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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 |
Domingo, Julho 12, 2009
A REDENÇÃO DA CERVEJA? Estudos sobre os benefícios do vinho à saúde têm pululado na imprensa nos últimos anos, particularmente como preventivo de alguns tipos de câncer e auxiliar na quimioterapia e radiografia. Agora parece ser a vez de redimir a cerveja. De um leitor, recebo esta nota da BBC Brasil: Estudo aconselha atletas a beber cerveja todos os dias Além de matar a sede e relaxar, a cerveja ajuda na recuperação após a prática esportiva. A afirmação é do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha, que apresentou um estudo defendendo o consumo moderado da cerveja para os atletas como fonte de hidratação diária. O estudo "Idoneidade da cerveja na recuperação do metabolismo dos desportistas" , apresentado nesta terça-feira, foi baseado em relatórios e pesquisas de especialistas em medicina, fisiologia e nutrição da Universidade de Granada com o aval do CSIC. Segundo o documento, os componentes da cerveja ajudam na recuperação do metabolismo hormonal e imunológico depois da prática desportiva de alto rendimento e também favorece a prevenção de dores musculares. A tese é defendida pelo cardiologista e ex-jogador de basquete da seleção espanhola, Juan Antonio Corbalán, medalha de prata nas Olimpíadas de Los Angeles (1984). O estudo foi realizado em dois anos e recomenda o consumo de três tulipas de 200 ml de cerveja (ou de 20g a 24g de álcool) para homens e duas para mulheres (10g a 12g) por dia; volume que os autores do relatório definem como moderada. Cerveja ou suco de laranja? De acordo com os pesquisadores, a cerveja contém 95% de água e é a bebida alcoólica com menor gradação (5% em média). Uma tulipa de 200 ml possui 90 calorias, o mesmo que um copo de suco de laranja. Para chegar a essa conclusão de consumo na dieta de desportistas, os cientistas fizeram pesquisas com 16 atletas universitários com idades entre 20 e 30 anos, em boa forma física e que alcançavam uma velocidade aeróbica máxima (VAM) de 14 km/h. Além disso, todos deveriam ser consumidores habituais e moderados de cerveja, manter uma dieta mediterrânea, não ter hábitos tóxicos nem antecedentes familiares de alcoolismo. Os testes foram feitos durante três semanas em baterias diárias de uma hora de corrida, sob calor de 35º, 60% de umidade relativa e duas horas de pausa para hidratação. Nesse intervalo os atletas bebiam água ou cerveja (máximo de 660 ml), alternando as bebidas em cada pausa de hidratação para comparar resultados. "Tão boa quanto água" A conclusão foi que a cerveja permitia recuperar as perdas hídricas e as alterações do metabolismo tão bem quanto a água. Os cientistas usaram parâmetros indicativos como: composição corporal, inflamatórios, imunológicos, endócrino-metabó licos e psico-cognitivos (coordenação, atenção, campo visual, tempos de percepção-reação, entre outros) para comprovar que o álcool não afetava a atividade de hidratação. O estudo destaca ainda que a cerveja contém substratos metabólicos que substituem algumas substâncias perdidas durante o exercício físico como aminoácidos, minerais, vitaminas e antioxidantes. Mas apesar desta defesa do consumo da cerveja, os pesquisadores espanhóis afirmam que o consumo nunca deve passar da moderação, porque o excesso de álcool não se metaboliza e, por isso, afeta o sistema nervoso central. No caso dos desportistas a recomendação do relatório é beber durante as refeições. Nunca momentos antes de praticar exercícios nem logo depois. O intervalo indicado para a cervejinha da hidratação é de duas horas antes ou depois de suar.
Sábado, Julho 11, 2009
CASA DOS HORRORES QUER MAIS CADÁVERES Quando falo que o Brasil costuma importar do estrangeiro as piores idéias, me refiro a idéias dos Estados Unidos ou da Europa. O Senado Federal deu um passo adiante. Passou a importar as piores idéias da África e da Ásia. Me refiro à regulamentação da profissão dos mototaxistas. A decisão de jerico foi tomada nesta semana. O texto aprovado na Casa dos Horrores – como diriam os britânicos – segue para sanção presidencial e ao que tudo indica o jerico-mor não a vetará. Segundo a agência Estado, de 1990 a 2006, o número de mortes em acidentes de moto no Brasil subiu de 299 para 6.734, o que significa, em termos percentuais, um aumento de 2.252%. Em 2006, as motos mataram 19 pessoas por dia no país. A gripe suína, até agora, matou duas pessoas. Fala-se em epidemia. Não das mortes por motos. Mas epidemia da gripe suína. Uma moto, teoricamente, conduz uma pessoa. Uma mototáxi, necessariamente, conduz duas. Fácil deduzir o que vem pela frente. O número de mortos duplicará. Com o aval da Casa dos Horrores e provavelmente do Supremo Apedeuta. Segundo o engenheiro e sociólogo Eduardo Alcântara Vasconcellos, representante brasileiro na Organização Mundial da Saúde, o discurso de que a moto gera emprego e liberta o pobre é demagogia. Dado o apoio amplo e irrestrito do governo federal à indústria da motocicleta, haverá um incentivo muito forte para a proliferação do mototáxi. Em entrevista para a Folha de São Paulo, diz o engenheiro: “O governo facilitou a ida da indústria para a zona franca de Manaus. Tem um subsídio muito alto. Agora, com a crise, o governo também reduziu o IPI da motocicleta. Além disso, a moto que entrou no Brasil é altamente poluente. O governo não exigiu que a indústria adaptasse os motores. É uma licença para poluir com um custo social enorme. Importamos o pior do que já existe na África e na Ásia pobre, de uma maneira populista e irresponsável". Luíza Erundina, a prefeita petista de São Paulo, já havia dado um considerável passo – rumo à Idade Média – ao introduzir a tração humana em substituição à roda e ao motor, com suas carroças de coleta de lixo. O Senado não fez percurso tão longo para trás. Apenas legalizou instrumentos de morte contemporâneos. Em nome da expansão da indústria das motos, o Senado pede mais cadáveres. Ave, Brasília. Morituri te salutant.
