¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

sexta-feira, abril 18, 2014
 
OS DEUSES PRECURSORES


1. JEZEUS CRISTNA

Livro que recomendo para estes dias em que se celebra a morte infamante do Cristo: Pablo de Tarso, ¿Apóstol o Hereje?, da espanhola Ana Martos. Apesar de alguns lapsos, como falar da existência de três reis magos na Bíblia – o Livro fala apenas de magos, jamais diz que são reis e muito menos que são três – Martos faz importantes reflexões sobre as origens do cristianismo e sobre a heresia de Paulo.

Para começar, segundo a autora, os poemas e livros sagrados hindus, que narram o mito do primeiro casal que desobedeceu e foi expulso do paraíso terrenal do Ceilão, afirmam que Brahma finalmente os perdoou, mas que, posto que era um deus, conhecia de sobra a natureza humana e soube de antemão que continuariam pecando e ofendendo-o, porque o mal já havia entrado no mundo e não era fácil tirá-lo dali. Por isso, decidiu enviar Vischnu, a segunda pessoa da Trindade, para que se encarnasse no ventre de mulher mortal e redimisse o gênero humano do mal e da morte eterna. Vischnu se encarna mais de uma vez. Sua oitava reencarnação foi Cristna, e a nona, Buda. 3500 anos antes de nossa era, Cristna nasceu de mãe virgem, tendo sido profetizada sua vinda ao mundo pelos livros santos. Acho que o leitor já conhece história semelhante.

Adelante! A concepção da mãe de Cristna foi marcada pelo divino. Vischnu apareceu em sonhos a uma mulher justa e boa chamada Lakmy, que esperava um filho, advertindo-a que daria luz a uma filha, que seria eleita por Deus para ser mãe do futuro redentor do mundo. A criança deveria chamar-se Devanaguy e não deveria conhecer varão, mas permanecer virgem e entregue à oração.

Anos depois, Cristna foi concebido milagrosamente durante uma cena mística, na qual Devanaguy entrou em êxtase enquanto orava fervorosamente, ofuscada pela luz e esplendor do espírito divino que se encarnou em seu ventre. Mas Rausa, tirano e tio de Devanaguy, foi advertido em sonhos de que a criança que nasceria de sua sobrinha o destronaria algum dia e a encerrou em uma torre.

Nove meses depois chegou o momento esperado do parto e, ao primeiro gemido de dor da parturiente, um forte vendaval a elevou milagrosamente e a transportou até a cova do pastor Nauda, onde nasceu um menino a quem deram o nome de Cristna.

Todos os pastores acudiram a adorá-lo e a atender a mãe e o filho, mas Rausa soube que a criança havia nascido fora de sua prisão e, enfurecido, mandou degolar todos os meninos que tivessem nascido naquela noite. Devanaguy recebeu a advertência celestial e fugiu com o menino para colocá-la a salvo da degola, quando os soldados do tirano se aproximavam perigosamente.

Passaram-se os anos e Cristna, a criança celestial, cumpriu dezesseis. Chegou então o momento de abandonar a proteção materna para percorrer a Índia e predicar uma nova moral. Uma moral que a todos impactou, porque se atreveu a proclamar a igualdade entre os homens e inclusive, com coragem, entre as castas hindus, algo que ninguém até então havia sido capaz de mencionar. E não só isso, mas também pôs em destaque a hipocrisia dos sacerdotes brâmanes, o que lhe valeu sua ira e suas contínuas perseguições.

Quando foi necessário, Cristna realizou o milagre de curar enfermos e leprosos, fazer andar os paralíticos, devolver a visão aos cegos e inclusive ressuscitar os mortos. Muita gente o seguiu porque sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes.

Disse ter vindo ao mundo para redimir os homens do pecado de seus primeiros pais, rodeou-se de discípulos que continuariam seu trabalho e ensinou sua doutrina através de parábolas. Certa ocasião, Cristna teve de repreender o principal de seus discípulos, Ardjuna, por sua escassa fé, já que ele e outros seguidores entraram em pânico quando sentiram aproximar-se os esbirros do tirano. Mas Cristna soube infundir neles novo ânimo, mostrando-se com todo seu divino resplendor da segunda pessoa da Trindade divina. Após sua transfiguração, seus discípulos começaram a chamar-lhe Jezeus, que significa “nascido da essência divina”.

Quando soube que havia chegado sua hora, retirou-se a um lugar para rezar, proibindo a seus discípulos que o seguissem. Submergiu no rio Gânges e logo ajoelhou-se às suas margens, recostando-se a uma árvore e esperando sua morte. Enquanto rezava, chegaram os soldados do tirano e os esbirros dos sacerdotes e um deles feriu-o com uma flecha. Para que terminasse de morrer, o dependuraram em uma árvore para que o devorassem os animais selvagens.

Seus discípulos o procuraram ansiosos quando souberam de sua morte e correram para apanhar seus restos, mas nada encontraram porque o filho de Deus havia ressuscitado e voltado aos céus.

Isto aconteceu 3500 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência. Continuo mais tarde o relato dos demais mitos anteriores ao cristianismo, feito por Ana Martos.

2. AGNI E MITRA

Segundo a autora, encontramos mais um mito precursor nos Veda, os livros sagrados da Índia revelados pelo próprio Brahma e compilados por Vyasa, que datam do século XIV antes de nossa era. Traduzo.

Agni nasceu no 25 de dezembro, solstício de inverno, tendo sido sua vinda anunciada ao mundo por uma estrela no firmamento. Desde então, quando reaparece, os sacerdotes anunciam a boa nova ao povo e repetem o rito do descobrimento do fogo, esfregando os lenhos cruzados, até que surge a chispa como uma criatura celestial que colocam sobre palhas para que prenda fogo. Os sacerdotes levam até o berço de palha uma vaca que leva a manteiga e um asno que leva o soma, um licor alcoólico de cor dourada, com os quais alimentam a pequena chama, à qual chamam criatura.

No ritual, os sacerdotes lhe oferecem pão e vinho e cada fiel recebe uma pequena partícula da oferenda, que contém parte do corpo de Agni, nome que se transformou em Agnus, cordeiro em latim, no contato com o povo romano. O cordeiro que se oferece a Deus como vítima propiciatória pela redenção dos homens, o cordeiro de Deus, Agnus Dei.

O nome de Agni significa “unção”, que em grego se diz “cristnos”, de onde procede “cristo”, o “ungido”, o Messias judeu e cristão dito em grego, porque em hebraico se mashiakh, que se translitera como messias. Os dois lenhos cruzados são a cruz onde se gera o fogo, o Sol, que é a origem do deus segundo o dogma ariano de uma trindade composta pelo Sol, pai celeste; o fogo, encarnação do Sol e o espírito, sopro de ar que acende a chama.

Nos conta a autora que a Índia teve um outro deus, não tão importante, mas que passou ao panteão persa – e depois ao romano – com todas as características de um deus principal. Seu nome era Mitra, também chamado o Senhor, e fez nascer com suas flechas a fonte eterna do batismo, já na Pérsia. Nasceu de mãe virgem, em um 25 de dezembro, a festa mais importante da religião dos magos persas. Seu nascimento foi anunciado por uma estrela que apareceu no Oriente e os magos acudiram a adorá-lo, levando-lhe perfumes, ouro e mirra. Mitra morreu no equinócio da primavera, em março, para ressuscitar triunfante no terceiro dia.

Na religião mitraica, que primeiro foi hindu, logo persa e finalmente foi adotada por Roma como religião oficial, Mitra, que originalmente foi o ministro principal do deus Ormuz, venceu o touro que simbolizava a vida, arrastou-o a uma cova e lá o degolou para beber seu sangue, porque de seu sangue surgiu a vida e de sua carne se originaram todos os animais e todas as plantas. Por isso, Mitra se converteu em criador do universo e, ao mesmo tempo, em mediador entre Ormuz e o ser humano. Os ritos de iniciação nos mistérios de Mitra incluíam batizar o neófito com sangue de touro sacrificado em um lugar mais elevado, de onde o sangue manava para banhar o iniciado. A iniciação começava com o batismo e terminava com a comunhão, em que se consumia a carne do touro com água, pão e vinho. O pão e o vinho se consagravam previamente com uma fórmula mística que os converteria em corpo e sangue do deus. O culto de Agni surgiu 1400 anos antes de nossa era. Qualquer semelhança com aquela outra história não é mera coincidência.

3. OSÍRIS, DIONISOS E SERAPIS

Ana Martos vai adiante e envereda pela mitologia egípcia. Os Textos das Pirâmides mostram que Osíris oferece seu corpo como pão de vida e seu sangue como vinho. “Tu és o pai e a mãe dos homens que vivem de teu sopro, comem a carne de teu corpo e bebem teu sangue. O que come tua carne e bebe teu sangue viverá eternamente”.

Os gregos identificaram Osíris com Dionisos, o deus encarnado, o salvador, filho de Deus, nascido de uma mulher mortal, em um 25 de dezembro, em uma cova humilde onde pastores o adoraram. Osíris Dionisos oferecia a seus seguidores o renascimento para a vida eterna mediante a imersão ritual na água. Em sua vida terrena converteu a água em vinho durante uma cerimônia nupcial. Entrou triunfalmente na cidade montado em um asno, enquanto as pessoas brandiam palmas. Morreu na Páscoa (na primavera) pelos pecados do mundo, desceu aos infernos e ressuscitou no terceiro dia para ascender glorioso à sua morada celestial, de onde descerá ao final dos tempos para julgar os homens bons e os maus. Dionisos, como Baco e, em alguns cultos, Orfeu, foi crucificado pelos pecadores, mas não em uma cruz de dor, senão em uma cruz de salvação, porque a cruz é símbolo e totem de muitos povos. Sua morte e ressurreição se celebravam com um ágape ritual com pão e vinho que simbolizavam sua carne.

A conversão do pão e do vinho em carne e sangue do deus era um ritual tão popular que Cícero, cético, chegou a protestar em De natura deorum e a perguntar se alguém podia estar tão louco para acreditar que o que ingeria era a carne e o sangue de um deus.

O culto a Osiris se ampliou e se aperfeiçoou durante o período helenístico, no qual o Egito esteve governado pelos gregos, para configurar uma nova divindade cuja morte e ressurreição assegurava vida eterna a seus fiéis. Unindo todas estas facetas, Ptolomeu I proclamou a religião de Serapis no Egito como religião oficial imposta, não espontânea como a de Isis ou Adonis, mas mantendo a tolerância em relação a outros deuses e outras religiões. Serapis era a união de Osiris e Apis, dois deuses egípcios que naquela época já incorporavam os aspectos do deus grego Dionisos, pelo que se proclamou Redentor filho da Trindade egípcia.

Serapis nasceu de mãe virgem no solstício de inverno, morrendo no equinócio da primavera para ressuscitar no terceiro dia. Não escapou de ameaças de morte, o que obrigou sua mãe, a virgem Isis, a fugir com o filho, montada em um asno. Isso sem falar da imagem de Orfeos Bakkikos, a primeira que se conhece de um deus crucificado, utilizada nos mistérios órficos e dionisíacos celebrados no Mediterrâneo... desde o século VI antes da era cristã.

Conhecemos essa história, não? É a do cara aquele que nasceu num 25 de dezembro de mãe virgem, foi anunciado por anjos, curou enfermos e leprosos, fez andar os paralíticos, devolveu a visão aos cegos, transformou água em vinho e ressuscitou mortos. Sua doutrina falava de bondade, de ajudar e amar-se mutuamente e de socorrer os frágeis e inválidos. Ensinou que é preciso amar aos demais como a si mesmo, que é melhor devolver bem por mal e que a melhor forma de viver é praticar a caridade e todas as virtudes. Desafiou os sacerdotes de sua época, foi crucificado, morto e sepultado e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.

Se alguém ainda acha que isto não é ficção de hábeis sacerdotes, que se vai fazer?

quinta-feira, abril 17, 2014
 
DO FUNDO DOS TEMPOS,
EMERGE UMA VOZ DISSONANTE



Falei ontem de Celso, nobre romano do século II da era cristã, e de seu Discurso Verdadeiro, escrito por volta de 178 d.C., primeiro ataque de vulto ao cristianismo de que temos notícia. O livro perdeu-se no tempo, talvez destruído pelos cristãos. Dele só restou, por ironia, o que foi reproduzido por Orígenes da Alexandria, para contestar o autor, em Contra Celso, escrito em 248. Celso deve ter tocado fundo nos brios da nova seita, para ser contestado, 70 anos depois, em nada menos que oito livros. Aproveitando esta semana, dominada pelo judeu aquele, reproduzo este texto de meados do ano passado.

