¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, setembro 05, 2014
 
A ARMADILHA DOS DOUTORADOS *


Em 2005, a Capes previa investir R$ 3,26 bilhões para aumentar o número de doutores por ano no Brasil. O Plano Nacional de Pós-Graduação apresentado ao então ministro da Educação, Tarso Genro, propunha a aplicação nos seis anos seguintes de R$ 1,66 bilhão a mais em bolsas e fomento de pós-graduação, o que permitiria passar dos 8.000 doutores titulados por ano para 16 mil em 2010. O plano “será acolhido integralmente", disse Genro na ocasião.

Se foi acolhido integralmente, não sei. Na época, falei da desmoralização do título de Doutor que, entre nós, se deve à universidade brasileira, ao distribuir doutorados a torto e a direito, como quem joga milho aos porcos. Não faltou quem protestasse. Que quem jogava milho aos porcos era a universidade francesa, com seus diversos doutorados, o Dr. Ingénieur, o Doctorat d’Université, o Doctorat de IIIe Cycle e o famigerado Doctorat d’État. Pode ser.

O missivista considerava que o único doutorado francês válido seria o Doctorat d’État. “Um doutorado na França é conhecido por doctorat d’Estat (sic!) e esse sim é equivalente o doutorado no Brasil. Lá existem vários tipos de doutorado, a maioria pode ser realizada em no máximo dois anos, à exceção do doctorat d’Estat (resic!), cuja duração é equivalente aos dos outros países – uns cinco anos. Quase todos os nossos intelectuais de esquerda fizeram um curso Troisiéme Cycle na França e se dizem doutores".

O ilustre especialista em doutorados – que escreveu sob pseudônimo – sequer sabia redigir corretamente a designação do título. Também ignorava que o Doctorat de IIIe Cycle se faz em quatro – eventualmente cinco – anos e que o famigerado doctorat d’Estat, como ele grafava , era feito em dez ou mais anos. O Doctorat de IIIe Cycle sempre foi reconhecido como doutorado em todos os países europeus. O d’État era tido como mais uma bizarrice dos galos.

Distorção da universidade francesa, servia como placebo ao desemprego, ao mesmo tempo que mantinha o doutorando afastado por uma boa década do mercado de trabalho. O candidato ao título desenvolvia teses monumentais, às vezes de quatro ou cinco volumes, que nem mesmo a banca julgadora lia na totalidade. Tais calhamaços ficavam entregues às traças e à poeira nas bibliotecas e a universidade francesa sequer percebia que delas poderia tirar algum lucro. Exportando para a Holanda, por exemplo, para fazer diques. O governo Mitterrand tomou consciência desta perversão acadêmica e a extinguiu. Agora existe apenas Doctorat, tout court.

Há horas venho afirmando que os doutorados são uma solene inutilidade. Ou melhor, uma armadilha acadêmica. Você faz um curso universitário e desemboca no desemprego. Para capear a adversidade, você se inscreve em mestrado. Mais quatro anos afastado do mercado de trabalho. Conclui o mestrado e de novo vê o breu pela frente. Seu professor, que precisa de doutorandos para cumprir sua carga horária enquanto folga em casa ou no Exterior, o convida para um doutorado. Você aceita, afinal está desempregado e a bolsa não é de se jogar fora. Mais quatro ou cinco anos fora do mercado.

Quando você vai ver, tem mais de trinta anos e nunca teve carteira de trabalho assinada. Em um país onde se tende a considerar que uma pessoa com 35 anos já é idosa, ou você tem pistolão na guilda e entra no magistério – para que a poleia sem fim dos doutorados continue rodando – ou vai talvez dirigir um táxi ou ser corretor de imóveis. Afinal, comer é preciso.

Isso sem falar no que chamei de mestrandos carecas. Entre as muitas anomalias da universidade brasileira estão os mestrandos quarentões. Aquela iniciação à pesquisa, pela qual o candidato deveria optar tão logo terminasse o curso superior, é adiada para uma idade em que do acadêmico já se espera obra consolidada. Pior mesmo, só os doutorados de terceira idade. Marmanjos de cinqüenta e mais anos, em idade de aposentar-se, postulando um título que só vai servir para pendurar junto com as chuteiras.

Mestrado não é para carecas. Já um doutorando, este deveria defender sua tese no máximo aos trinta e poucos, para que sua experiência em pesquisa possa ser útil ao ensino e à sociedade. Que mais não seja, é patético ver um homem já maduro humilhando-se, ao tentar iniciar-se em metodologias que devia desde jovem dominar. Isso sem falar em métodos que não passam de masturbação acadêmica, como ocorre na área das ditas Humanas. Na universidade brasileira, o doutorado nem sempre é visto como início de uma carreira, mas como louro a coroar a calva do acadêmico quando este está prestes a usar pijamas. Quem paga tais vaidades senis? Como sempre, o contribuinte.

Pelo jeito, os acadêmicos começam a se dar conta desta catástrofe. Acabo de receber artigo de Mark C. Taylor, presidente do departamento de religião da Universidade de Columbia em Nova York e autor de Crise no Campus: um plano arrojado para reforma das nossas Faculdades e Universidades (Knopf, 2010). Em seu ensaio, o professor considera que o sistema de doutorado nos Estados Unidos e em muitos outros países é insustentável e precisa de ser remodelado. Em muitos campos, ele cria apenas uma fantasia cruel de um futuro emprego, que promove o auto-interesse dos membros do corpo docente, em detrimento dos estudantes. A realidade é que existem poucos empregos para as pessoas que gastaram até doze anos em sua formação.

“A maioria dos programas de educação-doutoramento está em conformidade com um modelo definido nas universidades européias durante a Idade Média, em que a educação era um processo de clonagem, que treinava os estudantes para fazer o que os seus mentores faziam. Os clones já ultrapassam o número de seus mentores. O mercado de trabalho acadêmico entrou em colapso em 1970 e as universidades ainda não se ajustaram as suas políticas de admissão, porque precisam de estudantes de pós-graduação para trabalhar nos laboratórios e como assistentes de ensino. Mas uma vez que os alunos terminam o ensino, não existem trabalhos acadêmicos para eles.

Para o professor Taylor, só há duas saídas: reformar radicalmente os programas de doutoramento ou fechá-los. “A especialização levou a áreas de investigação tão estreitas que são de interesse apenas para outras pessoas que trabalham nos mesmos domínios, subcampos ou sub-subcampos. Muitos pesquisadores lutam para conversar com colegas do mesmo departamento, e comunicação entre departamentos e disciplinas podem ser impossíveis".

A bicicleta precisa continuar rodando. Milhões de teses no mundo todo, que já não cabem nas bibliotecas oficiais, precisam de anexos para serem guardadas. Guardadas para quê? Para juntar pó. Uma tese é algo que sai caro ao Estado. É preciso subsidiar os graduandos e os professores que os orientam. Deveria ter retorno aos contribuintes que, no fundo, são quem as financiam. Você já viu alguma tese publicada? Às vezes encontramos alguma, mas precisamos pagar por ela. O doutor recebe para redigi-la e depois cobra de novo para que seja lida.

Se o Brasil eliminasse hoje seus cursos de doutorado, não me parece que perderíamos grande coisa. (Vou mais longe: cursos de Letras, Filosofia ou Sociologia não fazem falta alguma). Os professores americanos parecem estar despertando para o problema. Como o Brasil adora importar modas ianques, seria salutar que esta postura chegasse até nós.

Mas não vai chegar. O Brasil prefere importar rock, blockbusters e outras mediocridades do Primeiro Mundo. Do melhor que acontece lá, Pindorama só quer distância.

PS – O artigo do professor Mark Taylor pode ser lido na íntegra em http://www.nature.com/news/2011/110420/full/472261a.html

* 11/05/2011

quarta-feira, setembro 03, 2014
 
NEGRO PODE,
BRANCO NÃO *



Há uns bons três anos, ao comentar o episódio de dois gêmeos idênticos que foram considerados como branco e negro pelo sistema de cotas, a revista Veja rendeu-se vilmente ao politicamente correto e titulou com gosto na capa:

É mais uma prova de que
RAÇA NÃO EXISTE


Veja sofismava. Se os responsáveis pelo sistema de cotas se enganaram, isto nada tem a ver com a existência ou não de raça. Se afirmo que preto é branco e branco é preto, isto nada tem a ver com a existência ou não do preto ou do branco. Se raça não existe – comentei na época - vamos então parar de falar em dálmatas, buldogs, bassets, beagles, dobermanns, filas, chihuahuas, chowchows, cockers, malteses, pequineses, pitbulls, poodles, yorkshires, São Bernardos, rottweilers. Nem nas mais de 400 raças caninas.

Tampouco se fale mais, quando se trata de cavalos, em raças árabe, crioula, Holsteiner, manga larga, puros sangues ingleses, espanhóis e lusitanos, lipizzaners, appaloosa e quartos de milha, percherons, paint horses, campolinas, favacho, JB, Bela Cruz. Nem nas mais de 100 outras raças conhecidas.

Abominável racismo falar em bois zebu, Aberdeen-Angus, Nelore, Hereford, Limousine, Brahman, Gir, Guzerá, holandês, charolês. Ou em ovinos merino, Texel, Île-de-France, Suffolk, Hampshire Down, Poli Dorset, Corriedale, Ideal, Laucane, Bordaleira. Tenha também respeito pelos galináceos. Elimine de seu vocabulário palavras como Legorne, D’Angola, Cochinchina, Hamburguesa, Brahma e Plymouth.

Ou alguém pretende que raça só exista no reino animal? Quando surge o Homo sapiens, este ser excelso, tocado pela graça divina, raça deixa de existir?

Um ano depois, o politicamente correto voltou a atacar. Desta vez, através do livro Humanidade sem Raças, do doutor em genética humana Sérgio Pena, editado pela Publifolha. O autor defende a tese de que as raças e o racismo são uma invenção recente na história da humanidade. E o conceito de "raças humanas" surgiu e ganhou força com base em interesses de determinados grupos humanos, que necessitavam de justificativas para a dominação sobre outros grupos.

Houve muito negro que não gostou. O livro chegou em momento inoportuno. Em décadas passadas, os movimentos negros haviam concluído que raça não existia. Depois do estabelecimento de cotas para universidades, voltou a existir. Segundo um projeto do senador Paulo Paim, a condição de negro deve inclusive constar em documento. Quando se trata de ganhar no tapetão, o conceito de raça é muito conveniente. Dr. Pena, na introdução de seu livro, dizia:

“Parece existir uma noção generalizada de que o conceito de raças humanas e sua indesejável conseqüência, o racismo, são tão velhos como a humanidade. Há mesmo quem pense neles como parte essencial da "natureza humana". Isso não é verdade. Pelo contrário, as raças e o racismo são uma invenção recente na história da humanidade”.

Por defender a existência óbvia de raças, tenho sido condenado como racista. Tanto por negros como por judeus. Já fui inclusive processado por sete entidades indígenas por crime de racismo. Por ter afirmado que os índios não conseguiram escapar de uma cultura ágrafa e que os antropólogos queriam conservá-los como animais em museus intemporais para contemplação dos homens do futuro. Bem entendido, os indigenistas não levaram nada e tiveram de retirar seu cavalinho da chuva. Mas, em suma, hoje passou a ser apodada como racista toda pessoa que acredita na existência de raças.

Neste sentido, até a Bíblia é racista, pois fala continuamente em raças. O que nega cabalmente a convicção do Dr. Pena, de que raças e racismo sejam uma invenção recente na história da humanidade”.

Na Folha de São Paulo, leio curiosa entrevista com o militante do movimento negro Abdias do Nascimento, cujo nome está sendo lançado para prêmio Nobel da Paz. Que emplaque não me espantaria. O Nobel da Paz é a última esperança de posteridade dos vigaristas. Os ingênuos noruegueses já concederam o galardão a terroristas e escroques, desde Yasser Arafat, Rigoberta Menchu, madre Teresa de Calcutá e Tenzin Gyatso, humildemente conhecido como Oceano de Sabedoria.

Não, um Nobel para o líder negro racista não me surpreenderia. O que me surpreende é vê-lo negar o óbvio, sem que o entrevistador nada objete. Diz o repórter:

- Há quem diga que o Brasil é miscigenado, e por isso não faria sentido enxergar divisão racial aqui.

Responde o líder negro:

- Isto é a cretinice brasileira, a falta de caráter, a sem-vergonhice brasileira. Isso vem de longe. Este discurso é para ajudar o Brasil a continuar racista. A continuar a ter a cobertura moral para o racismo. Eles querem até isto.

Refugiando-se no insulto, sem apresentar argumento algum, Nascimento nega cabalmente a existência do mulato. Ora, segundo o IBGE, a população negra do Brasil, em 99, era de apenas 5,4%. Se forem acrescidos os 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus. Nascimento está sendo cúmplice da classificação ianque, que só consegue ver pretos e brancos em sua sociedade e nega a miscigenização.

