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terça-feira, março 02, 2010

ÉPOCA ESTÚPIDA, ESTA NOSSA,
EM QUE SE PESQUISA PARA SABER
SE BEIJO NO PESCOÇO É BOM



Pesquisas feitas no mês passado com 20 mil recrutas israelenses, pelo centro médico Sheba, de Israel, concluíram que os fumantes parecem ter menor quociente de inteligência (QI) do que os não-fumantes. Ora, como se fosse necessário interrogar um universo de 20 mil pessoas para se chegar a esta conclusão. É óbvio que um homem que se suicida lentamente é menos inteligente do que um outro que busca preservar sua vida.

Com esta mania de pesquisar o óbvio, mais dia menos dias os cientistas farão enquetes para saber se fanáticos de futebol têm menor QI do que pessoas que preferem a leitura e o silêncio. Se turistas de CVC têm menos inteligência do que quem gosta de viajar por conta própria. Se jovens que se drogam em shows são mais ou menos inteligentes do que jovens que preferem cultivar o espírito. Se espectadores de BBB tem menos inteligência do que quem prefere Mozart ou Boccherini. Não é de espantar que se façam pesquisas para saber se sexo é bom, se chocolate é prazeroso, se vinho sabe bem ao palato.

Confesso que nunca confiei nessa aferição de quociente de inteligência. Há inteligência e inteligência. Costumo afirmar que existe a inteligência burra e a inteligência inteligente. É óbvio que um homem que entende de cálculo infinitesimal é pessoa inteligente. Mas se é inteligente para matemáticas, nem sempre é inteligente para enfrentar a vida. E esta é a inteligência mais importante. Conheci – e conheci de perto – médicos, advogados e engenheiros que fuzilam mulheres porque se sentem traídos. Ora, isto não é inteligência.

Quanto a cientistas que pesquisam um universo de 20 mil pessoas para saber se quem fuma é mais ou menos inteligente, diria que estes senhores carecem de inteligência. Não bastassem estes cientistas do óbvio, surge agora um escritor, um tal de William Cane, autor do best-seller americano The Art of Kissing, que pretende ter entrevistado 100 mil pessoas no mundo todo para provar suas teorias. O engodo começa aqui. Homem algum entrevista cem mil pessoas. Digamos que passasse 50 anos fazendo entrevistas. Teria de entrevistar duas mil por ano. Cinco por dia. Ora, ninguém passa 50 anos entrevistando cinco pessoas por dia. Como todo livro idiota, seu livro já está traduzido em 19 línguas.

O autor, que diz estudar o beijo desde a tenra idade, chega a uma conclusão de gênio: “Beijar o pescoço é muito importante, porque 96% das meninas que entrevistei afirmaram gostar de ser beijadas lá”. Essa agora! É preciso fazer pesquisas para saber se uma mulher gosta de ser beijada no pescoço. Mais um pouco e se fará uma pesquisa de grandes proporções para saber se uma mulher gosta de uma mão nos seios.

Não bastasse pesquisar o óbvio, o autor quer ensinar o que não precisa ser ensinado. Cane publicou um livro e um DVD onde pretende ensinar técnicas de beijar. “Um bom beijo é aquele que une técnica e paixão. Aliás, paixão e química não podem ser ensinadas, mas as técnicas certamente que sim. E aí que meu livro e meu DVD entram em cena”.

Só o que faltava alguém aprender técnicas de beijar. Qualquer dia, algum “cientista” escreverá livros dedicados a bebês, ensinando técnicas de bem mamar. Beijo se aprende beijando, ora bolas. Imagine você chegar a uma menina e considerar: qual técnica vou utilizar agora? Beijo é bom mesmo quando não se sabe o que é um beijo. É por isso que nunca esquecemos o primeiro beijo. Os lábios que se aproximam... não saber o que vai acontecer depois... a surpresa do bem-bom... a descoberta. Tudo isto se perde quando se sabe, “cientificamente”, o que é um beijo.

Da mesma forma, a tal de educação sexual. Como se alguém precisasse aprender o que qualquer animal faz sem ter cursado curso algum. O melhor do sexo é quando o descobrimos sem ter a mínima idéia do que seja. Quando mergulhamos no desconhecido. Espanto, perplexidade, encantamento.

Vivemos época de proliferação de ofícios inúteis. De vigaristas que pretendem fazer ciência quando acham que estão descobrindo a América. A palavrinha "científico" enobrece qualquer pesquisa. Qualquer pesquisa com mostragem de cem entrevistados já se pretende ciência. Só o que faltava fazer pesquisas para descobrir que quem fuma é menos inteligente do que quem não fuma. Ou para saber se beijo no pescoço é bom.

Época estúpida, esta nossa.