TURISMO E JABACULÊ
NA GRANDE IMPRENSA
A imprensa nacional, que tanto denuncia as corrupções do governo, abriga em suas páginas algumas áreas corruptas. A primeira delas é a tal de crônica social, a antiga chronique mondaine francesa, que hoje não mais existe nem na Europa nem nos Estados Unidos. Mas permanece no Brasil, como uma mancha no jornalismo. O cronista social é um extorsionista de vaidades. Pode até não ganhar nada como salário, mas sempre ganha por fora dos socialites que louva. Todo jornalista que se preze abomina os cronistas sociais. É uma corrupção baixa que infesta até os grandes jornais, como o Estadão e a Folha de São Paulo.
Bonecos de gente sem expressão nenhuma, cujo único cacife é ter dinheiro, ocupando mais espaço que texto. Sorrisos forçados de socialites, fotos sem nenhum sentido jornalístico, que mais parecem de uma galinha botando um ovo. Em jornaleco do interior, até que passa. Mas num grande jornal é inadmissível. Conta-me um amigo que o gênero está em decadência. Que César Giobbi foi ejetado do Grupo Estado, que Paulo Gasparotto não mais ganha jabaculê com sua coluna na RBS. Pode ser. Assim seja. Mas ainda restam as Mônicas Bergamo e as Sonias Racy da vida.
As corrupções em nosso jornalismo não param por aqui. Críticos de cinema são pagos para assistir estréias de filmes de Hollywood e se sentem obrigados a louvar abacaxis como Código da Vinci, Titanic ou Avatar. Já cobri muitos festivais de cinema financiado pela organização dos festivais. Mas em um festival você tem oitocentos, novecentos, mil filmes em uma ou duas semanas, e você faz sua escolha. Ninguém me induziu a promover este ou aquele filme. E se me induzisse, eu não o faria. Quando você vai a Nova York assistir a um filme, é diferente. Você tem de louvar o filme. Ou não ganha mordomia de novo. Daí a promoção dos abacaxis, que acabam merecendo páginas e mais páginas nos jornais. Enquanto que um filme bom, de produção modesta, que não tem como comprar jornalistas, não recebe promoção alguma.
A área mais corrupta do jornalismo nacional talvez seja, no entanto, a dos jornalistas comprados por agências de turismo para louvar viagens ou cruzeiros. Estes são legião. Se sentem prestigiadíssimos quando recebem uma passagem de brinde de alguma operadora para fazer turismo de luxo no Exterior. Em momento algum se sentem corruptos. Mais ainda, se outorgam o direito exclusivo de escrever sobre turismo. Se você não foi financiado por agência alguma e quer escrever sobre sua viagem, você não encontra espaço. Também, pudera: está sabotando o ganha-pão dos venais. Viajar por conta própria é uma ofensa à categoria. Perturba o mercado do jabá.
Na Folha de São Paulo de ontem, o editor de turismo Sílvio Cioffi, que assina como “enviado especial à Europa”, não foi enviado coisa nenhuma. A Folha não gastou sequer um vintém na viagem. Foi patrocinado pela TAM e Rail Europe. Foi comprado por duas empresas. Como bom jornalista vendido, vende o peixe pelo qual foi pago para vender. Começa sua reportagem com uma proposta absolutamente idiota de viagem:
“Que tal tomar café da manhã no Fouquet's-Barrière, o pós-moderno cinco estrelas inaugurado há pouco em Paris; almoçar em Bruxelas com Jean-Pierre Bruneau, chef de restaurante estrelado pelo guia "Michelin"; e, de noite, jantar na megaloja de luxo Harrod's, em Londres, onde, auspiciado pelo Turismo Espanhol, um balcão servia tapas e queijos, vinhos e doce de figo? Esse périplo gastronômico por três países foi realizado num único dia pela Folha a bordo de trens”.
Esse périplo estúpido não foi realizado exatamente pela Folha. É a fórmula que o jornalista venal encontra para dizer que não foi comprado. Não foi a Folha que viajou paga por agências. Folha é eufemismo. Quem viajou foi Cioffi. Claro que visitar três países em um dia é possível, principalmente naqueles pequenos territórios da Europa, nos quais se você dorme no trem acaba em outro país sem se dar conta. É possível, mas não inteligente. Nem turista de excursão faz isso.