Esta é mesma filosofia do Supremo Apedeuta que, mal foi eleito, saiu arrotando urbi et orbi que o Brasil era a segunda nação negra do mundo, depois da Nigéria. Até mesmo uma pessoa aparentemente culta, como Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, prestou-se a corroborar o sofisma safado: "como declarou o presidente Lula, o estreitamento das relações com a África constitui para o Brasil uma obrigação política, moral e histórica. Com 76 milhões de afrodescendentes, somos a segunda maior nação negra do mundo, atrás da Nigéria, e o governo está empenhado em refletir essa circunstância". Ao colocar todos afrodescendentes no mesmo saco dos negros, o ministro demonstra que, nos círculos do poder, mesmo homens cultos se dobram à bajulação. Abdias do Nascimento não ficaria atrás de tais sumidades.

Mas o mais surpreendente vem adiante, quando o macróbio ativista afirma, na mesma Folha de São Paulo que publicou o livro do Dr. Sérgio Pena, que negava peremptoriamente a existência de raça. O repórter pergunta se Marina Silva seria a melhor candidata.

- Sem dúvida nenhuma. Tem qualidades e preparo. É de classe humilde, apesar de ter aprendido a ler muito depois de adulta, tem qualidade. Uma das primeiras solidariedades que tive no Senado foi a dela. Todo mundo sabe das minhas posições em defesa da minha raça. E ela não teve medo em vir me abraçar e se colocar à disposição para a ajuda que ela pudesse dar. Não recebi dos outros nenhum apoio.

Em defesa de minha raça? Quer dizer então que raça existe? Onde estão os ativistas negros que consideram racista quem acredita em raça? Se morena Marina apoiou Abdias, ao que tudo indica participa de sua Weltanschauung.

Será morena Marina - a candidata negra, como se apresenta - racista? Ou será que líder negro pode falar de raça sem ser pichado como racista? Estará proibido apenas aos brancos falar de raças?

* 16/06/2010

domingo, agosto 31, 2014
 
NO REINO UNIDO,
“JOVENS” VIRAM
"ASIÁTICOS”



Há mais de década tenho comentado que a imprensa européia, quando se trata de noticiar crimes ou vandalismo, em nome do politicamente correto evita chamar africanos de africanos, árabes de árabes ou muçulmanos de muçulmanos.

Paris, desde 2005, tem encontro marcado com o vandalismo a cada réveillon. São centenas de carros queimados, sob o olhar impotente da polícia. Em 2011, o alvo dos vândalos foi Londres. Ano passado, foi a hora e vez de Estocolmo. Por uma semana, bairros periféricos da cidade arderam em chamas, quando grupos de “jovens”, como dizem os jornais, saíram às ruas para botar fogo em containers, carros, quebrar vitrines e enfrentar a polícia a pedradas. A Europa não é mais o que foi. Em breve será a vez de Viena, Madri, Roma, Bruxelas. Nos próximos anos, a epidemia fará parte da normalidade do continente. Quem viver, verá.

O que espanta em tudo isso é que a imprensa evita nominar os “jovens”. Os responsáveis pela violência são invariavelmente árabes e africanos de segunda, terceira e quarta gerações e, o que é mais significativo, árabes e africanos muçulmanos. Em nome do politicamente correto e do multiculturalismo, os jornais se proíbem de dar nome aos bois.

Na ocasião dos distúrbios em Estocolmo, comentei a contenção dos jornais e das autoridades suecas, que só falavam em “jovens da periferia”. No mesmo ano, a Espanha também rendeu-se. Se os espanhóis, há cinco séculos, não hesitaram um segundo em expulsar “los moros” da península, hoje autoridades e jornalistas não ousam sequer nominá-los. Comentando os episódios de Estocolmo, El País escrevia:

Husby, donde empezó todo, es una zona de unos 12.000 habitantes en la que el 85% es inmigrante de primera o segunda generación. La chispa que encendió el fuego saltó allí, a 17 kilómetros al noroeste de Estocolmo, el pasado lunes 14. Un vecino de 69 años murió en su apartamento, abatido a tiros por la policía después de haber amenazado a los agentes con un machete. La tensión fue subiendo a lo largo de la semana hasta que el domingo pasado, entre 50 y 60 jóvenes comenzaron a quemar coches y cuando llegó la policía, se enfrentaron con los agentes lanzándoles piedras.

Imigrantes de primeira e segunda gerações. 50 ou 60 jovens. Que imigrantes? Que jovens? A Suécia, desde os anos 60, foi invadida por imigrantes de todos azimutes. Latinos, eslavos, chineses, hindus e, mais tarde, árabes e africanos. Alguém imagina um brasileiro, chileno, chinês ou indiano incendiando carros em Estocolmo? Não dá para imaginar. A violência é obra de negros e árabes muçulmanos. Desarraigados de sua cultura e sem conseguir integrar-se na cultura que os recebe, reagem com a única linguagem que dominam, a da violência.

Até não muito tempo, a Espanha era um baluarte contra o politicamente correto. Árabes sequer eram chamados de árabes, mas de moros. De repente, não mais que de repente, viraram “jovenes”. A Espanha, acompanhando os demais países europeus, acabou por render-se à invasão dos bárbaros.

Até mesmo nossa imprensa, distante de tais conflitos, entregou os pontos. Sobre o assunto, mancheteou a Folha de São Paulo: Jovens da periferia queimam carros na capital da Suécia Centenas de jovens da periferia de Estocolmo, capital da Suécia, incendiaram carros, destruíram vitrines de lojas e incendiaram uma escola, uma enfermaria e um centro cultural no quarto e mais violento dia de protestos contra a ação da polícia.

Desde há muito venho denunciando – e suspeito que sou o único a denunciar – a mania politicamente correta de boa parte da imprensa européia de omitir nome, origem e etnia de criminosos quando estes são árabes ou negros. Na França, por exemplo, para identificar os árabes e negros que queimam milhares de carros nos réveillons, os jornais usam um eufemismo divino, les jeunes. Os jovens. Se for cidadão nacional, de longa estirpe e boa cepa, o nome vai para a primeira página dos jornais. Imigrante, jamais. Leio usualmente jornais da Suécia, França, Espanha e Itália. Nunca li alguma determinação escrita sobre este silêncio. A censura é tácita, sem diploma legal algum que a determine. Está no bestunto dos jornalistas.

Na Suécia, a imprensa está proibida de noticiar a cor da pele ou etnia dos agressores. Em 2010, uma sueca de dezoito anos foi violada e torturada por quatro negros muçulmanos, que foram identificados como “dois suecos, um finlandês e um somali”. Ora, eram todos imigrantes originários da Somália.

Alguém ainda lembra dos distúrbios de 2011 no Reino Unido? Certamente não. A memória das gentes já não mais alcança nem sequer um ano. Pois em agosto de 2011, o Time Magazine dizia que nunca tantos incêndios haviam devastado Londres tão intensamente ao mesmo tempo desde a Segunda Guerra Mundial.

Na ocasião, li vários jornais da imprensa nossa e internacional, tentando informar-me sobre a bagunça. Em todos, a única informação que encontrei sobre os responsáveis é que eram jovens. Ora, isto é muito vago. Que tipo de jovens? A que países ou etnias pertencem? Não acredito que britânicos de souche saiam a incendiar suas cidades.

Semana passada, comentei a hipocrisia de chamar de europeus os milhares de terroristas, em geral filhos ou netos de árabes com passaporte europeu, que estão lutando no sedizente Estado Islâmico ou em outros conflitos árabes. A imprensa, que pretende buscar a verdade, não toma vergonha.

Ironicamente, foi no Reino Unido, o território da Europa mais conivente com o Islã, onde a violência tomou tais proporções, que já não há lugar para eufemismos. Leio nos jornais que cerca de 1400 crianças foram exploradas sexualmente durante 16 anos em Rotherham, em South Yorkshire, entre 1997 e 2013. Segundo um relatório divulgado terça-feira passada na mídia local, mais de um terço das crianças deveriam estar sendo vigiadas pelas agências de proteção de menores, mas as autoridades - políticas, civis e policiais - não agiram para protegê-las.

O relatório revela que antes deste estudo foram feitos outros três, que não foram divulgados. Os relatórios anteriores, do conhecimento da sautoridades políticas e policiais, foram redigidos entre 2002 e 2006. Um foi arquivado porque os mais altos responsáveis da cidade não acreditaram nas informações ou por as considerarem exageradas. Os outros foram simplesmente ignorados.

O documento cita funcionários de Rotherham afirmando que recearam falar no assunto por medo de serem acusados de racismo, uma vez que a maior parte dos abusadores eram homens asiáticos. "Vários funcionários descreveram ter ficado nervosos quanto à identificação dos abusadores por receio de serem considerados racistas, outros relataram ter recebido ordens diretas dos seus superiores para não o fazerem", diz o documento.

Homens asiáticos? Em verdade, a polícia evitou investigar os suspeitos, a maioria paquistaneses muçulmanos, para não ser acusada de racista e preconceituosa. Segundo Alexis Jay, que redigiu o documento, a polícia "olhava com desprezo para as crianças vítimas de abusos".

Alexis Jay disse ter encontrado exemplos de "crianças que tinham sido mergulhadas em gasolina e ameaçadas de serem incendiadas, ameaçadas com armas, obrigadas a assistir a violações brutais e ameaçadas de serem as próximas caso contassem a alguém". Jay diz que os menores foram violados por várias pessoas, traficados para outras cidades no Norte da Inglaterra, sequestrados, espancados e intimidados. "Uma menina de 11 anos foi violada por vários homens".

O Reino Unido, que nunca foi reticente em relação às denúncias de pedofilia praticada pelo alto clero católico, mantém um silêncio obsequioso quando se trata de muçulmanos. Os “jovens” são agora os “asiáticos”.

O Islã avança impunemente. Os europeus tapam o sol com uma peneira.

sábado, agosto 30, 2014
 
SENHOR DEUS DOS DESGRAÇADOS!


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se é loucura... se é verdade,
Tanto horror perante os céus!?


Estadão - A candidata à Presidência do PSB, Marina Silva, abriu 10 pontos porcentuais de vantagem em relação à presidente Dilma Rousseff (PT) no segundo turno, mostra pesquisa Datafolha divulgada na noite desta sexta-feira, 29. No último levantamento, feito há 11 dias, Marina aparecia com 47% e agora tem 50%. Dilma tinha 43% e agora tem 40%. O total de brancos e nulos oscilou de 6% para 7%. E não souberam ou não opinaram, oscilou de 4% para 3%.

No segundo cenário avaliado pela pesquisa, Dilma venceria o candidato do PSDB, Aécio Neves. Nessa simulação, a presidente tinha 47% e agora registrou 48%. Já o tucano tinha 39% e oscilou para 40%. Brancos e nulos se mantiveram em 9% e não souberam ou não opinaram oscilou de 5% para 4%.

No primeiro turno, Marina ganhou 13 pontos porcentuais na intenção de voto em relação à última pesquisa Datafolha. A candidata do PSB tinha 21% das intenções no dia 18 de agosto e agora tem 34%. Dilma oscilou de 36% para 34%. Com esse resultado, Marina e Dilma estão empatadas no primeiro turno.

O candidato do PSDB teve uma queda de 5 pontos porcentuais e agora tem 15% das intenções, ante 20% do levantamento anterior.

sexta-feira, agosto 29, 2014
 
BRASIL NÃO MERECE
SEQUER UMA LÁGRIMA *



Domingo que vem é meu dia de protesto cívico. Como faço há já vinte anos, não vou votar. Há quem defenda a idéia de votar no candidato menos pior. Discordo. Menos pior também é pior. Sem falar que me parece absurdo, em regime democrático, ser obrigado a votar. Em todo o Primeiro Mundo, o voto é facultativo. Só nesta América Latina, que vai a reboque da História, é obrigatório.

Obrigatório em termos. Você sempre pode anular seu voto. Mas tem de comparecer às urnas. É o que tenho feito de 1990 para cá. Meu título continua em Florianópolis. No domingo, perto de meio-dia, vou justificar a ausência de meu domicílio eleitoral. E depois vou para meu boteco, aperitivar. Hoje, em São Paulo, pode-se beber em dia de eleições. Quando não se podia, meu garçom me servia um uísque e punha ao lado do copo uma garrafa de guaraná.

Não quero ser radical. Mas diria que qualquer pessoa de bom senso não pode votar nestas eleições. De um lado, a candidata preferencial é uma ex-guerrilheira que participou de um grupo terrorista e até hoje se orgulha disto. O segundo colocado não pode sequer acusá-la de terrorista, pois militou em outro grupo terrorista. Os três candidatos mais cotados são todos de extração marxista. Vinte anos após a queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da União Soviética, no Brasil o fundo do ar ainda é vermelho.

O mais patético – para não dizer pateta – dos candidatos é sem dúvida José Serra. Não ousa dizer uma palavrinha contra seu adversário, o patrocinador de Dilma Rousseff. Pelo contrário, o colocou em sua campanha eleitoral. Ao dar-se conta que isto era um tiro no pé, retirou-o de sua publicidade. Mas acabou fazendo pior. Mais adiante, alertou o eleitorado: se vocês querem Lula em 2014, têm de eleger-me agora. Se Dilma vencer, Lula não emplaca. Traduzindo em bom português, o que disse Serra? Disse que sem ele seu adversário não será eleito. Com oposição assim, o PT não precisa de base aliada.