Sexta-feira, Julho 10, 2009
MENSAGEM DO MARÇAL Evoé, Janer. Seu artigo “ARTICULISTA INCORRE EM FLAGRANTE ADEFÉSIO” me fez lembrar um semestre na Filosofia da USP muito interessante. Isso contrariará o senso daqueles que acham que não existe vida inteligente na FFLECH. Um professor, naturalmente rejeitado pelas estrelinhas decadentes que por lá irradiam um brilho avermelhado, pensou como tema de curso (optativo, claro) o seguinte: e se retornássemos ao mundo antigo, apreendêssemos seus valores e depois, de volta à contemporaneidade, comparássemos com os atuais valores? Para encurtar, após vinte semanas de imersão no universo clássico greco-romano, digo que o que mais nos “chocou” na volta foram os adjetivos “novo” e “moderno”. Novo e moderno são como areia na praia: está por todos os lados, inclusive nos recônditos mais inacessíveis. E o pior de tudo é que nos doutrinaram para pensar que tais adjetivos têm valor intrinsecamente benéfico. Se for novo e moderno, então é bom. Quanta canalhice nos é forçada desde o neo-judaísmo , passando pelos “movimentos libertadores”, até chegar nas propagandas comerciais: “Compre isso porque é novo e moderno!” Bah! Em um outro artigo seu, do qual não mais me lembro do título, você pediu aos leitores que narrassem sobre experiência de churrasco de livros à época do governo de exceção. Por volta de 71, morava no bairro do Cambuci, em frente a um quartel do exército e de costas a outro da aeronáutica. Do nada, bateu lá em casa um primo que ninguém conhecia, foragido da dita ditadura. Ele ficou meses recluso em um quarto, repartindo o tempo entre estranhos livros que trouxera e histórias de terror militar. Temendo pela saúde de nossa família e pelo emprego de funcionário público de meu pai, minha mãe, aliada a outra prima que morava conosco, pediu que o aprendiz de Marx fosse cantar em outras plagas. Antes de partir ele nos presenteou com sua coleção de livros que não tardou a arder dentro de um tanque de lavar roupas. Pressentindo o destino daquela coleção ímpar, desviei alguns na surdina e os vendi no mercado negro, o que me rendeu quantia suficiente para adquirir algumas garrafas de cerveja e um maço de figurinhas. Quanto à cerveja, no alto de meus 11 anos, tornei-me um garoto muito popular entre as pré-adolescentes que com rapidez espalhavam que por apenas um beijo podia-se tomar uma geladinha. Viva la revolución! Henrique Marçal.
ARTICULISTA INCORRE EM FLAGRANTE ADEFÉSIO Um artigo de Demétrio Magnoli é sempre um convite à leitura. Culto e bem informado, o sociólogo e geógrafo sempre dá um enfoque original a seus artigos. Pena que às vezes incorre em adefésios. Há dois meses, atribuía racismo aos segregacionistas americanos, aos nazistas alemães ou aos defensores do apartheid na África do Sul. Afirmava que “a pedra fundamental dos Estados baseados no princípio da raça é a proibição legal da miscigenação”. Só deixava de lado aquela nação que desde há cinco mil anos até hoje condena as uniões mistas. Ontem, em artigo para o Estadão, cometeu outro. É como se os conhecimentos de história do articulista recuassem apenas poucos séculos atrás e deixassem de lado eras mais distantes e nem por isso menos fundamentais. Comentando a lei antifumo, escreve Magnoli: “A busca do "homem novo", o indivíduo virtuoso que encarna as qualidades de uma nação renascida, é um traço crucial dos totalitarismos do século 20. O "homem novo" de Benito Mussolini, um guerreiro infatigável sempre em uniforme militar, tinha como inimigo primordial não o judeu ou o estrangeiro, mas o espectro envolvente da degeneração física e mental. Mens sana in corpore sano - o princípio fundador da educação física e também do eugenismo foi invocado pelos mais diversos regimes totalitários em campanhas de reforma dos hábitos e comportamentos individuais”. Ora, antes de ser slogan de Benito Mussolini, homem novo foi o sonho dos marxistas. Tanto que Stalin via os escritores como engenheiros de almas, a quem cabia construir o tal de homem novo. Contemporaneamente, foi bandeira de Che Guevara, que passou sua vida matando homens velhos e novos em busca do homem novo. Mas antes de ser ideal do comunismo, foi ideal do proto-stalinista Paulo. Quem primeiro usa este conceito na História, pelo que se sabe, foi o fundador do cristianismo. Em Epístola aos Efésios (ad Ephesios, aos habitantes de Éfeso), escreve o apóstolo dos gentios: 2- 13 Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. 14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, 15 isto é, a lei dos mandamentos contidos em ordenanças, para criar, em si mesmo, dos dois um novo homem, assim fazendo a paz. E mais adiante, na mesma epístola: 4 - 20 Mas vós não aprendestes assim a Cristo. 21 se é que o ouvistes, e nele fostes instruídos, conforme é a verdade em Jesus, 22 a despojar-vos, quanto ao procedimento anterior, do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; 23 a vos renovar no espírito da vossa mente; 24 e a vos revestir do novo homem, que segundo Deus foi criado em verdadeira justiça e santidade. A palavra novo tem um apelo considerável para quem está insatisfeito com a ordem antiga. Acrescida a qualquer substantivo, lhe confere uma maior dignidade: novos filósofos, nova ordem, novo mundo, novo pensamento, nova cozinha, e por aí vai. Paulo foi o precursor desta antiga moda. O novo homem que pretendia construir se opunha tanto ao judaísmo como à cultura helênica ou romana. O adjetivo fez fortuna na História e foi assumido tanto pelos católicos como pelos marxistas e mesmo por proprietários de bares: “sob nova direção”. Com a diferença de que proprietários de bares nunca mataram ninguém em nome do novo. O que não foi o caso de católicos, comunistas e fascistas, que mataram com gosto o que consideravam homem velho sem chegar a ter construído nenhum outro homem. Antes que me esqueça: adefésios. Já que falei em Paulo, importo a palavra do espanhol, por alusão a sua epístola aos de Éfeso. O dicionário da Real Academia Española a registra como sinônimo de despropósito, disparate, extravagância. Já o Diccionário Histórico de Real Academia atribui a palavra a uma lenda etimológica. Um sacerdote ia ler uma das epístolas aos coríntios mas apanhou por erro a que Paulo havia dirigido aos efésios. Esta seria a razão pela qual as afirmações equivocadas se chamam adefesios. Ao atribuir a Mussolini a idéia de homem novo, o articulista incorreu em flagrante adefésio.
