RECÓRTER TUCANOPAPISTA HIDRÓFOBO
PELO MENOS LÊ CRONISTAS CULTOS
O recórter tucanopapista hidrófobo de Veja anda lendo a crônica culta. Acusou o golpe. Mas apenas parcialmente. Confessou-se recórter, mas não se emenda. Continua recortando. Continua tucanando. Continua lambendo as sandálias do Bento. E continua necessitando urgentemente de um anti-rábico. Sobre isto, manteve silêncio obsequioso, como convém a um papista.
Antes de ir adiante: o recórter tucanopapista hidrófobo é o catolicão aquele que pretende ter lido Tomás de Aquino e um dia proferiu esta solene besteira:
"Se você conhece mesmo Santo Tomás, sabe que ele jamais chamaria de ciência a concepção imaculada. Volte aos livros. O que é matéria de fé está fora do escrutínio científico. Mesmo as provas da existência de Deus, na Suma Teológica, são exercícios lógicos. Assim, em termos estritamente tomistas, Maria ter concebido virgem não pode jamais ser um 'absurdo' porque há uma condição anterior a qualquer verificação da experiência: 'é preciso crer'."
Cita Tomás sem jamais tê-lo lido. O aquinata jamais escreveria uma bobagem destas. Era homem culto, ao contrário do recórter. A Imaculada Concepção nada tem a ver com a suposta virgindade de Maria. Imaculada Concepção significa apenas que Maria foi preservada do pecado original desde o primeiro instante de sua existência. Se era mãe do Cristo, que nascera sem a mancha do pecado original, ela também não poderia ter esta mancha. O recórter catolicão ouviu o galo cantar sem saber onde.
Desta vez, o caipira atroz, em vez de discutir sua condição de virtuose do cut-and-paste, preferiu discutir a grafia de cincha: “Na página 701 do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, no 12º verbete da segunda coluna, lê-se: “Chamar na CHINCHA: repreender, enquadrar, castigar”. Também pode significar “fazer sexo”.
12º verbete. É variante. A palavra original, pelo menos no vernáculo, é do Rio Grande do Sul. É cincha. Herança hispânica. Está também no Houaiss, como primeira acepção:
“Cincha - Peça de arreios constituída de tira de couro ou pano forte (barrigueira) que passa por debaixo da barriga do animal e de um travessão para segurar a sela ou o lombilho”.
Ocorre que o Houaiss e seus assessores não eram gaúchos. Ou saberiam que a cincha, no Rio Grande do Sul, normalmente não é de couro ou pano forte, mas de fios de barbante. O couro fere o cavalo e pano não segura um lombilho.
Segundo Antenor Nascentes, a palavra tem suas origens no platino. O que procede apenas em parte. Vem de mais longe. Está em María Moliner, em seu Diccionario de Uso del Español: “CINCHA - Banda de cuero o tejida com que se sujeta la silla o la albarda por debajo del ventre de la caballería ciñendola estrechamente por medio de hebillas”.
Está também no Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul, de Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes.
“CINCHA, s. Peça dos arreios que serve para firmar o lombilho ou o serigote sobre o lombo do animal”. E cita poema de Antônio Augusto de Oliveira:
É bruto – barbaridade –
De se agüentar o tirão,
Quando a cincha da saudade,
Nos aperta o coração.
Chincha é dialeto de caiçara de Dois Córgos. Registrado pelo Houaiss, é verdade. Mas nem por isso deixa de ser coisa de caiçara. Ao apostrofar-me como criada Juliana, a personagem eciana que se nutre de ódio, o recórter chapa-branca está exibindo suas origens de velho comunossauro. É o que chamo de fazer ouvidos de Mercadante. Cada vez que alguém denuncia as corrupções do PT, lá vem Mercadante com sua cantilena: por que tanto ódio? É recurso de todas as viúvas do Kremlin, quando não encontram argumentos para uma resposta. Não por acaso, o antigo comuna vive açoitando comunistas e petistas. Como xiita que se vergasta a si mesmo, para punir-se de uma juventude infamante. Não há ex-comunista que não fique com uma marca na paleta.
Enfim, bom sinal. O recórter tucanopapista hidrófobo anda lendo os bons cronistas. Não é de hoje. É desde quando adotou como sua a palavra apedeuta para definir o analfabeto do Planalto. Desde quando associou Lula ao Chance, de Kosinski, achado também meu.
Longa é a jornada de um recórter até o entendimento. Talvez um dia chegue lá. Mas duvido. Como dizia Antero Marques, não sabe lidar com as rédeas quem nasceu para ser encilhado.