Falei também de meu espanto em descobrir que a obra de Orígenes foi publicada no Brasil, em 2004, pela editora Paulus. Pois bem, recebi hoje o livro, uma bela edição em capa dura, 688 páginas. Nestes dias de best-sellers e livros anódinos, nada mais louvável que a iniciativa de uma editora que desenterra, do fundo dos séculos, uma discussão fundamental entre judeus e cristãos, vista pelos olhos de um romano, na época em que a nova seita começava a assumir poder dentro do Estado. Mais louvável ainda se revela esta iniciativa editorial, quando vivemos em uma época onde os livros fundamentais pouco ou nada interessam. Contra Celso não é obra para leitores em busca de evasão, lazer ou auto-ajuda. Interessa apenas àqueles raros curiosos que questionam as origens da cultura ocidental. (Foi também com espanto - e alegria - que descobri vários leitores cultivando este proto-Nietzsche).
Reproduzo a súmula dos editores:

No Prefácio, Celso se comove com o fato de os cristãos enfrentarem a morte, por sua fé, com tanta disposição. Ao mesmo tempo, constata a condição ilegal dos cristãos no Império, enquanto constituem uma seita ilícita, não reconhecida. Isso os expõe a serem punidos com a morte e Celso se pergunta se vale a pena este sacrifício, se a religião cristã merece que seus adeptos arrisquem a vida por ela.

Na Primeira Parte, que vai de Celso questiona as origens do cristianismo. Procura levantar o descrédito mostrando sua origem recente e suspeita. O cristianismo é um movimento sectário cuja doutrina, antiquíssima, é comum aos povos e aos sábios. Moisés a deformou em monoteísmo rígido e a impôs a seus pastores rudes. Jesus, tido por Filho de Deus por uma multidão de iletrados e alguns homens da elite, a retomou e a ensinou.

Em seguida, expõe as invectivas de um judeu contra Jesus: o judeu opõe e defende suas idéias messiânicas e critica as pretensões de Jesus. Este não foi o messias, mas um homem miserável, como o mostram suas origens sem nobreza. Os títulos escriturísticos que lhe dão são sem autenticidade. Sua carreira é sem glória. Depois o judeu passa a atacar os judeus-cristãos que apostataram da religião de seus pais para crerem erroneamente em Jesus como o messias e o filho de Deus. Há, segundo Celso, boas razões para não crer: as profecias que se lhe aplicam convêm melhor a outros; sua conduta não é digna de um Deus; seus milagres semelhantes aos de outros carismáticos; a paixão de Jesus não tem um fim assinalável; a pregação de sua morte é uma invenção de seus discípulos. Assim, segundo Celso, os cristãos são refutados por seus escritos e a pretensão messiânica de Jesus, por sua impotência.

Dizem que, para escrever essa obra, Celso teve que aprender hebraico e recorrer aos textos sagrados do Antigo Testamento. Assim, cita Moisés, Jonas, Ló, Daniel, ou a Sodoma e Gomorra. Demonstra conhecer os costumes e tradições judaicas.

Na Segunda Parte, Celso procura mostrar que o cristianismo é uma religião sem fundamento verdadeiro, uma insurreição judaica frustrada. Quais os elementos que Celso invoca para fundar sua demonstração?

Para ele, a vinda de Jesus-salvador só serve de pretexto para uma disputa inútil entre judeus e cristãos. Esta luta é reveladora do espírito de revolta, cujo único resultado é seu poder de provocar rupturas com a comunidade de origem, com as antigas tradições, com a vida social e familiar e com a comunidade ideal dos sábios. Questiona o fato básico da encarnação, a descida ao mundo de um Deus ou Filho de Deus. Critica como um absurdo a ideia de que um Deus tenha podido se encarnar.

Para ele, trata-se de operação impossível, cuja imaginação implica em erros no próprio conceito que temos de Deus. Ela pressupõe uma mudança em Deus, o que é inadmissível, o que contraria a sua imutabilidade. Impugna o cristianismo atacando a ideia messiânica dos cristãos e se empenha em desqualificar o cristianismo como religião. Os hebreus se originaram ao se separarem da religião egípcia; os cristãos, por sua vez, ao se separarem dos judeus.

O conceito grego de uma natureza espiritual de Deus, eterna e imutável, não se concilia com a crença cristã da humanização, paixão e morte de Deus. Do mesmo modo, a participação imediata de Deus nos acontecimentos do mundo entra em conflito com a sua bem-aventurança eterna, que descansa sobre si mesma. O conhecimento filosófico da niilidade e mutabilidade de tudo o que é material faz parecer absurda a crença cristã da ressurreição da carne, pois apenas a alma, devido a sua natureza espiritual, pode considerar-se que continue a viver para além da morte do corpo.

A ressurreição nada mais é do que a velha metempsicose. Desse modo, para ele as narrativas do Antigo Testamento são equivalentes às da mitologia grega e implicam ainda em erros sobre a natureza, já que esta não é obra de Deus; implicam em erro sobre o universo, pois este não é criado exclusiva ou preferentemente para o homem mais que para os animais irracionais.

Nem os cristãos são algo extraordinário, já que vêm do judaísmo do qual apostataram, e sua situação é ainda pior que a dos judeus: sua angelologia é mais desconcertante e seu sectarismo aumentado. O credo dos cristãos não tem nada de original. Não é outra coisa que uma hábil mistura de elementos estoicos, eleatas, judaicos, persas e egípcios. Demonstra conhecer os evangelhos, e não somente aqueles que serão estabelecidos no século IV por são Jerônimo como “canônicos”, “oficiais” na Vulgata, mas também os evangelhos apócrifos que deviam circular livremente na época de Celso e que a censura expurgou ao longo do século IV. É possível, inclusive, deduzir-se que o esforço de “fixar” os textos “oficiais” da Igreja tenha surgido como método para anular os ataques pagãos e reações como as de Celso.

Na Terceira Parte, Celso combate as idéias particulares do cristianismo. Confronta as doutrinas tradicionais com as dos judeus e cristãos, para mostrar a inferioridade destas sob todos os aspectos, na medida em que se afastam das doutrinas tradicionais. Por isso, o cristianismo professa uma doutrina sem valor. Estigmatiza como sectarismo e intolerância a recusa cristã de altares e imagens, do culto dos demônios e do imperador, provas de um comportamento político irresponsável, inconseqüente e perigoso que enfraquece a autoridade e a força do Estado, expondo-o aos bárbaros iníquos e selvagens.

Passa em revista os livros sagrados dos cristãos, ataca a cosmogonia da “criação dos seis dias”, qualificando-a de infantil. Ataca as profecias, argumentando que elas destroem a liberdade. Ataca a possibilidade de um Deus antropomorfo, assim como o inviável da ressurreição dos corpos. Isto nos dá ideia de que o cristianismo do século II devia estar numa linha “muito dura” e que logo se abrandou um tanto ao assimilar parte do platonismo com o que era atacado, deixando-se impulsionar pela simbiose universal.

A Quarta Parte é uma defesa radical da religião e do Estado Romano pagão tal como se encontrava no século II, ressaltando que a seita dos cristãos é um iminente perigo social e político. A razão é que os cristãos se negam a prestar o serviço militar. Para o bem da pátria, todo cidadão deve assumir cargos na função pública e muitos cristãos se negam a fazê-lo. Os cidadãos não podem deixar de render o devido culto ao Imperador, como fazem os cristãos. Os cidadãos não devem negar-se a participar nos sacrifícios e nos banquetes sagrados, e os cristãos se negam.

Um cidadão deve tomar a toga viril quando chega a idade para isso, e os cristãos rompem com essa tradição do passado. Celso vê nos cristãos um perigo social e uma subversão política, e conclui: “Que a terra seja expurgada dessa canalha”. As perseguições devem muito, seguramente, a essa obra de Celso. Portanto, resta a cada um o dever de sustentar o imperador e tomar parte no governo, se for necessário, como nos serviços comuns da vida.

Na Conclusão, Celso indica como é preciso viver: exorta os cristãos a deixar de lado o universalismo, a combater pelo imperador, a participar no governo da pátria para defender as leis e a religião.

Para quem gosta de antigas querelas, boa leitura!

quarta-feira, abril 16, 2014
 
REMEMBER CELSO


Por falar em Cristo, entre 176 e 180 d.C. surgiu uma das mais virulentas críticas ao cristianismo, elaborada pelo nobre romano Celso. Já naqueles dias, a nova seita era acusada de criar um Estado dentro do Estado. "Há uma raça nova de homens, nascidos ontem, sem pátria nem tradições, unidos contra todas as instituições religiosas e civis, perseguidos pela justiça, universalmente marcados de infâmia, mas que se vangloriam da execração comum".

Para os romanos de então, era normal que cada nação tivesse seus deuses. Os romanos tinham os seus, os gregos e egípcios também. Os judeus, por sua vez, tinham um só, Jeová. Com o cristianismo surgia algo novo. A nova raça de homens, como diz Celso, tinha também um só deus, mas este não pertencia a nação nenhuma. Não pertencendo a nação nenhuma, se pretendia o deus de todos.

Estas reflexões, Celso as reuniu em O Discurso Verdadeiro, obra que foi entusiasticamente queimada pela nova Igreja. Dela só restou o Contra Celso, de Orígenes, teólogo cristão que pretendeu refutá-lo. Sorte nossa. Conforme prática da época, ao discutir um livro, era costume primeiro citar seus argumentos para depois rebatê-lo. Não fosse este zelo dos teólogos cristãos, nada teríamos do pensamento do pensador romano. A propósito, Orígenes foi aquele santo homem que levou a sério as palavras do Cristo transcritas por Mateus:

"Ai do mundo, por causa dos tropeços! pois é inevitável que venham; mas ai do homem por quem o tropeço vier! Se, pois, a tua mão ou o teu pé te fizer tropeçar, corta-o, lança-o de ti; melhor te é entrar na vida aleijado, ou coxo, do que, tendo duas mãos ou dois pés, ser lançado no fogo eterno. E, se teu olho te fizer tropeçar, arranca-o, e lança-o de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que tendo dois olhos, ser lançado no inferno de fogo."

O que fazia Orígenes tropeçar não era bem a mão ou o pé, muito menos o olho, mas um outro membrinho inquieto que o fazia pecar. O santo homem decidiu então cortá-lo. Pelo menos preservou longos trechos do Discurso Verdadeiro. É Celso quem aventa uma hipótese bastante plausível, que Cristo teria sido filho de Maria com um soldado romano chamado Pantera. Que não era filho de José, isto está nos Evangelhos. Quanto a ser filho do Paráclito, isto ultrapassa a humana razão. Filho de algum pai haveria de ser. Celso faz perguntas bastante pertinentes:

“Por que te viram então, a ti, filho de Deus, vagabundo de infelicidade, vergado sob o pavor, desamparado, correndo o país com os teus dez ou onze acólitos recrutados na ralé do povo, entre publicanos e marinheiros sem eira nem beira, e ganhando envergonhadamente uma precária subsistência? Por que foi preciso que te levassem para o Egito? Para te salvarem do extermínio pela espada? Mas um Deus não pode temer a morte. Um anjo veio de propósito do céu ordenar a ti e a teus pais a fuga. O grande Deus, que já tinha tido o trabalho de enviar dois anjos por ti, não podia então preservar o próprio filho no seu próprio país?”

É pergunta de difícil resposta. Não por acaso, os cristãos abominam Celso. Relendo o Contra Celso, encontrei este texto escrito há quase vinte séculos, mas de extraordinária lucidez mesmo em nossos dias.

“Há muitos que, embora careçam de reputação ou nome, exercem seu ofício ao menor estímulo, com a maior facilidade, dentro e fora dos lugares sagrados como se estivessem submetidos ao êxtase profético. Outros, vagando como mendigos e visitando as cidades e os acampamentos militares, oferecem o mesmo espetáculo. Cada um deles tem as palavras na ponta da língua e usam-nas instantaneamente: “Sou Deus”, “filho de Deus” ou “espírito de Deus”. Vim porque o fim do mundo se aproxima e vós, os humanos, sereis destruídos por vossa maldade! Mas eu vos salvarei e vós me contemplareis vir novamente com poder celestial! Bem-aventurado quem agora me honre! Eu relegarei todos os demais ao fogo eterno, as cidades bem como seus países e seus povos. Aqueles que não reconheçam agora as sentenças que caem sobre suas cabeças logo se lamentarão e mudarão de opinião inutilmente! Mas aqueles que tiverem acreditado em mim, preservarei eternamente! A essas ameaças grandiloqüentes acrescentam palavras raras, meio loucas e absolutamente incoerentes, cujo sentido não pode ser compreendido por nenhum homem, por mais inteligente que seja, tão obscuras e vazias. Mas o primeiro simplório ou charlatão que as ouve pode explicá-las como lhe parecer melhor... Estes pseudoprofetas, a quem em mais de uma ocasião ouvi pessoalmente, admitiram sua fraqueza depois que os convenci e confessaram que inventaram todas suas inúteis palavras”.