Os políticos viraram bonecos de ventríloquo. Quem fala é o marqueteiro. O candidato repete. Mais ainda: para cúmulo do ridículo, o PSDB contratou para fazer sua campanha um guru indiano sediado nos Estados Unidos. A dez mil dólares por dia. Pode? Recorrer aos serviços de um vigarista estrangeiro para conduzir uma campanha eleitoral? Edir Macedo faria melhor. Ao constatar a mancada, os tucanos mandaram o guru de volta aos States. Teria sido mais barato enviar o Serra para fazer meditação transcendental em um ashram em Poona.

Os tucanos têm em mãos farto material para desmoralizar o PT. Desde o mensalão, dólares na cueca, o assassinato de Celso Daniel, os escândalos da Casa Civil, desde Zé Dirceu a Erenice, os cinco milhões de reais dados de mão beijada a Lulinha, e por aí vai. Não usaram esta munição. Serra, já que vai perder, podia ao menos perder com dignidade. Vai morrer humilhado.

Marina da Silva, sem comentários. Lanterninha, insiste no discurso surrado de meio-ambiente, cultua também Lula e põe-se em cima do muro ante qualquer questão polêmica. É boa alternativa para os petistas que admitem existir corrupção no governo do PT. Votam na morena Marina no primeiro turno e no segundo voltam ao redil.

Almas ingênuas ainda acreditam numa virada. Recebo não poucos e-mails de coronéis de pijama que ainda acreditam em milagre. Coronel, quando veste pijama, vira valente. Quando na ativa, é cachorro que enfia o rabo entre as pernas com medo da voz do dono. Outro que alimenta esperanças é o recórter chapa-branca tucanopapista hidrófobo da Veja. Que tenha suas preferências políticas, vá lá. Que acredite que o PSDB possa levar é ingenuidade atroz. Ou subserviência de jornalista vil. A última chance de Serra seria uma recidiva de linfoma. Mas estamos a uma semana das eleições e a recidiva não ocorreu. Se ocorrer mais tarde, será tarde demais.

Dona Dilma está com todas as chances de ganhar no primeiro turno. Serra que se dê por feliz se não levar capote. Quando um candidato deposita suas esperanças em chegar ao segundo turno, como faz o tucano, é porque já deu as eleições por perdidas. Pior ainda: antes mesmo do primeiro turno, Serra está lançando sua candidatura à Prefeitura de São Paulo. Como pode um eleitor votar em um candidato que já pensa em receber um docinho pela derrota? Pelo jeito, Serra ainda não percebeu que estas eleições significam seu enterro político.

Dias piores esperam o Brasil. Nada de melhor se pode esperar de uma terrorista – que eu saiba, a candidata ainda não se penitenciou de seu passado – dominada pela atrabilis e mandonismo. E que consegue falar um pior português que o Supremo Apedeuta. País inacreditável, este nosso: pelo jeito ainda sentiremos saudades de Lula.

De minha parte, tanto faz como tanto fez. Desde há muito não deposito esperança nenhuma neste Brasil. Quando um presidente que acoberta crimes durante dois mandatos tem ainda 80% de aprovação do eleitorado, nada mais se pode fazer. Lasciate ogni speranza voi che entrate!

Vou cuidar de meu jardim. Tratar de bem viver os dias que me restam. O Brasil que se lixe. Povinho que elege Lula ou Dilma não merece sequer uma lágrima.

* 27/09/2010

quarta-feira, agosto 27, 2014
 
STJ VERSUS STF


Leitor me envia artigo do site Consultor Jurídico, edição de ontem, relatando mais uma reviravolta na questão de sexo com adolescentes. Há uns dois meses, eu comentava decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo que inocentava um homem acusado de estupro de uma menina de 13 anos. Ele havia sido preso em flagrante enquanto praticava o ato com a adolescente, mas os desembargadores o inocentaram por considerar que a menina era prostituta e aparentava ser mais velha.

Nos anos 90, decisão semelhante foi tomada no caso de um encanador de Minas Gerais, acusado pelo estupro de uma menina de doze anos. Segundo a legislação vigente, relações com menores de quatorze anos, mesmo consensuais, são consideradas estupros. A menina afirmou em depoimento ter consentido com a relação sexual. “Pintou vontade” — disse. Uma legislação vetusta, que considera estupro toda relação — consentida ou não — com menores de quatorze anos, havia encerrado no cárcere o infeliz que aceitou a oferta.

Coube ao ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), absolver, em 96, o encanador. Na ocasião, o ministro foi visto como um inimigo da família e da moralidade pátria. Nosso Código Penal é defasado — disse o ministro — e os adolescentes de hoje são diferentes. Sugeriu um limite de doze anos para a aplicação da sentença de violência presumida. “Quando esse limite caiu de dezesseis para quatorze, na década de 40, a sociedade também escandalizou-se”, afirmou. O direito é o cadinho histórico dos costumes, aprendi em minhas universidades. A fundição é lenta. Enquanto o legislador dormia, os tempos mudaram.

O imbróglio volta agora à tona com o caso citado pelo Consultor Jurídico. Um padrasto que manteve relações sexuais com sua enteada de 13 anos, absolvido em 1ª e 2ª instâncias, foi agora foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Fazer sexo com pessoa com menos de 14 anos é crime, mesmo que haja consentimento, decidiram os juízes.

A decisão é um precedente de peso para a jurisprudência sobre o assunto – afirma o Consultor. Ora, precedente foi a decisão ministro Marco Aurélio de Mello, do STF. Vamos ao caso:

Denunciado por sua companheira, o réu foi absolvido em 2009 pelo juízo de primeiro grau do Tribunal de Justiça de São Paulo. Para a magistrada, a menor não foi vítima de violência presumida, pois “se mostrou determinada para consumar o coito anal com o padrasto. O que fez foi de livre e espontânea vontade, sem coação, ameaça, violência ou temor. Mais: a moça quis repetir e assim o fez”.

O TJ-SP manteve a absolvição pelos mesmos fundamentos alegados pelo ministro Marco Aurélio. Conforme o acórdão, a vítima narrou que manteve relacionamento íntimo com o padrasto por diversas vezes, sempre de forma consentida, pois gostava dele. A maioria dos desembargadores considerou que o consentimento da menor, ainda que influenciado pelo desenvolvimento da sociedade e dos costumes, justificava a manutenção da absolvição.

O mesmo não pensou, desta vez, o STJ. Ao condenar o réu, a 6ª Turma do STJ entendeu que a presunção de violência nos crimes de estupro e atentado violento ao pudor contra menores de 14 anos tem caráter absoluto, de acordo com a redação do Código Penal vigente até 2009. De acordo com esse entendimento, o limite de idade é um critério objetivo "para se verificar a ausência de condições de anuir com o ato sexual".

Como fica então a decisão da corte que absolveu em última instância o encanador mineiro? Terá sido revogada? O caso terá novo julgamento? Pode um tribunal de Justiça emitir decisão que contraria decisão do STF? Ora, se a decisão do TJ de São Paulo, no caso do padastro, foi embasada na decisão do STF no caso do encanador, deduz-se que o recente julgamento do STJ revoga o anterior, patrocinado pelo ministro Marco Aurélio. Como ficamos então? Em novos casos, em qual das duas decisões poderão fundamentar-se os julgadores?

Diz o Consultor:

"A jurisprudência sobre a questão, no entanto, varia. O próprio STJ declarou que a presunção de violência no crime de estupro tem caráter relativo, ao inocentar homem processado por fazer sexo com meninas com menos de 12 anos. No Habeas Corpus 73.662/1996, o ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio relativizou a presunção de violência após ficar comprovado no processo o consentimento da mulher e que sua aparência física e mental era de pessoa com mais de 14 anos".

Pergunta que se impõe: pode a jurisprudência variar sobre um mesmo caso? Estamos entrando no campo da insegurança jurídica, onde o cidadão já não sabe se seus atos serão ou não considerados crime.

Para o ministro do STJ, Rogério Schietti, é frágil a alusão ao “desenvolvimento da sociedade e dos costumes” como razão para relativizar a presunção legal de violência prevista na antiga redação do Código Penal. O “caminho da modernidade”, disse Schietti, é o oposto do que foi decidido pela Justiça paulista.

Ele também considerou “anacrônico” o discurso que tenta contrapor a evolução dos costumes e a disseminação mais fácil de informações à “natural tendência civilizatória” de proteger crianças e adolescentes, e que acaba por “expor pessoas ainda imaturas, em menor ou maior grau, a todo e qualquer tipo de iniciação sexual precoce”.

Indiferente ao desejo expresso pela adolescente ao pedir bis, o ministro no fundo está afirmando que a menina disse: “me estupra de novo”.

Aos 26 de abril de 2012, a suprema corte judiciária do país rasgou a Constituição com gosto, instituindo de inhapa e por unanimidade o racismo no país. Naquela data, o STF revogou, com a tranqüilidade dos justos, o art 5º da Constituição Federal, segundo o qual todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza. A partir de então, oficializou-se a prática perversa instituída por várias universidades, de considerar que negros valem mais do que um branco na hora do vestibular. A prática nefanda já está sendo transferida para o mercado de trabalho.

Em maio do mesmo ano, o STF reincidiu: revogou de uma penada o § 3º do art. 226 da Carta Magna: “Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento”. Ao reconhecer a união estável para casais do mesmo sexo, o excelso pretório jogou no lixo a carta aprovada por uma Constituinte.

Onde se lia homem e mulher, leia-se homem e homem, ou mulher e mulher e estamos conversados. A partir de hoje, onde se lia “todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza”, leia-se: todos são iguais perante a lei, exceto os negros, que valem mais. Simples assim.

Ano passado, o ministro Marco Aurélio Mello afirmava: “No nosso sistema, o Supremo tem a última palavra. A Constituição é o que o Supremo diz que é”. Agora, o que o STF diz que é o STJ diz que não é. De quem é, afinal, a última palavra? Terá o gato de Schrödinger se instalado em nossas cortes? Chegamos ao crime que é crime e não é crime ao mesmo tempo, conforme os ministros que o julgam?

Alvíssaras! O Brasil inova. Já chegamos ao Direito Quântico.

terça-feira, agosto 26, 2014
 
Recordar é viver:
DEU A LOUCA NA VEJA *


Deus morto, escreve Albert Camus, é preciso transformar e organizar o mundo com as forças do homem. A partir deste dado, começa suas reflexões sobre a revolta histórica. Urge fazer uma distinção entre a revolução e o movimento de revolta. Spartacus não é um revolucionário, ele não quer mudar os princípios da sociedade romana. Ele se bate para que o escravo tenha direitos iguais aos do senhor, recusa a servidão e quer a igualdade com seu amo. Esta vontade de igualdade o conduzirá ao desejo de tomar o lugar do amo.

A revolução, por sua vez, é a mudança total. A partir da concepção astronômica de revolução – movimento que fecha um ciclo, que passa de um regime a outro após uma translação completa – Camus precisa sua definição. A revolução implica uma mudança do regime de governo. Para que uma mudança econômica seja uma revolução econômica é preciso que ela seja ao mesmo tempo política. Sejam seus meios sangrentos ou pacíficos, é a mudança política, a mudança de governo, que distinguirá a revolução da revolta. Esta dicotomia fundamental é posta em relevo pela frase célebre, citada por Camus: "Não, Sir, não se trata de uma revolta, mas de uma revolução".

Comentei esta distinção feita por Camus há dois anos, quando Tunísia e Egito derrubaram suas ditaduras e o movimento tendia a espalhar-se por outros países árabes e africanos. As manchetes todas falavam em revoluções democráticas. Quem hoje ousa falar em revoluções democráticas no mundo árabe?

Pelo jeito, deu a louca na Veja. Em edição que intitula como histórica, tem como chamada de capa:

OS SETE DIAS QUE MUDARAM O BRASIL

Salvo engano, Brasil é este país em que vivo e no qual agora escrevo. Para qualquer lado que olhe, não vejo mudança alguma. Salvo alguns prédios e carros depredados, mas isso nada tem de novo no país. Verdade que uma dúzia de cidades andaram baixando em alguns centavos a tarifa do transporte coletivo. Mas isto está longe de mudar qualquer país. Procuro a reportagem para ver o que mudou. Vamos lá:

“O PT acreditava que a paixão dos brasileiros pelo futebol seria exacerbada pelas Copas, de tal forma que ninguém mais notaria a corrupção e a ineficiência do governo. Errou feio. Os cartazes das ruas fizeram das Copas símbolos odiados do gasto público de péssima qualidade, do desvio de dinheiro e do abuso de poder”.

Símbolos odiados? Odiados por alguns gatos pingados. Os estádios estiveram lotados nesta Copa e isso que nem é a Copa do mundo, a que de fato inflama paixões. Veja superestima a multidão das ruas. Consta que foram um milhão na quinta-feira passada.

A situação não é tão grave como parece ser – comentei ontem -. Um milhão de pessoas nas ruas é 0,5 da população. A transmissão contínua das televisões dá a idéia de um país em chamas. Ora, longe disso. Meu bairro continua em seu mesmo ritmo. Todo mundo comprando, trabalhando, comendo, bebendo. O mesmo ocorrerá em dezenas, centenas de outros bairros, em São Paulo e no país todo. Vistas pela televisão, as cidades parecem ser puro caos. Não são. Caos só em dois ou três pontos do centro e nas avenidas onde os “jovens” se concentram.