Tampouco é inteligente comer em restaurantes estrelados pelo Michelin. Você come muito bem, e por preço relativamente barato, em restaurantes que o Michelin ignora, mas aconchegantes e prazerosos. Diria mais: divinos. A atitude do jornalista é coisa de nouveau riche analfabeto. Daqueles brutos que viajam em excursões da CVC. Um editor de turismo, que muito já trotou pelo mundo, não precisava propor a seus leitores viagem tão estúpida. Mas, que se vai fazer? Ele tem de promover as empresas que o corrompem.
Há sugestões de viagem até que interessantes. É a chispa da ferradura quando bate na calçada. Mas o editor comete dois pecados capitais. Primeiro, recomenda viajar “entre o início de junho e fim de setembro, quando as temperaturas são amenas”. Amenas como, cara-pálida? Em Madri, no verão, a temperatura ao meio-dia bate nos 40 graus e assim permanece até as seis da tarde. Paris e Roma não são nada confortáveis nesses dias. Junho e setembro, vá lá. Mas julho e agosto são os piores meses para se visitar a Europa. Pelo menos o sul da Europa. Muito calor, excesso de turistas, hotéis lotados, preços mais salgados. Filas quilométricas ante a Torre Eiffel, Louvre ou Capela Sistina. Não que eu seja de visitar hoje tais monumentos. Mas quem faz uma primeira viagem, sempre quer visitá-los.
Julho e agosto são os meses em que uma brasileirada infame invade o velho continente. E nada pior que uma massa de brasileiros durante uma viagem. Sem falar que temperaturas amenas você tem em todo o inverno europeu. Na Europa existe calefação. Você passa mais frio em um inverno em Porto Alegre ou São Paulo do que na Europa em temperaturas abaixo de zero. Nos bares, hotéis, ônibus, enfim, em qualquer interior, a temperatura oscila em torno aos 20, 25 graus. Aqui, não temos proteção alguma contra o frio. Lá, você pode tomar sorvete ou uma cerveja gelada junto a uma lareira, enquanto a neve cai do outro lado da janela. (Estou pensando, neste preciso momento, nas cervejarias da Grand Place, em Bruxelas). Frio mesmo, só na rua. Ora, você não precisa ficar na rua o tempo todo.
Verão europeu é bom na Escandinávia, onde você tem um bônus extra, o sol da meia-noite. Que me parece ser algo que todo viajante deveria ver pelo menos uma vez na vida. Sem falar que no verão a hospedagem é mais barata. Os nórdicos todos foram para o Mediterrâneo ou Egeu, o turismo de negócios entra em queda e muitos hotéis fecham. Os que não fecham, baixam os preços. Se você quiser verão ameno, é lá que o verão ameno acontece. Ao norte, as temperaturas podem chegar a zero grau.
O editor que pretende informar sobre viagens de trens na Europa, só não informou sobre a melhor e mais barata fórmula de viajar de trem na Europa, o Eurailpass. Comenta rapidamente a hipótese, mas não dá mais informações sobre. É um passe com o qual você tem várias opções, desde viajar por 21 países – o que me parece um exagero – por 495 dólares, ou fazer três, quatro ou cinco países por 315 dólares. Você viaja em primeira classe, quando viajar em segunda já é confortável. E viaja em primeira pagando menos do que os preços normais da segunda. Outra vantagem é que os vagões jamais estarão lotados. Sem falar que pode fazer viagens aleatórias. Você pode chegar numa estação e decidir, lá, se vai para o sul ou para o norte, para o leste ou para o oeste. Pode escolher a noite para viajar e economizar hotel. Ou fazer pequenos percursos entre uma cidade e outra.
Isto o editor de turismo não conta. Recebeu jabá para vender viagens caras, como sempre recomendam os suplementos de turismo nacionais. Recomenda viajar de trem, o que é muito bom. Mas não conta que, hoje, em vários países da Europa, viajar de avião sai mais barato do que viajar de trem.
Jornalismo venal é isso mesmo. A corrupção está dentro dos jornais que adoram denunciar a corrupção do governo.