Sempre é bom voltar aos antigos.

segunda-feira, abril 14, 2014
 
EINFÜHRUNG *

Der Kunst bleibt nur eine radikale und revolutionäre Kundgebung nachdem Gott tot und die Ideologien im Zusammenbruch sind. Was ist ein empörter Mensch? - fragt sich Camus. Es ist „ein Mensch, der Nein sagt. Aber wenn er verneint, verzichtet er dennoch nicht: er ist gleichzeitig ein Mensch, der ‚Ja‘ sagt, von Anfang an.“ Albert Camus sagt, dass diese Ablehnung sich in drei Formen ausdrückt: Erstens in dem Menschen, der seine Kondition und seine ganze Beschaffenheit ablehnt, finden wir die metaphysische Auflehnung, eine dem Christentum zeitlich gleich gestaltete Bewegung.

Der Verfasser stellt diese Ablehnung oder Verneinung in den ersten Theogonien (mystischen Darstellungen) fest, in dem „Prometheus, der an eine Säule gekettet ist, am Ende der Welt, ein ewiger Märtyrer, für immer der Vergebung verlustigt, die er nicht zu erbitten gewillt ist“. Eine Revolution wird keinen fruchtbaren Boden innerhalb einer Kultur finden, in der die Götter unter den Menschen weilen, in der ein Fremder mit der klassischen Anrede empfangen wird: „wer immer Du auch seist, Mensch oder Gott...“ Die Gewissheit von der Existenz eines einzigen Gottes, der verantwortlich ist für die ganze Schöpfung und der vom Christentum erstellt worden ist und der in sich dieses wage Gefühl von Generationen vereint.

Diese Revolution, dieses Aufbegehren „ist metaphysisch, denn sie widersprechen dem Ziel und Zweck des Menschen und der Schöpfung.“ - Und bald danach, als logische Konsequenz der metaphysischen Revolution, bricht die Revolution in der Geschichte aus, ein verzweifelter Versuch und blutig dazu, um den Menschen vor der Verneinung zu schützen. Indem der Mensch den Kampf gegen Gott ablehnt, stürzt er sich in einen Holocaust. Camus besteht darauf, dass diese historische Revolution nicht mit einer Rebellion zu verwechseln ist. Spartacus strebt keine Rebellion an, er will nur gleiche Rechte wie die des Herrn, er will der Herr sein, anstelle des Herrn. Wir stehen einer Rebellion gegenüber. Wenn eine Rebellion Menschen tötet, tötet eine Revolution Menschen und Prinzipien. - Und schließlich die Revolution der Schöpfung, der Rivalität mit Gott, die Revolution der Kunst: eine Bewegung, die gleichzeitig preist und verneint. Kein Künstler kann die Wirklichkeit ertragen, sagt Nietzsche. „Das ist wahr“, sagt Camus, „aber kein Künstler kommt ohne die Wirklichkeit aus“.

Ernesto Sabato, der einsame Schriftsteller von Santos Lugares, dessen erster Roman den französischen Verlegern von Camus empfohlen wurde, erscheint heute als Höhepunkt der Prosa und des Gedankenganges von Lateinamerika. Aus freiem Willen fern der intellektuellen Kreise, jahrelang unterdrückt durch das vorwiegend politische Ansehen von Garcia Márquez, Cortázar oder Vargas Llosa, ist dieser Argentinier mit seinen nur drei Romanen heute das Thema vieler Thesen in Europa und Nordamerika. Sein Name wurde schon dreimal für den Nobelpreis vorgeschlagen.

Unabhängig von literarischen Geschmacksrichtungen arbeitet er an seinen originellen und schlichten Werken mit der Geduld eines Mönches. Der „Tunnel“ erschien 1948, „Über Helden und Gräber“ 1961 und „Abadon, der Vernichter“ 1974. Unendlich selbstkritisch wurden diese 3 Romane von Matilde, seiner Frau und von einigen Freunden vor dem Verbrennen gerettet.

„Ich habe mehr vernichtet und verbrannt als herausgegeben“, sagte Sabato in einem Interview zu Marcos Santarrita. „Ich bin von Natur aus ein unzufriedener Mensch“. - Seine Werke, die von vielen Kritikern als das tiefgreifendste metaphysische Manifest der gegenwärtigen Literatur bezeichnet wird, wurden gerade aus diesem Grunde von gewissen Kritikern ignoriert. „Man erwartet von uns die Beschreibung wilder Reitereien in der Steppe, sie lechzen nach Exotischem und Lokalkolorit.“

Die Werke Sabatos, seien es Romane oder Essays, lehnen sich beträchtlich an die Gedanken von Camus an. Für beide Schriftsteller hat die Kunst ihre Wurzeln in der Revolution und es ist eben diese Revolution, diese Auflehnung gegen die menschliche Natur, die sie zum Schreiben treibt. „Wir hatten die metaphysische Unruhe gemeinsam, sowie die ethischen Sorgen und die sehr ähnliche politische Einstellung“, sagt Sabato über Camus.

Ich habe mir zum Ziel gesetzt, auf diesem Gang durch die Werke Sabatos und Camus, die drei Manifestationen der Revolte {Empörung) herauszuarbeiten: Die Suche nach Gott, die Revolution und die Kunst. Zuerst werde ich die Einstellung dieser 2 Autoren zu diesem völlig leeren Grundsatz analysieren, zu einer Welt, in der es keinen Gott gibt und wo alles, selbst Mord, gebilligt wird. Gottlos, wie verschiedene andere Geister derselben Epoche, schließen sie eine geschichtliche Wette ab und nähern sich dem Marxismus. Aber der neue Glaube ist anspruchsvoll, er verlangt gedankliche Unterwerfung und die Zustimmung zum Verbrechen zum Wohl des Staates. Als Menschen, die sich an nichts und niemanden anschließen, entfernen sie sich von der neuen Kirche, nicht ohne den Grund für diese Entfernung für sich und ihr Publikum zu analysieren.

Da es mir unmöglich erscheint, das Leben und die Werke eines Schriftstellers der ersten Hälfte unseres Jahrhunderts zu untersuchen, ohne Stalin zu zitieren, betrachten wir einige Ereignisse, die die hier untersuchten Autoren beeinflussten, speziell das große Fiasko der 40iger Jahre, die Affäre Lyssenko. Ohne Gott und ohne Marx haben Sabato und Camus dieselbe Reaktion: sie schreiben einen Roman, in dem es für die darin erscheinenden Personen keinen Ausweg gibt. Ihr Aufschrei findet eine Antwort, sie überwinden den Nihilismus, indem sie die Aufgaben eines Schriftstellers auf sich nehmen, der als Bote der Furien erscheint. Der Roman erscheint als eine mögliche Antwort und nimmt bei Sabato neue Konfigurationen an. Und schließlich werden wir noch die neuen Formen der Revolution in einer neuen geografischen Umgebung untersuchen, wobei der Roman sich mit den Träumen einer Menschengruppe auseinandersetzt und in dem sich die metaphysischen Ängste und Qualen sogar in einem Tango ausdrücken.

In der Analyse der Werke in denen sich Sabato und Camus einander nähern ist die chronologische Folge ihres Erscheinens nicht immer eingehalten, denn die Schriftsteller verzeichnen häufig in späteren Werken dieselben Qualen vorhergegangener Arbeiten. Was Sabato betrifft, so müssen wir Essays und schöngeistige Literatur betrachten, denn der Schriftsteller selber unterscheidet sie nicht. Als früherer Journalist überlasse ich darum immer dem Schriftsteller das Wort, wenn es sich darum handelt, dem Grundgedanken seiner Werke nachzugehen.

So wie wir keiner absoluten Zeitfolge nachgegangen sind, so haben wir auch keine absolut ordnungsgemäße Seitenfolge bei beiden Autoren eingehalten. Es handelt sich hier nicht um ein Parallellaufen, um eine rhetorische Untersuchung der respektiven Vorzüge oder um einen Vergleich der beiden Schriftsteller. Ich muss gestehen, dass es vielmehr die Erklärungen und Deutungen von Sabato über Camus waren, die mich reizten.

Das Studium beider war notwendig für unsere Arbeit, die man gut das „Absurde bei X oder Y“ nennen könnte. Um eine zu große Kürzung oder Gleichschaltung (überkreuzte Leben) und Vereinheitlichung zu vermeiden, habe ich mich zu einem vielleicht zuerst oberflächlich erscheinenden Vorgehen entschlossen, das die Originalität des einzelnen Schriftstellers respektiert, wobei vordergründig jede Eigenproblematik in ihrer Einheit behandelt wird. Mag dies auch paradox erscheinen, so habe ich doch aufgrund dieses Vorgehens und aufgrund der Untersuchung jedes Einzelnen hier einen Lesestoff vorzustellen, in dem Sabato Camus und Camus Sabato gegenübergestellt wird: nichts Anderes wurde mit dieser Arbeit angestrebt.

Als Grundlage und zur Dokumentierung sei hier ein Brief Sabatos beigefügt, ein Interview in Santos Lugares, und der Briefwechsel mit Ernesto Guevara, der in „Abadon, der Vernichter“ erscheint und last but not least, der Aufschrei eines empörten Menschen, der sich gegen die Mittelmäßigkeit seiner Zeit auflehnt. „Seien wir wir selbst.“

* Em alemão, até pareço profundo.

sexta-feira, abril 11, 2014
 
SOBRE TUTEAR *


Nos dias em que vivi em Estocolmo - e já lá vão mais de três décadas - assisti a uma campanha no mínimo curiosa. Os social-democratas queriam quebrar um pouco a frieza e o formalismo no tratamento entre os nacionais, e propunham trocar o "ni" por "du". Ou seja, o tratamento de senhor pelo de tu. Para deslanchar a campanha, um repórter começou entrevistando o primeiro-ministro Olof Palme, tuteando-o à vontade.

Não sei a campanha surtiu algum efeito. Mas, pelo menos na universidade, notei ser normal um aluno tutear o professor. Aos sofisticados e cosmopolitas nórdicos chamar uma autoridade de tu não soava como ofensa, mas quase como necessidade.

Pulemos 34 anos à frente, para o Rio de Janeiro, o Estado aquele dos cariocas, considerados os mais informais dos brasileiros. Antônio Marreiros, titular da 6ª Vara Criminal de São Gonçalo, sentindo-se diminuído por ser tratado de você pelos empregados e vizinhos de seu prédio em Niterói, entrou com uma ação na justiça, para obrigá-los a tratá-lo de senhor ou doutor. Ganhou liminar no ano passado, garantindo-lhe o tratamento exigido. Já comentei o caso quando em andamento.

Temos agora o desfecho: por 2 votos a 1, a 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio concedeu-lhe tutela antecipada da causa, reforçando a liminar do ano passado. A síndica do prédio queixou-se da decisão: "Mais uma vez houve corporativismo. Eles só ouviram um lado. Vamos fazer os recursos cabíveis". Até parece que no Rio, onde o poder estatal não mais vige e quem manda e desmanda na cidade é o narcotráfico, não houvesse questões mais importantes a serem discutidas na Justiça.

Que o Rio seja violado, estuprado, que tenha virado um conglomerado de bantustões, onde até a polícia tem medo de entrar, isto parece pouco importar aos senhores magistrados. O que importa é que nenhum de seus pares seja tuteado. Isto seria um supremo desrespeito à Justiça. Esta consideração foi estendida até mesmo à favela, nos dias deste inesquecível humanista, o governador Leonel Brizola. Aos policiais, ao subir o morro, não era permitido tutear os favelados. Tinham de assim formular suas ordens: "Senhor meliante, pode fazer o favor de entregar-me sua metralhadora?" O que importa é a forma, não o conteúdo.

O fato me traz à mente Casa de Campo, um dos mais importantes romances do escritor chileno José Donoso, que tive a honra de traduzir ao brasileiro. Nele há um episódio emblemático. A obra, situada no território mítico de Marulanda, trata de uma rebelião de adolescentes em uma mansão de campo, por ocasião da ausência de seus pais. Permanecem na mansão, sob o comando dos jovens, um mordomo e a criadagem. Lá pelas tantas, os criados decidem violentar um dos meninos. Passo a palavra ao autor:

"Juvenal ficou nu, aterrado e jubiloso, alvo à luz da lua que se nublou quando as figuras negras com seus membros eretos o obrigaram a ficar de quatro, como um animal, no chão. O personagem mais alto, o mais negro, o mais sinistro, o de membro maior que gotejava em antecipação da vingança ia cavalgar Juvenal".

Juvenal é literalmente salvo pelo gongo... que anuncia a entrada do Mordomo. Inicialmente pensou que seria violado por ele, que brandiria seu pênis, "o mais descomunal de todos, o mais feroz, para castigá-lo, possuindo-o". Mas o Mordomo, felizmente, tinha o senso da hierarquia.