Se o país mudou, não fui avisado. A revista continua insistindo em sua tese:

“Em 1992, em gesto de desespero, o então presidente Fernando Collor convocou os brasileiros a sair às ruas de verde e amarelo. O povo saiu de preto e ele saiu do palácio do Planalto. (...) Lula mandou os sindicalistas se fingirem de povo e o resultado foi o mesmo. Cascudos nos intrusos e bandeiras queimadas e rasgadas. Os esquerdistas tiveram de ouvir um dos mais elegantes xingamentos da história mundial das manifestações: “Oportunistas, oportunistas”.

Veja endossa a tese de que foram os cara-pintadas que derrubaram Collor. Ora, quem derrubou Collor foi o Congresso. Foram os deputados que Collor, jovem e arrogante, se recusou a comprar. Lula foi mais hábil. Esteve perto de um impeachment, mas o Congresso já estava regiamente pago. Os mensaleiros que o digam. A revista também acha que alguns cascudos e algumas bandeiras queimadas em meio a uma confusão significam uma mudança no país.

No texto seguinte, Veja compara a baderna generalizada chez nous com a queda do muro de Berlim e a invasão da Áustria pelos húngaros em 89. Compara a rebelião de nações escravizadas por meio século pela União Soviética com o levante de uma meninada que até agora não soube dizer a que vem. “O comunismo acabou e a Alemanha se reunificou”, salienta a revista, para confirmar sua tese de que o petismo acabou. Ora, o petismo pode estar surpreso com o episódio, mas continua vivo e pujante enquanto houver uma nação a saquear. A União Soviética morreu de vez, dois anos depois da queda do Muro. Dona Dilma lidera as preferências dos eleitores para o próximo pleito.

A revista lembra que a frase que intitula a reportagem é de Lênin. “Até ele ficaria sem palpite se tivesse presenciado as mudanças as mudanças dos últimos dias no Brasil”. Sim, Lênin, que fuzilou o czar e sua família, que exterminou kulaks e criou gulags, certamente ficaria perplexo ao ver jornalistas chamando de revolução uns cascudos distribuídos em militantes de um partido corrupto.

“Esqueçamos os vândalos e os anarquistas, gente que não estava lutando por um governo melhor, mas por governo nenhum. A revolução verdadeira foi a que começou a ser feita pelos brasileiros que foram às ruas protestar por estar sendo mal governados” – escreve a revista, para bem salientar que de revolução se trata. Mais ainda, não é apenas revolução. É revolução verdadeira. Até dona Dilma deve estar rindo dos “revolucionários”. Quando pensava em revolução, em vez de ir para a rua portando cartazes, pegou em armas.

Que mudança de governo, que mudanças políticas, provocaram as multidões nas ruas? Nenhuma. O PT continua no poder, o PMDB também, o PSDB finge ser oposição, corruptos impunes e notórios continuam ocupando cargos no Congresso, corruptos notórios – e condenados – continuam exercendo a deputação.

De meu conhecimento, nunca a palavrinha foi tão desmoralizada. As revoluções começam com maiúsculas, continuam com minúsculas e acabam entre aspas, escreveu Ernesto Sábato. A revolução decretada por Veja começa pelo fim do caminho, entre aspas.

* 22/06/2013

domingo, agosto 24, 2014
 
OS NOVOS EUROPEUS


Já faz mais de duas décadas. Eu trabalhava na Folha de São Paulo quando me caiu nas mãos uma notícia: o cantor sueco Fulano de Tal... Junto, vinha a foto de um negro. Sueco negro? Jamais havia visto. Em verdade, era sueco. Isto é, era de origem jamaicana, mas tinha passaporte sueco. A notícia não precisava este detalhe. Desde então tornou-se comum encontrarmos cidadãos ingleses, franceses, alemães, belgas, holandeses ou escandinavos chamados Mahamud, Mohamed, Ahmed, Abdul.

Segundo o Sunday Times, o Reino Unido julga ter identificado o membro do Estado Islâmico (EI) – outro eufemismo adotado pela imprensa, já que uma horda de terroristas com Estado nada tem a ver - que decapitou o jornalista americano James Foley. Atribuindo a informação a "altos funcionários do governo britânico", o periódico diz não saber quem é o homem, mas aponta como principal suspeito o rapper britânico Abdel-Majed Abdel Bary, 23, conhecido como Jihadi John.

Temos então um cidadão britânico batizado como Abdel-Majed Abdel Bary. Que tenha passaporte britânico, não tenho dúvidas. Daí a ser britânico vai uma longa distância. Diz ainda o jornal:

“Em junho, causou comoção um vídeo em que os estudantes britânicos Nasser Muthana e Reyaad Khan, ambos de 20 anos, e Abdul Rakib Amin, de 25, defendiam a jihad (guerra sagrada) e pediam que mais jovens do ocidente deixassem seus países para se juntar ao grupo”. Pelo jeito, o politicamente correto está dominando a imprensa européia, que identifica árabes ou filhos de árabes com passaporte britânico como britânicos de cepa.

Segundo a agência EFE, para The Middle East Media Research Institute (MEMRI), centro que investiga em Washington a evolução do jihadismo, o recrutamento de europeus que se somam à jihad na Síria aumentou. Membros do EI que saíram da Europa para lutar na Síria estão usando a internet e as redes sociais para enviar vídeos e mensagens a seus respectivos países e aumentar a capacidade de recrutamento de extremistas. Dois jihadistas do EI protagonizam um vídeo no qual, falando em espanhol, pedem que a Andaluzia faça parte de seu califado, que aspira a instaurar a lei islâmica da Espanha à Indonésia.

“A Espanha é a terra de nossos avôs e vamos libertá-la com o poder de Alá”, ameaça o homem, com barba e um kufiya (o lenço quadriculado) sobre sua cabeça. "Esta não é a primeira vez que vemos combatentes estrangeiros falando em espanhol. Na semana passada, um vídeo foi postado na internet por um indivíduo do Chile com o pseudônimo de Abu Safiyya. O recrutamento de europeus, incluindo espanhóis, que se somam a Jihad na Síria aumentou", disse Rachel Rosenberg, porta-voz do instituto.

Para o secretário de Estado de Segurança do Ministério do Interior espanhol, Francisco Martínez Vázquez, a participação de combatentes europeus em guerras como a da Síria é 'o maior desafio' na luta antiterrorista global.

Para Bernardes Pires de Lima, do jornal português Diário de Notícias, a guerra na Síria é, em apenas dois anos, palco do maior contingente estrangeiro de jihadistas. Está para esta década como o Afeganistão esteve para os anos 1980, a Bósnia para os anos 1990 e o Iraque para o princípio deste século. Estudos recentes dão conta de mais de 6 mil estrangeiros a combater Assad, uns juntando-se à Al-Qaeda e seus afiliados, outros integrando as operações de resistência sunita.

“Líbios, tunisinos e sauditas estão no topo deste pelotão, mas há cada vez mais indicadores a alertar para a crescente presença de europeus na Síria. São perto de 10% desse contingente estrangeiro e vêm sobretudo de Reino Unido, Holanda, Bélgica, Dinamarca, França e Alemanha. Há dias, Manuel Valls, ministro francês do Interior, confirmou ao site Al Arabyia que 120 franceses estavam neste momento a combater na Síria e que receava o seu regresso à Europa. Já o Guardian, citando fontes do ministério do Interior alemão, confirmava a ida de 60 alemães para o Egito depois de receberem treino na Somália. Ou seja, os europeus radicalizados e motivados a integrar a jihad preferem o Médio Oriente a outras regiões, como o Mali, por exemplo”.

O diário espanhol ABC de hoje traz reportagens sobre os principais viveiros de jihadistas na Europa. Ceuta e Melilla são os pontos de partida da jihad espanhola para a Síria e o Iraque. Madri é o epicentro de recrutamento. Só neste ano, foram presos 25 jihadistas, em operações que se estenderam até Huelva. Na Holanda, o recrutamento ocorre particularmente em Schilderswijk, bairro de Haia, onde os imigrantes estão inclusive aplicando a sharia, em flagrante desrespeito às leis do país.

Na Bélgica, o celeiro está em Scharebeek, bairro de Bruxelas, onde grupos integristas assumiram o controle de zonas inteiras, nas quais a polícia tem dificuldade para intervir. Na França, que abriga a maior comunidade muçulmana da Europa, Lille foi desde o inicio o cenário onde os militantes do islamismo puseram à prova a fortaleza democrática ao impor a segregação por sexo nas piscinas. Nos arredores de Paris e Marselha, os árabes isolam-se em bairros inteiros.

Europeus, estes senhores? Vamos deixar de eufemismos. Não é improvável que um europeu maluco e desajustado vá lutar em guerras insanas e alheias. Mas a maioria destes “europeus” são obviamente imigrantes de terceira ou quarta geração, que por um lado não se integraram à civilização européia e, por outro, alimentam sonhos messiânicos de um novo califado, onde gozariam de poder e riqueza.

São os filhos e netos de árabes que foram matar a fome no velho continente. Matada a fome, quiseram acesso ao bem-estar europeu, sem habilitação para tanto, ou por permanecerem isolados em seus guetos islâmicos. Desligados de sua cultura natal e sem conseguir ser europeus, alimentam-se de ressentimento. Lutar e matar, seja quem for, é um bom défoulement, como dizem os franceses.

Quando vivi em Paris, tive um amigo argeliano, o escritor Slimane Zeghidour, que inclusive escreveu um livro sobre A poesia árabe e o Brasil. A poesia árabe, dizia-me, é uma onda que procura margem. Sugeri um título que me pareceu excelente: Vague cherche rivage. Mas o livro não foi publicado em francês. Apenas em português. Perfeitamente integrado à cultura francesa, Slimane fez carreira na grande imprensa como cartunista e repórter. Eram os tempos de Valéry Giscard d’Estaing, que ofereceu dez mil francos e a passagem de volta a todo imigrante que voltasse a seu país.

- Podem me dar a França inteira – dizia-me Slimane -. Não volto. Eu não posso levá-la no bolso. Os árabes que abandonaram o fanatismo islâmico e não confundem Estado com religião vivem tranquilos na Europa e jamais se deixariam recrutar para guerras alheias. Tornaram-se quase europeus. Digo quase, porque estrangeiro algum se torna europeu. Pode ser aceito, mas será sempre estrangeiro.

Seja como for, a imprensa poderia tomar vergonha e deixar de chamar árabes de europeus. É um grosso sofisma que só serve para enganar os leitores. Não custa muito espaço escrever cidadão europeu de origem árabe ou imigrante árabe com passaporte europeu.

sábado, agosto 23, 2014
 
SOBRE ABSURDOS E FATOS


- Calma, não fique nervoso – me escreve Vanderlei Vaselesk – . Por hora escrevo certinho. Mas a menos que concordes muito com o astrólogo, que sustenta que deveríamos ter ficado como os franceses, que mantêm sua ortografia há trezentos anos, não vejo nada de tão absurdo na mudança do professor Ernani. Festa para os analfabetos, ou melhor possibilidade de alfabetização. A questão da gramática histórica não precisa ser tabu, a gente não escreve mais pharmacia, christo, alumno, commum, accomodado, diferente, soffrer. Assim a mudança, que defendo desde que minha mãe me explicou que casa era com s e feliz era com z, facilitaria a comunicação, o que é o objetivo de qualquer língua que se prese. E viva a reforma, esta sim, utilíssima, não o arremedo que se fez em 2009, que inclusive cometeu a estupidez de varrer o trema. Mas agora que o trema morreu assassinemos de uma vez o qu e o gu. E que me desculpe minha baixinha Helena, mas o H no começo já irá tarde para os alforjes da galera da gramática história. Viva la Revolución (RSS).

Bom, meu caro Vanderlei, não é que eu seja contra a reforma em si. Tanto que, em meus verdes anos, cheguei (chegamos) a bolar uma. Mas há de ser coerente e sensata. Querem reduzir os valores fonéticos de uma letra? Por que não? Mas que a abolição seja radical. Outro detalhe é pesar a conveniência de afastar-se muito (porque afastados já estamos, pelo menos foneticamente)do português de Portugal. Perderíamos um grande acervo. Portugal também.

Mas o absurdo da proposta do professor é apresentar mais um projeto, quando o último nem ainda foi assimilado. Teríamos de reeditar de novo, após cinco anos, toda a literatura? Lidaríamos, por algumas décadas (na verdade séculos), com três ortografias? Que, considerada a de 1931, em verdade seriam quatro? Qual o custo disto? Quem paga? No fundo, o contribuinte. Que de 1931 para 2000 a língua se transforme, vá lá. Mas de 2009 para 2014? Seria muita irresponsabilidade do Senado se aprovasse tal projeto. Vanderlei volta à liça:

- Entendo o teu ponto de vista. Mas sinceramente, já pagamos por tanta coisa, que esta, eu particularmente estou disposto a pagar. Quanto ao afastamento da língua-mãe, paciência. Você mesmo fala que traduz ao brasileiro. Que se vai fazer se somos bem maiores que a mãe pátria e acabamos tendo maior projeção do que eles. É do processo.

De fato, tenho afirmado que traduzi do português ao brasileiro. Esta nuança é pouco perceptível ao leitor monoglota, mas quem lê em outras línguas observa que os tradutores sempre se preocupam em esclarecer de qual idioma traduziram, se do brasileiro ou do português. Eu mesmo já fui convidado por um editor para traduzir uma tradução portuguesa ao brasileiro. Agradeci a deferência mas não topei.

