
 
In Memoriam


Viagem infame, aquela! Nossa noite já havia sido de angústia, prenúncio de uma partida sem volta. No dia seguinte, imbecis, rumamos um para o norte, outro para o sul. Te apertei com desespero até a estação, não sabia quando te voltaria a ver. Sei, há muitas mulheres no mundo, mas se tu existias para que buscar outra companheira de caminhada? Minto, não é bem isso, é algo ainda mais simples. Te adorava, e pronto! Posso perder a memória, mas jamais a lembrança daquela manhã que não desejo a ninguém, manhã abominável, para sempre permaneça sepultada lá em Madri.
O Talgo começou a mover-se, lento como todos os trens que separam amantes, lento mas inexorável, cada vez menos lento e mais inexorável, e teu vulto envolto em lãs e distância foi se tornando cada vez mais distante e mais terno, um nó começou a me estraçalhar a garganta, não resisti. As lágrimas foram rolando sem muita cerimônia. Um espanhol a meu lado, muito discreto, desviou o olhar para não imiscuir-se em meus sentimentos. Lembras aquele boné de bisão que me deste em Amsterdã? Pois é, o espanhol tomou-me por russo, tenho certeza que intimamente se perguntava por que razões andaria este cossaco chorando em Madri. Cossaco é a vovozinha, sou gaúcho de Ponche Verde. Gaúcho chora? Chora sim, basta que sofra.
Quando cheguei em Paris, estavas em Lisboa. Era tempo ainda, bastaria um telefonema para o aeroporto para pôr fim àquela insensatez. Mas sempre fui obstinado, continuei teimando em minha viagem rumo ao frio. Mais algumas horas e um oceano estaria nos separando. Seria tarde para voltar e eu queria que fosse tarde para voltar – para não voltar.
Em uma gare apanhei o resto de minhas malas e atravessei aquela Paris, cheia de charme quando chegamos, cheia de cinza quando voltei. A neve que aconchegava os campos, que contigo me parecera tão macia e tão morna, era agora cada vez mais neve e mais fria. Frio por dentro, atravessei aquela Alemanha fria sem disposição alguma para divertir-me às custas dos Deutschen e seus ares marciais, como fazia quando contigo.
Atravessei uma Holanda sem graça, uma Dinamarca sem graça, rumo a uma Estocolmo sem graça alguma. A graça estava em ti e tu voavas rumo ao sul. No ferry-boat para Helsinborg – já estarias próxima a Porto Alegre – fugi do restaurante e fui até a proa, se estava enregelado por dentro pouco importava enregelar-me por fora. O barco avançava com dificuldade no mar congelado, o céu era cinzento e me pesava como chumbo aos ombros e eu, o estúpido, tinha ganas de jogar-me ao Báltico, estou certo que quebraria sua crosta hibernal, cabeça-dura como sou.
Estocolmo. Noites brancas e sempre frias. Da janela de meu quarto, em meio a um silêncio que feria os ouvidos, eu não olhava sequer a neve, mas o vazio. Não poucas noites fiquei em pé, frente à janela, olhando aquele vazio que não seria vazio se estivesses lá. Sos un boludo, che! – dizia-me um boliviano – en Brasil hay una mujer que te quiere, que haces en esta tierra de hombres tristes? Que fazia? Não sei, como tampouco ele sabia que fazia lá. Errâncias...
Lá, recebi e dei calor, calor humano e animal. Muitas noites enrosquei-me em uma lena (doce, em sueco) Lena, que por sua vez me apertava sonhando apertar um romeno de Bucareste. Amávamos por procuração, sem que nenhum mandato nos tivesse sido outorgado. Mas não era ela quem eu apertava, tampouco era eu quem ela apertava. Desculpa o lugar comum: éramos apenas bons amigos, angustiados amigos. Até que um dia deixei de ser besta, atei a mala nos tentos e voltei a trote largo pra querência. E se não me esqueço daquela manhã infame em Madri, tampouco esqueço aquela manhã linda no Rio. Não te esperava e lá estavas, chorando grudada às grades do portão do cais. Vivendo e aprendendo! Sonhei com divas e deusas e cá estou comovido com uma baixinha dentuça.
A quem espero, mesmo de cabelos brancos, jamais chamar de minha mulher ou minha esposa, mas simplesmente de minha guria.

Porto Alegre, Folha da Manhã, 13/06/77

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