- Que faz Vossa Mercê neste estado, aqui, a estas horas?
Juvenal sabe que, naquela casa, uma falha na forma era mais grave que qualquer outra falha. Se dissesse o que realmente estava acontecendo, isto pouco importaria ao Mordomo. Respondeu, então, com segurança: - Estavam me tuteando... Tutear um senhor? O Mordomo não conseguia aceitar que o adolescente - que na verdade era seu amo - fosse assim desrespeitado.
- Tuteando-o? - ruge o Mordomo.
- Tuteando-me - balbucia Juvenal.
- Serão severamente castigados - assegurou o Mordomo, agoniado pela indisciplina de seus subalternos.

"A verdade é que a vida imita muito mais a arte do que a arte imita a vida" - escreveu Oscar Wilde -. Basta que um grande artista invente um tipo para que a vida tente copiá-lo e reproduzi-lo em sua forma popular, como faria um editor de iniciativa". Bem entendido, os anjinhos albergados no complexo Franco da Rocha - mais conhecidos como reeducandos da Febem - certamente jamais leram Donoso. Nem por isso deixaram de reproduzir as regras hierárquicas de Marulanda, em uma de suas últimas rebeliões, dia 11 passado. Eles eram cerca de trezentos, armados de estoques e bebendo álcool de limpeza. Lá pelas tantas, chamaram, com todo o respeito, uma das psicólogas da instituição:

- Vem aqui, senhora.

Levaram-na a um dos quartos da unidade e colocaram uma toalha pendurada na porta, sinal usado para quando recebem visitas sexuais e não querem ser importunados. Pois adolescente da Febem tem direito a visitas sexuais e evidentemente, nesses casos, ninguém fala de pedofilia. Pedofilia só existe fora da Febem, quando alguma adolescente, às vezes com um ou mais anos de prostituição, tem relações - espontaneamente - com um adulto. Quando a psicóloga pediu que a libertassem, com todo o respeito, os menininhos a advertiram:

- Não, agora é nós e a senhora. A gente está há um ano sem mulher e a senhora vai quebrar um galho para nós. Se a senhora não fizer isso, a gente vai soltar a senhora lá fora e a senhora vai ficar refém de naifa (faca).

A psicóloga alegou que tinha idade para ser mãe deles, mentiu que era casada.
- Aposto que seu marido não faz gostoso que nem a gente - respondeu uma das coitadas vítimas de nosso hediondo sistema social, como soem dizer as psicólogas.
Tentando salvar-se do pior, a moça propôs:
- A única forma de eu fazer o que vocês querem é vocês não encostando em mim. A única coisa que posso fazer é masturbar vocês.
Os angelicais menininhos consideraram a proposta satisfatória. Pelo jeito, a psicóloga também. Não sendo penetrada, descaracterizava-se o estupro. Masturbou um deles.
- Quando veio o segundo, estava com tanta ânsia de vômito e com a mão tão trêmula que ele reclamou: "A senhora está me machucando" - disse a benemérita senhora aos jornalistas. Benemérita mas inábil: estava machucando as partes do anjinho.

O admirável em toda esta história é o insólito senso de hierarquia dos reeducandos da Febem. Em momento algum tutearam a autoridade, que sempre foi tratada com fidalguia. O que me lembra uma cena da Filosofia da Alcova, do marquês de Sade. Seus personagens poderiam ser libertinos, mas jamais renunciavam à finesse típica da nobreza gálica. Em circunstância semelhante, um dos libertinos pede a uma de suas servas:
- Branlez moi, Madame.
Como nem todos os leitores devem conhecer as sutilezas do francês, me sinto obrigado a traduzir:
- Punheteai-me, Madame.

Gente fina é outra coisa. Claro que não vamos exigir de nossas pobres vítimas das contradições sociais que conheçam a ênclise - tão cara aos nobres dos tempos de Sade - este fenômeno fonético pelo qual se incorpora um vocábulo átono ao que o precede, subordinando-se o átono ao acento tônico do outro. Mas, como em Marulanda, as regras formais não foram quebradas. Para o bem de todos, em momento algum a autoridade foi conspurcada. Como diria - e disse - Paulo Brossard de Souza Pinto, autoridade é como cristal, não pode ser arranhada.

O juiz de São Gonçalo certamente nada teria a reclamar de tão corteses adolescentes. A hierarquia não foi quebrada, a autoridade não foi arranhada. Verdade que a moça refém teve de fazer um uso um tanto insólito de suas pedagógicas mãos. Mas pelo menos não foi estuprada, segundo as sacras formas da lei. Afinal não houve conjunção carnal, apenas uma gentil carícia a um pobre menininho excluído.

* 27/03/2005

quarta-feira, abril 09, 2014
 
CARTA DE MADRI


Ilmo. Sr.
Prof. Juan Mayor
Director del Instituto de Cooperación Iberoamericana
Madri

Findo o prazo para a entrega do trabalho de pesquisa previsto para a conclusão deste XXI Curso Iberoamericano, sinto-me na obrigação de expor-lhe as razões pelas quais decidi não concluí-lo – aliás nem mesmo começá-lo – decisão esta que não foi tomada ontem, mas há boas semanas atrás e após longa meditação.

Selecionado como bolsista para este curso – o que muito me honra – cheguei a Madri absolutamente entusiasmado para defender uma tese em torno à obra de Camilo José Cela, autor que traduzi e introduzi no universo literário brasileiro. Mas uma coisa é a disposição de defender uma tese, outra é encontrá-la. Para melhor explicar-me, permito-me voltar alguns anos em meu passado, quando vivi a mesma experiência como bolsista do governo francês.

Ao postular uma bolsa na França, elaborei um projeto de pesquisa que julgava sólido e pertinente: Les racines françaises de l’oeuvre d’Ernesto Sábato. A comissão de seleção por certo também o terá julgado sólido e pertinente, pois recebi quatro anos de bolsa na Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III).

Pois bem: após seis meses de leituras, tive de render-me à evidência de que meu projeto não era sólido nem pertinente, que as raízes da literatura sabatiana não estavam na Gália, mas bem mais ao Leste, em Dostoievski. Para descobrir que trilhava caminhos que não conduziam a lugar nenhum, necessitei exatamente do prazo que agora me é concedido para a descoberta, elaboração e defesa de uma tese.

Para descobrir efetivamente uma abordagem original – pois penso que toda tese deve primar pela originalidade – e defensável, necessitei de outros seis meses. Para perseguir bibiografias, redigi-la e preparar sua defesa, tive mais três anos. Menção: Très Bien.

Ao sair do Brasil, tinha em mente voltar com u ensaio que desse uma ampla visão do homem Camilo José Cela, de sua obra e dos diversos gêneros percorridos, centrando minha análise e sua novelística. Projeto que, evidentemente, logo se revelou inviável. Pensei então em analisar apenas suas novelas, o que também era intenção desmesurada, dada a exigüidade do tempo.

Sejamos modestos, considerei, estudo então apenas enfoque celiano da Guerra Civil Espanhola, o que reduziria minha análise a apenas dois livros, San Camilo, 1936 e Mazurca para Dos Muertos. Passei então a ler sobre a Guerra Civil, uma vez delimitado o campo de estudos, seria bem mais fácil encontrar a assertiva que constituiria minha tese.

Mergulhei então neste conflito, que talvez tenha produzido maior mar de tinta do que de sangue. Quando pensei ter encontrado o cerne do que seria minha tese, já estávamos em maio. Produzi algumas escassas páginas, que não me agradaram, e concluí, honestamente, que o produto final não teria o nível que costumam ter meus ensaios. Decidi então, tranqüilamente, interromper a redação apressada de um trabalho do qual não teria motivo algum para orgulhar-me, nem maiores estímulos para defendê-lo.

Seria eu então incapaz de escrever cem páginas sobre Cela e a Guerra Civil? A resposta é não. Escrever cem páginas para mim jamais constituiu problema, sou homem que vive de escrever e ensinar. Poderia perfeitamente tê-las escrito. Mas preferi autocensurar-me, insatisfeito com a qualidade do que via sair de minhas mãos.

Penso que são duas – e não apenas uma – as teses que defendemos quando recebemos uma bolsa em país estrangeiro. A primeira, aquela que devemos submeter à uma banca, talvez não seja a mais importante. Pois o que nos impregnará o espírito e nos transformará interiormente, é o que chamo de “segunda tese”: o contato íntimo com outra cultura, o confronto com outras visões de mundo, a descoberta de novos autores e livros.

Em Paris, meu doutorado mais significativo, aquele que me transformou, tanto intelectual como culturalmente, foi o segundo, o que não tinha obrigação nenhuma de concluir: a leitura diária do Monde, a vivência cotidiana dos debates parisienses, o conhecimento das ruas e da História que as envolve, dos cafés e dos escritores e artistas que os freqüentaram, as visitas aos museus e monumentos, sem falar nas viagens pelo interior da França.

Poderia ler tudo o que foi escrito, por exemplo, sobre as batalhas de Madri. Mas jamais as sentiria tão vividamente se um dia não tivesse atravessado o Manzanares, passeado pela Casa de Campo e Parque del Oeste. Poderia ler todas as biografias existentes sobre Valle-Inclán, mas jamais conseguiria visualizá-lo se não tivesse freqüentado o Gijón ou deambulado pela Calle del Viejo Idiota.

Podemos ler, reler e tresler Don Quijote, mas só entenderemos sua verdadeira natureza percorrendo a geografia de suas andanças. Esta é a tese vital, penso, a que favorece o intercâmbio, a que levaremos guardada na retina e no coração, e que divulgaremos até o fim de nossos dias em nossas charlas cotidianas. A outra, a primeira e obrigatória, permanecerá provavelmente empoeirada, ad aeternum, nalguma estante.

Com tudo isto quero dizer que, se furtei-me – por autocrítica – à sustentação da primeira, a segunda eu a defendi ampla e corajosamente nos cafés, praças e ruas de Madri e das cidades de Espanha.

Não termina aqui a mais importante tese, ou pesquisa, como quisermos. Viver quatro anos em Paris permitiu-me conhecer meu continente. No Brasil, sei lá por que estranhas razões, nossos intelectuais tiveram os olhos sempre voltados para o Atlântico, tentando talvez vislumbrar, quem sabe em um dia sem bruma, os cafés da Rive Gauche. Nosso diálogo com o mundo hispano-americano sempre foi escasso, senão inexistente.

Para um autor paraguaio ou argentino, por exemplo, o caminho mais curto entre Buenos Aires e Rio, ou Asunción e São Paulo, sempre passou por Paris ou Nova York. Ernesto Sábato só foi conhecido no Brasil após ter sido traduzido na Europa e Estados Unidos. Roberto Arlt, este Dostoievski portenho, só teve Los Siete Locos traduzido ao português meio século após sua publicação na Argentina. E já que falamos em letras hispânicas, La Família de Pascual Duarte só foi publicada entre nós... no ano passado!

Assim como vivemos isolados culturalmente de nuestros vecinos, vivemos isolados também fisicamente. Não há na América Latina uma capital que seja ponto de encontro dos latino-americanos. “América Latina capital Paris”, disse um dia Carlos Fuentes. Embora hoje pudéssemos acrescentar centros como Berlim, Barcelona e Madri como capitais de nosso continente, isto não modifica os termos da equação: nossos pontos de encontro continuam situados em continente europeu.

Voltando à segunda tese: esta oportunidade que agora tive neste curso, de conhecimento da América Latina, em função do encontro com colegas de diferentes países e culturas, vale mais do que qualquer reflexão teórica e feita às pressas sobre textos.

Se constitui objetivo principal do Instituto de Cooperación Iberoamericana o intercâmbio cultural e o diálogo entre Espanha e América Latina, penso que, em meu caso, estes objetivos foram plenamente atingidos. Homem de fronteira, sou contrabandista inveterado, e volto desta viagem fecundado por novos autores e livros, sem falar em uma melhor capacitação para traduzir literatura espanhola. Penso que uma visita a dois ou três editores brasileiros poderá ser bem mais útil ao diálogo que cem páginas precariamente redigidas. Estou certo que deste curso resultarão novas traduções e não poucas crônicas de viagem.

Em sinal de reconhecimento a esta oportunidade de conhecer mais intimamente a Espanha – antigo e obsessivo sonho meu, que reiteradamente manifestei em tudo que escrevo – deixo-lhe, en souvenir, Prof. Mayor, estas duas primeiras traduções de Camilo José Cela no Brasil, A Família de Pascual Duarte e Mazurca para Dois Mortos. É modesta contraprestação a uma bolsa, disto tenho consciência. Mas foram feitas com carinho e sem pressa, e orgulho-me de assiná-las, o que não seria o caso de meu entusiasta – e abortado – projeto de tese.

