A CAROLINA REDIVIVA
E O NOVO CARANDIRU
Nos anos 80, fui convidado pelo governo sueco para uma visita ao país. O convite se devia ao fato de ter traduzido autores suecos ao brasileiro. No programa, fazer palestras em universidades, conversar com escritores e visitar instituições culturais. A visita que mais me surpreendeu foi a que fiz à Carolina Rediviva, a biblioteca de Uppsala, onde li inclusive manuscritos em sueco de José Bonifácio de Andrada e Silva.
Mais conhecido como patriarca da Independência, José Bonifácio não pertencia à atual estirpe de analfabetos que hoje domina a política nacional. Além de estadista e poeta, era naturalista. Em sua viagem à Noruega e Suécia, em 1796, descreveu pela primeira vez e deu nome a quatro espécies minerais novas e oito variedades que se incluíam em espécies já conhecidas. Ah! Em Uppsala tive também a honra de visitar a casa onde nasceu Karin Boye, de quem eu havia traduzido Kalocain.
Guiado pela mulher do diretor da Carolina (ou seja, Carolíngia), fui introduzido no Santo dos Santos, isto é, a sala onde está a Bíblia de Prata - o Codex Argenteus – assim chamado por ter sido escrito com tinta prateada. É o texto mais conhecido em gótico, língua germânica já extinta. Não chega a ser uma bíblia, mas um evangelário, ou seja, um livro contendo partes dos quatro evangelhos. O nome dos evangelistas e as três primeiras linhas de cada evangelho são ornadas com letras de ouro. É certamente o livro mais raro que já vi em minha vida – e já vi muitos, inclusive a Gramática Castellana de Nebrija. Devo ter passado por quatro ou cinco grades trancadas a sete chaves para chegar até a Bíblia de Prata. Mas não era disto que queria falar.
Uppsala é uma cidade universitária e tem hoje 185 mil habitantes. Não lembro quantos teria na época, mas a cifra deve ser mais ou menos a mesma. Minha guia tinha uma queixa. Que o governo liberava verbas para aumentar as dependências da biblioteca, mas era avaro no que dizia respeito ao acervo. Quantos livros tem aqui? – perguntei. Nosso acervo é pequeno – me respondeu a moça, desolada -. Temos apenas quatro milhões de exemplares.
Foi inaugurada ontem nesta urbe a emblemática Biblioteca de São Paulo, onde antes foi o presídio Carandiru, ao custo de R$ 12,5 milhões. São Paulo, considerada a terceira maior cidade do mundo, tem uma população – intramuros - de 10,5 milhões de habitantes. Aqui vivem mais gentes que em toda a Suécia, que hoje conta com 9,2 milhões de almas. A gloriosa biblioteca paulistana, inaugurada com muita pompa, tem um acervo de... 30 mil livros. 133 vezes menos do que a Carolina Rediviva, da pequena Uppsala, de apenas 185 mil habitantes.
Fosse só isso... Mas não é. Lá onde foi o Carandiru surge uma nova concepção de biblioteca. Disse ontem o secretário municipal de Cultura, João Sayad, em entrevista à Folha de São Paulo:
- Queríamos um lugar que dessacralizasse a imagem da biblioteca e fosse atraente para o público não leitor. Não seguiremos uma orientação acadêmica. Vamos destacar os livros que aparecem nas listas dos mais vendidos na mídia. Pedi para que fosse organizada como livraria, mais do que como biblioteca. Até os funcionários vão se comportar como vendedores. Será uma megastore cultural.
O que merece algumas considerações. Para começar, biblioteca é lugar para quem lê. Que vai fazer o público não leitor numa biblioteca? Público não leitor que vá às favas, aos estádios, aos shows de rock, ora bolas. Que vá assistir Lost, novela das oito, Big Brother. Biblioteca não é lugar para quem não lê.
Continuando, biblioteca tem por vocação ser um acervo de livros que não se encontram nas livrarias. Os mais vendidos que a mídia oferece são sempre subliteratura, lixo impresso em letra de forma. Se é para oferecer ao público autores como Dan Brown, Paulo Coelho, Danielle Steel, Stephenie Meyer e Zíbia Gasparetto, os paulistanos estariam melhor servidos com o Carandiru.
Não menos curiosa é a concepção de biblioteca da diretora Magda Montenegro:
- Este lugar vai fazer sucesso porque não é soturno e não vai ter bibliotecário pedindo silêncio. É um espaço acolhedor, colorido.
Pelo jeito, a preocupação da bibliotecária não é atrair leitores, mas formar leitores.
- Vamos promover intensamente atividades culturais, com oficinas de grafite, contação de histórias e muita programação infantil. Preocupamo-nos muito com a criança, porque queremos formar leitores. Mas não vamos nos esquecer dos outros frequentadores. Já estamos planejando, por exemplo, fazer um baile da terceira idade dentro da biblioteca. Isso é possível porque não estamos falando de uma biblioteca com aquela imagem antiga, toda escura, com todo mundo em silêncio... Será uma biblioteca aberta, onde todos vão poder entrar.
Ah, a timidez de nossos administradores! Ontem ainda, eu comentava a timidez do senador Cristovam Buarque, que propunha duas horas de cinema nacional obrigatório na rede escolar. Por que não mais duas horas de teatro nacional, mais duas de música nacional, mais duas de televisão nacional? Se a dona Magda – pessoa que lida com livros e fala em “contação” de histórias – quer bailes para terceira idade, por que não baladas para jovens? Que tal samba? Ou funk? Ou forró? Seriam poderosos chamativos.
Estamos em ano de Copa. Seria talvez um grande atrativo para captar leitores a instalação de telões para a transmissão dos jogos. E se silêncio não importa em uma biblioteca, que tal matinês aos sábados para a petizada? E por que não shows de rock? Nada melhor que uma boa banda como pano de fundo para induzir os jovens a ler Dostoievski ou Platão, Agostinho ou Renan.
Que mais não seja, se existe a “contação” de histórias, para que livros? Tudo pelo social. Vamos dar emprego bem remunerado a esses ridículos funâmbulos, que começam a invadir bares e hospitais sem que ninguém os chame, para a “contação” de histórias. O leitor que me perdoe, mas isso de “contação” me deixou indignado. Como dizia Gide, no dia em que deixar de indignar-me, é sinal de que estou envelhecendo. Ainda sou jovem.
Quando se designa uma analfabeta funcional como diretora de biblioteca, a cultura do país já está em UTI.