NÃO SE FAZEM
MAIS ATEUS COMO
ANTIGAMENTE
O instituto Datafolha andou importando para o Brasil uma questão muito ianque, a oposição entre ciência e fé, a partir das concepções bíblicas e darwinistas de criação. Segundo a pesquisa, a maioria dos brasileiros – 59% – acredita tanto em Deus como em Darwin. Isto é, que o ser humano é o resultado de milhões de anos de evolução, mas em processo guiado por um ente supremo. Só 8% aceitam a idéia de uma evolução sem interferência divina. Foram ouvidas 4.158 pessoas com mais de 16 anos.
O que não foi perguntado é se quantas dessas pessoas algum dia leu a Bíblia ou Darwin. Conhecendo os bois com que lavro, não me espantaria que a resposta a esta pergunta – tanto para Darwin como para a Bíblia – fosse exatamente zero. Seja como for, nunca entendi porque opor o naturalista britânico a um livro religioso. Fé e ciência são categorias distintas. É algo como comparar laranjas com triângulos. Nenhum crente aceita os dados da razão. As tentativas neste sentido, tipo E a Bíblia tinha razão, são ridículas. Por outro lado, um homem racional não pode aceitar os dados da Revelação. Água e azeite.
Os ateus americanos sempre empunham Darwin quando querem contestar o mito da história da criação segundo o Gênesis. Ora, não é necessária teoria científica alguma para descrer da versão bíblica ou mesmo de Deus. O mito do Gênesis desmorona por si mesmo. Isso sem falar que mito é mito: uma tosca tentativa do homem primitivo de entender o mundo. Ou alguém pretende que a espécie humana tenha nascido do sopro de um Deus que não existe? Uma leitura atenta da Bíblia é o caminho mais rápido até o ateísmo. Neste sentido, a idéia de seleção natural é totalmente supérflua.
Esta oposição, nos Estados Unidos, percorreu todo o século passado. Os leitores de mais idade devem lembrar de E o Vento Será tua Herança, de 1960, de Stanley Kramer, onde se opõem um defensor do criacionismo e outro do evolucionismo. Se o filme completa agora meio século, o debate é bem mais antigo. Kramer retoma uma discussão - em verdade, um processo - de 1925, quando o promotor William Jennings Bryan, da cidade de Dayton, acusou de darwinismo o professor de ciências John Scopes.
Por que empunhar Darwin? Talvez porque pertence ao universo anglo-saxônico. Fosse Darwin francês, espanhol ou português, duvido que sua teoria tivesse feito tanta fortuna nos Estados Unidos, pelo menos como argumento contra os crentes. Em meio a isso, lá pelos anos 90, cristãos que sentiam dificuldades em negar a teoria da evolução, tentaram uma teoria safada, a do design inteligente. Isto é, certas características do universo e dos seres vivos são melhor explicadas por uma causa inteligente, e não por um processo não-direcionado como a seleção natural. O designer, para variar, é o deus cristão.
Esta teoria em cima do muro tem suas razões práticas. Foi criada em 1987, nos Estados Unidos, por um grupo de crentes, para contornar uma decisão judicial americana proibindo o ensino do criacionismo como ciência. Apesar de relativamente nova – mal tem vinte anos de idade –, pelo jeito andou contaminando os ateus. Na pesquisa do Datafolha há um dado curioso. Entre os ateus, 7% também se classificam como criacionistas da Terra jovem (que atribuem menos de 10 mil anos a nosso planeta de 4,6 bilhões de anos) e 23% como partidários da evolução comandada por Deus.
Os “neoateus”, se assim se pode dizer, aceitam a intervenção divina na criação. Vivemos uma época paradoxal. Pesquisa do Le Monde des Religions, suplemento do Le Monde, feita em 2007, mostrava que só um católico entre dois, na França, acreditava em Deus. Se por um lado há católicos que não acreditam em Deus, temos agora ateus que nele acreditam. Não dá pra confiar em mais ninguém.
Não se fazem mais ateus como antigamente.