Madri, 10 de junho de 1987

segunda-feira, abril 07, 2014
 
MEIGA *


Acabava o inverno em Madri e a primavera chegou vestindo árvores e despindo mulheres, a despedida das neves e o emergir do verde parecia ter contagiado até mesmo Moscou, os russos liberavam o aeroporto da Praça Vermelha ao Ocidente. Era primavera em Madri e eu, incauto, percorria a Avenida de los Reyes Católicos, estas generosas majestades que oficializaram na Espanha me ofício ancestral. Era primavera, dizia, e o sol de Castilla, la Vieja, perfurava o verde e as vestes. Voavam tuas folhas ao sabor do vento e a luz radiografou tuas formas.

Não pude deixar de evocar Gorbachov: glasnost. Transparência. Mathias Rust sobrevoava inconseqüente qual andorinha a tumba de Lênin e tu adejavas, impune, pela avenida dos Reis que tentaram, inutilmente, exterminar tua raça infame. Entraste no bar de mansinho, subreptícia, bruxa clandestina em um missa de um domingo cinzento da Idade Média. Inquisidor experiente, em teu jeito de andar vi desde logo teu meigallo. Muitas outras te cercavam, tivesse eu vinte anos me entregaria a todas de olhos vendados. Mas já não tenho a insciência dos vinte, cristiana hechicera, e tremi: “é ela, é ela e nenhuma outra”.

Chegaste no inverno e o frio te ocultava as formas, como ocultaria do olhar de Rust o alvo de seu desejo. Se o frio costuma roubar aos olhos o corpo, poderes não tem para roubar dos olhos a picardia. Te julguei míope e procurei aproximar-me, de bem perto os míopes vêem melhor. Errei feio: me viras de muito longe. Mas já era tarde para voltar, permanecera tempo excessivo exposto à tua aura maléfica, et le voilà o douto Inquisidor lambendo humildemente o dedão do pé da bruxinha oriental.

De que legiões do báratro – perguntei-me, viria aquele ser, hibernal e infernal, à primeira vista inofensivo? Das legiões de Espanha não poderia ser, meus pares não deixaram bruxa viva nesta geografia. Lembro-me como se fosse hoje. Bastava jogar-vos nas águas de um rio, mãos e pés amarrados. Se a água, elemento puro, vos recusava, era evidente: éreis bruxas e vos queimávamos. Se o rio vos aceitava e afogava, provada estava vossa inocência. Sem precisar jogar-te no Manzanares, deves ter sentido meu olhar queimando tua nuca.

Foi Deus quem te denunciou. Já imagino tua gargalhada herética: “qual deus entre os deuses quer, com tantas ganas, meu pescoço?” Não foram os gregos nem os romanos, nem os ocidentais ou orientais. Maga imemorial, não deves ter esquecido as intuições daquele alemão que morreu louco: sim, os deuses gregos morreram, morreram de rir ao saber que no Ocidente tinha um que se pretendia único. Jogo de palavras de Nietzsche, bem sabia ele que Deus é um só e é o Sol, isto já o sabemos desde os chineses e hindus, persas e egípcios, mediterrâneos e mesopotâmicos.

Sendo Sol deus diurno e delator, ao descer a noite resta ao Inquisidor um único recurso: despir a presumível bruxa, expondo-se a mil malefícios, para saber se sob suas vestes se esconde alguma essência maligna. O Inquisidor, mesmo experiente, hesita: e se, ao investigar o feitiço, se enfeitiça? Adelante, e seja lá o que Sol quiser.

De que regiões do inferno, me perguntava, viria aquele súcubo travestido em anjo míope? Não vinhas de legião nenhuma, nem de inferno algum, pelo menos por tuas declarações iniciais, ante de submeter-te às práticas mais eficazes de meu santo ofício. Eras vizinha de continente, cidadã da República Oriental del Uruguay.

Nos aquelarres, te chamam La Negra, não é assim? – perguntei-te, pressionando esta parte indefesa das meigas, a nuca. Como é que sabes disto? – reagiste surpresa. Ora, anjo decaído, bom inquisidor não se engana. Bruxa, mentes o tempo todo, jamais vi alguém mentir tanto. Tenho 25 aninhos, disseste, cretina. Podes enganar o século, mas não a mim. Terás, no mínimo, uns dois mil anos e pico largo. Sou feia, vesga e o dedão de meu pé é um horror.

Três mentiras mais, maga. Se és ou não linda, isto a ti não compete julgar. Quanto a teus olhos, sei que jamais olham o que parecem olhar, uma evidência a mais de que humana não és. Já quanto ao dedão, sou eu quem decide se é beijável ou não.

Gaúcho, não sou de lamber botas, menos mal que naquela noite estavas descalça.

Inesperada, inesquecível, Inês querida: na ausência dos poderes que me conferiam a Santa Sé, nesta Espanha social-democrática, para entregar-te ao braço secular e à fogueira, eu, INQUISIDOR, te condeno, MEIGA INFAME, a jamais ter amigos: todo mortal será teu enamorado.

* Méson das Meigas, Madri, 25/06/7
Meiga, em galego, é bruxa. Meigallo é feitiço. Aquelarre é reunião de meigas.

sábado, abril 05, 2014
 
Recordar é viver:
REMEMBER KHOMEINI


Valayaté-Faghih, Kachfol-Astar e Towzihol-Masael são os três livros-chave do aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da Revolução Iraniana de 1979, que recebeu generoso asilo em terras de França, em cidade nas cercanias de Paris. Traduzindo, pela ordem: O Reino do Erudito, A Chave dos Mistérios e A Explicação dos Problemas. Pinço cá e lá algumas reflexões do douto humanista:

No momento de urinar ou defecar, é preciso se agachar de modo a não ficar de frente nem dar as costas para Meca. Não é necessário limpar o ânus com três pedras ou três pedaços de pano, uma só pedra ou um só pedaço de pano bastam. Mas, se se o limpa com um osso ou com coisas sagradas como, por exemplo, um papel contendo o nome de Deus, não se pode fazer orações nesse estado.

É preferível agachar-se num lugar isolado para urinar ou defecar. É igualmente preferível entrar nesse lugar com o pé esquerdo e dele sair com o pé direito. Recomenda-se cobrir a cabeça durante a evacuação e apoiar o peso do corpo no pé esquerdo.

Durante a evacuação, a pessoa não deve se agachar de cara para o sol ou para a lua, a não ser que cubra o sexo. Para defecar, deve também evitar se agachar exposto ao vento, nos lugares públicos, na porta da casa ou sob uma árvore frutífera. Deve-se igualmente evitar, durante a evacuação, comer, demorar e lavar o ânus com a mão direita. Finalmente, deve-se evitar falar, a menos que se seja forçado, ou se eleve uma prece a Deus.

A carne de cavalo, de mula e de burro não é recomendável. Fica estritamente proibido o seu consumo se o animal tiver sido sodomizado, quando vivo, por um homem. Nesse caso, é preciso levar o animal para fora da cidade e vendê-lo.

Quando se comete um ato de sodomia com um boi, um carneiro ou um camelo, a sua urina e os seus excrementos ficam impuros e nem mesmo o seu leite pode ser consumido. Torna-se, pois, necessário matar o animal o mais depressa possível e queimá-lo, fazendo aquele que o sodomizou pagar o preço do animal a seu proprietário.

Onze coisas são impuras: a urina, os excrementos, o esperma, as ossadas, o sangue, o cão, o porco, o homem e a mulher não-muçulmanos, o vinho, a cerveja, o suor do camelo comedor de porcarias.

O vinho e todas as outras cervejas que embriagam são impuros, mas o ópio e o haxixe não o são.

O homem que ejaculou após ter tido relações com uma mulher que não é sua e que de novo ejaculou ao ter relações com a legítima esposa, não tem o direito de fazer orações se estiver suado; mas, se primeiro tiver tido relações com a sua mulher legítima e depois com uma mulher ilegítima, poderá fazer as suas orações mesmo se estiver suado. Por ocasião do coito, se o pênis penetrar na vagina da mulher ou no ânus do homem completamente, ou até o anel da circuncisão, as duas pessoas ficarão impuras, mesmo sendo impúberes, e deverão fazer as suas abluções.

No caso de o homem — que Deus o guarde disso! — fornicar com animal e ejacular, a ablução será necessária. Durante a menstruação da mulher, é preferível o homem evitar o coito, mesmo que não penetre completamente — ou seja, até o anel da circuncisão — e que não ejacule. É igualmente desaconselhável sodomizá-la.

Dividindo o número de dias da menstruação da mulher por três, o marido que mantiver relações durante os dois primeiros dias deverá pagar o equivalente a 18 nokhod (três gramas) de ouro aos pobres; se tiver relações sexuais durante o terceiro e quarto dias, o eqüivalente a 9 nokhod e, nos dois últimos dias, o eqüivalente a 4½ nokhod. Sodomizar uma mulher menstruada não torna necessários esses pagamentos.

Se o homem tiver relações sexuais com a sua mulher durante três períodos menstruais, deverá pagar o eqüivalente em ouro a 31½ nokhod. Caso o preço se tiver alterado entre o momento do coito e o do pagamento, deverá ser tomado como base o preço vigente no dia do pagamento.

De duas maneiras a mulher poderá pertencer legalmente a um homem: pelo casamento contínuo e pelo casamento temporário. No primeiro, não é necessário precisar a duração do casamento. No segundo, deve-se indicar, por exemplo, se a duração será de uma hora, de um dia, de um mês, de um ano ou mais.

Enquanto o homem e a mulher não estiverem casados, não terão o direito de se olhar.

É proibido casar com a mãe, com a irmã ou com a sogra.

O homem que cometeu adultério com a sua tia não deve casar com as filhas dela, isto é, como suas primas-irmãs.

Se o homem que casou com uma prima-irmã cometer adultério com a mãe dela, o casamento não será anulado.

Se o homem sodomizar o filho, o irmão ou o pai de sua esposa após o casamento, este permanece válido.

O marido dever ter relações com a esposa pelo menos uma vez em cada quatro meses.

Se, por motivos médicos, um homem ou uma mulher forem obrigados a olhar as partes genitais de outrem, deverão fazê-lo indiretamente, através de um espelho, salvo em caso de força maior.

É aconselhável ter pressa em casar uma filha púbere. Um dos motivos de regozijo do homem está em que sua filha não tenha as primeiras regras na casa paterna, e sim na casa do marido.

A mulher que tiver nove anos completos ou que ainda não tiver chegado à menopausa deverá esperar três períodos de regras após o divórcio para poder voltar a casar.

Qualquer comércio de objetos de prazer, como os instrumentos musicais, por menores que sejam, é estritamente proibido.

É proibido olhar para uma mulher que não a sua, para um animal ou uma estátua de maneira sensual ou lúbrica.

quinta-feira, abril 03, 2014
 
O LADRÃO DO TEMPO *
Jacques le Goff



A usura é um roubo, portanto o usurário um ladrão. E antes de tudo, como todos os ladrões, um ladrão de propriedade. Thomas de Chobham o diz bem: "O usurário comete um furto (furtum) ou uma usura (usurum) ou uma rapina (rapinam), pois recebe um bem alheio (rem alienam) contra a vontade do 'proprietário' (invito domino), isto é, de Deus".

O usurário é um ladrão particular; mesmo que não perturbe a ordem pública (nec turbat rem publica), seu roubo é particularmente odioso na medida em que rouba a Deus. Que vende ele, de fato, senão o tempo que passa entre o momento em que empresta e aquele em que é reembolsado com juros? Ora, o tempo pertence somente a Deus. Todos os contemporâneos o dizem, depois de Santo Anselmo e de Pedro Lombardo: "O usurário não vende ao devedor nada que lhe pertença, somente o tempo, que pertence a Deus. Ele, portanto,não pode tirar proveito da venda de um bem alheio".

Mais explícito, mas expressando um lugar comum da época, a Tabula exemplorum relembra: "Os usurários são ladrões, pois vendem o tempo, que não lhes pertence, e vender o bem alheio, contra a vontade do possuidor, é um roubo".(41) Ladrão de "propriedade", depois ladrão de tempo, o caso do usurário se agrava. Pois a "propriedade" — noção que, na Idade Média, reaparece verdadeiramente apenas com o Direito Romano nos séculos XII e XIII e se aplica quase somente para os bens móveis — pertence aos homens. O tempo pertence a Deus, e somente a Ele. Os sinos repicam em seu louvor, nessa época em que o relógio mecânico ainda não havia aparecido, pois só virá à luz no final do século XIII.

Thomas de Chobham o diz claramente, na seqüência do texto citado mais acima (p. 10): "Assim o usurário não vende a seu devedor nada que lhe pertença, mas apenas o tempo, que pertence a Deus (sed tantum tempus quod dei est). Como ele vende uma coisa alheia, disso não deve tirar nenhum proveito".