Quinta-feira, Julho 09, 2009
LOS BANDOS DEL ALCALDE Falei em crônica de passada de Enrique Tierno Galván. É nome desconhecido no Brasil. Tomei conhecimento dele no dia de seu enterro. Autor de vários ensaios, o que mais me fascina no prefeito adorado pelos madrilenhos são seus bandos. A palavra existe em português, mas caiu em desuso. Significa anúncio público, proclamação. Daí contrabando, o que é contra o bando. Tierno Galván, ao anunciar suas portarias municipais, em vez de um texto jurídico fazia um poema em prosa. Uma das mais ternas lembranças que tenho de Madri é um livrinho de 120 páginas, Bandos del Alcalde, onde Galván fala aos vecinos de Madrid. Por vecinos não se entenda vizinhos, mas habitantes. Com erudição e extrema elegância, el alcalde admoesta e dá recomendações a sus vecinos para bem tratar “esta hermosa Corte y Villa”. Por sua importância literária, foram reunidos em livro. No prólogo à 2ª edição, escreve Fernándo Lázaro Carreter, da Real Academia Española: Por que o êxito? Há um motivo básico: estes textos, além de cumprirem com seu objetivo fundamental de comunicar o Alcaide com a Vila, constituem uma invenção nada fácil, que surpreendeu a muitos ainda capazes de admirar as invenções delicadas. Enrique Tierno criou um minúsculo porém grato gênero de discurso: o do bando didático-lúdico. Quem não está habituado a transitar pelos recônditos da escritura, mal dará valor ao que isto supõe. Literatura, estes bandos? Claro que sim. Também circula hoje como convicção comum que é literário todo texto que atrai para sua leitura fora do tempo e da ocasião em que foi escrito. (...) Não é nada falso que a literatura é fundada pelo leitor, quando estima valioso para si, para seu gozo desinteressado, um determinado escrito. Claro que um prefeito assim só pode conversar e ser entendido por uma cidade culta. Madri mereceu seu Alcalde e Tierno Galván mereceu sua Villa. Felices vecinos os que tiveram tal administrador. Para fugir um pouco ao clima putrefato que vivemos neste país que se apodrece pelas copas, ofereço ao leitor um momento de grandeza e requinte. Transcrevo um de seus bandos, em que o prefeito recomenda a vecinas y turistas maior recato no vestir-se durante o verão manchego. Transcrevo em espanhol, para não estropiar o saboroso estilo do autor.
EL ALCALDE PRESIDENTE DEL EXCELENTISIMO AYUNTAMIENTO DE MADRID Madrileños: Es viejo decir poético, con varia fortuna repetido, que con la llegada de la primavera, la naturaleza se viste con sus mejores galas, encubriendo la magra y seca desnudez del invierno con brillantes y copiosos adornos. Pero la humana especie que a veces contraría y repele lo que natura hace, lejos de cubrir, descubre, y lo que tapado había, destapa, en obsequio del más alegre, descuidado y gozoso vivir al que el bonancible tiempo invita. Nada tendrá el Alcalde que advertir, respecto de lo dicho,si entre los que tal hacen no hubiera algunos y también algunas que caen en desquiciada y peligrosa confusión, pues hacen de esta Villa lo que esta Villa no es, tomando los ábregos vientos que de la Mancha vienen o los cálidos Aires que del africano Sur nos llegan por suaves y marinas brisas y el recio sol de Castilla, que más quebranta que alivia, por el suave y reparador que los altos montes luce. De tan quimérica visión de la verdad nacen extrañas y peligrosas costumbres, pues desprovistos los hombres de jubón y calzas, pavonéanse en lienzos o lienzuelos, en extremo contentos de si, aunque hayan las carnes flacas, desdichadas las proporciones y mal encajados los huesos, como si lo hubieron sido por un torpe algebrista. Algo semejante, aunque no igual, ocurre con buena copia de nuestras feminiles visitantes que por esta ciudad vagan y peregrinan y con numerosas vecinas que arrastradas por la antigua y legítima inclinación al discreteo, más la quimérica confusión que ya dijimos, dan en despojarse, como con particular y escrupulosa atención ha observado el Alcalde de esta Villa, de corpiños, basquiñas, briales y otras prendas, que por respecto no se nombran, faltando poço, en algunos casos, para que tanto mozas como menos mozas en carnes queden. Ocasionánse de este modo graves y supérfluos daños, pues quienes desde el pescante los coches guían, alejan la atención de su principal menester, arrastrados por el invencible deseo de mirar, con menoscabo de haciendas, peligro para la vida y aumento de la común confusión. Sucede además que el grande polvo que la ciudad produce, particularmente en el estio, la quemazón del sol, el rebullir las simientes y otras vegetales materias en la urbana atmósfera, amén de los humores a cuya expulsión la desnudez promueve, ocasionan salpullidos, llagas, postemas, abscesos y hasta lamparones, males que, según los físicos del Concejo, empodrecen los suaves miembros e gentiles cuerpos de las vecinas de esta Corte. Conviene, por último, añadir a lo ya dicho que las buenas costumbres piden comedimiento y mesura en cuanto al destaparse toca, pues en esos lugares de común recreación y roce que son las públicas piscinas, como natura huye lo triste y apetece lo deleitable, exagéranse los destapamientos sin haber cuenta del decoro que cada uno a si próprio debe y del respeto que la tranquilidad de los demás merece. También a veces acaece, cuando los estivales calores son muy grandes, que alguno de nuestros visitantes, para alivio, descanso y alegre algazara y regodeo, se meten en cueros vivos en el agua que llena las tazas de las fuentes públicas monumentales. De cundir este ejemplo, faltarían tazas o sobrarían visitantes, con perjuicio notório para el bueno y equilibrado proceso de la vida en esta Corte. Amén de que con esos médios, según esta Alcaldía se alcanza, los ardores, lejos de bajar, aumentan, por lo que conmina a moradores y visitantes a que no practiquen tan dañosos y censurables usos. Confia, pues, el Alcalde, que durante el presente estio, visitantes, andantes en Corte y las vecinas y vecinos de esta Villa, de cualesquiera edad y condición que sean, salvo los ancianos de cansada y molida senectud, tengan el debido cuidado en cuanto a lo que este Bando se aconseja, sin caer en impropias mojigaterías, exageraciones ni afectación de virtud. Madrid, 25 de mayo de 1984.
