FRANÇA REIVINDICA
O DIREITO AO MEDO
Conheci Paris em 1971. Foi passagem rápida, só fui morar lá em 77. Um dos prazeres que a cidade me ofereceu foi a flânerie. Segundo o Larousse, ir de um lugar a outro, perder seu tempo. Prazer que há muito perdemos em nossas cidades. Flanar, no Brasil, é sinônimo de pedir para ser assaltado.
Eu morava no 13ème. Tinha uma boa amiga, colega de Literatura Comparada na Sorbonne Nouvelle, que vivia no 16ème. Quando voltava de seu studio, naquelas madrugadas silentes de Paris, já não era hora de metrô. Voltava a pé. Duas horas de caminhada, em transversal, por aquela arquitetura divina. Sem temor algum. Jamais me ocorreu, naqueles dias, que alguém me assaltasse ou agredisse.
Quarenta anos são passados. Hoje, pelo que leio, a realidade é bem outra. Segunda-feira passada - nos conta o Libération -, Bruno Beschizza, candidato a deputado em Seine-Saint-Denis pela UMP (Union pour un mouvement populaire), apresentou uma plataforma insólita em Paris. Que nos transportes coletivos as mulheres tenham acesso privilegiado no primeiro vagão, que seria videoprotegido para que as pessoas se sintam em segurança. Paris, mais rápido do que se supunha, está virando villaya muçulmana. Mulheres em um vagão, homens em outro.
Logo depois, o candidato voltou um pouco atrás e defendeu, sem distinção de sexo, a videoproteção sistemática no primeiro ramal de cada trem e do RER, o Réseau Express Régional, sistema de transporte rápido que serve Paris e a região de Île-de-France. Esta proposição consta também do programa da cabeça de lista do UMP, Valérie Pécresse: “Viajar com toda segurança graças à videoproteção, que equipará as estações, os ônibus e os primeiros ramais de cada trem e será conectada à polícia de transportes”.
Ou seja, andar de metrô ou ônibus, em meio a outros passageiros, já se tornou perigoso em Paris. Imagine então andar a pé por ruas desertas. Ao tentar corrigir sua proposição original, declarou Beschizza: “Efetivamente, um adolescente, um ancião e mesmo um homem de 40 anos podem, às 23 hs, ter medo e ter vontade de viajar no vagão da frente. Toda pessoa tem o direito de dizer ‘eu tenho medo’”.
A França está reivindicando o direito ao medo. Saudades daquela Paris, que há três décadas eu atravessava em diagonal nas madrugadas sem temor algum. O mesmo aconteceu em Estocolmo. No início dos 70, flanar por aquelas noites brancas do verão boreal era algo que não inspirava medo algum. Verdade que desde então os suecos já tinham suas câmeras de vigilância nos metrôs e no alto dos prédios. Mas, no início desta década, li uma manchete inquietante no Aftonbladet:
Stockholmarnas farligaste gator
Ou seja, as ruas mais perigosas de Estocolmo. Ora, quando lá vivi lá, não havia uma única rua perigosa na cidade. Agora, o jornal listava mais de cem. Que ocorrera de lá para cá? A invasão muçulmana. Quem desenha muito bem este novo panorama é o historiador alemão Walter Laqueur, em Os últimos dias da Europa – Epitáfio para um velho continente, livro que comentei há dois anos. Laqueur, com sua visão privilegiada de cidadão da Alemanha, traça em seu ensaio um panorama desolador. É triste ver um continente, que sempre cultivou os ideais de liberdade, tendo sua população refém da barbárie islâmica.
Há mais de quarenta anos, a revista Veja – ou talvez a extinta Realidade, agora não lembro – mancheteou em sua capa:
São Paulo, a capital do medo
Ao que tudo indica, o medo migrou para a Europa. Insisto em meu conselho. Se você ainda não conhece a Europa, leitor, viaje logo. Antes que a Europa acabe. Se é que já não é tarde.