O espanhol das colônias permaneceu mais fiel à língua-mãe que o português do Brasil. Sim, diria que já se pode falar em dois idiomas, mas bastante próximos, de modo que um leitor brasileiro pode ler sem maiores percalços um texto português e vice-versa. Mas se a distância aumenta muito, esta familiaridade se perde.

Jovem, eu afirmava que quando uma língua morre, o mundo fica mais pobre. Frase solene mas boba, romantismo de juventude. Há línguas demais no mundo. Segundo dados de 1995 do Summer Institute of Linguistics da Universidade do Texas, EUA, o mundo dispõe de 6.703 línguas para se comunicar. É muita língua para tão pouco planeta. Hoje, a meu, umas cem línguas facilitaria muito a vida e as comunicações no mundo. Perder-se-iam muitas nuanças próprias de cada língua, mas a vida se tornaria mais ágil.

Você afirma: “Somos bem maiores que a mãe pátria e acabamos tendo maior projeção do que eles”. Bom, depende da régua pela qual se mede uma grandeza. Criamos uma língua e a espalhamos por três continentes? Descobrimos terras ou o caminho para as Índias? Tivemos um Vasco da Gama, um Fernão de Magalhães? Um Eça de Queiroz ou um Fernando Pessoa? O Brasil pode ter 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 200 milhões de habitantes. Meu metro é outro. Não meço um país pelos números de seu território ou habitantes. Mas pela civilização que produz.

Segundo declaração do senador Cyro Miranda, presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte, que está examinando o último projeto de reforma, as recentes notícias de que estaríamos a ponto de reformular a ortografia da Língua Portuguesa não procedem.

Ainda bem. Mas neste incrível país nosso não há boato que não tenha potencial de ser fato. Não tivemos, em 2004, o nobilíssimo projeto de Lei Complementar, do deputado petista Nazareno Fontelles, que estabelecia um limite máximo de consumo aos brasileiros e a tal de Poupança Fraterna? O Limite Máximo de Consumo fica definido como dez vezes o valor da renda per capita nacional mensal.

Da proposta do sublime Nazareno resultava que seriam poupadores compulsórios na Poupança Fraterna – isto é, seriam confiscadas – todas as pessoas que tivessem, em 1999 e a preços daquele mesmo ano, rendimentos mensais superiores a R$ 5.527,00. Esse projeto ainda rola na Câmara.

Quer dizer, uma nova reforma ortográfica é fichinha diante dos despautérios que revoluteiam nos corredores do Congresso. No Brasil, não é fácil distinguir um absurdo de um fato.

quinta-feira, agosto 21, 2014
 
MAIS UMA TOMADA
DE TRÊS PINOS



Nem foi ainda consolidado o último acordo ortográfico e o Senado nos propõe outra tomada de três pinos. Pois reformas ortográficas e tomadas de três pinos em muito se parecem. Inocentes e inócuas inovações, à primeira vista, servem para locupletar as burras dos manipuladores da indústria do inútil.

Leio nos jornais que o projeto “Simplificando a Ortografia”, idealizado por um tal professor Ernani Pimentel, ganhou destaque na Comissão de Educação da casa. O objetivo do projeto, segundo o professor, é criar uma língua portuguesa com um menor número de regras, para tornar seu aprendizado mais rápido e eficaz.

Ou seja, ainda não é consenso o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990 por Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, e mais tarde Timor-Leste, e já temos mais uma reforma. Fruto dos sumos bestuntos da Academia Brasileira de Letras (leia-se Antonio Houaiss, que já tinha pronto seu dicionário na nova ortografia proposta) e da Academia das Ciências de Lisboa, o acordo entrou em vigor no início de 2009 no Brasil e em 13 de maio de 2009 em Portugal, embora os lusos, os pais da língua, até hoje hesitem em adotá-lo. Foi estabelecido nos dois países um período de transição em que tanto as normas anteriormente em vigor como a introduzida por esta nova reforma são válidas: esse período era de três anos no Brasil (foi estendido agora para 2016) e de seis anos em Portugal.

Os brasileiros, como que obedecendo uma ordem divina, adotaram o acordo no dia seguinte, sem que nenhuma sanção recaísse sobre quem não o adotasse. Que os editores se apressassem em ratificá-lo, entende-se: muda-se uma letrinha cá, outra acolá, retira-se o trema, o hífen e alguns acentos cá e lá, e bilhões de reais vão para a indústria editorial. Mais ou menos como a tomada de três pinos.

O que não se entende é como a imprensa e as universidades se dobraram imediatamente às novas regras, sem ter por quê: se não há sanção para quem descumpre uma lei, tanto faz como tanto fez cumpri-la ou não.

Vamos ao novíssimo projeto. Entre as medidas estudadas pela Comissão, está a eliminação do “x” com som de “z” e a substituição do fonema “ch” pelo “x”. Desta forma, palavras como “exibir” e “chefe” passariam a ser escritas “ezibir” e “xefe”. As sílabas “ce” e “ci” também seriam extintas: censura passaria a ser “sensura” e palavras cidade seria escrita “sidade”. Palavras iniciadas em “qu” também receberiam alterações: uma das propostas é eliminar o “u”, o que transformaria palavras como “queijo” e “qualidade” em “qeijo” e “qalidade”.

Segundo o professor Ernani, a necessidade da simplificação ortográfica reside principalmente no fato da grande dificuldade de lecionar a língua. Traduzindo: leia-se má formação de alunos e mesmo de professores que, por não cultivarem o hábito da leitura, não conseguem escrever corretamente.

De acordo com o autor do projeto, os professores gastam atualmente 400 horas para ensinar ortografia. Após a reforma, esse tempo passaria para 150: “com 150 horas você pode ensinar com muito mais eficiência o que 400 horas não ensinam. E isso significa muito dinheiro. Só pra você ter uma ideia, essas 250 horas significam 2 bilhões (…) por ano em educação e economia, porque você pode tá aplicando em outras coisas que o aluno precisa aprender”, afirmou.

Quanto bihões custará a segunda reforma, proposta apenas cinco anos após a primeira? O professor Ernani e o Senado estão brincando com o dinheiro dos cidadãos.

O projeto de simplificação ainda prevê eliminar o “h” no início de palavras como “hoje” e “hora” (que passariam a ser escritas “oje” e “ora”).

“Então, como é que se resolve esse problema da dúvida do h inicial?” – pergunta-se o professor – “Existe uma regra básica que é: consoante não pronunciada, não se escreve. Então joga-se todo h inicial fora e aí você vai ter o que o italiano já fez. (…) E então você não tem mais dúvidas para escrever. E isso é economia, é qualidade de vida de quem tá escrevendo”, afirma o professor. Sem notar que com a água do balde vai junto a criança: perde-se a noção de etimologia. Segundo a novíssima ortografia, escreveríamos então omem, otel, oje, umor, flexa, maxo bluza, ezame, êzito, amasar, asúcar, moso, ausílio, múzica, deuzes e daí por diante. Uma festa para os analfabetos.

Sem falar que a proposição do professor Ernani nada tem de original. A primeira proposta de reforma semelhante foi feita ainda no século XIX, pelo gaúcho Qorpo Santo. Republico abaixo crônica que escrevi há sete anos. O que talvez diga algo sobre as inspirações do professor. A propósito, leia Qorpo Santo de Corpo Inteiro: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/qorposanto.html


NÓS, QORPO E A REFORMA *

O qe doe, o qe eizaspera, o qe qonfrange ainda a vontade a mais forte – é ter lutado inseçantemente qontra os autores de tantos qrimes: qonseguido auciliado de tantos outros qe igualmente padecião – derribar este poder qorruto: essas autoridades immoraes qe o eizersião: haverem subido ou occupado seus distintos lugares de tão grande número daqeles qe os qombaterão; q os derribarão; e ainda assim – estarem sendo protelados nossos direitos por alguns de taes qriminosos há mais de trez, há mais de quatro anos. (Novembro 8 de 1868)

Que assim escrevia, há praticamente dois séculos atrás, era José Joaquim Campos Leão Qorpo Santo (1829-1883). Gaúcho de Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, Qorpo Santo foi vereador, delegado de polícia, professor, jornalista, dramaturgo. Em 1861, começou a escrever sua Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade, de onde extraí o texto supra.

Suas peças nunca foram encenadas durante sua vida. Foi tido como louco e não era para menos. Consta que trancou a porta de sua casa e entrava pela janela. Sabe-se também que andou arrastando sua mulher pelos cabelos pela Rua da Praia. Não via objeção alguma em mulheres no serviço militar.

Enquanto os homens lutavam, as mulheres deitavam-se e pariam novos soldados. Seu teatro só foi descoberto, um século depois, pelos esforços de Aníbal Damasceno Ferreira, hoje professor de cinema na PUC de Porto Alegre.

Há toda uma intriga sórdida em sua ressurreição. Um professor de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Guilhermino César da Silva, que escreveu uma História da Literatura do Rio Grande do Sul, na qual ignorou solenemente a existência de Qorpo Santo, pretendeu roubar a descoberta de Aníbal Damasceno, quando o dramaturgo se tornou nome nacional.

Mas não era disto que pretendia falar, e sim da reforma ortográfica proposta por Qorpo ao escrever. Em seus textos, ela é apresentada de forma incoerente, nem sempre mantendo uma unidade. Em suma, o som de cá do C passa a ser assumido pela letra Q. O C assume o som de S sibilante, embora o S também permaneça com a mesma função. Qorpo também admite o Ç como sibilante. Vê-se que o maluco da Rua da Praia intuiu a necessidade de uma reforma ortográfica, já no final do século XIX, mas não chegou a sistematizá-la. No entanto, sem nem sonhar com Internet, Qorpo Santo antecipou, há dois séculos, o uso do Q no internetês.

Nos anos 60, em Dom Pedrito, sem nunca termos ouvido falar de Qorpo Santo - que naquela época permanecia envolto pelo pó de algumas raras bibliotecas - três ou quatro estudantes de 15 e poucos anos, elaboraram um novo sistema ortográfico nacional. Eu era um deles, mas não o autor da reforma. Este mérito é de Danilo Morales, meu colega de ginásio, científico e mais tarde Filosofia.

Eliminamos algumas letras inúteis do sistema ortográfico. O C tinha sempre o som de K, o S de sibilante, e nunca assumia o som de Z, quando entre vogais. O Z assumia seu próprio som, como em rezar, e também o de X, como em exame. O X ficava apenas com o som de CH, como em xadrez, e substituía definitivamente o CH em qualquer palavra. Eliminávamos o SS, o CH, o K, o Ç, o Q e o QU e o trema. K, Y e W - nomes próprios à parte - também não tinham lugar em nossa ortografia.

Como a de Qorpo Santo, era uma ortografia antietimológica. Os étimos eram ignorados em nossa reforma. Nosso critério era, como no alemão, o fonético. Batizamos nosso achado como o Novo Sistema Ortográfico Eclético-nacionalista.

Claro que ninguém levou a sério nossa proposta. Nem nossas mães, que não gostavam de nos ver reunidos, tentando reformar o homem, a língua e o mundo. Expulsos de casa, nos refugiávamos nos raros bares de Dom Pedrito. Mas os bares fechavam cedo. Expulsos dos bares, nos refugiávamos nos bordéis, únicos lugares que admitiam tertúlias madrugadas adentro.

Nossas tertúlias não tiveram futuro. Sempre preocupados com os homens e o mundo, pouco nos interessava fazer o que se faz num bordel. Por um lado, não tínhamos dinheiro. Por outro, mulher era coisa que nos assustava um pouco. Com o tempo, as profissionais colocaram uma atalaia na janela. Quando apareciam os “filósofos” na esquina, as mulheres fechavam a casa. De nós, saía no máximo a grana da cerveja.

Mas isto é outra história. Assim se perdeu no oblívio, como o de Qorpo Santo, um excelente projeto de reforma ortográfica. A meu ver, bem mais radical e eficaz que o agora proposto.

* 14/09/2007

quarta-feira, agosto 20, 2014
 
AZALÉIAS DE AGOSTO *


Era agosto. Elas se abriam em meu jardim com essa obscenidade com que sempre se abrem as flores, cumprindo sua missão natural de flores. Quanto mais floresciam, mais fenecias. Todos as manhãs eu atravessava aquele festival orgíaco de vermelho, rosa, branco e roxo, rumo ao amarelo ictérico que começava a envelopar tua pele, essa pele que por tantas décadas acarinhei.

"Onde estiver, vou sentir tua falta" - me disseste, com voz que jamais senti tão grave. Querendo afagar-me, suspeitando que pela última vez, te enganavas. Não estarás em parte alguma. Partiste para o grande nada, onde nada existe e ninguém sente falta de ninguém.

Quem vai sentir tua falta, todos os dias até o último deles, é este que fica e que em algum lugar sempre estará. Pelo menos até o dia em que não mais estiver. Quem parte descansa. Sofre quem fica. O que até me consola um pouco. Quem está sofrendo, pelo menos não és tu.

De novo é agosto e elas retomaram seu ritual exibicionista. Paranóicas, escondem-se nas primaveras e agora torturam meus invernos. Não apenas os meus, mas os de tantos outros cujos seres amados escolheram agosto para partir. Certa noite de setembro, eu conversava com jovens já contaminados pela resfeber, enfermidade nórdica que significa febre de viagens. Sedentos de vida, perguntaram a este ser tantas vezes acometido pela doença: qual é a mulher mais linda do mundo? Em que geografias pode ser encontrada?