A Tabula exemplorum é mais explícita. Evoca a venda dos dias e das noites de que lembra a significação ao mesmo tempo antropológica e simbólica. O dia é a luz, o meio que torna possível o uso pelo homem de seu sentido visual, mas que expressa também a matéria luminosa da alma, do mundo e de Deus. A noite é o repouso, o tempo de tranqüilidade, de recuperação (a menos que seja perturbada pelos sonhos) para o homem. É também o tempo místico da ausência de instabilidade, de inquietação, de tormento. O dia e a noite são os duplos terrestres dos dois bens escatológicos, a luz e a paz. Pois ao lado da noite infernal, há uma noite terrestre em que se pode pressentir o Paraíso. São estes os dois bens supremos que o usurário vende.

Um outro manuscrito do século XIII, da Biblioteca Nacional de Paris, sintetiza bem e de maneira mais completa que a Tabula a figura desse pecador e desse ladrão que é o usurário.

"Os usurários pecam contra a natureza querendo fazer dinheiro gerar dinheiro, como cavalo com cavalo ou mulo com mulo. Além disso os usurários são ladrões (latrones), pois vendem o tempo, que não lhes pertence, e vender um bem alheio, contra a vontade do possuidor é um roubo. Ademais, como nada vendem a não ser a espera do dinheiro, isto é, o tempo, vendem os dias e as noites. Mas o dia é o tempo da claridade e a noite o tempo do repouso. Portanto, não é justo que tenham a luz e o repouso eternos."

Tal é a lógica infernal do usurário.

Esse roubo do tempo é um argumento particularmente sensível aos clérigos tradicionalistas entre os séculos XII e XIII, num momento em que os valores e as práticas socioculturais se transformam, em que os homens se apropriam de fragmentos de prerrogativas divinas, em que o território dos monopólios divinos se estreita. Deus também deve dar aos homens certos valores que descem do Céu à Terra, conceder-lhes "liberdades", "privilégios".

Uma outra categoria profissional conhece na mesma época uma evolução paralela. São os "novos" intelectuais, que, fora das escolas monásticas ou catedralícias, ensinam na cidade a estudantes, de quem recebem um pagamento, a collecta. São Bernardo, entre outros, os repreendeu como sendo "vendedores, mercadores de palavras". E o que vendem eles? A ciência, a ciência, que, como o tempo, pertence apenas a Deus.

Mas esses ladrões de ciência logo serão justificados. Em primeiro lugar por seu trabalho. Na qualidade de trabalhadores intelectuais, os novos mestres escolares serão admitidos na sociedade reconhecida de sua época e na sociedade dos eleitos: aquela que deve prolongar no Além e para sempre os merecedores aqui de baixo. Eleitos que podem ser, desde que justos e obedientes a Deus, tanto os privilegiados quanto os oprimidos desta terra.

A Igreja exalta os pobres, mas reconhece de boa vontade os ricos dignos de sua riqueza pela pureza das origens desta e pelas virtudes de sua utilização. Estranha situação a do usurário medieval. Numa perspectiva de longa duração, o historiador de hoje reconhece-lhe a qualidade de precursor de um sistema econômico que, apesar de suas injustiças e de seus defeitos, inscreve-se, no Ocidente, na trajetória de um progresso: o capitalismo. Em seu tempo, aquele homem foi desonrado, segundo todos os pontos de vista da época.

Na longa tradição judaico-cristã ele é condenado. O livro sagrado faz pesar sobre ele uma maldição bimilenar. Os novos valores também o rejeitam como inimigo do presente. A grande promoção é a do trabalho e dos trabalhadores. Ora, ele é um ocioso particularmente escandaloso. Pois o diabólico trabalho do dinheiro que ele impulsiona não passa do corolário de sua odiosa ociosidade.

Ainda a esse respeito Thomas de Chobham o diz claramente: "O usurário quer adquirir um lucro sem nenhum trabalho e até dormindo, o que vai contra o preceito do Senhor que diz: 'Comerás teu pão com o suor de teu rosto' (Gênesis, III, 19)".

O usurário age contra o plano do Criador. Os homens da Idade Média viram antes de tudo no trabalho o castigo do pecado original, uma penitência. Depois, sem renegar essa perspectiva penitencia!, valorizaram cada vez mais o trabalho, instrumento de resgate, de dignidade, de salvação; colaboração à obra do Criador, que, depois de ter trabalhado, repousou no sétimo dia. Trabalho, querida preocupação, que é preciso separar da alienação, para dele fazer, individual ou coletivamente, o difícil caminho da libertação.

Nesta construção do progresso da humanidade, o usurário é um desertor. É no século XIII que os pensadores fazem do trabalho o fundamento da riqueza e da salvação, tanto no plano escatológico quanto no plano, diríamos nós, econômico. "Que cada um coma o pão que ganhou com seu esforço, que os amadores e os ociosos sejam banidos", lança Roberto de Courçon na cara dos usurários. E Gabriel Le Bras comenta convenientemente: "O maior argumento contra a usura é que o trabalho constitui a verdadeira fonte das riquezas (...). A única fonte da riqueza é o trabalho do espírito e do corpo. Não há outra justificativa de ganho senão a atividade do homem".

A única probabilidade de salvação do usurário, já que todo o seu lucro é mal adquirido, é a restituição integral do que ganhou. Thomas de Chobham é bastante claro: "Como a regra canônica é que o pecado nunca é redimido se o que foi roubado não for restituído, é claro que o usurário não pode ser considerado como um penitente sincero se não restituir tudo o que extorquiu através da usura".

Cesário de Heisterbach também o diz na seqüência da resposta do monge ao noviço: "É difícil ao usurário corrigir seu pecado, pois Deus só faz as pazes com ele se o que foi roubado for restituído".

Etienne de Bourbon e a Tabula exemplorum utilizam a respeito da restituição das usuras o mesmo exemplo destinado a mostrar como a maldição do usurário pode estender-se a seus herdeiros, se eles não obedecerem ao dever de restituição. Ser amigo do usurário é perigosamente comprometedor.

Eis a versão do dominicano: "Ouvi contar pelo irmão Raul de Varey, prior dos dominicanos de Clermont no momento do negócio, que um usurário, se arrependendo na hora da morte, tinha chamado dois amigos e lhes havia pedido para serem seus executores fiéis e rápidos. Estes deviam restituir o bem alheio que ele adquirira e deles exigiu um juramento. Eles o prestaram acompanhando-o de imprecações. Um chamou sobre si o fogo sagrado, que é chamado fogo de Geena (mal dos ardentes) que o deveria queimar caso não cumprisse a promessa. O outro fez o mesmo invocando a lepra. Mas após a morte do usurário guardaram o dinheiro, não cumprindo o que haviam prometido, e foram vítimas de suas imprecações. Sob a pressão do tormento, confessaram".

Na Tabula os executores infiéis são três: "Um usurário ao morrer legou por testamento todos os seus bens a três executores a quem suplicou que tudo restituíssem. Havia-lhes perguntado o que eles mais temiam no mundo. O primeiro respondeu: 'a pobreza'; o segundo: 'a lepra'; o terceiro: 'o fogo de Santo Antônio' (o mal dos ardentes). 'Todos estes males', disse ele, 'irão cair-lhes em cima se vocês não dispuserem de meus bens restituindo-os ou distribuindo-os conforme ordenei'. Mas após sua morte os legatários concupiscentes se apropriaram de todos os bens do morto. Sem tardança, tudo aquilo que o morto havia nomeado por imprecação os afligiu, a pobreza, a lepra e o fogo sagrado".

Assim, a Igreja envolve a prática da restituição da usura com todas as garantias possíveis. E, além da morte do usurário, já que a restituição parece ter sido prevista pelo usurário penitente post mortem em seu testamento — este documento que se torna, na Baixa Idade Média, tão precioso para o estudo das situações perante a morte e o Além (um "passaporte" para o Além) — a Igreja dramatiza as condições de sua execução. Ela promete ao executor infiel um antegozo na terra, dos tormentos que esperam, no Inferno, o usurário impenitente e que são transferidos aqui embaixo a seus amigos perjuros e cúpidos.


* A França e o mundo perderam, neste 1º de abril, seu mais brilhante intelectual, historiador de linguagem clara e precisa, coisa rara naquelas plagas. Medievalista, autor da talvez mais vasta obra sobre o medievo, que incluem desde estudos sobre inferno e paraíso a ensaios sobre economia e costumes naquele período, Jacques le Goff, falecido aos 90 anos, deixa uma daquelas lacunas que nenhum outro homem preenche mais.

Sou leitor de carteirinha de Le Goff, é o autor que mais tenho lido nos últimos. Compre qualquer título de le Goff, mesmo ao azar, e você não se arrependerá; todos são excelentes. O último de seus livrinhos que li Un Autre Moyen Âge, tinha 1400 páginas. Em verdade, uma coletânea com sete de seus ensaios.

Le Goff, em suas dezenas de livros, especializou-se no estudo das geografias e legislações do Além, com alentados ensaios sobre o imaginário medieval. Tampouco foi alheio às práticas econômicas da época. Como pequena mostragem, reproduzo este texto de A Bolsa e a Vida (1977), onde nos mostra o usurário como ladrão de um bem divino, o tempo.

quarta-feira, abril 02, 2014
 
VALISNERIA ESPIRAL


O mais sedentário dos homens, mesmo aquele que nunca saiu de sua aldeia, não sabe, mas é um grande viajor. Pode ser mais parado que água de poço, mas ele e o poço a cada ano rodam 930 milhões de quilômetros em torno ao sol. É uma viagem respeitável. Esta minha 67ª foi a mais aziaga de todas as órbitas.

Comecei meus turismos interplanetários – e no fundo sempre os mesmos – em um 02 de abril. Mas só fui registrado no 02 de julho. Em meus pagos, naquele Saara verde quase deserto de homens, os cartórios ficam longe. O mais próximo de meu rancho ficava a três léguas de distância. Melhor dar um tempo para ver se a cria vinga e não perder uma cavalgada.

Embora não celebre nenhum, tenho dois aniversários: hoje e daqui a três meses. Foi nos últimos anos que comecei a fazer um balanço de minhas órbitas.

Em um de meus primeiros textos literários, lá pelos 20, com a arrogância típica dos jovens, escrevi: “estranha ageusia axiológica”. Foi logo após ter perdido minha fé. Queria dizer simplesmente que minha existência havia perdido seus valores.

Jovem acha que usar palavras raras é escrever bem. Nunca mais usei este hapax – que agora já não é hapax – e vejo que de novo, depois de velho, incorro no vício. Calma, leitor. Não precisa sair desta página e correr ao Google. Já explico. Hapax é aquela palavra empregada uma única vez em uma obra. E ageusia é ausência de paladar.

Ironia da vida, nesta fase crepuscular, fui vítima de meu hapax juvenil. Há uns bons três anos perdi o paladar, devido a radioterapias para combater um carcinoma na orofaringe. Quando adolescente, não tinha idéia de gastronomia. Em meus pagos, gastronomia era arroz, feijão e charque. Em Dom Pedrito, não se ia muito longe disso, com a diferença que se tinha não salgada. Culinária foi algo que comecei a descobrir em Porto Alegre. Mais tarde, em viagens. Nada mais pedagógico nesta área do que viajar. Foi batendo pernas pelo mundo que descobri a bona-xira.

Minha fase sem valores durou o que duram as rosas. Logo olhei em torno a mim e vi uma montanha de coisas boas a meu alcance. Para começar, sexo. E sexo era bom, particularmente quando exercitado sem culpa, como deveria ter dito Jeová aos dois inquilinos do Éden – mas não disse. Havia a amizade, a descoberta de amigos e amigas, as leituras, a música. Na época, ainda não havia descoberto as viagens. E viajar também era bom.

Agora já não é. Quando estamos degustando um cochinillo em Madri, um jarret de porc em Paris, um smörgåsbord na Escandinávia, uma cataplana de bacalhau em Lisboa, achamos bom o prato, é verdade. Mas nem sequer temos idéia do quanto era bom. Isto só se avalia quando não mais lhe sentimos o sabor. Passamos por um grande momento da vida sem saber quão grande era o momento. Comer a palo seco? Melhor ficar em casa.

Como viajar sem beber? Passei os últimos 30 anos de minha vida viajando só para ir de um restaurante a outro. Hoje isto perdeu o sentido. O vinho, bom e fiel amigo de tantas décadas, que jamais faltou a um encontro, me queima a garganta. O uísque me sabe como uma brasa sobre a língua, se é que alguém sabe como seja uma brasa sobre a língua.

Quando meus médicos me proibiram o álcool, pensei levá-los à barra dos tribunais. Impetraria um veemente habeas copus contra este grave atentado aos direitos humanos. Hoje, meu habeas copus perdeu sua razão de ser.