Quarta-feira, Julho 08, 2009
AMIZADE E INTERNET Falava do Orkut. Certo dia, pouco após a partida da Baixinha, um de meus conhecidos passou aqui em casa e jogou-me na comunidade. Trinta segundos depois, nada mais que isso, uma certa Shirlei surgiu na telinha, perguntando se eu a aceitava como amiga. Ora, quem seria Shirlei? Por via das dúvidas, aceitei. Pois não é que a Shirlei era mulher de um excelente amigo, com quem convivi em meus de universidade, e a quem eu procurava há anos na Internet? Como ela me encontrou trinta segundos após meu ingresso na comunidade? Profundo mistério. Ou acaso daqueles da ordem de um em um milhão. No Orkut, não busco exatamente amigos, mas expressar e trocar idéias. Claro que daí surgem relacionamentos mais estreitos e já me encontrei com vários orkutianos mundo afora. Reencontrei primos e primas que já nem sabia por onde andavam. Uma destas primas, creio tê-la visto pela última vez em meus dez anos. Encontrei uma pedritense dos dias de ginásio, que não via há cinqüenta anos. Quer dizer, mesmo depois de meio século ainda nos restam chances de rever pessoas perdidas no tempo. Mas os grandes reencontros foram, em sua maioria, decorrentes do blog ou de publicações em outros sites. Entre estes, um poeta canarino com quem convivi durante uma travessia do Atlântico, no Augustus. Uma sabra muito querida que encontrei em outra navegação, desta vez no Eugenio C. Isto tudo há mais de trinta anos. Surgiram também amores passados e novos encontros. Mas nada a ver com o Orkut. Para encontrar alguém no Orkut é preciso estar no Orkut. Para encontrar alguém na rede, basta chamar o Google. Desde, é claro, que a pessoa buscada tenha alguma visibilidade na Internet. Um amigo se queixava outro dia das decorrências da vida urbana. Que não tinha relação com nenhum de seus vizinhos de prédio. Não vejo nisto nada demais. Não sabemos o que pensam nossos vizinhos, nem quais são seus hobbies ou preferências, muito menos que literaturas ou culinárias cultivam. Não sei se bebem ou não bebem, muito menos se são vegetarianos ou carnívoros. Além disto, encetar relações com vizinhos implica sempre um risco. E se o vizinho é um chato de galocha - eles existem, e como! - e pega no seu pé? A solução é mudar de prédio. Em um site de relacionamentos, você já tem uma idéia de seu interlocutor em seu perfil. Você quer encontrar pessoas que adoram dançar tango em Paris? Procure a comunidade dos que curtem tango em Paris. Não existe? Crie uma. Certa vez, encontrei um clube de tango em Rautavaara, cidadezinha de pouco mais de dois mil habitantes no norte da Finlândia. Mais um monte de letras de tango... em finlandês. Quanto a meus vizinhos, não tenho a mínima idéia se gostam ou não gostam de tangos. Amizades dificilmente decorrem de encontros fortuitos. E sim de afinidades. Meu prédio tem 90 unidades residenciais. Conheço uma vizinha por acaso, amiga que mudou-se para cá há pouco. Não tenho relações com mais ninguém. Mas tenho amigos e amigas na Finlândia, na Macedônia, em Israel, na França, na Bélgica. Alguns de Internet, outros de outras andanças. É um avanço considerável para quem na infância se comunicava com seus vizinhos mais próximos com espelho. "A internet é muito boa para administrar amizades já existentes, garantindo sua continuidade mesmo a grandes distâncias, mas é ruim para criar do zero relações de qualidade", diz Dunbar à Veja. Sim e não. Conheço, tanto pessoalmente como de ouvir falar, quem tenha encontrado sua cara metade teclando no computador. Caras metades estão às vezes a centenas ou milhares de quilômetros de distância. Segundo a revista, ter milhares de amigos virtuais não deixa ninguém menos solitário. Claro que não. Não existe amizade teórica. Amigo é aquele a quem apertamos a mão, com quem bebemos e comemos, com quem temos prazer de trocar idéias e confidências. A Internet pode ser um elemento catalisador para a amizade, mas jamais substituirá a conversa face a face. Assim, não consigo entender a expressão amizade virtual. Ou a amizade é real e se consuma na mesa de um bar, ou não é amizade. Dito isto, coincidem neste feriadão, aqui em São Paulo, amigos de várias geografias. Da época pré-Internet. Ainda bem que não são muitos. Ou não teria como curti-los.
JORNAL ENCONTRA NOVA FÓRMULA PARA JUSTIFICAR COLUNA DE SENADOR LADRÃO Para um leitor que pergunta se o senador ladrão continuará assinando coluna na Folha de São Paulo, Ricardo Melo, o secretário de Redação, encontrou outra fórmula de resposta: "Caro Senhor, a resposta da direção do jornal está abaixo. Atenciosamente, Carlos Eduardo Lins da Silva Ombudsman - Folha de S.Paulo "Ressalte-se que o colunista em questão, até o momento, não foi condenado em nenhuma das acusações de que é alvo." Ricardo Melo, secretário de Redação interino". Ora, condenação nunca foi obstáculo para a Folha contratar um colunista. Toni Negri foi condenado a 30 anos de prisão na Itália, por terrorismo, e assinava coluna no caderno Mais! Soa no entanto estranho ver todos os dias um jornal denunciando novas maracutaias de um de seus colunistas.