Caí em prantos. A mulher mais linda do mundo, eu a conheci. E a tive. E agora não mais a tinha. Não a encontrara em distantes longitudes nem em países exóticos. Encontrei-a a meu lado, neste prosaico país, e nunca mais a abandonei. Quis a vida - ou talvez tenha quisto eu - que tivesse centenas de mulheres, algumas muitas queridas, outras nem tanto mas também desejadas, mais uma multidão de rostos mais ou menos anônimos, corpos sempre lembrados. Mentira da vida, mentira minha. Em verdade, tive só uma. Tu, que partiste no auge das azaléias.

"Eu não tenho medo da morte" - me disseste ainda, um pouco antes da passagem rumo ao nada. Mesmo desbotada pelo palor da vida que foge, estavas linda como nunca estiveste. Em tuas quase seis décadas, conservavas ainda aquele eterno rostinho de criança, que a passagem dos anos jamais conseguiu te roubar.

Sedada, já no torpor da morte, chamaste tuas últimas energias, te ergueste no leito. Levantando o dedinho, didática qual professora falando a seus pupilos, sussurraste com o que te restava de voz: "E se fizéssemos assim: eu assino um documento: eu, TKM, em pleno uso de minhas faculdades mentais, declaro que quero ter meus restos cremados no cemitério da Vila Alpina". Reuni minhas forças e consegui balbuciar: não te preocupa, Baixinha adorada, isto há muito está combinado, verme algum sentirá o gosto de tuas carnes. Tuas cinzas, vou jogá-las de alguma ponte em Paris, uma daquelas pontes que tanto amaste, para que saias navegando mares afora.

Passada a mensagem, te reclinaste em paz. Mas descumpri o trato. Não as joguei em Paris. Ficarias muito longe de mim, navegarias talvez por mares gelados e hostis, encalharias em geleiras e te perderias em fiordes, longe de meu calor. Com carinho, te plantei entre os rododendros e todas as manhãs passo entre ti e murmuro: adorada. É bom te cumprimentar. Mas como dói.

A vida nos foi pródiga, e isso é talvez o que mais machuque. Nestes últimos meses, tenho sentido uma secreta inveja de homens que casam com megeras horrendas. Quando elas partem, começa a felicidade. Se morrer feliz é o almejo de todo homem, esta graça não mais está reservada a quem um dia foi feliz. É duro conjugar certos verbos no passado. Dizia Pessoa:

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...


Bobagens de poeta, que tanto influenciaram meus dias de jovem. Verdade que sem ti correrá tudo sem ti. Mas isto vale para as azaléias - seres insensíveis que sequer perceberam a ausência de quem as adorava tanto - e para o resto da humanidade. Para quem perdeu o ser mais lindo da vida, é mero jogo de palavras.

As azaléias em breve irão perdendo seu sorriso orgíaco, suas cores fenecerão e agosto que vem estarão de novo florescendo, despudoradas. Tuas cores feneceram agosto passado e pelo resto de meus agostos não mais te verei florir.

* in memoriam 20 de agosto de 2003

terça-feira, agosto 19, 2014
 
CADÊ A PAPISA JOANA? *


Isso sem falar na crônica sexual dos papas. Comentei a história há quatro anos. A cortesã mais famosa do Vaticano foi certamente Lucrécia Bórgia, amante do pai, o papa Alexandre VI, e também de seu irmão, o cardeal César Bórgia. Rodrigo de Bórgia, como se chamava o pontífice eleito em 1492, graças à compra dos votos dos cardeais, foi quem patrocinou o famoso baile das castanhas, em que sessenta prostitutas nuas dançaram para os cardeais no Vaticano. Foram jogadas castanhas ao chão, e as bailarinas tinham de apanhá-las. Mas não com as mãos, diga-se de passagem. Foram concedidos prêmios aos homens que copulassem com mais mulheres naquela noite memorável.

Se o leitor quiser uma abordagem ficcional sobre Alexandre VI, pode procurar nas locadoras o belíssimo filme Contos Imorais, de 1974, do cineasta polonês Walerian Borowczyk. Enquanto Savonarola queima na fogueira, por ter denunciado os hábitos libertinos do Vaticano, uma Lucrécia nua (interpretada pela radiante Florence Bellamy), espichada sobre um corrimão do Vaticano, atende ao mesmo tempo o papa e o cardeal, estes devidamente paramentados com as vestes eclesiásticas. Tudo muito sacro e solene.

Isso sem falar no papado de Sérgio III, que inaugurou o período chamado pelos historiadores de pornocracia, como também de "reinado das prostitutas". Mas o melhor da crônica é a história da papisa Joana. Segundo cronistas, no século IX uma mulher teria assumido a curul pontifícia, como sucessora do papa Leão IV, com o nome de João VIII. Originária da Alemanha, vestiu-se de homem e assumiu o nome de João da Inglaterra. Ficou na história como a papisa Joana. Em uma procissão da basílica de São Pedro até Latrão, acometido das dores do parto, o papa caiu do cavalo e fraturou o crânio, tendo morte imediata.

A partir daí, as eleições papais exigiram a verificação do sexo do candidato. Antes da sagração, o eleito era instalado numa cadeira furada, o estercorário. O camerlengo passava então a mão pelo buraco, para examinar os documentos. Em caso positivo, proferia as palavras rituais: habemus papam. Para a Igreja, tanto a papisa quanto o estercorário não passam de lenda, logo esta Igreja que considera como fato a virgindade de Maria e sua assunção aos céus. Si non è vero è ben trovato. Lenda ou fato, vale a imagem.

Falar nisso, está faltando um filme nas telas do Brasil. Ano passado, o cineasta alemão Sönke Wortmann filmou o romance histórico Die Papstin (A Papisa Joana), de Donna Woolfolk Cross, publicado em 1996. O filme foi concluído em julho passado e entrou nas telas alemãs em outubro. Cá neste país, sempre apressado em lançar abacaxis politicamente corretos tipo Avatar, sequer se ouve falar do filme de Wortmann.

Para os leitores que quiserem mais informações, avanço alguns títulos. Devo ter mais em minha biblioteca, mas estes já dão uma boa idéia do assunto:

Histoire de l'inquisition au Moyen Âge, de Henry Charles Lea, Paris, Robert Lafont, 2004 - um clássico, o precursor de toda a literatura sobre a Inquisição. 1458 páginas. Recomendo vivamente.
Enciclopedia de los herejes y las herejías, de Leonard George, Barcelona, Ediciones Robinbook, 1998.
La véritable histoire des papes, Jean Mathieux-Rosay, Paris, Jacques Grancher, 1991.
La chair, le diable et le confesseur, de Guy Bechtel, Paris, Librairie Plon, 1994.
The Female Pope, por Rosemary & Darroll Pardoe, Wellingorough, Crucible, 1988. Tradução ao espanhol: El Papa mujer - El misterio de la Papisa Juana, Barcelona, Ediciones Martinez Roca, 1990.
La Papisa Juana, de Emmanuel Royidis, Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1973.

* 19/03/2010

domingo, agosto 17, 2014
 
A MORTE DE AÉCIO NEVES

Com a morte de Eduardo Campos, morre também a candidatura de Aécio Neves. Imagine um segundo turno com Aécio e Dilma. O eleitorado de Marina vai votar no PT e Dilma será reeleita.

Imagine o outro cenário, Dilma e Marina no segundo turno. O PSDB não vai votar em Dilma. Vence Marina. Se não vencer, teremos Lula e Marina em 2018.

A eleição será entre o barro e a lama. O panorama é estarrecedor, como diria a presidente.

sábado, agosto 16, 2014
 
DRA. RUBRA VULVA E
AS CANÇÕES LADINAS *



(Nestes últimos meses, os jornais têm publicado notícias sobre a insolvência da USP. Nada de espantar. Republico crônica escrita há três anos).

Há horas venho afirmando que as universidades brasileiras são as agências de turismo mais em conta para jovens com pouca grana e muita sede de conhecer o mundo. Em meus dias de Santa Catarina, a melhor agência era, sem dúvida alguma, a UFSCTUR. Quatro ou cinco anos às margens do Sena, com todas as mordomias, para estudar o teatro do nordestino Nelson Rodrigues ou os dialetos do Veneto... no meio-oeste catarinense. Muitas vezes, o doutorando voltava de mãos abanando, mas que se vai fazer? Nem todos conseguem terminar uma tese.

Já tive notícias de uma professora de literatura comparada gaúcha, que atravessou o planeta, de Porto Alegre a Tóquio, para apresentar um vital comunicado, de vinte minutos... sobre literatura comparada. Conheci outra que foi de Brasília a Paris, para apresentar um textículo de poucas páginas sobre Guimarães Rosa em um colóquio na Sorbonne. Isso sem falar de acadêmicos que vão estudar Clarice Lispector em Londres ou Berlim. Tudo isto, às custas do contribuinte.

A USPTUR também tem se revelado muito conveniente para voltas ao mundo. Leio nos jornais que, a fim de identificar as características culturais da alimentação mundial, pesquisadores do Laboratório de Ecologia Isotópica do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP viajaram o mundo para analisar o Big Mac, principal e mais conhecido produto da rede de fast-food McDonald's, que está presente em mais de 100 países. "O lanche, considerado o carro-chefe do McDonald's, funciona como um poderoso traçador do sistema de produção de carne dos países. O hambúrguer fornece diversas e variadas informações", informa o pesquisador Luiz Antonio Martinelli, responsável pela pesquisa divulgada pela USP.

Os pesquisadores uspianos se muniram de alta tecnologia. Para descobrir onde e como é produzido o principal produto do Big Mac, o hambúrguer, a pesquisa rastreou a cadeia alimentar do gado. Martinelli chegou à conclusão que, apesar de o Big Mac ser uma comida global, seu sabor é local, pois o hambúrguer é originário do rebanho de cada país. "Mas isso não ocorre no mundo todo. Os isótopos estáveis do carbono e do nitrogênio da carne contida em cada um dos Big Macs estudados mostraram, por exemplo, que o lanche consumido no Japão é proveniente da Austrália, com gado alimentado com gramíneas do tipo fotossintético C4".

Esta conclusão foi baseada no fato que as carnes dos lanches japoneses tinham uma razão isotópica do carbono-13/carbono-12 mais elevada do que os esperados num país baseado em uma agricultura de ciclo C3. O fato comprova que o Japão importa carne da Austrália, onde prevalece o modo fotossintético C4 da lavoura, ou seja, das plantas que suportam altas luminosidades, fato que não ocorre no país nipônico.

Ou seja, para concluir que o Japão importa carne da Austrália, os bravos pesquisadores precisaram deslocar-se às antípodas. Não seria mais fácil – e bem mais econômico - enviar uma consulta às câmaras de comércio de ambos os países? Ou às franquias do McDonald’s? A pesquisa permitiu chegar a três conclusões. "A primeira é que com um simples hambúrguer é possível rastrear o que o gado come pelo mundo todo. A segunda nos confere a possibilidade de estabelecer como carnes produzidas em diferentes países viajam pelo mundo. E a terceira é que, por uma questão de mercado, o igual não é tão semelhante assim", relata Martinelli, que empregou o conceito "glocal" (global + local) para caracterizar o Big Mac.

Será preciso ir a Tóquio ou Camberra para saber o que o gado come no mundo todo? Além disso, para que serve ao conhecimento nacional saber o que os bois comem nas diferentes latitudes? Gastar milhões de reais para saber que o igual não é tão semelhante assim?

Turismo disfarçado de pesquisa e nada mais do que isso. O que me lembra o caso da Dra. Rubra Vulva, da Universidade Federal de Santa Catarina. Se a dita cuja era rubra, não sei. Ocorre que ela escreveu um poema onde falava de “minha rubra vulva”. Pediu, levou. A doutora elaborou um projeto de pesquisa comparativa do cancioneiro ladino. Ou seja, turismo garantido por onde quer que houvesse sefarditas: Espanha, Portugal, Israel e países do norte da África. Não fiquei sabendo quantos países visitou. Mas Dra. Rubra Vulva tinha especial consideração pelas verbas públicas que recebia. Segundo minhas fontes na Receita Federal, tentou abater de seu imposto de renda até mesmo os cafezinhos que tomava em aeroportos.

Há muitas teses lindas de defender, e de vital interesse para a humanidade. Generoso como sou, sugiro algumas:

O comportamento sexual das adolescentes nórdicas nas ilhas gregas. Creta, Mykonos, Santorini, Lesbos, Paros, Antiparos, etc.

A tributação da banana nas ilhas canárias. Tenerife, Gran Canária, Lanzarote, Fuerte Ventura, El Hierro, La Palma, Gomera.

As variantes regionais da pizza na Sicília, Calábria, Costa Amalfitana e Emilia Romagna. Palermo, Siracusa, Agrigento, Taormina, Tropea, Amalfi, Positano, Ravello, Bolonha, Rimini, Modena, Parma, Ravenna.

As concepções sueca e dinamarquesa do smörgåsbord. Passeios pelos canais de Estocolmo e Copenhague, Millesgården, Gamla Stan, Tivoli.

