AINDA A "CONTAÇÃO" DE HISTÓRIAS
Continuo com a “contação” de histórias emperrada na garganta. Um de meus interlocutores me pergunta: “é impressão minha ou você nunca tinha ouvido falar do termo "contação de histórias"?”
Nunca. Fiquei perplexo. Depois, dei uma googlada e vi que era palavra usada. Mas para centros de "contação" de história, projetos para "contação" de histórias. Isto é, para ONGs que provavelmente empregam estudantes de arte dramática desempregados. Mais um pouco e regulamentam a profissão. A de repentista, que sempre foi uma arte espontânea, acaba de ser regulamentada pela lei federal nº 12.198 de 14 de janeiro passado. Mais um pouco e a guilda age: você só poderá contar alguma história se pertencer ao sindicato. Que mais não seja, para que "contação" de história em uma biblioteca, como propõe a recentemente inaugurada Biblioteca de São Paulo? Aí o livro não tem mais sentido.
Dos dicionários a palavra não consta. Nem do Houaiss, nem do Aurélio, nem do Caldas Aulette. É jargão de funcionário público, provavelmente de assistentes sociais ou por aí. Em suma, de burocratas. Gente que não sabe criar palavras. Outra palavrinha que me deixa indignado é cadeirante. Suponho que tenha derivado, por analogia, de ambulante. Mas ambulante deriva de um verbo, ambular. Ambulante é quem ambula. Ou deambula.
De qualquer forma, a palavra perdeu o sentido, porque hoje ambulantes é como se denominam os camelôs, que geralmente são fixos. Cadeirante não deriva de um verbo, mas de um substantivo. Não existe o verbo cadeirar. A partir dessa lógica, deveríamos chamar mesante quem senta em uma mesa, camante quem está de cama, bicicletante quem anda de bicicleta. No fundo, a tirania do politicamente correto. Não se fala mais em paraplégico. Cadeirante é mais sutil. Até o dia em que a palavra estiver gasta. Aí, se troca de novo. Mesante emérito, me pergunto: e o fulano que é transportado em maca? Será um macante?
No Brasil, as palavras perdem o sentido. Croissant, por exemplo. Segundo alguns historiadores, foi um pãozinho em forma de lua crescente, distribuído em 1529 em Viena pelos padeiros para alertar os austríacos sobre a invasão dos turcos. Há quem diga que isto é lenda. Seja como for, croissant tem de ter a forma de quarto crescente, ora bolas. Ou quarto minguante, vá lá. Mas quarto de lua. Aqui, virou um pãozinho rombudo que de crescente nada tem. Ambulante não mais ambula, crescente já não é quarto nem minguante.
Já que tocamos no assunto: está surgindo nas línguas latinas, tanto no espanhol como francês ou português, um novo eufemismo para sexo. (Não vi ainda no italiano, mas duvido que permaneça incontaminado). Fala-se agora em gênero. Por exemplo: combate à discriminação por gênero, etnia ou orientação sexual. Ora, gênero é uma categoria meramente gramatical, à qual pertence um substantivo ou um pronome pelo fato de concordar com ele uma forma – e geralmente só uma – da flexão do adjetivo e do pronome. É o que nos diz o filólogo Roberto Soca. A palavra, tanto em espanhol como em português ou francês, refer-se a objetos inanimados. A aplicação de gênero a pessoas está baseada em um erro de tradução do inglês gender, que nessa língua se aplica às diferenças entre homem e mulher. Segundo o filólogo, a palavra gênero, aplicada a pessoas, é um decalque semântico do inglês, derivado da mania americana do politicamente correto e elevado à categoria de conceito sociológico.
Neologismos mal construídos, como também palavras novas que passam a designar conceitos, comportamentos ou atividades para as quais já existia uma palavra, só servem para ferir o espírito da língua. Meu interlocutor continua: “O termo já existe há um bom tempo. Pode não ser o mais adequado, mas é o que é usado, sendo inclusive utilizado em títulos de teses. Não gosta da palavra? Sugira outra, mas não saia desmerecendo quem faz uso dela”.
Narração, ué! É uma boa e antiga palavra. Para que jogá-la fora e trocá-la por um neologismo tosco, que machuca a língua? Mais um pouco e teremos contação de piadas.
Mas este é o menor problema. O problema mesmo é essa nova profissão, os contadores de história, gente paga por instituições para contar histórias a públicos cativos, crianças e adolescentes, que não têm como defender-se da “contação” de histórias.