Valores ou sabores? A pergunta é capciosa, pois o sabor é também um valor. Olhando para trás, me resta o consolo de bem ter preenchido minha vida com sabores. Agora, como decía Fierro,

solo queda al desgraciao
lamentar el bien perdido.

Dante colocou os gulosos no terceiro círculo do inferno, onde são flagelados por uma chuva putrefacta e são vigiados pelo mitológico Cérbero, o cão de três cabeças. Atolados numa lama suja e espessa e atormentados por uma tempestade fortíssima de granizo, gelo, neve e torrões de água suja que caem sem parar, os gulosos jazem imersos no próprio vômito. Cérbero, com apetite insaciável, arranha, esfola, esmaga, dilacera e esquarteja os espíritos dos gulosos. O prazer solitário da gula é ampliado no inferno, onde estes estão solitários na lama, sem falar com seus vizinhos.

Decididamente, não é meu caso. Nunca fui guloso, sempre comi pouco e vejo o comer e beber associado à boa companhia e à boa charla. Quando eu bebo, as palavras flueeeeemmm, como me dizia o Toto Ferreira, lá nas Três Vendas. Comer é o melhor tempero de uma boa conversa. No entanto, como Dante não prevê pena alguma aos viajores, mesmo sóbrio, suponho que me colocaria debaixo dessa chuva pestilenta. Se dela escapei, fui condenado em vida ao purgatório da ageusia.

Foi o escritor Dyonélio Machado, comunista ferrenho e homem generoso, quem me introduziu na leitura de Renan e nas epístolas e viagens de Paulo. Renan, para quem não sabe, foi um ensaísta ateu que escreveu uma fascinante história do cristianismo em sete volumes – que se lêem com o sabor de um romance - e outra história do judaísmo em outros tantos tomos. Foi incluído no Index Prohibitorum, comenda máxima que poderia receber um escritor em seu dias.

Dyonélio nos recebia às quartas-feiras – eu e a Baixinha – e Adalgisa se apressava em trazer-nos vinho e biscoitos. “Pas de vin sans biscuit" – pontificava Dyonélio. Dito isto, nos conduzia a um atril, onde repousava eternamente uma bíblia, puxava de suas estantes o volume Paulo, da história do cristianismo de Renan, e começávamos a viajar pelo Mediterrâneo.

Anos mais tarde, navegando pelo Egeu, estive numa ilha, onde Paulo desembarcou, trazendo consigo os miasmas da doença. A praia onde aportou estava cheia de suecas nuas. Ali a peste não havia vingado.

Dyonélio também me levou ao conhecimento da valisneria espiral. É uma planta submersa que se espalha pelo chão dos oceanos e às vezes forma altos prados submarinos. Folhas com pontas arredondadas surgem em cachos de suas raízes. As flores brancas de uma única planta fêmea crescem para a superfície da água em hastes longas. As flores masculinas crescem em caules curtos, se destacam e flutuam até a superfície. O fruto é como uma cápsula de banana com muitas sementes minúsculas. Na superfície das águas, ocorre a fecundação. Dyonélio, marxista e ateu empedernido, alimentava a esperança póstuma de fecundar, como a valisneria, as futuras gerações. Sou um de seus frutos.

Nietzsche, inimigo declarado do deus cristão – considerava Renan um romântico - enfrentou em vida com destemor a Indesejada das Gentes. Pelo contrário, por ela nutria um certo xodó. Em um de seus apólogos, o rei Midas pergunta a Sileno qual dentre as coisas era a melhor e a preferível para o homem. Responde Sileno:

“Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é morrer depressa”.

Verdade que Nietzsche não teve chance de enfrentá-la cara a cara. Foi envolto pela insânia na última década de sua vida e certamente não percebeu a chegada da Moira Torta. Pudesse com ela dialogar, certamente lhe daria as boas vindas.

Há dois dias, fiz a penúltima aplicação de quimioterapia. O tumor já foi reduzido em 80 % e parece que deste escapo. Será uma vitória de Pirro, pois sairei um tanto desvalido e mais ou menos incapacitado para novas viagens. Resta-me, como a Xavier de Maistre, viajar em torno a meu quarto. Onde há ainda muitas léguas a percorrer. Tenho leitura e música para um cerco mais prolongado que o de Leningrado e a rede me conecta com o mundo e os amigos. Tornei-me o caniço pensante de Pascal. Caniço porque mudo e quase imóvel. Pensante porque pensante. À meia-boca, a vida continua.

Foi um outro ateu empedernido, Luis Buñuel, em seu relato autobiográfico, Mon dernier soupir, que me chamou a atenção para uma voz dissonante na Bíblia, que parece ter escapado à vigilância dos hagiógrafos. No Livro da Sabedoria, II:1,7, lemos:

Disseram pois os ímpios no desvario de seus pensamentos: o tempo de nossa vida é curto e cheio de tédio, e não há nenhum bem a esperar depois da morte, e também não se conhece ninguém que tenha voltado dos infernos.
Pois do nada somos nascidos e depois desta vida seremos como se nunca tivéssemos sido. Pois a respiração de nossos narizes não passa de fumaça; e a razão é como faísca para mover o nosso coração.
Apagada ela será e nosso corpo reduzido a cinza e o espírito se dissipará como um ar sutil. E a nossa vida se desvanecerá como uma nuvem que passa e se dissipará como um nevoeiro que é afugentado pelos raios de sol e oprimido pelo seu calor.
E o nosso nome com o tempo ficará sepultado no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras.
Pois nossa vida é a passagem de uma sombra, e não há regresso depois da morte. Pois, lacrada, dela ninguém retorna.
Vinde portanto, e gozemos dos bens presentes, e apressemo-nos a usar das criaturas como na mocidade.
Enchamo-nos de vinho precioso e de perfume e não deixemos passar a flor da primavera.
Coroemo-nos de rosas antes que murchem; não haja prado algum em que a nossa intemperança não se manifeste.
Nenhum de nós falte às nossas orgias. Deixemos em toda parte sinais de alegria, porque esta é a parte que nos toca e esta é a nossa sorte.


Ah sim, não deixei de gozar dos bens presentes, usei das criaturas como na mocidade, não fui frugal na fruição dos bons vinhos nem deixei passar a flor da primavera. Em prado algum minha intemperança deixou de manifestar-se, sempre bati ponto em nossas orgias e procurei deixar, por onde andei, sinais de minha alegria.

Sábio era Sileno. Tudo que respira morre. Todo ateu, devemos confessar, almejamos viver na memória das gentes pelo menos alguns segundos, do ponto de vista histórico. Se meus esporos, como os da valisneria, fecundarem ainda meus pósteros mais próximos, já está de bom tamanho.

Seja feita a vontade da vida.

terça-feira, abril 01, 2014
 
MEU 1° de ABRIL *


Quando um acontecimento histórico faz aniversário em números redondos, ocorre o que os jornalistas chamam de efeméride. Foi o aconteceu no início deste mês, quando a dita Revolução de 1964 completou seus 40 anos. O leitor já deve ter notado que sempre busco fugir ao lugar comum. Assim sendo, me abstive de contar o que estava fazendo no dia 1° de abril de 1964. Mas já recebi alguns mails exigindo o relatório e, já que estamos mais distantes da data - e do lugar comum - vou contar. Aliás, já devo ter contado em crônicas passadas.

No dia 1° de abril, com a arrogância de um estudante de 17 anos - eu os completaria no dia seguinte - eu defendia bravamente as instituições democráticas, na sede do Sindicato dos Ferroviários, em Santa Maria, do ataque brutal dos militares. Trepado em uma mesa, eu deitava o verbo contra Lacerda, contra as Forças Armadas e contra os reacionários e golpistas em geral. Conclamava os operários à resistência contra o golpe e a eles oferecia o importante apoio da classe estudantil santa-mariense. Na época, se algum leitor está lembrado, a fórmula mágica para resistir a ditadura era a aliança estudantil-operário-camponesa. Verdade que a maioria dos estudantes jamais havia visto um camponês de perto, mas isto pouco importava. Havia também aquele outro slogan, povo unido jamais será vencido, refrões que repetíamos como mantras para exorcizar o mal.

Esperávamos, no sindicato, a tomada de posição do general Pope de Figueiredo, comandante da guarnição local. Confiávamos que, se a base aérea de Camobi, sediada em Santa Maria, tomasse o partido do povo, a ditadura estaria conjurada. Pois justo na hora em que eu discursava, com o ardor de meus 17 anos, chegou a tomada de posição do general Pope: trezentos homens armados, com baionetas caladas, cercaram o prédio, chamado pomposamente de Casa Rosada. Enquanto eu falava, o salão ia se esvaziando. Eu, que não sabia do que acontecia lá fora, desci da mesa muito sem graça, achando que meu discurso não estava convencendo ninguém.

Não era bem o caso. Mais convincente era a tomada de posição do general. Fiquei no prédio, com mais dez operários, um deles bêbado e armado com um facão. Queria enfrentar sozinho as baionetas. Tive de puxá-lo para dentro e fiquei me perguntando o que fazia ali. Ninguém foi preso, nem o seria, desde que abandonasse o prédio. Acabei indo embora, com a terrível sensação de herói ignorado, sem aplausos e nem mesmo vaias.

De atitudes como esta - ou semelhantes - se gabaram na semana passada escritores e cronistas de não poucos jornais. Eu, se por algum tempo me orgulhei de minha modesta participação nos acontecimentos daquele dia, hoje a deploro profundamente. Como todos os jovens, eu era um perfeito idiota. Seguia atrás de palavras de ordem, em geral oriundas de Pequim, Moscou ou Havana, e as defendia como quem defende uma verdade sagrada. Não sabia, na época, que guerrilheiros vinham sendo preparados em Cuba para, sob o comando de Julião, tomar o poder no país e transformá-lo em mais uma republiqueta atrelada a URSS. Era a segunda tentativa do Kremlin de tomar o poder no país. A primeira, fora a de 35, liderada por Luís Carlos Prestes e mais três ou quatro aventureiros internacionais.

Hoje, está mais que visto: não fossem os militares, estaríamos vivendo sob regime comunista. Com a queda do Brasil, não seria fácil de imaginar o Chile e Argentina, que já vinham sendo infiltrados pelos comunistas, sob o jugo de Moscou. Não seria também de duvidar que, com o continente latino-americano subjugado, o regime soviético tivesse mais alento e inclusive sobrevivesse mais algumas décadas. Não é demais afirmar que, sem a atitude dos militares em 64, o horror talvez tivesse dobrado a esquina do século.

Mas a vitória das Forças Armadas foi ilusória. Venceram a primeira batalha, é verdade. Mas perderam o combate. Hoje, transcorridas apenas quatro décadas, metade de uma vida de homem, menos que a ditadura de Fidel Castro, os militares foram jogados na famosa lata de lixo da História, com a pecha de vilões Os vilões da história não só tomaram o poder como posam de heróis e recebem régias aposentadorias, pelos (des)serviços prestados à Pátria. Os grandes vencedores de 64, costumo dizer, foram as esquerdas que, na época, pretendiam instalar no Brasil um regime soviético. Mas os tempos mudaram, o Muro caiu, a URSS afundou. Hoje, no poder, as esquerdas não têm mais moral para empunhar bandeiras socialistas.

Há quem creia, é verdade, que o Brasil de hoje se encaminha ao comunismo. Não acredito. Não há mais clima. Se o PT tivesse ganho em 1980, quando o mundo ainda tremia ante qualquer arroto da URSS, talvez. Agora é tarde, camaradas.

Naquele distante primeiro de abril, eu, idiota atroz, sem ser marxista nem membro do Partido Comunista, fazia o jogo dos marxistas e comunistas. Se alguém hoje ostenta tais bravatas com orgulho, eu as exibo com vergonha. Mas a vida é isso mesmo. Bom senso não é o quinhão dos jovens.

* 12/04/2004

segunda-feira, março 31, 2014
 
MEIN KAMPF E AQUELE
OUTRO LIVRO SUBLIME



Está provocando celeuma no Ocidente a notícia de que Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler, deve ser reeditada em uma versão comentada pelo Instituto de História Contemporânea de Munique. Há não poucos articulistas que defendem a iniciativa do instituto, em nome da liberdade de expressão e da necessidade de pesquisa por estudantes e historiadores. Outros vêm nesta reedição uma defesa do holocausto.