As traduções de Machado em Berlim, Londres, Roma e Paris. Spree, Kurfürstendamm, Tâmisa, Convent Garden, Tibre, Trastevere, Coliseu, Capitólio, Sena, Champs Elysées, Quartier Latin, torre Eiffel, Notre Dame, Louvre, etc.

A incidência de luz solar nos fjordes noruegueses durante o verão e inverno boreais. Bergen, Trondheim, Bodø, Lofoten, Tromsø.

Gadus morhua e o conceito de bacalhau nas ilhas Lofoten. De preferência com sol da meia-noite.

A influência de Jean Genet na dramaturgia rodrigueana. Dias tranqüilos às margens do Sena.

O Alienista, de Machado, e Nau dos Insensatos, de Sebastian Brant. Alsace-Lorraine, Strasbourg, Nancy, Meuse, Moselle.

As sutis nuanças das safras de Rioja no País Basco. San Sebastián, Navarra, Pamplona.

A cuisine du terroir em Provence. Marselha, Aix-em-Provence, Avignon, Arles.

Traços de Simone de Beauvoir na obra de Raquel de Queiroz. Mais dias tranqüilos em Paris.

As distintas arquiteturas dos castelos do Val de Loire. Um roteiro romântico pelos castelos medievais da França.

A geografia humana do Quartier Latin. Mais dias tranqüilos às margens do Sena.

A consistência das massas nos restaurantes do Trastevere. E o melhor da culinária de Roma.

Os fluxos migratórios em Kreutzberg. Turismo em um dos bairros mais típicos de Berlim.

Vasto é o mundo e vastos são os campos do conhecimento humano. Se você é acadêmico e tem pistolão junto à Capes ou CNPq, não se peje. Vá em frente que o contribuinte paga.

* 13/07/2011

quinta-feira, agosto 14, 2014
 
DO NEPOTISMO À SANTIDADE...


...em 24 horas. Ontem, acusado de nepotismo. Hoje, santo. A santidade respingou até em seu avô, Miguel Arraes, um dos celerados banidos do Brasil por querer transformá-lo em republiqueta soviética.

Tio de Campos continua em diretoria de estatal federal

Folha de São Paulo – 07/08/21014
Ranier Bragon

Tio do candidato de oposição à Presidência da República Eduardo Campos (PSB), Marcos Arraes de Alencar continua ocupando um cargo de direção na estatal federal Hemobras, apesar de há seis meses o governo de Pernambuco, então comandado pelo sobrinho, ter informado que ele havia pedido demissão. Alçado ao cargo em 2011 por indicação da gestão de Campos em Pernambuco –o governo estadual tem participação minoritária na estatal–, Marcos Arraes disse nesta quarta-feira (6) que nunca pediu para sair, embora tenha avaliado a hipótese.

Ele afirma que conversou com Campos sobre sua permanência. "Consultei [Campos], claro. (...) Ele me disse: 'Se você pedir demissão, vou ter que indicar outro, então dá no mesmo'", afirmou o tio do presidenciável.

Em setembro de 2013, Campos liderou o rompimento do PSB com Dilma Rousseff, primeiro passo para se lançar ao Palácio do Planalto, e hoje é um dos principais críticos da administração petista. Na ocasião, anunciou a entrega dos cargos e ministérios que a sigla tinha no governo.

Cerca de cinco meses depois, a Folha mostrou que indicados pelo PSB ainda continuavam em órgãos federais. Na ocasião, a Secretaria de Imprensa do governo de Pernambuco informou que o tio de Campos havia pedido demissão e que aguardava apenas a indicação do substituto para deixar o posto. Filho do ex-governador Miguel Arraes (1916-2005), Marcos Arraes cumpre mandato de quatro anos como diretor de Administração e Finanças da Hemobras (Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia), com salário mensal de R$ 26,4 mil.

Com participação minoritária do governo de Pernambuco, a estatal federal é vinculada ao Ministério da Saúde. O tio de Campos diz não ver constrangimento em sua permanência na função. "Veja só, se eu pedir demissão, o meu cargo é do governo do Estado. Então me disseram, 'não peça não', já que é do governo do Estado, vai vir outro indicado pelo governo do Estado", afirmou.

Campos diz não ver nada de errado em ter feito campanha para sua mãe no TCU

Estadão – 12/08/2014
Ana Fernandes

Candidato do PSB defende Ana Arraes e afirma que ministra do Tribunal de Contas da União tem feito trabalho digno e com méritos

O candidato a presidente Eduardo Campos (PSB) disse não ver problema em ter feito campanha para sua mãe, Ana Arraes, ser eleita ministra do Tribunal de Contas da União (TCU). "Ela disputou a eleição com vários deputados, foi a única mulher que ganhou no voto e tem feito um trabalho que todos reconhecem como digno e com méritos", disse há pouco em entrevista ao Jornal Nacional.

Questionado se teria dado um bom exemplo, usando seu empenho enquanto governador de Pernambuco para eleger a mãe a um cargo público e vitalício, Campos disse não ver "nada de errado" em sua postura. "Se fosse outra pessoa (do meu partido) eu também teria apoiado", argumentou.

Campos foi perguntado ainda sobre os primos de sua esposa Renata Campos, Marcos Loreto e João Campos, que foram indicados para o Tribunal de Contas do Estado (TCE), órgão responsável por fiscalizar as contas de seu governo em Pernambuco. O candidato argumentou não ser um caso de nepotismo pois essas indicações são feitas pela Assembleia Legislativa e não pelo Executivo. Afirmou também ter sido o primeiro governador a aprovar uma lei antinepotismo.

Eduardo Campos

Editorial Folha de São Paulo – 14/08/2104

Morte do candidato do PSB retira da campanha presidencial um dos maiores fatores de renovação do cenário eleitoral brasileiro

Na violência cega de um acidente aéreo, perdeu-se uma das personalidades mais promissoras da vida política nacional. Aos 49 anos, Eduardo Campos vinha de uma bem avaliada gestão no governo de Pernambuco para representar, na disputa à Presidência da República, o difícil e estimulante papel de alternativa à tradicional polarização entre petistas e tucanos no plano federal.

Seu perfil o habilitava de forma singular para esse desafio, embora a própria campanha --tragicamente interrompida-- tivesse ainda de desenhá-lo com mais nitidez.

Neto, por parte de mãe, do mitológico líder esquerdista Miguel Arraes, de quem foi secretário da Fazenda nos anos 1990, Campos tinha, pelo lado paterno, ligações com os setores mais conservadores da política local.

O lastro de herdeiro de Arraes não o impediu de procurar caminhos próprios na cena pernambucana --do mesmo modo que, ex-ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo Lula, percebeu que suas perspectivas seriam limitadas caso seu partido, o PSB, se mantivesse por mais tempo à sombra do situacionismo petista.

Escorado nos altos índices de crescimento econômico obtidos em seu período como governador, bem como numa visão administrativa sem ranços ideológicos, Campos procurou aproximar-se do empresariado, adiantando-se em relação ao mineiro Aécio Neves (PSDB) na disputa pelo campo de oposição à presidente Dilma Rousseff (PT).

terça-feira, agosto 12, 2014
 
RUMO A UM MUNDO
SEM GRAÇA ALGUMA



Lá pelos anos 90, quando o Brasil importou, via esquerdas ianques, a moda do políticamente correto – eufemismo para stalinismo na linguagem – entrou em vias de extinção um gênero muito nosso, a piada. Venho denunciando este crime cultural há uns bons quinze anos. No que não sou nada original. Não passa dia sem que a imprensa o denuncie.

Mas com uma curiosa contradição: enquanto denunciam a nova moda através de seus articulistas, os jornais se comportam como politicamente corretos em seus artigos. Conforme o contexto, já não se fala mais em negros, mas em afrodescendentes. (Outro dia li esta pérola, indivíduo não branco). Homossexuais está virando palavra de dicionário antigo. Agora o correto é homoafetivos. Bicha virou crime. A palavra sexo está sendo substituída por gênero.

O politicamente correto está inclusive falseando filmes. Revi outro dia M.A.S.H. – filme que muito me fez rir nos dias de minhas universidades – na televisão, em uma maldita versão dublada, mas com legendas. Em um jogo de futebol americano, há um momento em que a torcida adversária chama um jogador negro de macaco. Assim ficou na legenda, ao que tudo indica, antiga. Na dublagem, o macaco foi corretamente trocado por rato. Ou seja, não mais se respeita sequer uma obra de arte.

O zelo das esquerdas chegou a tal ponto que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem foi substituído pela expressão neutra frase neutra em termos de género, Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. (A palavra gênero, na frase, não é minha. É da Wikipedia, em verbete que discute o politicamente correto).

Apesar da veemente condenação dos jornalistas, a nova tirania linguística só tem crescido a cada ano que passa. Piada de negro, hoje nem negro pode contar. O ano de 2011 foi um marco na escalada do politicamente correto. A interdição de piadas estendeu-se aos portugueses. Uma propaganda da rede de lanchonetes Habib's para promover seu bolinho de bacalhau não foi bem recebida pela comunidade portuguesa, que acionou órgãos de defesa do consumidor.

A campanha dizia que o preço do produto era uma piada e fazia brincadeiras jocosas: "Como se chama um homem inteligente em Portugal? Turista". Uma das piadas no papel das bandejas era: "Qual é o único português que serve para alguma coisa? O Manuel de instruções". O Instituto Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo disse ter recebido ao menos dez denúncias. "Trata-se de discriminação contra o consumidor", declarou na ocasião seu presidente, José Geraldo Tardin. A portuguesa Maria Teresa Ferreira Nunes, há 29 anos no Brasil, diz que se sentiu humilhada e constrangida. "Não tinha nada de propaganda, era só piada de português."

Ou seja, não se pode mais contar piadas de português. Ora, piada, de modo geral, sempre fazemos sobre o habitante do país vizinho. Isso quando o país tem algum prestígio. País sem prestígio não vale. Não ouvimos piadas sobre paraguaios ou uruguaios no Brasil. As piadas sempre se referem aos argentinos, e não são nada gentis.

Portugal pode estar geograficamente distante, mas está historicamente perto. Perfeitamente normal que entre nós existam piadas sobre portugueses. Da mesma forma, na França há muitas piadas sobre belgas. Os belgas são os portugueses dos franceses. E há muitas piadas de alemães sobre franceses. E de franceses sobre alemães. Os suecos fazem piadas em cima dos daneses. E os daneses fazem piadas de sueco de volta. Humor faz parte da vida.

Ou fazia. Com a emergência do tal de politicamente correto, fazer piada virou crime. Hoje, se você faz piada de negro, está arriscando prisão por racismo. Sem fiança. Mais um pouco, e será proibido fazer piada de judeu. Brasileiros, passamos a vida inteira fazendo piada de portugueses. E vice-versa. Nunca ninguém se ofendeu com isso. Agora, de repente, surgiram pessoas que se ofendem.

Ora, piada é piada. Tanto que não as levamos a sério. Quando faço piada de judeus, negros ou portugueses, não estou chamando ninguém de canalha ou coisa parecida. Estou fazendo humor, amigavelmente, com judeus, negros ou portugueses. Da mesma forma, não me incomodo se alguém fizer humor a meu respeito, seja pela condição de branco, brasileiro ou gaúcho. Só o que faltava, não podermos rir de nossos semelhantes. Só o que faltava proibir alguém de rir de mim.

Saudades dos 60, quando piada não era crime. Saudades do Colégio Santa Maria, dos maristas, em Santa Maria. Tive como colega de científico um anão, famoso na cidade, que era o pára-raios de todas as piadas. Nosso professor de Física, irmão Daniel, o chamava de massa zero: não afetava a lei da gravidade. Já para o irmão Leão, professor de Química, ele era o Baixinho das idéias fedorentas: tinha o ânus muito perto da cabeça. Quem mais se divertia com essas piadas todas era o próprio Trindade, o anão.

Trindade foi lenda na cidade. Fez vestibular para Medicina, onde escolheu ser pediatra. Já no desfile dos bichos, disse ao que vinha. Em um carro alegórico, foi montada uma sala de parto. A “parturiente” era o Norval, o gorducho da turma. De pernas abertas em uma mesa ginecológica, chegou às vascas da agonia ao passar pelo palanque da comissão julgadora. De seu ventre, puxado pelos pés e com um calção cor de pele, veio à luz o Trindade, esperneando e berrando com sua voz rouca. O umbigo era corda, que foi cortada com um machado sobre um cepo. Era o Dia das Mães e a brincadeira valeu alguns regougos da diocese. Mas nada além disso.

Glorioso como entrou na faculdade, da mesma forma dela saiu. Consta da lenda que, em sua formatura, foi com a turma para um bordel. Claro que todos queriam ver como se consumavam os fatos e postaram-se em torno à cama. O anão foi marinhando mulher acima, quando ela disse:
- Meu bem, tu passaste...
- Quero te beijar. Depois eu volto.

Lenda ou não, coroa uma trajetória. Tempos da escola risonha e franca, tempos que não volta mais. A praga está contaminando tudo, e mais rápido que o ebola. Leio na Folha de São Paulo que a reação de alguns alunos de um cursinho fez professores pararem com piadas. Os estudantes consideraram as brincadeiras machistas e homofóbicas e os pais cobraram explicações. Já os professores dizem que são mal interpretados e que as aulas perdem a descontração.