Terça-feira, Julho 07, 2009
O NÚMERO DE DUNBAR “O número máximo de pessoas com quem cada um de nós consegue manter uma relação social estável é, em média, de 150, segundo o antropólogo inglês Robin Dunbar, um dos mais conceituados estudiosos da psicologia evolutiva”. É o que leio na Veja, em reportagem sobre as redes sociais da Internet. Eu diria que o antropólogo tanto pelo otimismo quanto pelo pessimismo. Por um lado, não me parece muito viável manter relações sociais estáveis com tanta gente. Manter este tipo de relação exige uma dedicação impossível. Sem me dar ao trabalho de contar, acho que consigo isto com no máximo 50 pessoas. E claro está que não incluo estes 50 no rol de meus amigos. São o que chamo de conhecidos. Com eles mantenho contatos esporádicos, mas raramente participam de minha mesa em um bar. Meus amigos, costumo afirmar, posso contá-los nos dedos das mãos e sobram dedos. Por outro lado, se falamos de políticos ou líderes religiosos, este número ultrapassa em muito o número de Dunbar. Um político ou líder religioso mantém relações estáveis com dezenas de milhares e mesmo milhões de pessoas. Em 1986, por acaso estive no enterro de Enrique Tierno Galván, político, sociólogo, ensaísta e prefeito de Madri. Um milhão de pessoas chorava sua morte, inundando o espaço todo em torno à fonte de Cibeles. Marxista mas não fanático, homem de grande cultura, governava sua cidade através de “bandos”, que foram reunidos em livros. Suas posturas municipais eram extremamente poéticas e muitas vezes o prefeito começava citando Platão para tratar da organização da cidade. Um milhão de madrilenhos erguia os punhos e gritava: “Alcalde, presente!” Cito Tierno Galván não por acaso. (Mais adiante, publicarei um de seus bandos). Era pessoa unanimemente querida e aquela multidão toda me provocou um nó na garganta, logo em mim que nada tinha a ver com o homem. Nós tivemos os nossos. Getúlio Vargas manteve uma relação íntima e sólida com milhões de brasileiros. Sua morte comoveu o país de sul a norte. E até mesmo um caudilho menor, como Leonel Brizola, teve seu exército de devotos. Já nem falo de um Hitler ou Stalin. Schickelgruber foi certamente a pessoa mais amada no mundo. Cristo não teve nem mesmo seus doze discípulos em sua crucificação. Voltemos ao número de Dunbar. Os 150 estariam na categoria dos chamados “laços fracos”. Já os "laços fortes" constituiriam um núcleo reduzido de confidentes, que não costumam passar de cinco. Esses são os amigos do peito, com quem podemos contar sempre, mesmo nos piores momentos. Já melhorou. Mas que é um amigo? Até alguns anos atrás, eu imaginava que precisamos de uma boa década para qualificar alguém como amigo. Hoje, considero que às vezes nem quarenta anos bastam. A reportagem de Veja trata das amizades na internet, que não seriam sequer mais numerosas do que na vida real, já que de nada adianta ter 500 ou 1 000 contatos no Orkut. Depende do que se busca no Orkut, diria eu. Entrei na comunidade por insistência de um amigo e não me arrependo. Mas não estou lá em busca de amigos, já que mal me sobra tempo para administrar minhas escassas amizades. Amizade é planta que tem de ser regada. Ou fenece. E ninguém consegue regar um matagal de mil plantas. O bom do Orkut foi encontrar amigos e mesmo parentes que eu havia perdido no tempo e na geografia. Conto adiante.
PROMOTOR JERICO QUER CRIAR NOVA PROFISSÃO Continuam fazendo fortuna no país as idéias de jerico. Desde há muito o Estado delegou aos cidadãos a missão de proteger suas propriedades. Se você quiser ter segurança em seu prédio, a polícia nada tem a ver com isso. Contrate porteiros, vigilantes, instale sistemas de segurança. E pague por isso. O problema é seu, não das autoridades às quais você paga para garantir sua segurança. Este pagamento é destinado a subsídios mais nobres, tipo silicone para travestis, putas para deputados e turismo para senadores. O mesmo quanto a seu carro. A polícia nada tem a ver com isso. Aqueles extorsionários que riscam ou furam os pneus de seu carro se você não pagar para que não o façam, que haviam sido regulamentados em Porto Alegre, foram agora regulamentados no Distrito Federal. Em breve, extorsão será direito adquirido de marginais em todo o país. Não bastasse este encargo, o Ministério Público de São Paulo houve por bem delegar a segurança das ruas... aos proprietários de restaurantes. Quer o MP que os donos de bares deixem de ser só platéia para exercerem a função de "mediadores de conflitos". A proposta é transformá-los em instrumento de redução da criminalidade da capital. Segundo o projeto, idealizado pelo arguto promotor Augusto Rossini, coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal, os proprietários passariam por curso de capacitação, que seria condição para conseguirem o alvará de funcionamento. "Assim como é preciso ter licença para ter uma arma, é preciso treinamento específico para ter um bar". Mais um pouco, sem diploma cidadão algum poderá instalar um bar. Segundo os jericos-mentores do projeto, as histórias que ilustram a proximidade entre bares e violência são inúmeras. Depois do exagero na bebida, maridos violentos voltam para espancar as mulheres, jovens universitários resolvem acertar as contas com desafetos e traficantes também costumam escolher os barzinhos como escritórios clandestinos. Foi então elaborada a idéia de “um curso simples de capacitação para que os proprietários possam reconhecer um potencial assaltante e barrar uma violência doméstica". Caberá agora aos donos de “bares mediadores” prevenir assaltos e surras de marido em mulher. Todo bar passará a ter atribuições de delegacia. Algumas perguntas se impõem. Se o dono de bar vai exercer função de policial, receberá algo por isso? Terá direito a portar arma para prevenir a violência? Terá poderes para decretar a prisão de suspeitos? Se um cliente recusar-se a pagar a conta – o que não deixa de ser um conflito – poderá dar-lhe voz de prisão? Para o secretário da Coordenação das Subprefeituras, jerico Andrea Matarazzo, a medida é oportuníssima. "Acho ótimo. Atualmente, já oferecemos treinamentos de manuseio de alimentos, limpeza e higiene aos bares. A mediação de conflitos poderia ser agregada”. A meu ver, o secretário está sendo tímido. Poderia agregar também a competência de juiz. Já que o dono de bar terá função de policial, poderia também ser magistrado. A clientela, colaborando com o brilhante projeto, poderia constituir um júri. Aposto que muita gente iria adorar. Ao ir para o bar, sentir-se-ia indo para o tribunal. Mais alguns anos, e os “mediadores de conflitos” teriam sua profissão regulamentada, assim como os flanelinhas e demais achacadores. Com direito a sindicato, mordomias, imposto sindical e carro de som. Por falar nisso, acaba de passar pela Comissão de Constituição e Justiça um projeto que regulamenta a profissão de repentista. Cuidado leitor! Se você é dado a improvisos, acautele-se. Dentro em breve, poderá ser incurso em exercício ilegal da profissão.
