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segunda-feira, abril 05, 2010

HUME EM CIMA DO MURO


Do Humberto Quaglio, recebo:

Caro Janer,

Saudações!

Em seu último texto, você menciona o ano de 1987 como início da teoria do design inteligente. Este argumento pode ter obtido visibilidade em 1987, mas ele é bem velho, e foi devidamente refutado na segunda metade do século das luzes, pelo genial David Hume em sua brilhante obra Dialogues Concerning Natural Religion, décadas antes da publicação de On the Origin of Species.

Acho curioso o fato de muitos ateus discutirem o argumento do desígnio em termos darwinianos, com ênfase nas ciências naturais, mas poucos se lembrarem do Hume, que derrubou o intelligent design em termos lógicos, bem antes de o naturalista inglês ter elaborado sua teoria biológica. E isto ocorre mesmo no universo anglo-saxão, ao qual também pertence Hume.


Certo, Quaglio! Mas Hume foi um dos precursores da turma que fica em cima do muro. Segundo ele, as “verdades religiosas” – tais como a substancialidade e a imortalidade da alma, a existência de Deus – não podem ser demonstradas mediante a razão. Tampouco se pode demonstrar racionalmente que tais verdades não existem. As “verdades religiosas” são também, como as outras verdades, assunto de probabilidade e plausibilidade. Daí – como diz Ferrater Mora – é difícil concluir que Hume tenha sido um teísta, um ateu ou um agnóstico. Sua atitude é geralmente agnóstica ao mesmo tempo que moderamente teísta, mas em nenhum caso dogmaticamente teísta ou atéia.

Enfim, usei palavra inadequada. Escrevi que a expressão design inteligente foi criada em 1987, nos Estados Unidos. Seria mais preciso dizer que foi institucionalizada, para contornar uma decisão judicial americana proibindo o ensino de criacionismo como ciência.