"O movimento feminista mais importante na história é o movimento dos quadris." "Mulher é como filme: só se revela no escuro." Piadas típicas de cursinho pré-vestibular como essas correm risco de extinção. As direções de instituições preparatórias frequentadas pela classe média alta paulistana têm orientado os professores a suspender comentários jocosos no intuito de evitar ameaças judiciais.

Alunos e especialmente alunas têm reclamado do que consideram machismo, homofobia e racismo aos pais, que cobram explicações.

Em sala, estudantes gritam, choram, cobrem seus rostos com a apostila, retiram-se e até despem-se - segundo relatos de professores à Folha, uma menina ficou de sutiã em protesto duas vezes no ano passado no Intergraus de Pinheiros. Nos corredores, afirmam que "o mundo é sofrido demais para tais brincadeiras".


É de menino que se torce o pepino. Claro que tais reações não surgem espontaneamente em jovens. É fruto de muita doutrinação de adultos. Daqueles adultos que, morta a luta de classes, de alguma luta precisam para sobreviver. Então jogam preto contra branco, homem contra mulher, portugueses contra brasileiros e até mesmo latinos contra europeus. No circuito politicamente correto, gostar da Europa já ganhou um pejorativo, eurocêntrico.

A regra básica é simples: só ria de quem está por cima. Piadas que tenham como alvo homens (exceção feita dos homossexuais), ricos e poderosos, pode. O que não pode é rir das mulheres, dos pobres e desvalidos. Ora, esta é a forma mas sofisticada de humor.

Estamos rumando a um mundo sem graça alguma.

segunda-feira, agosto 11, 2014
 
BÍBLICO TELHADO DE VIDRO


Ainda há pouco, um leitor espantava-se de que os judeus se consideravam “o povo eleito” de Deus. Como não considerar-se, se o Deus era deles e de mais ninguém? Jeová só tinha compromissos com os judeus. Os demais que buscassem socorro com os seus deuses.

Não falta quem ache que na Bíblia há um só deus. Ora, basta lê-la com atenção, para ver que os deuses são muitos. Diz Labão a Jacó: “Mas ainda que quiseste ir embora, porquanto tinhas saudades da casa de teu pai, por que furtaste os meus deuses?”

Diz Jacó à sua família: “Lançai fora os deuses estranhos que há no meio de vós, e purificai-vos e mudai as vossas vestes”.

Diz Jeová aos hebreus: “Porque naquela noite passarei pela terra do Egito, e ferirei todos os primogênitos na terra do Egito, tanto dos homens como dos animais; e sobre todos os deuses do Egito executarei juízos; eu sou o Senhor”.

Canta Moisés este cântico a Jeová: “Quem entre os deuses é como tu, ó Senhor? a quem é como tu poderoso em santidade, admirável em louvores, operando maravilhas?” Disse Jetro, o sogro de Moisés: “Agora sei que o Senhor é maior que todos os deuses; até naquilo em que se houveram arrogantemente contra o povo”.

Só no Pentateuco encontramos vários rivais de Jeová: Astarote, Baal, Dagom e por aí vai. Em momento algum Moisés afirma ser Jeová o único deus. Aliás, até o próprio Jeová reconhece a existência de seus pares, quando determina: “Não terás outros deuses diante de mim”. Os deuses eram muitos na época do Pentateuco. Jeová é apenas um entre eles, o deus de uma tribo, a de Israel. Em La Loi de Moïse, escreve Jean Soler: “Ora, nem Moisés nem seu povo durante cerca de um milênio depois dele – os autores da Torá incluídos – não acreditavam em Deus, o Único. Nem no Diabo”. Normal que cada deus proteja os seus.

Denis Lerrer Rosenfield é um dos bons articulistas do Estadão. Mas hoje parece ter esquecido o que consta da Torá. Que um católico ou protestante, desses que andam com a Bíblia no sovaco, ignore os textos sagrados, entende-se. Mas não um professor de Filosofia, ainda por cima judeu. Escreve Rosenfield:

Quando Deus veio a Jonas, instando-o a dirigir-se a Nínive para clamar "contra ela, porque sua maldade subiu à (Sua) presença", a maldade referida era a dos pecados cometidos por seus habitantes. Na tradição profética a missão do mensageiro de Deus consistia em produzir o arrependimento que seria seguido do perdão divino.

O que hoje está acontecendo nessa mesma região remete a outro tipo de maldade, a de terroristas islâmicos, abrigados num autointitulado Estado Islâmico do Iraque e do Levante, Isil na sigla em inglês, que procura impor a ferro e fogo sua cruel interpretação da Sharia. Para eles, outras religiões constituem algo por si mesmo imperdoável. Esse grupo se apoia no seguinte tripé da intolerância a outras religiões: abandono de casas e bens, conversão ou execução, com preliminares violentas como a matança de homens e o estupro de mulheres. Qualquer culto que se oponha a seus desígnios se torna imediatamente objeto dessa forma de terror.


Nada de novo sob o sol. Não foi isto que o bom Jeová determinou que seu povo fizesse com os antigos habitantes da Terra Prometida? Que fim levaram os amorreus, heteus, heveus, jebuzeus, cananeus e perizeus, amonitas e oabitas? Massacrados e empurrados a ferro e fogo pelo judeus dos territórios que Jeová lhes prometera, deles não temos mais notícias. Afinal, que escreve a História é o vencedor. E o vencedor foi Israel.

Êxodo 23:23 - Porque o meu anjo irá adiante de ti, e te introduzirá na terra dos amorreus, dos heteus, dos perizeus, dos cananeus, dos heveus e dos jebuseus; e eu os aniquilarei. (...) Enviarei o meu terror adiante de ti, pondo em confusão todo povo em cujas terras entrares, e farei que todos os teus inimigos te voltem as costas. Também enviarei na tua frente vespas, que expulsarão de diante de ti os heveus, os cananeus e os heteus.

Levítico, 26:29 - E comereis a carne de vossos filhos e a carne de vossas filhas. Destruirei os vossos altos lugares, derrubarei as vossas imagens do sol, e lançarei os vossos cadáveres sobre os destroços dos vossos ídolos; e a minha alma vos abominará. Reduzirei as vossas cidades a deserto, e assolarei os vossos santuários, e não cheirarei o vosso cheiro suave. Assolarei a terra, e sobre ela pasmarão os vossos inimigos que nela habitam. Espalhar-vos-ei por entre as nações e, desembainhando a espada, vos perseguirei; a vossa terra será assolada, e as vossas cidades se tornarão em deserto.

Números 31:7 - E pelejaram contra Midiã, como o senhor ordenara a Moisés; e mataram a todos os homens. Com eles mataram também os reis de Midiã, a saber, Evi, Requem, Zur, Hur e Reba, cinco reis de Midiã; igualmente mataram à espada a Balaão, filho de Beor. Também os filhos de Israel levaram presas as mulheres dos midianitas e os seus pequeninos; e despojaram-nos de todo o seu gado, e de todos os seus rebanhos, enfim, de todos os seus bens; queimaram a fogo todas as cidades em que eles habitavam e todos os seus acampamentos; tomaram todo o despojo e toda a presa, tanto de homens como de animais; e trouxeram os cativos e a presa e o despojo a Moisés, a Eleazar, o sacerdote, e à congregação dos filhos de Israel, ao arraial, nas planícies de Moabe, que estão junto do Jordão, na altura de Jericó. Saíram, pois, Moisés e Eleazar, o sacerdote, e todos os príncipes da congregação, ao encontro deles fora do arraial. E indignou-se Moisés contra os oficiais do exército, chefes dos milhares e chefes das centenas, que vinham do serviço da guerra, e lhes disse: Deixastes viver todas as mulheres? Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, fizeram que os filhos de Israel pecassem contra o Senhor no caso de Peor, pelo que houve a praga entre a congregação do Senhor. Agora, pois, matai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele. Mas todas as meninas, que não conheceram homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós.

Números 31:25 - Disse mais o Senhor a Moisés: Faze a soma da presa que foi tomada, tanto de homens como de animais, tu e Eleazar, o sacerdote, e os cabeças das casas paternas da congregação; e divide-a em duas partes iguais, entre os que, hábeis na guerra, saíram à peleja, e toda a congregação. E tomarás para o Senhor um tributo dos homens de guerra, que saíram à peleja; um em quinhentos, assim dos homens, como dos bois, dos jumentos e dos rebanhos; da sua metade o tomareis, e o dareis a Eleazar, o sacerdote, para a oferta alçada do Senhor. Mas da metade que pertence aos filhos de Israel tomarás um de cada cinqüenta, tanto dos homens, como dos bois, dos jumentos, dos rebanhos, enfim, de todos os animais, e os darás aos levitas, que estão encarregados do serviço do tabernáculo do Senhor. Fizeram, pois, Moisés e Eleazar, o sacerdote, como o Senhor ordenara a Moisés. Ora, a presa, o restante do despojo que os homens de guerra tomaram, foi de seiscentas e setenta e cinco mil ovelhas, setenta e dois mil bois,e sessenta e um mil jumentos;e trinta e duas mil pessoas, ao todo, do sexo feminino, que ainda se conservavam virgens.

Deuteronômio 32:19 - Vendo isto, o Senhor os desprezou, por causa da provocação que lhe fizeram seus filhos e suas filhas;(...) Males amontoarei sobre eles, esgotarei contra eles as minhas setas. Consumidos serão de fome, devorados de raios e de amarga destruição; e contra eles enviarei dentes de feras, juntamente com o veneno dos que se arrastam no pó. Por fora devastará a espada, e por dentro o pavor, tanto ao mancebo como à virgem, assim à criança de peito como ao homem encanecido.

Josué 6:20 - Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas; ouvindo o povo o sonido da trombeta, deu um grande brado, e o muro caiu rente com o chão, e o povo subiu à cidade, cada qual para o lugar que lhe ficava defronte, e tomaram a cidade. E destruíram totalmente, ao fio da espada, tudo quanto havia na cidade, homem e mulher, menino e velho, bois, ovelhas e jumentos.

Chega! Poderia ir bem mais longe se quisesse. Acusar os radicais islâmicos de massacres é tarefa infausta para um judeu. A sorte de Israel é que na época não existia ONU, tribunal de Haia, União Européia, muito menos imprensa livre.

Continua Rosenfield:

Quando o Mausoléu de Jonas foi destruído, há poucas semanas, observávamos o prenúncio do que viria a ser a perseguição sistemática de cristãos, yazidis e muçulmanos xiitas. Note-se que essa população cristã é uma das mais antigas do mundo, sendo constituída por poucas centenas de milhares de pessoas. Seu êxodo é já superior a 100 mil crentes, fugindo da morte e da violência. Não é melhor o destino da comunidade yazidi, cuja religião de tipo monoteísta é formada por um sincretismo entre zoroastrismo, islamismo, cristianismo e judaísmo. Não importa, pois eles caem sob a rubrica dos "infiéis", dos que devem ser extintos. Sua população fugiu para as montanhas e dezenas de crianças já foram mortas, enquanto 40 mil adultos estão, sem água e comida, à beira da morte.

Note-se que o Mausoléu de Jonas foi objeto de profanação precisamente por exprimir o reconhecimento de um profeta venerado por judeus, cristãos e muçulmanos. Na Bíblia, Deus lá aparece como magnânimo e benevolente, o que confere a esse livro uma significação particularmente ecumênica. Isso é intolerável para o terror islâmico. Quem não segue seus preceitos se torna um infiel. Infiéis são cristãos, judeus, yazidis e muçulmanos de outras orientações.

Nada muito diferente do que foi visto no Afeganistão quando o Taleban também destruiu belas esculturas budistas, consideradas como heréticas. Nada tampouco diferente do Estatuto do Hamas quando prega a exterminação dos judeus da face da Terra e a perseguição dos cristãos. O tronco é o mesmo, a diferença reside nos ramos que se desenvolveram segundo as peculiaridades de cada região. Al-Qaeda, Taleban, Irmandade Muçulmana, Isil e Hamas são apenas ramificações de uma mesma doutrina, baseada no culto da morte e da violência.


Nada que os judeus já não tenham feito:

Ezequiel 6:4 - E serão assolados os vossos altares, e quebrados os vossos altares de incenso; e arrojarei os vossos mortos diante dos vossos ídolos. E porei os cadáveres dos filhos de Israel diante dos seus ídolos, e espalharei os vossos ossos em redor dos vossos altares. (...) Em todos os vossos lugares habitáveis as cidades serão destruídas, e os altos assolados; para que os vossos altares sejam destruídos e assolados, e os vossos ídolos se quebrem e sejam destruídos, e os altares de incenso sejam cortados, e desfeitas as vossas obras.

Ezequiel 6:13 - Então sabereis que eu sou o Senhor, quando os seus mortos estiverem estendidos no meio dos seus ídolos, em redor dos seus altares, em todo outeiro alto, em todos os cumes dos montes, e debaixo de toda árvore verde, e debaixo de todo carvalho frondoso, lugares onde ofereciam suave cheiro a todos os seus ídolos. E estenderei a minha mão sobre eles, e farei a terra desolada e erma, em todas as suas habitações; desde o deserto até Dibla; e saberão que eu sou o Senhor.

Bárbarie? Claro que sim. Mas não exclusiva dos povos que sobreviveram aos genocídios (falo no plural) cometidos sob ordens do deus de Israel.