Segunda-feira, Julho 06, 2009
ECAD AMEAÇA TELEINTOX Televisão em espaços públicos é uma das piores agressões que se pode fazer a um cidadão. Falta de respeito. Muitas vezes são os garçons que querem assistir a um jogo de futebol e impõem o suplício ao cliente. Isso quando não são os clientes que querem assistir ao jogo. E você, que foi lá para almoçar e conversar, tem de suportar as explosões de boçalidade dos boçais. Televisão em bar tem muito a ver com futebol. Os aparelhos são instalados durante as copas. E vão ficando. Sempre tive a Noruega como um país culto. Em minha primeira passagem por Oslo, tive amarga decepção. Era feriadão e poucos bares estavam abertos. Caí em um destes, imenso, no meio de uma praça no centro da cidade. Sete telões de televisão, todos transmitindo a Copa da Europa. Me pareceu estar chegando no Brasil. Minha conclusão: a estupidez é universal. Ao escolher um bar ou restaurante, sempre dou preferência àqueles que não impõem ao cliente a telinha infame. Mas nem sempre consigo escapar. Uma solução é sentar exatamente embaixo do aparelho. Se não há som, é a única maneira de fugir dela. Assim como têm ambientes para fumantes ou não-fumantes, os restaurantes deveriam ter espaço para cultores da estupidez e para quem não gosta de estupidez. Hoje, em São Paulo, se paga preço forte para comer sem televisão. Em restaurantes caros, você consegue escapar da praga. Nos de preço médio para baixo, ela é onipresente. É o que chamo de teleintox. Vá lá! Estou tolerante hoje. Restaurantes não são de freqüência obrigatória e você sempre pode escolher este ou aquele. O que não dá para escolher é hospital ou consultório médico. Há uns vinte ou mais anos, quando a peste começava a instalar-se, eu conseguia fazer com que a desligassem. Ao chegar em São Paulo, fiz um escândalo. Fui consultar um alergologista e lá estava a maldita televisão. Com desenho animado japonês. Pedi pra moça desligar. Ela disse que não desligava. "A questão é muito simples, moça. Fala com teu patrão. Se não desligar, vou buscar outro médico". Ela foi lá, o médico mandou desligar. Furiosa, saiu e me deixou sozinho na sala. O silêncio a levava ao pânico. Mas isso faz quase vinte anos. Hoje, se insisto em silêncio, melhor morrer. Não encontraria médico para consultar. Muito menos hospital. Na academia onde exercito a carcaça há nove aparelhos de TV. E não existe academia sem televisores. Ou você os assume ou seus músculos enferrujam. Paciência! Mas pelo menos as academias nos oferecem outras imagens, curvas em movimentos generosos que nos desviam o olhar da telinha. Adoro contemplar as meninas que se exercitam naquelas máquinas que simulam caminhadas. Cada uma tem um ritmo próprio e fico imaginando que é naquele ritmo em que... Deixa pra lá! Em suma, elas anulam a peste. No fundo, o medo ao silêncio. Meu apartamento fica num bloco no meio de um quarteirão e é extremamente silencioso. Em plena São Paulo, o que soa a milagre. Certa vez, ao receber uma amiga do Sul, louvei esta virtude de meu tugúrio. Ela não gostou. “Silêncio demais”. Ora, silêncio nunca é demais. Em Florianópolis, durante um ano aluguei casa de um pescador de alto mar. Casa enorme, de dois andares. Eu morava no térreo, a família em cima. A mulher tinha três televisores, um em cada peça e os ligava todos ao mesmo tempo. Ao passar de uma peça para outra, não corria o risco de enfrentar o silêncio. Silêncio machuca quem não gosta de pensar. Por ínvios caminhos, talvez a situação melhore em São Paulo. Com o advento da Internet, pelo jeito andou caindo a arrecadação de direitos autorais. O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) apertou a fiscalização para o pagamento pela execução das obras. Não está perdoando nem festa junina, nem casamento, nem salão de barbeiro. Se antes as ações eram voltadas para emissoras de rádio e televisão – leio no Estadão -, os alvos passaram a ser pessoas comuns, em seus locais de trabalho e mesmo no dia de seu casamento. Os fiscais estão nas ruas, em bares, restaurantes, lojas, salões de beleza, escolas e festas realizadas em clubes e bufês, mesmo que sejam eventos particulares. Mais um pouco, e até os Modugnos de banheiro terão de pagar direitos autorais por suas canções sob a ducha. A quantidade de ações judiciais iniciadas pelo Ecad até junho deste ano já corresponde a praticamente o total de todo o ano passado. A maioria ainda é contra emissoras de rádio (1.036). No entanto, aparecem na sequência os processos contra bares e restaurantes (386) e contra hotéis e motéis (198). O que me pergunto é como se fiscalizará a audição de um programa de rádio ou televisão num quarto de motel. A fúria arrecadatória do Ecad é absurda e ilegal. Se uma emissora de rádio ou televisão já pagou pela emissão da música, porque tem alguém de pagar por ligar rádio ou televisão? Os fiscais estão famintos de grana e seus blitzen incluem desde barbeiros a academias. Como se alguém fosse ao barbeiro para assistir televisão. Já não se trata de uma multa legal, mas extorsão pura e simples. O extorquido que se vire, recorrendo à Justiça. No que a mim diz respeito, esta extorsão me soa simpática. Se não consigo desligar a televisão de bares ou consultórios, talvez o Ecad consiga.
Domingo, Julho 05, 2009
ATÉ CHANCELER INFLA CURRÍCULO Não bastasse Dona Dilma intitular-se mestra e doutora, sem ter nem mestrado nem doutorado, descobriu-se agora que nosso chanceler também infla currículo. Segundo O Globo, no site do Ministério de Relações Exteriores consta que o ministro Celso Amorim é doutorado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela London School of Economics and Political Science (1968-1971). Não é. O ministro admite que não concluiu o curso e não tem o diploma: - Não tenho mesmo. Fiz estudos de doutorado na London School. Mas nunca terminei. Não é mistério. Nunca disse diferente. Inclusive, quando fiz meu currículo escrevi PhD abd, que é como eles usam nos Estados Unidos e Inglaterra e na Inglaterra, que é all but dissertation (tudo menos a dissertação). Não estava pronta a dissertação. Depois, até mudei o currículo: botei estudos de doutorado, para não deixar dúvida. Ora, ministro, estudos de doutorado induz quem lê a pensar em doutorado. Por outro lado, que malandragem é essa, o tal de PhD abd? Ou é PhD ou não é PhD. Se a moda pega, ainda vai se descobrir que no Brasil tem mais PhD abd que PhD. Permanecem no ar as três perguntinhas: - O ministro Celso Amorim, como todo doutorando, se beneficiava de alguma bolsa? - Se se beneficiava, terá devolvido o que recebeu da União para cursar doutorado? - Se não devolveu, será cobrado pelo TCU?
TERÁ DOUTORA DILMA RESSARCIDO A UNIÃO? Segundo a revista Piauí, são falsas as informações divulgadas pela Casa Civil, de que a ministra Dilma Roussef tem mestrado em teoria econômica e doutorado em economia monetária e financeira pela Universidade de Campinas (Unicamp). Tornado público o embuste, o currículo da ministra foi corrigido. A Casa Civil informou que a candidata à Presidência da República concluiu todas as disciplinas do curso de mestrado, entre 1978 e 1983, mas não chegou a apresentar a dissertação que lhe daria o título. Tampouco concluiu o doutorado. Desde há alguns anos, o Tribunal de Contas da União (TCU) está analisando casos de ex-bolsistas do CNPq e já condenou 118 da Capes a pagar R$ 18 milhões ao governo. Se todos os beneficiados do CNPq fossem obrigados a ressarcir o instituto, os cofres públicos receberiam R$ 4,7 milhões. Perguntas que ainda não foram respondidas e em verdade nem foram feitas: - Dona Dilma, como todo mestrando ou doutorando, se beneficiava de alguma bolsa? - Se se beneficiava, terá devolvido o que recebeu da União para cursar mestrado ou doutorado? - Se não devolveu, será cobrada pelo TCU?