A discussão, para começar, é estéril, pois o livro pode ser baixado de vários sites da Internet. Tenho um exemplar em meu PC. Não consegui lê-lo. Chato e mal escrito. Para Maria Luiza Tucci Carneiro, historiadora da USP, em artigo no Estadão, intitulado “A reedição do ódio”,

cai por terra a justificativa do Instituto de História Contemporânea de Munique de que uma nova edição comentada, conforme propõe, "evitaria a publicação de outras edições financiadas pela extrema direita". Pura ingenuidade. Na minha opinião, obras como Mein Kampf e a obra apócrifa Os Protocolos dos Sábios de Sião continuam a incitar ao ódio aos judeus, além de pregar a intolerância sem limites. Sobrevivem de forma camuflada, servindo para alimentar mitos políticos, sendo inseridas na categoria "propaganda e psicologia política", conforme a Amazon.com, ou como obras de "ajuda mútua", vendidas em sebos e tendas de feiras de antiguidades e livros usados.

Argumentar que a proibição da reedição de Mein Kampf infringe os direitos de liberdade de expressão ou que atenta contra a liberdade científica não tem sustentação, pois antes de mais nada devemos nos prevenir contra a reedição do ódio e a incitação às práticas genocidas. Para esses casos, excepcionalmente, a palavra "liberdade" impõe limites, pois abre oportunidades para o renascimento da "besta nazista". Alguma razão maior deve existir para que a reprodução e venda de Mein Kampf estivessem proibidas na Alemanha, que ainda hoje tenta lidar com a própria história e o número de 6 milhões de judeus exterminados durante o Holocausto.


Em Mein Kampf, Hitler defende a extinção dos judeus. Anátema seja! Já a Torá, o livro sagrado dos judeus, defende a extinção de todo o ser que respire das tribos vizinhas à Israel. A Bíblia é o livro mais reeditado do mundo e em todas as traduções, sejam católicas, adventistas ou protestantes, lá está a Torá (Pentateuco, para os cristãos) e ninguém fala em reedição do ódio nem pede a interdição do livro. Pelo contrário, é obra das mais reputadas e se encontra em milhões de templos, lares e hotéis do Ocidente. Vamos a alguns momentos sublimes – que gosto de retomar – desde livro cheio de amor.

Êxodo 23:23 - Porque o meu anjo irá adiante de ti, e te introduzirá na terra dos amorreus, dos heteus, dos perizeus, dos cananeus, dos heveus e dos jebuseus; e eu os aniquilarei. (...) Enviarei o meu terror adiante de ti, pondo em confusão todo povo em cujas terras entrares, e farei que todos os teus inimigos te voltem as costas. Também enviarei na tua frente vespas, que expulsarão de diante de ti os heveus, os cananeus e os heteus.

Êxodo 34:12 - Guarda-te de fazeres pacto com os habitantes da terra em que hás de entrar, para que isso não seja por laço no meio de ti. Mas os seus altares derrubareis, e as suas colunas quebrareis, e os seus aserins cortareis (porque não adorarás a nenhum outro deus; pois o Senhor, cujo nome é Zeloso, é Deus zeloso).

Números 33:51 - Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: quando houverdes passado o Jordão para a terra de Canaã, lançareis fora todos os habitantes da terra de diante de vós, e destruíreis todas as suas pedras em que há figuras; também destruíreis todas as suas imagens de fundição, e desfareis todos os seus altos.

Levítico, 26:29 - E comereis a carne de vossos filhos e a carne de vossas filhas. Destruirei os vossos altos lugares, derrubarei as vossas imagens do sol, e lançarei os vossos cadáveres sobre os destroços dos vossos ídolos; e a minha alma vos abominará. Reduzirei as vossas cidades a deserto, e assolarei os vossos santuários, e não cheirarei o vosso cheiro suave. Assolarei a terra, e sobre ela pasmarão os vossos inimigos que nela habitam. Espalhar-vos-ei por entre as nações e, desembainhando a espada, vos perseguirei; a vossa terra será assolada, e as vossas cidades se tornarão em deserto.

Números 31:7 - E pelejaram contra Midiã, como o senhor ordenara a Moisés; e mataram a todos os homens. Com eles mataram também os reis de Midiã, a saber, Evi, Requem, Zur, Hur e Reba, cinco reis de Midiã; igualmente mataram à espada a Balaão, filho de Beor. Também os filhos de Israel levaram presas as mulheres dos midianitas e os seus pequeninos; e despojaram-nos de todo o seu gado, e de todos os seus rebanhos, enfim, de todos os seus bens; queimaram a fogo todas as cidades em que eles habitavam e todos os seus acampamentos; tomaram todo o despojo e toda a presa, tanto de homens como de animais; e trouxeram os cativos e a presa e o despojo a Moisés, a Eleazar, o sacerdote, e à congregação dos filhos de Israel, ao arraial, nas planícies de Moabe, que estão junto do Jordão, na altura de Jericó. Saíram, pois, Moisés e Eleazar, o sacerdote, e todos os príncipes da congregação, ao encontro deles fora do arraial. E indignou-se Moisés contra os oficiais do exército, chefes dos milhares e chefes das centenas, que vinham do serviço da guerra, e lhes disse: Deixastes viver todas as mulheres? Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, fizeram que os filhos de Israel pecassem contra o Senhor no caso de Peor, pelo que houve a praga entre a congregação do Senhor. Agora, pois, matai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele. Mas todas as meninas, que não conheceram homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós.

Números 31:25 - Disse mais o Senhor a Moisés: Faze a soma da presa que foi tomada, tanto de homens como de animais, tu e Eleazar, o sacerdote, e os cabeças das casas paternas da congregação; e divide-a em duas partes iguais, entre os que, hábeis na guerra, saíram à peleja, e toda a congregação. E tomarás para o Senhor um tributo dos homens de guerra, que saíram à peleja; um em quinhentos, assim dos homens, como dos bois, dos jumentos e dos rebanhos; da sua metade o tomareis, e o dareis a Eleazar, o sacerdote, para a oferta alçada do Senhor. Mas da metade que pertence aos filhos de Israel tomarás um de cada cinqüenta, tanto dos homens, como dos bois, dos jumentos, dos rebanhos, enfim, de todos os animais, e os darás aos levitas, que estão encarregados do serviço do tabernáculo do Senhor. Fizeram, pois, Moisés e Eleazar, o sacerdote, como o Senhor ordenara a Moisés. Ora, a presa, o restante do despojo que os homens de guerra tomaram, foi de seiscentas e setenta e cinco mil ovelhas, setenta e dois mil bois, e sessenta e um mil jumentos;e trinta e duas mil pessoas, ao todo, do sexo feminino, que ainda se conservavam virgens.

Deuteronômio 7:5 - Mas assim lhes fareis: Derrubareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, cortareis os seus aserins, e queimareis a fogo as suas imagens esculpidas. Porque tu és povo santo ao Senhor teu Deus; o Senhor teu Deus te escolheu, a fim de lhe seres o seu próprio povo, acima de todos os povos que há sobre a terra. Deuteronômio 12:1 - São estes os estatutos e os preceitos que tereis cuidado em observar na terra que o Senhor Deus de vossos pais vos deu para a possuirdes por todos os dias que viverdes sobre a terra. Certamente destruíreis todos os lugares em que as nações que haveis de subjugar serviram aos seus deuses, sobre as altas montanhas, sobre os outeiros, e debaixo de toda árvore frondosa; e derrubareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, queimareis a fogo os seus aserins, abatereis as imagens esculpidas dos seus deuses e apagareis o seu nome daquele lugar.

Deuteronômio 32:19 - Vendo isto, o Senhor os desprezou, por causa da provocação que lhe fizeram seus filhos e suas filhas;(...) Males amontoarei sobre eles, esgotarei contra eles as minhas setas. Consumidos serão de fome, devorados de raios e de amarga destruição; e contra eles enviarei dentes de feras, juntamente com o veneno dos que se arrastam no pó. Por fora devastará a espada, e por dentro o pavor, tanto ao mancebo como à virgem, assim à criança de peito como ao homem encanecido.

Josué 6:20 - Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas; ouvindo o povo o sonido da trombeta, deu um grande brado, e o muro caiu rente com o chão, e o povo subiu à cidade, cada qual para o lugar que lhe ficava defronte, e tomaram a cidade. E destruíram totalmente, ao fio da espada, tudo quanto havia na cidade, homem e mulher, menino e velho, bois, ovelhas e jumentos.

Juízes 21:10 - Pelo que a congregação enviou para lá doze mil homens dos mais valorosos e lhes ordenou, dizendo: Ide, e passai ao fio da espada os habitantes de Jabes-Gileade, juntamente com as mulheres e os pequeninos. Mas isto é o que haveis de fazer: A todo homem e a toda mulher que tiver conhecido homem, totalmente destruireis. E acharam entre os moradores de Jabes-Gileade quatrocentas moças virgens, que não tinham conhecido homem, e as trouxeram ao arraial em Siló, que está na terra de Canaã.

I Reis 18:22 - Então disse Elias ao povo: Só eu fiquei dos profetas do Senhor; mas os profetas de Baal são quatrocentos e cinqüenta homens. (...) Disse-lhes Elias: Agarrai os profetas de Baal! que nenhum deles escape: Agarraram-nos; e Elias os fez descer ao ribeiro de Quisom, onde os matou.

II Crônicas 14:12 - E o Senhor desbaratou os etíopes diante de Asa e diante de Judá; e os etíopes fugiram. Asa e o povo que estava com ele os perseguiram até Gerar; e caíram tantos dos etíopes que já não havia neles resistência alguma; porque foram quebrantados diante do Senhor, e diante do seu exército. Os homens de Judá levaram dali mui grande despojo. Feriram todas as cidades nos arredores de Gerar, porque veio sobre elas o terror da parte do Senhor; e saquearam todas as cidades, pois havia nelas muito despojo. Também feriram as malhadas do gado, e levaram ovelhas em abundância, e camelos, e voltaram para Jerusalém.

Esdras 9:1 - Ora, logo que essas coisas foram terminadas, vieram ter comigo os príncipes, dizendo: O povo de Israel, e os sacerdotes, e os levitas, não se têm separado dos povos destas terras, das abominações dos cananeus, dos heteus, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos epípcios e dos amorreus; pois tomaram das suas filhas para si e para seus filhos; de maneira que a raça santa se tem misturado com os povos de outras terras; e até os oficiais e magistrados foram os primeiros nesta transgressão.

Ezequiel 6:4 - E serão assolados os vossos altares, e quebrados os vossos altares de incenso; e arrojarei os vossos mortos diante dos vossos ídolos. E porei os cadáveres dos filhos de Israel diante dos seus ídolos, e espalharei os vossos ossos em redor dos vossos altares. (...) Em todos os vossos lugares habitáveis as cidades serão destruídas, e os altos assolados; para que os vossos altares sejam destruídos e assolados, e os vossos ídolos se quebrem e sejam destruídos, e os altares de incenso sejam cortados, e desfeitas as vossas obras.

Ezequiel 6:13 - Então sabereis que eu sou o Senhor, quando os seus mortos estiverem estendidos no meio dos seus ídolos, em redor dos seus altares, em todo outeiro alto, em todos os cumes dos montes, e debaixo de toda árvore verde, e debaixo de todo carvalho frondoso, lugares onde ofereciam suave cheiro a todos os seus ídolos. E estenderei a minha mão sobre eles, e farei a terra desolada e erma, em todas as suas habitações; desde o deserto até Dibla; e saberão que eu sou o Senhor.

Ezequiel 9:4 - E disse-lhe o Senhor: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela. E aos outros disse ele, ouvindo eu: Passai pela cidade após ele, e feri; não poupe o vosso olho, nem vos compadeçais. Matai velhos, mancebos e virgens, criancinhas e mulheres, até exterminá-los; mas não vos chegueis a qualquer sobre quem estiver o sinal; e começai pelo meu santuário. Então começaram pelos anciãos que estavam diante da casa. E disse-lhes: Profanai a casa, e enchei os átrios de mortos; saí. E saíram, e feriram na cidade.

Ezequiel, 30:13 - Também destruirei os ídolos, e farei cessar de Mênfis as imagens; e não mais haverá um príncipe na terra do Egito; e porei o temor na terra do Egito. E assolarei a Patros, e porei fogo a Zoã, e executarei juízos em Tebas; e derramarei o meu furor sobre Pelúsio, a fortaleza do Egito, e exterminarei a multidão de Tebas; também atearei um fogo no Egito; Pelúsio terá angústia, Tebas será destruída, e Mênfis terá adversários em pleno dia. Os mancebos de Om e Pi-Besete cairão à espada, e estas cidades irão ao cativeiro. E em Tapanes se escurecerá o dia, quando eu quebrar ali os jugos do Egito, e nela cessar a soberba do seu poder; quanto a ela, uma nuvem a cobrirá, e suas filhas irão ao cativeiro. Assim executarei juízos no Egito, e saberão que eu sou o Senhor.

Salmos, 137:8 - Ah! filha de Babilônia, devastadora; feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós; feliz aquele que pegar em teus pequeninos e der com eles nas pedras.