Sábado, Julho 04, 2009
FOLHA PAGARÁ CARO POR SENADOR LADRÃO Leitores continuam perguntando à Folha de São Paulo se o senador ladrão continuará assinando sua coluna no jornal. A resposta padrão que está sendo enviada é esta: O pluralismo é um dos pilares do projeto editorial da Folha. A presença de José Sarney como colunista do jornal atende a esse requisito de pluralidade. Comenta um de meus leitores: Não vejo a hora de ler a coluna do Fernandinho Beira-Mar ... ou do chefão do PCC. Isso sim é pluralidade. E ficamos no mesmo nível de bandidagem. Há tempos jornal de papel serve apenas pra embrulhar peixe. Tenho informação mais rápida e com opinião de verdade na internet, não só aquele bla bla bla politicamente correto dos jornais. O que a Folha não está entendendo é que não se trata de pluralismo. E sim de dar guarida a um senador corrupto. O UOL online está oferecendo um infográfico listando as corrupções de José Sarney. A Folha continua lhe dando sustentação. Não bastassem os escândalos passados, os jornais nos trazem mais uma maracutaia do senador. Ocultou da Justiça Eleitoral – e do Fisco - a propriedade da casa avaliada em R$ 4 milhões onde mora, na Península dos Ministros, área mais nobre do Lago Sul de Brasília. De acordo com documentos de cartório, o parlamentar comprou a casa do banqueiro Joseph Safra em 1997 por meio de um contrato de gaveta. Em nenhuma das duas eleições disputadas por ele depois da compra - 1998 e 2006 - o imóvel foi incluído nas declarações de bens apresentadas à Justiça Eleitoral. O caldo engrossou. Ora, quem cometeu tantos ilícitos, mais outros terá cometido. Novas canalhices surgirão à tona nos próximos dias. Ninguém é mafioso pela metade. Impertérrito, ontem o senador ladrão fazia a louvação de José Aristodemo Pinotti em sua coluna na Folha. “Neruda, quando Silvestre Revueltas morreu, disse num verso forte que sua impressão era que um carvalho tinha tombado no meio do tempo. Essa é a sensação que temos quando perdemos um amigo que não era só uma ligação sentimental, mas um homem que carregava qualidades e virtudes que envolvem nessa perda a sociedade, o patrimônio humano do País”. Conivente com o que de pior a humanidade produziu, o senador ladrão associa a vida de um homem honesto ao stalinista chileno. É possível que os senadores – afogados na lama até pescoço – estendam a mão ao cúmplice que afunda. O que não se entende é como a Folha, jornal que conquistou leitores por sua independência, dê sustentação ao canalha. Ou talvez se entenda. A Folha mantém também Fernando Gabeira, o impoluto, em suas páginas. Que ontem ainda aconselhava o senador ladrão a renunciar e assim fechava seu texto, como se nada tivesse a ver com o assunto: "A denúncia do escândalo das passagens no Congresso representou um grande avanço. Milhões de reais foram economizados quando se adotaram novas regras. É a face material da luta pela transparência: otimizar o dinheiro público. O Senado e a Câmara, num nível menor, revelaram-se para a sociedade como duas instituições perdulárias. O preço é a perda da credibilidade, em seguida, a perda total do respeito. Como é possível aceitar este caminho, fazer da política uma vergonhosa atividade humana?" Como é possível, deputado? Só é possível quando Sua Excelência, parecendo não lembrar que usufruiu da farra das passagens, denuncia seus colegas como se inocente fosse. Sua coluna na Folha, como a do senador ladrão, é a perda da credibilidade, a perda total do respeito do respeito ao leitor. É bom lembrar também que a Folha, durante muito tempo, teve como colunista no caderno “Mais!” o terrorista Antonio Negri, condenado a dez anos de prisão na Itália. Só falta dar espaço a um assassino como Cesare Battisti. Como é possível fazer da política uma vergonhosa atividade humana? É fácil, Gabeira. Basta não destituir de seus mandatos – nem enviar à cadeia – políticos como Sarney, Arthur Vírgilio, Fernando Gabeira, Eduardo Suplicy, Pedro Simon et caterva. Todos beneficiários da corrupção e posando de vestais. Falava da Folha. Que o Senado mantenha um ladrão em sua presidência é inteligível. É preciso prestigiar a categoria. Que a Folha mantenha um ladrão em suas páginas nobres é mais difícil de entender. Otavio Frias Filho vai pagar caro por esta cumplicidade. Está em jogo a reputação de seu jornal.
Sexta-feira, Julho 03, 2009
SE VOCÊ NÃO CHOROU PELOS COMORENSES, É ÓBVIO QUE É RACISTA Você não se comoveu com aquela tragédia no Índico? Com aquele avião iemenita que caiu no mar, matando 152 pessoas? Nem um pouquinho? Então você é racista. Pelo menos é o que se deduz das declarações de Jérémie Gandin, professor da Escola Superior de Jornalismo da França. Segundo o professor, não comover-se pode ser pode ser definido no mínimo como preconceito. "Infelizmente, no imaginário dos franceses, um francês de origem comoriana parece ser menos francês do que um que nasceu em Paris. É triste. Como os passageiros eram todos negros, parece que a França e a mídia francesa se interessam menos por essas vítimas, sendo que, na verdade, eles são igualmente compatriotas". Compatriotas em termos, professor. Em verdade, são imigrantes. Compatriota é uma coisa. Imigrante é outra. Podem até ter passaporte francês. Mas franceses não são. Nós nos comovemos por aqueles que nos são caros. Não nos comovemos com a morte de pessoas que desconhecemos e que não nos dizem nada. É óbvio que um desastre com uma empresa ocidental, transportando ocidentais, comove os ocidentais. As vítimas têm um rosto como o nosso, pertencem a nosso meio, vivem em nossa cultura. Em um vôo Rio-Paris estão pessoas que nos são familiares, quando não nossos familiares. Que familiaridade temos nós, ocidentais, com negros muçulmanos de ilhotas da costa africana? Ao longo da terça-feira, dia do segundo acidente – diz a notícia – os telejornais não gastaram mais do que dez minutos para falar da catástrofe, mesmo que mais do que um terço das 152 vítimas fosse de nacionalidade francesa. Nos sites dos principais jornais, como o Le Monde ou o Libération, o acidente, por poucos instantes, ocupou os espaços de maior destaque, como a manchete. O interesse era nitidamente menor, se comparado ao vôo proveniente do Brasil. É normal, professor. No vôo Rio-Paris poderíamos estar nós ou pessoas que a nós são queridas. Em um vôo para as Comores não voa ninguém que nos diga respeito. No dia anterior ao acidente, despedi-me de uma amiga que voaria para Paris naquela tarde. Pela Air France. Dia seguinte, ao acordar, leio sobre o desaparecimento do avião. Angustiado, telefonei para seu marido. Telefone sempre ocupado. Aconteceu, pensei. Não, não havia acontecido. Ela partira de São Paulo. Quando vi que o avião desaparecido partira do Rio, fui tomado por uma extraordinária sensação de alívio. Alívio mas não muito. E se ela tivesse voado até o Rio para pegar aquele vôo? Só fiquei tranqüilo mesmo quando falei com seu marido. Seu telefone estava sempre ocupado porque muitas outras pessoas também queriam notícias dela. Um acidente de trem em que morram cinco pessoas em Munique ou Paris obviamente nos comove muito mais que outro em que morrem 150 na Índia ou no Paquistão. Será a imprensa brasileira racista porque deu suplementos inteiros à queda do Airbus da Air France e escassas linhas ao desastre do avião da empresa iemenita? Ora, os comorenses mortos na tragédia não nos dizem nada. Quantas pessoas no Ocidente sabem da existência das Comores? Muitos só terão ouvido falar delas agora, com o acidente. Já seria diferente se o vôo se dirigisse às ilhas gregas ou Canárias. Ou mesmo às Seychelles. Para lá vão as pessoas que conhecemos. Reclama o professor que a mídia francesa não falou de outro assunto, a queda do Airbus da Air France, durante diversos dias consecutivos. Que, tal como na imprensa brasileira, na França todas as abordagens relativas ao acidente - investigações, causas, localização de destroços e corpos, famílias de vítimas ou indenizações - recebiam atenção especial. O fato de este novo drama não envolver uma companhia aérea francesa e de o acidente ter ocorrido no último percurso de um trajeto com três escalas influencia a cobertura menos intensa. Resta saber o quanto pesa o fato de os 65 mortos serem humildes, de origem africana, e em sua maioria habitantes da periferia de Paris ou, principalmente, Marselha, que abriga a segunda maior comunidade imigrante e muçulmana do país. Ora, não é o fato de serem pessoas humildes ou negras o que nos deixa indiferentes. É que eles não são “os nossos”. Da mesma forma, o acidente da Air France não terá provocado comoção alguma em Pequim, Karachi ou Riad. As centenas de imigrantes que morrem no Mediterrâneo fugindo da miséria africana me provocam uma vaga e teórica comiseração pela desgraça do Terceiro Mundo. Mas nada que invada minha mente por mais de alguns segundos. Não os conheço. Não sei quem são, nem como vivem, sofrem ou amam. No entanto, lembro muito bem que chorei no dia 28 de janeiro de 1986. Estava em Salamanca quando a Challenger explodiu. Os nomes dos tripulantes nada me diziam. Mas a explosão mexeu fundo comigo. Eram sete bravos que tentavam o que ao macaco não é dado nem sonhar. Era minha raça – a humana – que se esforçava para ir bem mais além do sonho de Ícaro. Mas quem, entre nós, vai se preocupar com a queda de um avião cheio de comorenses? O professor francês que me desculpe. Mas isso de amor universal é projeto utópico de cristãos. E digo utópico, porque cristão algum está preocupado com a morte de pessoas longínquas. Só o que faltava insultar alguém como racista porque não chora com a queda de um avião cheio de imigrantes, muçulmanos e para nós desconhecidos.
SENADOR NEOLUDITA QUER BODE DE VOLTA NA SALA Com 50 assinaturas de senadores, 23 a mais que o necessário, já começou a tramitar no Senado a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que quer trazer o bode de volta para a sala. Ou seja, a que restitui a exigência de diploma superior para a profissão de jornalista. A PEC de jerico foi protocolada ontem pelo líder do PSB, senador Antônio Carlos Valadares (SE). Comunistas adoram reservas de mercado. Segundo o neoludita senador, a formação acadêmica afasta o amadorismo e permite que o jornalista possa dedicar toda sua vida à profissão. "Empresas de fundo de quintal poderiam se proliferar contratando, a preço de banana, qualquer um que se declare jornalista". Difícil saber em que século o senador se situa. Neste nosso é que não é. Hoje, para se constituir um jornal, nem quintal nem mesmo fundo de quintal é necessário. Basta um computador. O universo blogueiro está avançando e ultrapassando os jornais impressos, a tal ponto que até o governo já descobriu a vantagem da agilidade dos blogs. Até um mesmo um tosco como Lula já percebeu isto: "O jornal impresso fica tão velho que todos os jornais criaram blogs para informarem seus leitores junto com os internautas do mundo inteiro". Pretenderá o senador exigir diploma para blogueiros? Por outro lado, blogueiro não cobra nem preço de banana. Boa parte do universo blogueiro vive de qualquer outra coisa que não jornalismo. Para o blogueiro, mais do que meio de ganhar dinheiro, blog é uma forma de expressar-se. Ao século passado o senador também não pertence. Nos séculos passados, desde Hipólito da Costa, Euclides da Cunha e Machado de Assis a Assis Chateaubriand, Roberto Marinho, Nelson Rodrigues, Hélio Fernandes ou Paulo Francis, ninguém teve diploma. Antes da famigerada lei dos Três Patetas, era jornalista qualquer um que se declarasse jornalista. A formação acadêmica, segundo o senador, afasta o amadorismo e permite que o jornalista possa dedicar toda sua vida à profissão. Não é o que o jornalismo contemporâneo demonstra. A palavra, instrumento por excelência do jornalismo, nunca foi tão maltratada como hoje. Por uma razão simples. Antes, os jornais contratavam quem escrevia bem. Dos anos 70 até o fim da lei infame, só podiam contratar quem tivesse diploma de jornalismo. O que não tem necessariamente nada a ver com escrever bem.
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